Outro Lado
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mais uma noite sem ele. Mais uma noite de pesadelos daquela noite em que sua vida foi ceifada, que o tiraram do mundo, que o tiraram de mim!
"Milorde...- murmurou Snape, na presença de Você-Sabe-Quem.
A Varinha Mestra não pode me ser próspera, Severo, por que eu não sou seu mestre verdadeiro. A varinha pertence ao mago que matou o seu último dono.- disse Voldemort.- Você matou Alvo Dumbledore. Enquanto você viver, Severo, a Varinha Mestra não pode ser realmente minha..."
Todas as noites, as imagens vinham grudar em minha mente. Os remédios têm sido minha única e infeliz saída ao chegar em casa, depois de trabalhar horas como pediatra no hospital central de Dover.
Depois da guerra, não consegui permanecer no mundo Bruxo. Tudo era difícil de encarar sem ele. Severo era meu professor, meu ponto de equilíbrio, meu porto seguro, meu amor...
Minhas noites frias em Hogwarts eram aquecidas pelo sorriso de Severo. Sorriso que hoje tento esquecer para não chorar.
Achei que seria mais uma noite na qual eu ficaria mergulhada na escuridão do meu quarto, no entanto, uma voz doce sussurrou coisas das quais eu não me importei. Ela me acalmava, me trazia paz, e acabei por dormir e sonhar.
Me vi numa sala escura, fria, fétida. Porém, uma luz vinda de outra porta me chamou.
Entrei e o vi ali naquele quarto, me olhando com aqueles olhos escuros como breu, sobrancelha arqueada, cabelos moles e negros, o nariz adunco e o sorriso de lado que somente eu tive o prazer de ver nas muitas noites que tivemos no castelo. Encontros que me faziam feliz.
Corri para ele e o abracei forte. Segurei seu rosto e o fitei por uns instantes antes de beijá-lo, cheia de saudades. Eu chorava e ria. Minhas pernas o envolveram na cintura. Suas mãos me seguravam pelos quadris. O senti nos levando pelo quarto.
– Senti sua falta...- sussurrei quando ele me deitou na cama.
– Hermione...- ele começou com a voz suave.
– Shh. Apenas me beije, Severo. Me ame...- pedi com a mão nos lábios finos que ele tinha.
Snape me encarou com aquele feitiço negro que as orbes tinham. Achei que ele se afastaria, mas não. Ele fez o que pedi.
Suas mãos me acariciavam ternamente. Há muito tempo eu desejava sentir isso, novamente. Sentir seus beijos me marcando como ferro em brasa, seu corpo dominante me guiando ao prazer.
Nosso ato de amor foi perfeito, como todos os que tivemos. Forte, como somente o sentimento que eu ainda nutria por ele.
– Hermione.- chamou-me, enquanto afagava minhas costas.
Nossos corpos estavam unidos e minha cabeça apoiada em seu peito.
– Precisas acordar.- sua voz era doce, semelhante a de um anjo.- Precisas voltar a viver. Seguir tua vida.
– Eu não consigo.- murmurei com um nó na garganta.- Meu coração não aceita sua ausência.
– Não tenha medo, Hermione. Sempre estarei com você.
– Não quero estar nessa escuridão, que é a vida sem você...- meus olhos já não seguravam as lágrimas.
Eu não conseguia seguir em frente. Depois da guerra me afastei de tudo e todos. Desde que eu me mudara para Dover, á três anos atrás, não vi mais Harry, nem Rony, nem ninguém.
– Você sempre foi minha melhor aluna, a mais inteligente de sua época.- gracejou, limpando minhas lágrimas.- Deves saber que, a vida nunca chega ao fim sem ter nos tirado algo.- aconselhou-me, com aquele tom professoral que me encantava.- Me busque aqui sempre que desejar.- informou tocando meu peito.- Mas, precisas voltar a viver. Amar novamente....não conseguirei descansar enquanto não lhe ver feliz. Minha alma se entristece em vê-la desse jeito por minha causa.
Me senti mal por não fazê-lo descansar. Mas era difícil deixar de sentir aquela saudade que eu tinha por Severo. Saudade que dilacerava meu peito.
– Me prometa que vai voltar a amar, Hermione.- pediu segurando meu rosto, para que olhasse em seus olhos. O poder que aquelas orbes tinham sobre mim era inexplicável.
– Prometo.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Acordei com o barulho do despertador anunciando mais um dia de trabalho. Por incrível que pareça, eu me sentia melhor. Como se um peso saísse das minhas costas, do meu peito.
Em três anos, eu me sentia em paz. Senti saudades dos meus amigos, de usar minha varinha. Foi então que decidi que iria para o mundo bruxo. Não, eu não voltaria a morar lá, pois, ainda era cedo para tal passo. Talvez depois de tanto tempo distante, eu não me sinta parte daquele mundo. Eu iria, nem que fosse uma última vez para tomar uma cerveja amanteigada em nome dos velhos tempos.
Ao fim do meu expediente fui até a lateral do hospital e abri minha bolsa. Eu nunca deixara de carregar minha varinha, por mais que eu não a usasse. Porém, aprendi que temos de estar preparados.
– Respire fundo, Hermione. Você já fez isso muitas vezes.- murmurei para mim mesma. Eu iria aparatar em Pinsten, a vila bruxa mais próxima de Dover. Eu estive ali algumas vezes no começo da minha mudança, mas aquela escuridão que se apossou de mim não me fez voltar a vila.
Ao firmar os pés, depois de aparatar, verifiquei se eu estava no lugar certo e se não me faltava nenhuma parte. Satisfeita por ainda aparatar com perfeição, andei até onde me lembrava de existir uma taberna. E ela estava do mesmo jeito.
Por estar vazia, fui atendida rapidamente por uma jovem com uma barriga de oito meses eu diria.
"Mais um futuro bruxo." Eu pensei enquanto desfrutava do sabor da minha cerveja. Eu preferiria ela com gengibre, no entanto, pedi com algumas gotas de limão, como Snape gostava.
Percebi vozes exaltadas, olhei e vi dois homens discutindo com a jovem atendente. Refreei minha curiosidade, tentei ficar de fora, porém, o destino não pensou igual.
Os dois sujeitos sacaram suas varinhas, a moça que também estava com a sua tentou apartar os homens, mas fora empurrada caindo fortemente no chão segurando protetoramente a barriga.
Instintivamente saquei a minha, que estava na manga de meu cardigã. Minhas pernas e língua tomaram vida própria ao andar até os homens e estuporá-los.
– Você está bem?- indaguei tentando ajudá-la. Ela gemeu e gritou me deixando alarmada.- Calma, onde está doendo?- ela não me respondeu, apenas continuou a gemer e gritar. Toquei sua barriga, e a senti rígida. Notei o líquido a sua volta. É, a bolsa estourara.- Meu Deus!- eu nunca havia feito um parto antes. Mas como uma irritante-sabe-tudo, eu já tinha lido sobre os procedimentos e assistido alguns.
Depois de conjurar água quente e panos, abandonei minha varinha ao lado e me coloquei ao trabalho. A moça sangrava e sua dilatação ia aumentando aos poucos.
– Me ajude...- gemia desesperada.- Ajude meu bebê...
– Estou fazendo o que posso.- disse aflita.
Ali só estávamos nós duas e os dois brigões desacordados.
Eu não soube bem quanto tempo se passou comigo incentivando-a à empurrar, e ela gritando palavrões. Já conseguia ver a cabeça pronta para sair.
– Isso! Continue, está saindo.- pedi em meio aos gritos dela.
Assim que a cabeça de fios pretos úmidos saíra, fora fácil retirar o resto do corpo da criança.
– Oh! É um menino!- exclamei, enrolando-o no meu cardigã.
Embrulhei o menino com cuidado para entregar à ela, porém, quando a olhei, ela me apontava sua varinha. Fiquei estática. Ela iria me atacar logo depois de eu ajudá-la? Ou atacaria seu filho? E eu nunca pude estar tão errada.
A jovem estava fraca, perdera sangue e fizera um grande esforço ao murmurar o feitiço do qual eu não liguei, pois, abracei o bebê contra meu peito.
Esperei o feitiço, torcendo que seu alvo fosse eu e não o menino. Mas nada aconteceu, somente ouvi o baque atrás de mim. Olhei e vi um dos sujeitos que estuporei petrificado, numa posição que mostrava-o a ponto de enfeitiçar alguém quando a moça o atingiu. A garota não só salvara seu bebê, mas a mim também.
Seu braço caiu pesado ao lado do corpo, deixando-me apavorada. Ela gastara suas poucas energias petrificando o homem.
– Aguente firme, seu filho precisa de você.- pedi pegando minha varinha e olhando ao redor.- Belo retorno, Hermione.- ironizei chacoalhando o menino que chorava.
– Meu filho...- murmurou quase inaudível.- Meu filho...- coloquei o bebê próximo à ela, para que visse o quanto ele estava bem.- Cuide dele...- sussurrou depois de beijá-lo e seu olhar perder o brilho suspirando seu último pedido.- Prometa...
Eu não sabia o que fazer. Me via em um cenário surreal demais. Eu precisava de ajuda. Segurei firme minha varinha e pronunciei o feitiço que julguei nunca mais ser capaz de realizar.
– Expecto Patronum!- proclamei, enviando meu patrono a Harry. Pouco menos de dois minutos, o "Poc" alto me assustou. Atrás de mim estavam dois pares de olhos que me fitavam espantados.- Como vão, meninos?- sorri fracamente embalando o bebê.
– Onde se meteu, Hermione?! Te procuramos por todo o canto! E o que aconteceu aqui?!- disparou Rony, olhando a bagunça do estabelecimento.
– Uma longa história...- suspirei cansada.- Mas antes, temos de dar um jeito nisso tudo.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Eram quase oito horas da manhã, quando a coruja entregou o envelope. Sorri, sabendo que meu príncipe ficaria feliz ao lê-la.
Fui até seu quarto e abri uma fresta da porta, para ver se já estava acordado. Entrei ao ver que ainda dormia. Sentei-me na beirada de sua cama e tentei acordá-lo.
– Sevie.- chamei, mexendo em seus cabelos curtos e negros.
Com a ajuda de Harry, consegui adotar aquele bebê que eu fiz o parto. Foi um pouco complicado por eu não residir numa vila bruxa, mas consegui. E foi melhor coisa que fiz. Dei-lhe o nome do homem que eu amava. Numa espécie de homenagem, um jeito de tê-lo sempre em minha mente.
Minhas angústias e tristezas foram substituídas pelo amor incondicional que nasceu em mim por aquele menino. Meu filho.
Severo Granger era alegre, inteligente, engraçado, carinhoso...Snape estava certo, como sempre. Eu precisava voltar a viver, voltar a amar novamente... A ser feliz!
– Sevie...- chamei, beijando sua testa.- Acorde, querido.- insisti.
– Ah, mãe!- resmungou.- É sábado! Me dê só mais alguns minutinhos...- murmurou, cobrindo o rosto.
– Certo. Então eu posso devolver essa carta endereçada a você.- brinquei, vendo-o pular na cama.
– Pra mim?!- arregalou os olhos claros.- Me dá.- pediu pulando sobre mim.- Me dá, mamãe!- repetiu. quando me esquivei com a carta dificultando-o de pegar.
– Ok, mas leia em voz alta.- pontuei, me deitando ao seu lado na cama.
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS
"Prezado sr. Granger, temos o prazer de informar que V.Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista dos livros e equipamentos necessários.
O ano letivo começa em 1° de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de julho, no mais tardar confirmando sua matrícula.
Atenciosamente, Filius Flitwick.
Diretor Substituto."
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