Outra História: e se...
6 Casos e mais casos
Notas iniciais
Naruto desistira de treinar naquela manhã. O espantalho insistira que ele deveria estar na ponte sem atraso algum, ou perderia uma importante chance na vida. O garoto iria tentar aprender uma nova técnica que achara em um velho pergaminho debaixo de uma pedra, mas só pudera memorizar os movimentos de mão e o nome do novo jutsu.
Andava tão pensativo que nem notou que já não sentia chão abaixo de seus pés. Num lapso de consciência começou a rir de si mesmo. Fazia apenas dois anos que descobrira algo incrível sobre sua natureza de chakra: ele podia voar. Pousou suavemente no corrimão da ponte onde sempre o time 7 se encontrava e suspirou. Voar, voar, voar como os pássaros ele ainda não conseguia, mas fazia tempo que praticava a técnica.
Fazer o chakra se expandir externamente por seu corpo e se ligar ao vento natural ao seu redor, para lhe dar impulsos para o alto, para frente, para os lados e para todas as direções. Era difícil, pois Naruto tinha dificuldade em controlar suas porções de chakra.
Sasuke lhe ajudava nisso, pois o fazia admiravelmente bem. Em troca do apoio, Naruto estava lhe ajudando a descobrir um meio de elevar o Sharingan do outro a um nível maior que o de seu irmão, que era um Mangekyou, sem que o moreno ficasse cego, destino certo da maioria dos Uchihas que usavam esse poder ocular demais. Essas pesquisas noturnas lhe causavam fortes dores de cabeça, mas tinha seu pai/mãe adotivo para lhe ajudar, afinal ela conhecia bem o poder dos Uchihas e conhecia inúmeras técnicas, dada a milenaridade de sua existência.
O moreno surgiu através de um shunshin. Desta vez eram eles os solitários.
–Yo, dobe. – cumprimentou Sasuke com seu típico meio sorriso.
–Uma vez na sua vida você poderia parar de me chamar de dobe? – Naruto murmurou em tom de cansaço. Sasuke negou serenamente – Sabia que o inferno está te chamando faz tempo?
–Quando você for, eu vou logo em seguida... – ele deu de ombros – Afinal você só faz trapalhada sem mim! – suspirou – Fazer o quê?
–Dane-se’ttebayo – murmurou fazendo um bico e virando a cara para o outro lado.
O vento soprou forte.
Naruto girou seu olhar e se assustou com a figura flutuante de Sasuke pousar no mesmo ponto que em que ele estava em pé. Encaixou seus pés cada um de um lado de Naruto, com as mãos nos bolsos, sorrindo misteriosamente para o pequeno loiro que tentava se equilibrar no pouco espaço que a proximidade permitia.
Ousou um pouco mais. Com pressa agarrou a cintura de Naruto e beijou levemente a boca carnuda dele. Sasuke riu jovialmente. Desde o incidente na Academia que os dois criaram a mania de trocar breves beijos às escondidas de toda aldeia. Basicamente era o hobbie favorito de Sasuke: perseguir Naruto e roubar seus lábios como recompensa por capturá-lo.

Só fazia isso com ele, porque, em sua soberba opinião, somente Naruto estava em um nível adequado para receber aquele tipo de tratamento. Não é que fosse gay: só era adepto dos lábios de Naruto, do cheiro de Naruto, do corpo de Naruto... Isto é, não sabia se era gay.
Naruto abraçou-se ao pescoço alto de Sasuke e afagou os espessos cabelos negros dele. Sabia o quanto Sasuke gostava daquela massagem na sua nuca, que chegava a lhe arrepiar a epiderme. Continuaram trocando aqueles gestos de estranho carinho entre rivais selvagens, fazendo os lábios estalarem, até sentiram a presença de alguém se aproximar.
Sasuke saltou para o outro lado da ponte e exibiu uma clara face de desgosto por ter se separado tão rapidamente. Não se sabia se amava seu pequeno dobe, mas odiava ser separado daquilo que era seu antes de se satisfazer. Esfregou brevemente a nuca, sentindo a sensação de tê-la acariciada pelos dedos tímidos de Naruto.
Sentia falta desse afago quando ia dormir. Sequer conseguia fechar os olhos por causa dos pesadelos, então passava a noite estudando e treinando novos jutsus sem que seus pais soubessem. Quando não passava a noite e a madrugada ao lado de Naruto: já passaram por ruins, péssimas e piores ainda durantes as “aventuras noturnas”. Era uma das estranhas formas dos dois treinarem e conhecerem a si próprios, cobertos pelas sombras da noite. Apesar de sua notável genialidade e de seu alto nível de complexidade, Sasuke tinha a imagem de “tolo irmão inferior ao mais velho” para preservar até certa idade.
Até certa idade, ratificou mentalmente.
Miraram um lado da ponte. Um rangido se aproximava. Alguém empurrava algo.
Um homem empurrando um carrinho de mão passou silenciosamente. Dentro do carrinho havia abóboras enormes que atraiu a atenção de ambos. Encararam-se, trocando sorrisos de estupefação a suas maneiras, analisando a dimensão dos vegetais que viam.
Isso fez Naruto lembrar de que seu sensei ainda não chegara (Abóbora -> Colheita-> Campo-> Corvos voando-> Espantalho -> Kakashi)
–Onde está... – Naruto iniciou sua fala quando repentinamente ouviu o grito alegre de Sakura chamar por Sasuke. Ele arqueou uma sobrancelha e jogou-se sentado sobre o corrimão em posição de índio. Sentia-se estranhamente bem ao ter seus lábios tocados pelos de Sasuke e sentia um vazio sempre que eles se afastavam precocemente.
Era algo que ainda não conseguia entender, mas não precisava martelar isso agora.
–Sasuke-kun! – Sakura fitou o belo rapaz da tez branca de pé no corrimão da ponte. Ele é tão lindo, tão incrível, o melhor! Pensava de olhos brilhantes – Bom dia!
–Hm. – monossilábico, como sempre.
Ela ficou observando-o por um bom tempo, até ouvir um pigarreio do outro.
–“Bom dia Naruto!” – resmungou com a voz fina – Bom dia Sakura-chan! – respondeu a si mesmo. Sasuke riu silenciosamente quando Sakura volteou-se para encarar furiosamente o outro – Educação mandou lembrança.
–Eu não sou obrigada a falar com você! – ela retrucou.
–Se eu bem me lembro – Naruto saltou de onde estava e parou com as mãos na nuca – Se não fosse pelo meu chute você estaria reprovada e de volta a academia ninja!
–Foi o Sasuke-kun que derrotou o Kakashi-sensei, não você, sua peste!
Uma veia saltou na testa de Naruto. Ah, menina arrogante. Ia começar a falar, mas achou melhor nada dizer. Respirou fundo e se encostou à madeira. Sasuke o fitou do alto.
Ele não tinha culpa de ser odiado, não havia sido escolha sua ser o que era, da mesma forma que não fora escolha de Sasuke ser o que se tornara. Ambos viviam mergulhados num profundo oceano preenchido por sentimentos tão ruins que somente eles conseguiam abrandar e ser luz na vida do outro.
Queria poder mandar Sakura ir embora e ficar ali, abraçado, ao seu dobe para que a tristeza se dissipasse. Negou mentalmente. Naruto não é digno de pena. Abaixou-se, ficando de cócoras e esfregou com força os cabelos dele.
–Que foi agora? – Naruto já se prepara a corresponder à insinuação, mas na verdade viu um rosto sereno piscar um olho para ele. Corou. Maldito Sasuke, sabia como lhe desestabilizar.
–Nada, dobe, nada.
Uma explosão fraca aconteceu bem diante dos olhos dos três. Kakashi surgiu acenando para os três de maneira amigável. Sasuke desceu e cruzou os braços.
–Bom dia pessoal!
–Está atrasado! – brigou Sakura.
–É que eu vi um gato preto quebrar um espelho bem na minha frente, então resolvi tomar o caminho mais longo! – falou Kakashi de maneira descontraída.
–Mentiroso. – ultimaram Sasuke e Naruto em uníssono.
O homem riu e retirou de sua bolsa, onde sempre guardava seu exemplar do Icha Icha Paradise, três formulários e entregou-os aos seus alunos.
–Sabem o que é isso? – começou Kakashi.
–Isso é uma pergunta retórica? – observou Sasuke analisando o papel em sua mão. O sensei não pode deixar de rir: Sasuke sempre tão cortante.
–Não, não é.
–Formulários? – sugeriu Sakura.
–Não são simples formulários, são formulários para vocês se inscreverem no exame Chunnin, para que possam subir de categoria e enfrentar pessoas ainda mais fortes que vocês. Meu desejo é que vocês se inscrevam e participem.
Os três se encararam mutuamente e simplesmente concordaram.
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