Outra Vez
1 Outra Vez
A espera era angustiante. Passara tempo demais esperando, sofri tempo demais o querendo, e ele sabia disso. Às vezes achava que ele fazia isso como pirraça; ah, ele sabia como me tirar do sério.
Tomei outro gole da Pepsi que pedira alguns minutos antes. O café estava cheio: barulho de conversas e risadas altas demais de pessoas que haviam passado da conta na bebida enchiam o lugar e escapavam para a rua toda vez que a porta era aberta. Assim como meu pescoço, que em breve me daria um torcicolo tantas as vezes que virei meu rosto ao ouvir o sino da porta tocar, imaginando — ou melhor, desejando que fosse Matheus.
Matheus... Nome doce, me trazia tantas lembranças... Meu pequeno corvo. Sorri ao lembrar do apelido que o dera meses antes, quando ainda éramos somente amigos, antes de... tudo acontecer.
Foi numa sexta, depois do colégio. Chovia torrencialmente e naquele dia teríamos de ir de ônibus para casa. O pai de Matheus não poderia ir buscá-lo — e consequentemente eu ficara sem minha carona diária — o que nos obrigou a esperar no colégio, vendo todos os nossos colegas irem aconchegados no banco de trás dos carros de seus pais, tios, parentes...
- A chuva não vai parar? Já tomei banho hoje, além do mais, mesmo se não o tivesse feito não gosto de nada forçado. — Disse, meia hora de espera depois, entediado e jogando pedrinhas nas poças que se formavam fora da cobertura da entrada. Estávamos sentados logo na entrada, cada um de um lado do corredor; o porteiro alguns metros a frente, assistindo seu jornal na guarita. Quase todos os alunos do colégio já havia ido embora, e os que restavam estavam esperando a chuva passar dentro do confortodas dependências do lugar.
Matheus sorriu. Adorava aquele sorriso desde a primeira vez que o vira (e isso era algo a se considerar levando em conta que eu raramente me sinto atraído por alguém, muito meno por um sorriso), e desde então movia céus e terras para vê-lo de novo.
- O que foi? — Perguntei curioso.
- Você, que consegue fazer graça mesmo num funeral.
Sorri com o canto dos lábios.
- Sabe, falando em funeral, eu já te contei que tive uma crise de risos no da minha tia?
- Por Deus, não! — Disse ele surpreso.
- Pois, fui assinar um papel (nem sei que papel era mas gosto da minha assinatura) e quando fui colocar a caneta de volta no porta-sei-lá-o-quê ela passou direto e saiu rolando, batendo no suporte do caixão pouco depois.
Matheus não se conteve e riu. Ri com ele, olhando cada traço de seu rosto redondinho e fofo. Olhando pra cada mecha do seu cabelo negro como um corvo — o que me fez dar o apelido a ele — contrastando com sua pele branquinha. Eu estava apaixonado por ele, e, incrivelmente, desde o primeiro momento que o vira.
- Lucas, juro que algum dia ainda escrevo um livro seu.
- Contando que me dê os devidos créditos e sessenta e nove por cento da arrecadação total, por mim.
Me levantei e atravessei os poucos metros que me separavam dele, sentando-me ao seu lado (um pouco mais perto do que amigos normais sentariam) e encostei minha cabeça na parede. Meu pequeno corvo (como o chamava em pensamento) virou seu rosto e me observou. Não o via me observar mas sabia que ele o estava fazendo.
- Você não tem vontade — Ele disse, após algum tempo de silêncio — de ser amado de verdade por alguém?
- Como assim? — Perguntei, curioso pela mudança um pouco abrupta no assunto.
- Tipo, você não tem vontade de ser amado reciprocamente? Gostar de alguém que também goste de você, não só esses namoricos ou paixões platônicas?
Não respondi de imediato. Fiquei observando-o, pensando em como responderia. Se eu tinha vontade? Claro que sim, estava olhando pra pessoa que eu mais amava no mundo e era óbvio que eu queria algo mais entre a gente. Algo muito maior do que uma grande e bela amizade. Suspirei, olhando em seus olhos e respondi:
- Todos os dias.
- E se — ele continuou, ainda me olhando nos olhos com aqueles olhos negros hipnotizantes — você desconfiasse que a pessoa que você gosta também gosta de você? Você faria alguma tentativa para descobrir se isso é verdade?
Meu coração acelerou. Tentativas, inúmeras tentativas vinham a minha cabeça mas não poderia expô-las. Não pra ele.
- Depende do que você considera como uma tentativa.
- Um beijo. Você tentaria, mesmo que pudesse acabar com uma amizade? — Ele estava mais sério, e percebi que batia o dedo indicador no polegar direito, como um sinal de "o.k." mas que quando feito por ele significava nervosismo.
- Não sei, acho que sim, somente se eu não pudesse mais aguentar a situação. — Respondi engolindo em seco.
Porque eu estava tão nervoso? Eram só perguntas, bobas talvez, porque me deixavam tão... exposto?
Porquê elas poderiam facilmente ser aplicadas à mim.
Não pensei, e, no momento seguinte, apenas cortei a distância entre mim e ele, encostando minha cabeça a sua, misturando nossas respirações, querendo acabar com tudo que impedisse o caminho entre os meus lábios e os dele. Ele não se afastou.
O beijo... ah, o beijo, fora o melhor da minha vida e o início de muitos. Minha mão no seu rosto, sua mão no meu peito, a distância entre nós extinta após poucos segundos. A necessidade de conhecer o outro, a boca do outro num beijo que só poderia ser definido como apaixonado.
Quando finalmente voltei à Terra — mais precisamente o momento em que nossos lábios se separaram — percebi que estava de olhos fechados. Abrindo, olhei para ele, meu corvo. Ele sorria.
- Sabe — Ele disse, após uma pausa — era pra eu ter feito isso. Mas não me importo nem um pouco de você tê-lo feito.
- Oi? Terra para Lucas. Alguém me ouvindo?
Levei um susto. Estava de volta ao bar; provavelmente me distraíra lembrando do "começo" e não percebi a chegada de Matheus. Sorri (coisa que fazia com frequência ainda maior depois de termos começado a namorar) e me levantei para abracá-lo.
- Demorou, já estava ficando preocupado. — Comentei, coçando distraidamente meu braço.
- Tive que parar pra comprar isso. — Ele disse, tirando o braço que estava atrás de seu corpo ao qual eu não havia percebido até aquele momento. Em sua mão, um saquinho de jujubas brilhava sob a luz do café.
Não me contive e ri um pouco alto demais, mas ninguém reparou muito em mim.
- Você sabe mesmo como agradar um homem — Comentei, com a cara mais safada que consegui fazer.
Sorrindo, ele respondeu:
- Só não quero te perder, passei tempo demais sem você.
Naquele momento, me senti o ser mais feliz do mundo.
Notas finais
Btw, espero que tenham gostado (se é que alguém leu, está lendo, vai ler ou não desistiu no primeiro parágrafo), caso contrário, críticas construtivas são sempre bem-vindas :3
Fiquem bem, gatus e gatás.
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