Outra maneira?

8 Nocturne in C-sharp minor, Op. posth.


Notas iniciais
gente, eu tenho uma playlist no spotify com essas musicas do inicio dos caps q na vvdd é a playlist do sergio ne pq ele ama sas coisa se quiserem, eu passo o link p vcs dps é isso, obg ♥

300 dias desde o assalto.

A mãe de Raquel piorou. Já não reconhecia Paula e era agressiva ao falar com a ex-inspetora. Sem muita saída, a irmã de Raquel passou a cuidar dela na casa. Assim, viviam as quatro mulheres da família Murillo dentro de uma casa sustentada de dor e ressentimento, muito embora as duas irmãs soubessem que era só questão de tempo até que fossem só três.

"Me chamo Maribi, tenho duas filhas"

Raquel já não trabalhava. Vivia em função da filha, sem grandes luxos. A pensão que recebia era boa, mas tudo era exclusivamente direcionado à vida confortável de Paula.

Raquel e Laura quase não se falavam. Era doído demais sentir que já não poderia conversar com a pessoa com quem dividira o quarto até o fim da adolescência, mas Raquel conseguia até que administrar essa dor.

Respirava fundo sempre. E contava até 10. 20. 50.

A sorte era que Laura se mantinha quieta na maioria das vezes.

Mas não nesta noite.

Já era tarde e Raquel estava em seu quarto, a mãe e a filha dormindo. Laura bateu em sua porta.

— Posso entrar?

A ex-inspetora assistia um filme na TV. Desligou-a.

— Sim, entra.

A irmã mais nova se aproximou, sentando-se na cama ao lado da outra.

— Raquel, eu…

— Eu já sei o que você vai falar. E acho que deixamos isso claro quando você veio morar aqui.

— Mas, Raquel, nós nunca usamos palavras.

— Mas é porque não preciso de palavras pra isso — Raquel franziu a testa — Eu sei que você sente muito. Só que as coisas estão assim agora.

— Eu nunca te pedi desculpas... E eu queria muito que tudo isso fosse apagado e que a gente pudesse conversar uma com a outra sem falar por metáforas, porra. Eu quero conversar de verdade com você.

— Isso não vai ser possível… — ela balançou a cabeça — Não quero falar disso, não quero falar com você sobre isso...

— Raquel, uma hora vamos ter que conversar. Mas você só conversa com o Ángel, e mais ninguém.

A ex-inspetora levantou os olhos e piscou repetidas vezes, mas não conseguiu segurar. Chorou. A irmã, sem entender, olhou-a confusa e segurou sua mão.

— O que te acontece?

As lágrimas corriam pelo rosto, quentes, e Raquel foi possuída de uma raiva incontrolável.

— Acontece que eu não consigo entender mais nada. OK? Nossa mãe doente, meu ex-marido preso, e eu não consigo fazer nada direito. Até quando parece que está tudo bem, não está. Nada está bem. Eu não suporto a sua presença aqui. Eu não consigo sentir mais nada de bom. É só essa angústia e essa irritação. E você vem me perguntar se está tudo bem.

A irmã não sabia o que dizer, nem fazer. Respirou fundo, encarando-a.

— Raquel… É verdade que se apaixonou pelo líder daqueles assaltantes?

— O quê? — perguntou, indignada — O que isso tem a ver…?

— Tudo. Você desistiu da polícia, quase perdeu Paula, quase foi presa… Deve ter acontecido algo muito sério, porque…

— Aconteceu. E se você tivesse ficado do meu lado, saberia.

Raquel levantou-se e foi embora do próprio quarto. Laura foi logo depois.

Nada estava tão mal que não poderia piorar.

Maribi teve um surto.

...

320 dias desde o assalto.

Raquel cuidou da mãe no hospital, mas era impossível levá-la para casa. Ela já não reconhecia ninguém, e ficava como num estado vegetativo, sem falar ou gesticular. Raquel e a irmã dividiam as despesas da casa de repouso, e a ex-inspetora estava destroçada.

Ángel já tinha tentado fazer algo que a pudesse animar, mas as palavras não ajudavam quando toda a situação era desconfortável. A propósito, o inspetor voltara à casa de sua mulher. Raquel sentia-se como culpada, e por isso andavam afastados. Seria o melhor a fazer.

Agora, Raquel, Laura e Paula vivam juntas, quase que em silêncio absoluto se não fosse pela criança, fazendo visitas à mulher que não lembrava de nenhuma delas.

Raquel parecia ter voltado ao fundo do poço, mas parecia determinada a enfrentar a situação, já que não escondia mais o que queria dizer, nem o que sentia. Não amava Ángel, não suportava a presença da irmã e vivia exclusivamente para a filha. E não se envergonhava de nada.

Se envergonhava apenas de ter se apaixonado por alguém que não poderia levá-la consigo daquela situação desconfortável em que se encontrava.

345 dias desde o assalto.

O Professor tinha combinado de receber Denver e Mónica em sua casa. Ainda não tinham uma data definida, visto que o bebê ainda era muito pequeno. Aos poucos, Sergio recuperara o gosto pela vida, enfiado em seus livros e filmes, suas músicas arrastadas pelas tardes e, finalmente, sentia-se contente por tudo. Conversava com seus "alunos" de tempos em tempos, e sentir falta da presença de alguns deles era quase como gostoso. Uma saudade que, sabia, seria amenizada quando se vissem. Planejava um encontro em breve. Por isso, talvez, se doesse tanto por Andrés. Era uma saudade que jamais seria amenizada.

Raquel não parecia mais ser uma questão a ser resolvida. Mas, ao se lembrar dela, abria um sorriso triste e sabia que o melhor jeito de esquecer o que sentia era não ligar para Lyudmilla e perguntar se tudo ia bem. Precisava não imaginá-la.

E, por agora, sentia-se tranquilo.

Sentia saudade de Nairóbi. E de Helsinki. E de Tokyo. E de toda a situação que foram aqueles cinco meses juntos, quase uma família. E quase quis que tudo voltasse ao começo, em que Raquel era só uma foto três por quarto em sua lousa de planos.

Notas finais
comentem plsss