Outro Tipo De Servo
1 Um final e um começo
Notas iniciais
“Sequestrar a mocinha, mas que clichê.” Reclamava Ludwig enquanto adentrava sua carruagem.
“M-mais sensibilidade, príncipe Lui, estamos falando da minha noiva” suplicou Wilhelm, seguindo seu mestre.
Noiva. Que palavra irritante. Lembrava ao príncipe do inconveniente compromisso que seu servo logo assumiria. Ah, e como aquela idéia o irritava. Não se pode ter sequer um servo exclusivo nos dias de hoje. Agora mesmo eles estavam indo ao encontro do seqüestrador daquela irritante usurpadora. Não que Lui se importasse com o que quer que acontecesse à moça, seria até um favor. No entanto...
Enquanto a carruagem trepidava pela alta velocidade, Ludwig olhava de relance a expressão de sofrimento de Wil. Depois de ver Lisette ser acometida pela peste e morrer praticamente em seus braços, aquele servo nunca mais fora o mesmo. Depois de anos de sofrimento, finalmente encontrara o amor naquela camponesa, e eis o destino aqui, novamente tentando roubar sua felicidade... Lui soltou um longo suspiro.
“O seqüestrador não é muito inteligente, não vejo por que tanto drama” disse, olhando através da janela. Wil, que estivera de cabeça baixa, absorto em pensamentos, voltou sua atenção para o príncipe. “Não podemos esperar muita coisa de um bandido que deixa cair a conta de luz (?!) no local do seqüestro” acrescentou o príncipe, com um tom tedioso, enquanto sacudia no ar o papel com nome e endereço do seqüestrador. Wil soltou uma sombra de sorriso. Sabia que aquele era o jeito “Lui” de dizer que tudo ficaria bem. No entanto, uma sensação ruim continuava a franzir-lhe a testa...
Depois de alguns minutos de viagem, finalmente chegaram ao local: Uma espécie de caverna com porta, adornada com os dizeres “Esconderijo Secreto de F. d T., CAIA FORA!”.
“....... Vamos acabar com isso logo.” Lui levou uma das mãos à testa.
“Devemos invadir pelos fundos e usar o elemento surpresa? Já estamos em vantagem por ele não saber que estamos aqui... Talvez se nós...” Wil bolava mil estratégias de abordagem, determinado a usar o melhor método.
Enquanto isso Lui simplesmente tocou a campainha.
“PRÍNC—“ mas antes que um esbaforido Wil terminasse de ter um surto, a porta abriu-se revelando um estranho homenzinho mascarado.
“Pois, não?” Disse ele num tom cordial.
“Oh, boa tarde. Se não se importa, o senhor está com algo que pertence ao meu servo e eu vim buscar”. Respondeu Lui no mesmo tom, apontando Wilhelm com seu polegar.
“Oh, algo desse rapaz?” Perguntou o homenzinho, analisando a imagem de um Wil completamente paralisado de pânico. “Que tipo de coisa?” perguntou ele, alisando seu cavanhaque.
“Hm...” O príncipe tentou remontar a imagem da moça mentalmente “Tem mais ou menos esse tamanho” descreveu um gesto no ar “e seios deprimentemente pequenos” completou com um suspiro.
“Ah, entendo, entendo. Você se refere a------AH! AHHHH!” como que se lembrasse de algo extremamente importante, o homenzinho arregalou os olhos, enquanto soltava um grito (absurdamente afeminado) e batia a porta bem na cara do príncipe.
“Wah, parece que uma aproximação direta não vai resolver” reclamou Lui, entediado. Wilhelm finalmente descongelara. “Ele trancou por dentro!” disse desesperado enquanto forçava a porta. “Precisamo f---“ e sentiu uma enorme pancada nas costas. Lui havia chutado a porta. Uma atitude realmente prática. Só esquecera-se de avisar ao seu servo para sair do caminho antes.
De qualquer forma, lá estavam eles dentro da caverna, que, por dentro, lembrava algum tipo de laboratório de desenhos animados (?!).
“Você é mais esperto do que eu pensei, Príncipe!” uma voz ressoou pelo cômodo. Lui e Wil escanearam o local com a visão até se depararem com o dono da voz. Sem a porta entre eles, o homenzinho parecia ainda mais estranho: usava uma longa capa vermelha, com a qual agora cobria uma parte do rosto e corpo, numa pose obviamente ensaiada.
“Na verdade, você é que---“ O príncipe começou a apontar a falha crucial (e deveras estúpida) que seu oponente cometera, mas foi interrompido.
“Você é realmente esperto! Eu sequer pedi o resgate ainda... Mas tudo bem, libertá-la nunca foi uma opção!” disse o seqüestrador em um tom teatral, seguido por uma gargalhada ainda mais teatral. Com um gesto rápido, moveu a capa, revelando sua vítima: estava envolvida por um dos braços do homem, seus braços atados nas costas e sua boca amordaçada.
“Lilian!” Exaltou-se Wilhelm ao ver sua amada. Ela respondeu com um grito abafado pela mordaça. Wil teve o impulso de correr até ela, mas retraiu-se ao ver que o homenzinho de máscara portava uma espada, e empunhou-a na direção do pescoço da jovem.
“Mais um passo e você se arrependerá!” seus olhos eram puro ódio.
“POR QUÊ!?” gritou Wilhelm, frustrado pela impossibilidade de salvar sua noiva, mesmo estando ali, bem na frente dela. “O QUE VOCÊ QUER?!”
“Por quê...? Por quê, você pergunta...?” O homenzinho ficou ainda mais irritado. “Eu era um cientista brilhante...”
Ludwig puxou uma cadeira empoeirada e sentou-se. “Eu mereço”.
“Eu era um dos mais brilhantes cientistas que esse mundo teve a honra de conhecer” o homenzinho continuou seu relato num tom quase choroso “e tudo o que eu quis foi ajudar as pessoas ingratas desse reino. Mas o que eu ganhei? Escárnio! Desprezo! Minha carreira foi destruída como se não fosse nada, e é tudo culpa do maldito rei!” seu rosto mudou de cor, estava vermelho a ponto de confundir-se com a capa, tamanha era sua raiva “Por isso, eu matarei sua noiva, ó príncipe maldito, e terei minha vingança!”
“NOIVA?!” Ludwig levantou-se bruscamente “De todas as mulheres do mundo você acha que eu tomaria essa... essa A-Cup como esposa?!”
“Não se aproxime, eu já disse” O homenzinho recuou um passo, apertando mais a espada contra a garganta da jovem, que choramingava. Wilhelm engoliu seco.
“Você... eu me lembro de você. É aquele maluco do nome esquisito que tentou transformar urina em xampu e foi escorraçado do reino quando meu pai tentou testar sua obra” Disse o príncipe, lembrando do acontecimento. O maldito cheiro demorou semanas para sair.
“MINHA OBRA ERA PERFEITA!” o homem retrucou “Aquele rei maldito... Aquele...!”
“Não acredito que vim até aqui para lidar com o maluco da urina” amaldiçoou Lui, olhando para cima com as mãos erguidas, num gesto extremamente frustrado. “Você sequer teve o trabalho de investigar e descobrir que essa aí não é minha noiva, mas que diabos...”
“Como não é sua noiva?” o homenzinho exaltou-se “EU NÃO VOU CAIR NOS SEUS TRUQUES! FULANUM DE TALLES NÃO COMETE ERROS!” gritou ele enquanto recuava mais “EU TEREI A MINHA VINGANÇA, EU FAREI VOCÊ SOFRER!” E então aconteceu. Enquanto recuava mais, o homem tropeçou na capa. Imprevisível. Inevitável. Caiu de costas levando consigo a jovem. E infelizmente a espada.
Um jato de sangue e o uivo de dor de Wilhelm. Tudo aconteceu em instantes. O servo correu, mas só chegou tempo de ver o último suspiro dela. Abraçava o cadáver e chorava em desespero.
A expressão do príncipe endureceu. Caminhou a passos largos até o seqüestrador, que se arrastava pra longe da jovem morta.
“Não se aproxime de mim!” ordenou o homem em vão. Lui já havia apanhado a espada ensangüentada do chão e com um gesto rápido e forte cravou-a no peito do homem de máscara. Amaldiçoou o fato de não poder ter feito isso antes... antes de...
Virou-se para ver o estado de seu servo. Os gritos haviam cessado, ele jazia próximo ao corpo da moça: desmaiara com o choque. Ludwig observou seu servo por um instante. Suspirou, perguntando-se o Wilhelm que ele conhecia ainda estava ali, e o que deveria fazer quando o rapaz despertasse.
A carruagem ainda trepidava, mesmo num passo mais lento que antes. Na parte traseira havia um cadáver. Dentro da cabine, um homem que talvez estivesse morto por dentro. Ludwig novamente olhava pensativo através da janela, quando escutou soluços. Wil havia despertado e agora soluçava e sussurrava algo incompreensível. O príncipe aproximou-se e sacudiu seus ombros.“Wilhelm?”
O servo tinha no rosto uma expressão assustadora: um sorriso deformado, uma histeria sombria. “De novo, de novo, ela, de n-novo”. Lui não sabia como reagir, suas sobrancelhas franziram. Wil continuou sua conversa incompreensível.
“Aconteceu, toda vez, toda vez. Mulheres assim. Só sangue...” ele agarrava seus cabelos, e seu tom aumentou até transformar-se em gritos e gargalhadas histéricas.
“SEMPRE! SEMPRE! ABANDONADO! AMOR... SÓ... APENAS... SERÁ TÃO DIFÍCIL.... ? FELIZ....”
Lui congelou. Talvez aquela fosse a primeira vez na vida que congelara.
“MAS ESTOU LIVRE... SÓ AGORA... LIVRE... NÃO IMPORTA... ”seu tom voltou a sussurros “Só uma coisa... só preciso de uma coisa... enquanto eu tiver... o único amor... feliz... enquanto eu tiver... pra sempre...”
E Lui sentiu algo jogar-se contra seu corpo. Um beijo macio e ao mesmo tempo violento, desesperado. Lui sequer parou para pensar no que acontecia, atingiu-o fortemente com seu punho. Wil perdeu os sentidos outra vez, enquanto Lui arrastava-se de volta para o outro lado da carruagem... “Mas o quê...”
Durante o resto da viagem, observou Wilhelm caído. E milhares de pensamentos agora lhe ocorriam. Lembrou-se do desespero de Wil com Lisette, e agora com Lilian... O príncipe nunca se preocupou com coisas como felicidade ou amor. Mas o que tudo isso havia feito com seu servo era, sim, de seu interesse... Teria perdido a sanidade... Ou algo que já havia nele despertou...? Lui repassou mentalmente o que acontecera naquela carruagem... As palavras de desespero e o significado delas, a sensação quente... Seria aquilo o que traria paz àquele servo infeliz...?
“Felizes... para sempre...?” Disse Lui vagamente. E não conteve o pequeno riso com tamanha estupidez. No entanto... Aquilo era...
Suspirou uma vez, e sorriu observando Wilhelm dormir. Aquele não era mais Wilhelm. Aquele talvez fosse o verdadeiro Wilhelm. Como saber...? Mas o que isso importa? Realmente não importa...
As primeiras ordens do príncipe ao chegar em casa ecoaram pelo grande salão do castelo.
“Preparem um funeral. E um quarto ao lado do meu.”
“Talvez eu não tenha perdido meu servo. Provavelmente só ganhei... outro tipo de servo.” Pensou consigo. “só é uma pena que seja menor que A-cup”.
Notas finais
Eu tive que adaptar meu sonho porque tudo o que eu sonhei foi com Wil vendo sua noiva (que não era Lisette) morrer, ficar louco e gritar "AHAHAHA ESTOU LIVRE!" aí tocava uma música extremamente gay e ele dançava e quase estuprava o Lui ali mesmo. Não, eu não me droguei antes de dormir. E quase tive um treco de rir daquela cena quando acordei. "Isso tem que virar fic, mds". orz
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