Notas iniciais
Olá gente! Desculpe a demora. Meu padrasto faleceu e eu não tinha estrutura para escrever nada, ainda me sinto desorientada, mas escrever é uma paixão é me sinto bem quando escrevo. Entretanto fiquei um pouco receosa de escrever, com medo de influenciar a historia com melancolia. Bem, a historia é melancólica, mas um tipo totalmente diferente de tristeza, e eu não queria que a minha perda e a minha dor entrasse nas paginas dessa historia, e espero que tenha conseguido evitar isso. Então dedico esse capitulo, e porque não essa história, ao meu padrasto. Que escolheu me amar, pois eu sei que nem todos tem a sorte que tive. A morte de alguém amado é uma das experiências mais aterradas e desesperadoras da vida. Se você leitor tem alguém que teme perder, cuide, pois a morte vem, sem aviso, sem hora marcada e a gente nunca sabe quando será o ultimo sorriso, brincadeira ou a ultima frase. Eu sou grata por não ter arrependimentos, eu o amei e tenho certeza que demonstrei o quanto pude. Não tenho um medido de desculpa estalado que NUNCA poderei pronunciar e mais uma vez sei que tenho sorte por isso, a dor da perda já é insuportável sem ter remorso somada a ela. Desculpe pelo texto enorme!!! Era exatamente esse tipo de melancolia que temi deixar nas paginas desse capitulo! Antes de seguir tenho apenas um recadinho — NADA dessa historia tem a ver com minha vida pessoal, nenhum aspecto dela, cada virgula é puramente ficcional. Sem mais delongas, boa leitura!

— Phill, por favor, está me machucando — disse sentido o aperto de ferro em meu pulso.

— Devia ter me escutado — rosnou apertando ainda mais seus dedos em volto do meu braço — Mas não, você gosta de ser uma vadiazinha. Pois agora vai aprender!

Ele seguiu me arrastando pela calçada, sabia que nossos vizinhos estavam olhando e me sentia ainda mais envergonhada.

— O que esta acontecendo? — perguntou minha mãe assim que passamos pela porta da casa — Solte ela, Phill!

Ele me soltou, mas sabia que não era por causa da minha mãe, ele apenas me tinha onde queria que eu estivesse.

— O que aconteceu é que você criou uma vadiazinha! — esbravejou ele — Eu te disse. Avisei que dava muita liberdade, mas eu vou cuidar disso, já que você nem para isso serviu. — disse ele tirando o cinto da calça. Olhei para minha mãe com os olhos arregalados em puro terror.

— Mãe, eu não... — comecei, mas fui silenciada por um tapa na cara que me deixou desorientada por alguns segundos.

— Cale a boca! Não comece com suas historias — gritou me agarrando pelo cabelo e me arrastando pela casa em direção ao meu quarto.

— Mãe! — gritei em pânico — Mãe eu não fiz nada! Mãe, por favor!

— Phill, por favor... Ela disse que não fez nada — minha mãe veio atrás implorando — Eu vou conversar com ela, seja lá o que for que ela fez não fazer de novo — prometeu.

— Agora é tarde Renne! Todo mundo sabe a puta que eu tenho em casa. No trabalho só escuto isso — disse me jogando no chão do quarto e dobrando o cinto ao meio — Vamos ver se agora ela vai ter coragem de colocar a carinha de puta na rua.

— Phill, o que andam falando no trabalho? Phill... Por favor, não faça isso! — implorou minha mãe parada na porta, eu podia ver o terror nos seus olhos, mas também sabia que ela não faria nada para detê-lo.

— Não se intrometa Renne, ou você será a próxima! — prometeu ele — Agora vadiazinha, vamos te ensinar uma lição que devia ter aprendido há muito tempo.

O primeiro golpe foi o que mais doeu. Eu não sabia o que esperar. Nunca havia apanhado. Além da dor havia algo mais, uma revolta borbulhando no fundo do meu ser, um tipo totalmente diferente de humilhação, eu senti mais o ato em si do que a dor que ele acarretava. Sabia que Phill era violento quando queria, mas ele nunca apelou para a agressão física. Eu deva ter imaginado que era só uma questão de tempo.

A cada golpe ele enumerava os motivos por eu estar apanhando.

— Meus colegas de trabalhando adoram falar sobre a bonequinha que eu tenho em casa

Mais um golpe.

— Se eu já havia experimentado.

Outro golpe.

— Muito bonito a vestido dela na festa da empresa, vontade se saber o que tem por baixo.

Outro golpe.

— Ela é tão gostosinha quanto parece?

E outro.

— Você não quer dar o numero dela pra mim?

E outro.

Eu sabia que ele continuava falando, mas não conseguia distinguir palavra alguma. Sabia que minha mãe também falava algo. Mas no meu mundo só havia dor.

Ouvia outra voz também, mais alta, os gritos sufocados pelas lagrimas. Só mais tarde naquele dia descobri que a voz e os gritos eram meus.

Não percebi a hora que ele parou, nem a hora que ele saiu do quarto. Nem sei quanto tempo fiquei deitada naquele chão frio. Minha mente só conseguia assimilar a dor que varia meu corpo em espasmos delirantes. Não só a dor física, mas a dor mental também.

EU NÃO FIZ NADA, EU NÃO FIZ NADA, EU NÃO FIZ NADA.

Era a única frase que eu consegui conjurar, saindo do mais intimo do meu ser.

Eu tinha consciência que a cama estava a apenas alguns passos de mim, mas não me atrevia a levantar, até respirar doía. E não faria diferença alguma ficar no chão duro ou na minha cama.

Podia ter se passado dias ou ate mesmo minutos até que porta fora aberta de novo. Não me importei, quase implorei que me matasse de uma vez.

— Ah Bella... Ah filha, eu te disse para se comportar — senti as mãos dela no meu cabelo e quis gritar, berrar que eu não havia feito nada.

— Vem, levanta — disse me ajudando a ficar em pé e caminhar ate minha cama. Me deixei ser levada, estava cansada demais para fazer qualquer objeção — O Phill saiu, vai ficar longe por uma semana a trabalho — continuou ela evitando olhar para o meu rosto — Você pode ficar por esses dias para... Se recuperar — suspirou — Depois acho que seria melhor você seguir seu caminho.

Fiquei encarando-a por um tempo, incerta se processei tudo corretamente.

— Você... Você está me mandando embora de casa, mãe? — me obriguei a dizer.

— Bella — começou ela desconfortável — Em breve você faz 19 anos, de qualquer forma esta na hora de seguir sua vida.

— Eu não fiz nada, mãe. Nada que possa envergonhar a senhora — prometi sentindo as lágrimas rolarem, numa dor que nada tinha a ver com a dor física que sentia.

Ela era minha mãe. Não tinha que me amar e proteger acima de tudo? Até os animais não protegiam seus filhotes? Eu era tão pouco assim?

— Isso não importa — essas simples palavras acabaram com o pouco que sanidade que ainda restava no meu corpo. Não importava. Não importava que eu tivesse sido arrasta pela rua. Não importava que eu tivesse apanhado por coisas que não eram minha culpa. Não importava que eu tivesse desistido dos meus sonhos pra poder trabalhar e não arrumar mais briga dentro de casa. Não importava que eu fosse sua filha. Não importava... — Eu vou te dar um pouco de dinheiro, você pode tentar encontrar seu pai e...

— Você disse que meu pai estava morto — interrompi incrédula.

— Bem... Você ficava perguntando dele o tempo todo e isso incomodava — disse simplesmente, como se não fosse nada, e continuou — Não sei onde ele mora, faz tempo que não tenho noticias dele, pode tentar procurá-lo na cidade que ele morava ou ainda mora, não sei, mas talvez alguém possa ter alguma informação.

Eu não disse nada. O que eu poderia dizer? Estava em choque.

Ela deixou o quarto sem olhar para meu rosto outra vez. Ate aquele momento eu nunca odiara minha mãe. Ela não era a melhor mãe do mundo, ela nem mesmo era uma boa mãe, mas ela era minha e eu a amava. Mas agora... Não posso dizer que a odeio, mas algo muito importante em nossa relação já toda estraçalhada se rompeu e se eu não a odeio, acho que ao menos eu não a amo mais.

*

A garota estava muito quieta, mas todo seu corpo estava tenso e virado em minha direção, as costas quase coladas na porta. Levei apenas alguns segundos para entender, ela estava pronta para lutar. E quem podia culpá-la? Pela situação de seu corpo era mais que justo e natural não querer proximidade com nenhum outro ser humano.

Franzi o cenho chocado, eu era o inimigo agora.

— Você... — comecei e parei. Era ridículo perguntar se ela estava bem, era obvio que não estava.

— Estou bem — disse em uma voz fraca, mas clara — Você pode me deixar mais ali na frente.

Olhei para ela incrédulo. Ela achava realmente que iria pegá-la em uma esquina e descartá-la na próxima?

— Não seja ridícula — rosnei e ela se encolheu — Desculpe! — disse passando as mãos no cabelo, nervoso — Eu não vou te machucar, já disse — prometi de novo — Só me dê um segundo — pedi retirando o celular do bolso ligando para a única pessoa que poderia me ajudar.

— Sentiu minha falta foi? — brincou assim que atendeu.

— Alice — disse num fôlego só, sem saber como começar.

— O que aconteceu, Edward? — perguntou já sem nenhum traço de humor na voz.

— Eu... Preciso de ajuda.

— Veja mais especifico... — uma pausa — Você está bem?

Suspirei — Eu estou bem, não se preocupe — a tranquilizei antes que começasse a fazer todos os tipos de suposições — Mas existe uma garota — olhei de esquerda para a menina encolhida e maltratada no meu carro — Que está muito machucada. Temo que algumas lesões sejam mais graves — continuei franzindo cenho.

— Está esta inconsciente? — perguntou adotando sua postura médica.

— Não não, ela esta acordada.

— Oras Edward! Por que não a trouxe ao hospital? — disse e parou de súbito, ouvi ela prendendo o ar e voltando num sobressalto — Edward... Não foi você que machucou a garota não é? — perguntou hesitante.

— Não seja ridícula, Alice! — disse exasperado e incrédulo.

— Okay okay, desculpe!! Claro que na foi você! Mas como hesitou em trazê-la ao hospital rapidamente pensei que... Bem, depois você me explica — seu tom era de ameaça — Agora traga a garota logo, eu estou de plantão.

— Obrigada! Chego em breve! — Suspirei aliviado e irritado comigo mesmo. Era obvio que tinha que levá-la ao hospital. Me sentia um idiota por não ter pensado nisso imediatamente.

— Vamos cuidar de você — disse à garota enquanto ligava o carro e acelerava.

Ela me encarou por alguns segundos e desviou o olhar para janela com um suspiro que fora acompanhado de uma careta. Obviamente estava sentindo muita dor.

Inconscientemente acelerei o carro.

O caminho ate o hospital fora rápido, não estava muito longe. Durante o trajeto eu lançada olhares de esquerda para ela. A posição do corpo havia mudado, as costas encostadas normalmente contra o banco, os ombros não estavam mais encolhidos, mas ainda estavam tensos, em alerta.

Ela não desviou o olhar da janela em nenhum momento, não conseguia observar muito da sua expressão, mas tinha certeza que seja lá o que seus olhos estavam vendo não eram as ruas iluminadas que passavam por nós como um borrão.

Por fim ela suspirou e se voltou pra me encarar — Onde estávamos indo? — perguntou. A voz apenas um pouco mais alta que sussurro.

— Ao hospital — disse tentando soar o mais gentil possível.

Ela apenas assentir e voltou a encarar a noite.

— Chegamos — informei estacionando.

Desliguei o carro e retirei o sinto. Ela não fez nenhum movimento que indicasse que queria ou ia sair do carro. Depois de alguns segundos achei melhor intervir.

Desci do carro e dei a volta parando ao lado do carona e abrindo sua porta — Vamos, minha imã está esperando.

Ela levantou o olhar confuso para mim.

— Ela é médica — expliquei — Está de plantão — continuei estendendo a amo para ela ajudando-a a sair do carro. Após fechar a porta do carro e ligar o alarme passei um braço por sua cintura como fizera antes e atravessamos o caminho ate a entrada do hospital. Assim que entramos caminhamos até umas cadeiras encostadas na parede leste e a ajudei a se sentar.

— Espero um segundo aqui — pedi e caminhei ate a recepção

— Boa noite — disse — Estou procurando a doutora Alice Hale — informei.

— Boa noite. Claro, só um segundo — disse pegando o telefone — Quem é o senhor mesmo — perguntou digitando.

— Sou irmão dela.

— O senhor Cullen acabou de chegar — disse ao telefone e desligou — Esta estava a sua espera — sorriu explicando — Esta já estava a caminho — informou.

— Certo, obrigada — Agradeci e caminhei de volta à garota. Mal havia me sentado ao seu lado quando minha irmã apareceu o corredor procurado ao redor com o olhar. Assim que nos viu franziu o cenho que caminhou na corra direção.

— Alice — cumprimentei me levantando.

— Edward — disse e baixou seu olhar para a garota que parecia pequena demais.

— Hum... Essa é... — comecei e parei franzindo a sobrancelha. Eu nem ao menos sabia o nome da garota.

— Bella — disse ela a meia voz se levantando lentamente e olhando para minha irmã timidamente.

Observei Alice analisar cada ferimento da garota com um olhar preocupado e clinico, Seu cenho se franzindo cada vez mais.

— Certo, Bella... — por fim Alice repediu assentindo — Vamos lá cuidar de você Bella – disse com um pequeno sorriso.

A garota... Bella, assentiu, mas levantou seu olhar ansioso para mim.

— Estarei bem aqui — me vi prometendo.

Ela assentiu mais uma vez na noite caminhou lentamente ao lado de minha irmã que mantinha uma mão protetora em suas costas. Suspirei e voltei a me sentar.

Esperava que a garota... Bella... Tinha que lembrar que a garota agora tinha um nome. Era estranho pensar nela por um nome, isso fazia dela mais real que nunca. Quando estava determinado a descobrir seu nome e por fim a minha loucura não havia imaginado que um nome seria mais difícil de ignorar que um simples substantivo. Um tolo pretensioso... Era isso que eu era.

Suspirei cansado, os minutos passavam como se fossem horas. Só esperava que não tivesse nenhum ferimento grave, quanto aos hematomas e escoriações, sabia que nada podia ser feito sobre, mas com o tempo iam sumir.

Depois do que pareceu uma eternidade minha irmã despontou novamente no corredor. Lembrei ansioso.

— E então? Como ela está? — perguntei quando se aproximou o suficiente.

— Três costelas quebradas, uma torção no pulso, um ferimento na perna que precisou de pontos, e hematomas cobrindo grande parte do seu corpo — disse abatida. Sua descrição não ajudou em nada meu estado de espírito — Tirando isso ela relativamente bem — suspirou — Quem é ela, Edward? — perguntou por fim.

— Eu não sei — respondi a verdade, nem mesmo sabia seu nome ate essa noite.

— Explique melhor — disse soando impaciente e ate mesmo um tanto irritada.

Suspirei — Eu realmente não sei quem é ela. Eu... — não sabia como explicar minha obsessão pela garota. Também devesse aproveitar onde me encontrava e fazer uma visita a ala psiquiátrica — Eu a vi algumas vezes... Na rua... Eu... Não sei explicar, apenas sentia essa necessidade inexplicável de ajudá-la — comecei — Pretendia dar algum dinheiro para ela essa noite e... Acabar com isso logo — me sentia estranho de confessar isso, mas era Alice ali e ela iria tirar tudo de mim de um jeito ou de outro — Mas encontrei ela desse jeito e... — passei as mãos o cabelo nervoso.

Esperei que ela dissesse algo ou me encaminhasse a ala psiquiátrica, mas ela apenas ficou me encarando com sua expressão ilegível tão característica — Entendo — disse por fim — Ela parece um boa garota, é adorável.

— Ela te contou alguma coisa? — perguntei ansioso. Agora que descobrira seu nome uma porta de possibilidades de saber mais parecia ter se aberto.

— Não muito — Alice suspirou — Ela tem 20 anos, terminou o colégio, não quis me dizer nada sobre a família.

20 anos... Fiquei surpreso, ela parecia muito mais nova.

— Ela te disso o que aconteceu? — Perguntei.

— Não, na verdade esperava que você pudesse me contar isso. — suspirou de novo.

— Eu a encontrei naquele estado, ela não me disse nada. E de qualquer forma não perguntei... Estava muito nervoso e fiquei com medo de assustá-la

— Bem... — Alice suspirou de novo antes de continuar — Ela obviamente fora espancada — ouvir aquilo em voz alta soava ainda mais horrível — Mas quando eu perguntei o que de fato aconteceu ela apenas deu de ombro e disse que a vida tinha acontecido, e quando sugeri fazer uma ocorrência na delegacia ela...

— O que? — perguntei, pois ela se interrompeu.

— Bem... — Franziu o cenho — Ela me lançou um olhar complacente... Indulgente ate... Como se soubesse de algo que eu não sei e disse que isso não faria diferença... De qualquer forma, se ela não quer prestar deixas não podemos obrigá-la.

— Entendo — não entendia nada, quem fez aquilo devia pagar pelo que fez e ele estaria bastante satisfeito de ele mesmo cobrar o preço — Onde ela está?

— Tomando soro. Esta muito desnutrida e remédios intravenosos agem mais rápidos — respondeu com seu tom profissional antes de encará-lo com uma expressão mais seria — O que você vai fazer Edward? — a pergunta de mil dólares — Apesar de serem muitos, os ferimentos dela não são graves e assim que terminar o soro ela vai receber alta.

Não havia pensado nisso até aquele momento. Não podia deixá-la na rua naquele estado, mas o que faria? — Não sei — confessou por fim se sentindo derrotado.

Alice encarou o irmão confusa. Nunca o vira assim antes, parecendo tão vulnerável, e soube, de alguma forma, que algo muito importante estava acontecendo ali — Seja o que decidir estou aqui — prometeu por fim — Preciso voltar para os meus pacientes, em breve ela terá alta.

— Obrigada Alice — disse sem encontrar outras palavras para expressar meu agradecimento.

Ela apenas sorriu e se despediu me deixando a sós novamente.

Me sentei novamente e me peguei pensando como demônios minha vida tinha passado de calma e confortável para essa loucura total e inexplicável E me perguntei o que diabos faria com a maldita garota.

— Edward? Edward! — escutei uma voz me chamando ao longe e abri os olhos incomodado com as luzes. Levei apenas um segundo para me situar e levantei rapidamente.

— Bella já recebeu alta — me informou Alice, e só então reparei na garota parada ao seu lado. O braço estava enfaixado na altura do pulso, os hematomas no rosto ainda eram os mesmos, mas alguma coisa fora passado ali. As costas das mãos ainda estavam vermelhas, mas os arranhões e escoriações haviam sido limpos. Ela apoiava o peso do corpo mais em uma perna do que em outra, devido ao ferimento na perna imagino. Ela ainda estava toda arrebentada, mas de alguma forma estava com uma aparência melhor. Talvez se devesse aos seus olhos, estavam mais límpidos, sem aquela expressão vazia e aterradora.

— Aqui esta seus remédios, alguns precisaram ser comprados. Ela já foi medicada, mas caso sinta do dor ou desconforto pode tomar algo mais fraco — disse Alice me entregando os remédios e receitas médicas.

— Certo. Obrigada Alice — disse sinceramente agradecido.

— Não por isso — Disse e se virou para... Bella — Tenho que ir, se cuide Bella — sorriu.

— Obrigada — Disse a garota e fiquei feliz que sua voz soasse normal.

Alice se despediu e se foi nos deixando a sós.

Bella me encarou timidamente, seus olhos ainda estavam um pouco avermelhados, mas finalmente pude identificar a cor de seus olhos, bem não exatamente, eram uma mistura inacreditável de castanho destoando para o mel e quase verde em algumas partes. Eram únicos.

— Vamos? — Ofereci.

Ela assentiu e caminhamos para fora do hospital, Assim que saímos para a madrugada gélida ela parou de andar e olhou ao redor hesitante.

— Algum problema? — Chamei de volta sua atenção.

— Só estou tentando me situar — disse sem me olhar — Não sei exatamente como voltar... Ao norte e então... A umas três duas ao leste... — sua voz soava longe e ela obviamente não estava falando mais comigo.

Suspirei cansado e peguei sua mão, a boa, e me virei em direção ao carro estacionado a poucos metros dali.

— O que...? — Perguntou ela confusa me seguindo. Não que houvesse outra opção, minha mão na sua era firme. Paramos em frente ao carro e soltei sua mão.

Ela olhos mais uma vez ao redor parecendo incerta.

— Entre no carro Bella — eu disse por fim. Ela pulou ao som do seu nome e me encarou com olhos arregalados. Fora estranho a eu dizer seu nome também, ainda mais em voz alta. Eu a sorri encorajando-a.

Ela novamente olhou ao redor, e antes de se virar para mim e assentir suspirou resignada. Entramos no carro e antes de dar partida liguei o aquecedor. Reparei Bella puxar seu cinto de segurança e lançar um olhar para baixo, passou as mãos em volta das costelas e pareceu ponderar antes de voltar o cinto para seu lugar.

Mas tinha se passado dois minutos que havia dado partida no carro quando a garota se virou para mim em seu assento — Poderia me deixar na mesma rua? Ou numa rua próxima se na for muito incomodo.

— O que? — Perguntei sem entender.

— Ou pode me deixar aqui mesmo — se apresou a dizer em tom de desculpa.

— Acho que não entendi...

Ela suspirou cansada e hesitante — Aonde exatamente você estamos indo?

— Ah, até a farmácia — disse distraído.

Iríamos ate a farmácia comprar seus remédios e depois que Deus me ajudasse. Enquanto aguardava ponderei muito sobre o que fazer, poderia deixá-la em um hotel, mas a essa altura eu já sabia que apenas ficaria preocupado pensando nela sozinha, e depois se muito pensar quase chegando a exaustão cheguei a conclusão que faria a única coisa que estava resoluto em não fazer. A levaria para minha casa. E se isso era a coisa certa ou errada a se fazer ao inferno com o certo e errado. Já estava enlouquecido mesmo, ceder à loucura não parecia nada.

Estacionei em frente à primeira farmácia que encontrei no caminho. — Espere um minuto, já volto — disse saindo do carro.

Comprei seus remédios e mais algumas coisas de uso pessoal que talvez ela precisasse. Coloquei tudo no banco de trás ates de entrar no carro. Ela me encarou e desviou o olhar, percebi que queria dizer algo. Achei melhor esperar o seu tempo, e não demorou muito quando por fim voltou a me olhar.

— Você sabe... — começou com a voz falhando. Limpou a garganta audivelmente e continuou — Você sabe que não terei como pagar por nada disso, não é? — perguntou.

— Eu sei — e eu sabia mesmo. Em nenhum momento isso me passou pela cabeça. Me senti um tanto ofendido, o que ela deve ter percebido pois logo seus olhos se tornaram mais ternos.

— Não me entenda mal — se desculpou — Mas as pessoas... Muitas pessoas, ajudam sempre esperando algo em troca — se explicou — Eu não posso retribuir com nada além de gratidão.

— Eu sei. Isso é o suficiente — sorri sem poder evitar.

E então ela me deu um pequeno sorriso. E eu soube que sim, isso era o suficiente.

Notas finais
Dedicado a Antônio Marcos, que iluminou a terra e agora bilha eternamente no céu.