Outra História Sobre Nós
8 Cap. 7 - Quase culpada
Notas iniciais
Todos estavam lá, menos Paulo que ainda estava em viagem com a amante, quando eu entrei o todos eles se viraram pra mim e se calaram. Uma onda de pavor passou pela minha espinha, fazendo todo meu corpo se arrepiar. A primeira foi minha mãe.
– O que você fez? — a voz dela acusatória, fria e sem emoção me encurralou.
Os olhos dela estavam nebulosos de fúria, o que me amedrontou me fazendo encolher e pela primeira vez em anos eu queria chorar, o medo me dominava. Mas segurei qualquer coisa que me atingisse enquanto ela se tripudiaria em cima de mim sem motivo algum, eu estava sendo tão idiota.
– Você é tão podre! — ela novamente falou, a fúria deu espaço mágoa instantânea.
O choro dela não me incomodo, algo em mim mudou ali, eu não daria o gosto de ser a culpada para quem ela estava procurando, eu nem ao menos sabia o que diabos estava acontecendo, e eu realmente fiquei preocupada com ela, de verdade. Sempre tentei entendê-la todos esses anos, e nunca parei pra pensar que a minha presença era o problema.
– Porque você me odeia tanto?! — a minha frieza não a surpreendeu.
– Isso se tornou tão fácil. — agora estávamos falando com a mesma intensidade.
Ela tinha um ódio tão grande de mim que eu mesma não entendia, mas eu nem me importava com esse ódio demasiado dela. Ninguém na sala ousou se intrometer entre nós, nem mesmo Joseph que, sempre parava as coisas. O olhar de resignação de todos eles dirigidos a mim, eles também me culpava. E pra eles era mesmo mais fácil me culpar, afinal eu era o produto indesejado.
– Tudo bem, posso viver com seu ódio. — dei os ombros.
Não suportaria ficar mais um segundo ali, voltei a colocar a mochila no ombro e me virei para sair da casa, eu não aguentaria ficar ali pra ser a culpada que eles queriam, não ia mesmo.
– Onde você vai? — senti os olhos dela cravado em minhas costas.
– Sair! — abri a porta e simplesmente sai, do mesmo jeito que eles faziam comigo.
Algumas das pessoas que estavam lá por curiosidade, me olharam espantados, bem eu não estava ligando no momento. Ninguém me impediu, e eu continuei meu caminho sem ligar pra onde estava indo.
Quando verifiquei que ninguém me seguia, e já estava a quase dez quarteirões de casa, deixei que as lágrimas escorrendo livremente pelo meu rosto. E junto com as lágrimas todos as injustiças, a dor e o ódio. Nem em meus piores dias eu iria odiar minha mãe, ela poderia me odiar por algum motivo, mas eu não era ela. E continuaria à amando.
Só parei de andar quando senti algumas gotas de água molhar meu rosto, eu não me lembro que caminho peguei mas eu sabia que estava muito longe de casa, o lugar onde eu não queria voltar, não agora.
Olhei pro céu e tudo estava cinza, sorri amargamente e continuei andando em frente, algumas pessoas que passavam correndo por mim se escondendo da chuva soltava alguns palavrões, outras delas apenas corriam como se molhar fosse seu pior inferno, não era, não podia ser. Era apenas a inofensiva água fria.
O que eles estavam evitando? Porque fazer da água seu inimigo? O quão egoístas são? Não é sobre a água. É sobre o dom do egoísmo das pessoas, inclusive o meu.
Apertei minhas unhas contra a pele da palma da mão, a pressão começou a ceder e a dor começou a me mortificar, eu queria correr, mas correr pra quê? Pra onde? Porque tudo em minha cabeça eram perguntas? E nenhuma delas tinha plano sentido.
No meio da chuva eu apenas parei e deixei que a água me molhar inteira. Depois de andar na chuva por alguns horas eu avistei um ponto de ônibus, tinha algumas pessoas e todas me olharam esquisito, mas pra mim elas eram esquisitas. Antes mesmo de chegar no ponto, o ônibus passou e levou todo mundo. Me aproximei tremendo de frio, e sentei no banco de ferro gelado. Fechei os olhos por um momento, e tudo se foi.
Ouvi um miado. Abri os olhos e vi o gatinho branco com cinza me olhar amedrontado.
– Hey. — o chamei e ele se encolheu. — Eu sei como você está se sentindo.
Ele miou de novo parecendo concordar com aquilo.
– O frio, o vazio a solidão. — eu não sei se dizia pra ele ou pra mim. — Não se preocupe vai passar.
Nos dois ficamos lá vendo os carros passar e a chuva cair, sozinhos. Quando a chuva ficou mais fina, eu me levantei peguei o gatinho o coloquei de baixo do braço e comecei a caminhar de volta. Estava na hora de enfrentar a realidade.
A porta da minha casa já não havia mais ninguém, o lixo que eles deixaram era bastante, mas quem liga? E a casa do próximo prefeito, ele que limpe. Quando entrei tudo estava escuro, parecia que ninguém mais morava ali.
– Parece que somos só nos dois, bola de pelo. — afirmei balançando ele no meu braço.
Ele miou e se encolheu de volta, mas dessa vez não foi por frio, era por medo. Até eu senti a presença ameaçadora de alguém. Levantei a cabeça e vi minha mãe. O rosto dela estava meio sombrio, os olhos e o nariz vermelhos a pele pálida, ela estava tão miserável quanto eu.
– Vista uma roupa quente e depois desça aqui. — ela deu um passo pra frente e eu instintivamente dei um pra trás. Vendo minha hesitação ela não se moveu. — Apenas, precisamos conversar.
Não me importei em demorar, acho que dei banho no gatinho na água quente porque eu estava evitando o inevitável. Mas ele gostou da água quente, mesmo me arranhando toda. Vesti uma roupa quente e coloquei o gatinho na caixa que Joseph tinha trazido os livros, hoje cedo quando estava saindo para o serviço até pensei em jogar aquela caixa fora porque tinha tropeçado nela. Agora era a casa do meu bichinho.
Desci as escadas e parei no meio da sala, ela estava lá de frente pra lareira com uma xícara de chá ou sei lá o que nas mãos. No início ela não me percebeu, por um segundo eu ouvi chorar. Não queria que ela chorasse, porque eu não conseguiria lidar com lágrimas. Resmunguei baixo e fui até ela, que no instante que me viu mudou totalmente a postura e os olhos que estavam cansados adquiriu uma forma dura e fria.
– Porque você o matou? — acusou.
– Eu não matei ninguém. – reclamei indignada.
Ela pensou por um momento e voltou a olhar o fogo da lareira, eu queria ao menos saber quem tinha eu supostamente tinha matado.
– Aquele dia você estava em casa, eu sabia que estava, porque tudo estava silencioso demais e é isso o que você presa. O silêncio. — ela ainda continuou virada pra frente. — Mas porque Emily, porque o Tyler?
Então tinha sido o amante que morreu, mas o que eu tinha a ver com isso, eu nem sabia quem ele era, como era possível eu ter matado ele sem nem saber. E além do mais eu não estava ligando para a vida sexual dela, mesmo que aquilo fosse nojento era a vida dela, ela fazia o que bem entendia.
– Você está querendo me culpar por uma coisa que não fiz! — controlei minha voz.
Não dissemos mais nada, apenas ficamos ouvindo o som da madeira queimando na lareira. Ela estava muito abalada, ela deveria gostar muito dele, mas eu não podia fazer nada.
– Você não o matou diretamente, mas seu amigo o fez! — ela confessou agora de pé me encarando. — Aquele que você trouxe pra dentro de casa. Depois daquele dia ele fica rondando a casa, olhando procurando algo. Ele estava estacionado aqui quando Tyler foi assassinado.
Ela suspirou longamente, estava tão confuso pra mim, porque eu nem lembro de ter trazido Danillo ou Guto aqui em casa. Das vezes que Guto entrava ele era tão decreto que ele nunca seria descoberto por ninguém.
– Porque Emily... Ele nunca fez algo de errado com você. — a voz dela morreu dando lugar ao choro.
– Mãe, porque você quer me culpar e culpar meus amigos? — balancei a cabeça. — Danillo e nem Guto iriam mexer com a sua vida, eles na verdade nem liga pra com quem você dorme.
– Você é a única que tem um motivo! — porque ela estava tão irredutível?
– Eu não ligo pra sua vida, pelo amor Deus, será que você não vê. — aumentei o som da minha voz. — Eu não ligo pra ninguém... Eu não tenho motivo pra matar ninguém.
Ela levantou pegou a xícara e saiu de lá, não se importando com mais nada, como ela era egoísta, só queria acreditar em si mesma, fazendo-se de cega para a verdade. Dei os ombros e subi de volta para o meu quarto, o gatinho estava arranhando toda a caixa e eu deduzi que ele deveria estar com fome, porque eu também estava.
Preparei um sanduíche natural pra mim, e coloquei leite em uma vasilha de plástico para o gatinho. Cheguei no quarto e coloquei a vasilhinha de leite dentro da caixa. Ele comeu como se há anos não comesse. Deitei na cama observando o gatinho comer avidamente, e, apaguei.
Os dias se tornaram sombrios, eu não conseguia explicar tudo havia ficado cada vez mais insuportável de lidar, nem Joseph acreditava em mim. Era como se eu realmente tivesse matado o tal Tyler.
Na manhã de domingo, eu desci para comer, sempre descia uma hora mais cedo, para não bater de frente com a minha mãe ou algum deles. Quando ouvi vozes vindas da cozinha eu gelei, não era comum esse horário ninguém estar acordado.
Quase voltei quando cheguei na porta, minha mãe sorria e cantava? Enquanto preparava o café das duas garotas sentadas na mesa. Primeiro elas não me virão, mas quando ela se virou e viu meu semblante totalmente de espanto, ela sorriu e piscou mostrando meu lugar na mesa. Balancei a cabeça incrédula, mas me sentei.
– Soube que você trouxe um animal pra dentro de casa! — Cayla pela primeira vez se dirigiu a mim, sem estar com um telefone nas mãos.
– Ah, sim... — fiquei nervosa, o que diabos estava acontecendo? — O nome dele é Stefan...
Eu tinha dado o nome dele Stefan porque eu adorava o personagem na série de TV, mesmo que o Damon fosse o mais bonito, o que no meu palpite não era porque eu realmente gostava do Klaus. Mas a escolha para Stefan era porque o gato gostava realmente do Stefan, ele não tinha um nome até o dia em que ele começou a lamber o pôster do Stefan que ele achou em algum lugar na bagunça que é meu quarto.
Ela riu do nome, comentou que achou criativo e voltou sua atenção para o celular. O ambiente mudou drasticamente quando Eleonor entrou pela porta da frente da casa com o seu namorado a tira colo.
– Bom dia meninas, bom dia mãe! — até ela? Realmente tinha alguma coisa acontecendo.
As duas meninas a abraçou, e a minha mãe fez o mesmo. Eu sabia que Eleonor não estava frequentando a casa tinha alguns dias, mas pela minha falta de interatividade nunca iria saber.
– Então a esquisita resolveu se juntar aos meros mortais? — começou a provocar como nos velhos tempos. — Talvez você queira ir na festa do meu noivado.
– Claro! — tentei sorrir, mas o quão daquilo estava acontecendo? — Eu vou voltar a estudar.
Sai da cozinha com o estômago embrulhado, a minha família não estava certa, me belisquei duas vezes para provar ser realidade. Eles não eram assim, balancei a cabeça tentando afastar qualquer paranoia que eu montava na minha cabeça.
Peguei o celular em cima da cama e liguei para o Danillo. Chamou umas cinco vezes e caiu na caixa postal. Liguei mais três vezes e nada, então liguei para o Guto.
– Estava esperando sua ligação! — ele não me cumprimentou, apenas soltou uma risada intensa. – Como se sente ao ser enganada?
– Enganada? O que está dizendo? – fiquei quieta.
– Você não vê? – ele dizia incrédulo. – Certo, me encontre no galpão em meia hora!
Quinze minutos eu estava lá, antes mesmo de chegar passei na loja de conveniência e comprei cigarros, a dias não fumava. Sentei no batente de aço, a blusa de frio me aquecia, mas a excitação do meu coração deixava minhas mãos suando, Guto era uma pessoa muito singular. Os minutos se arrastavam, peguei o cigarro e acendi, puxei a fumaça e a segurei tempo suficiente para acalmar meu coração.
Uma hora mais tarde desisti de ficar lá no frio, Guto pela primeira vez tinha me desapontado, coloquei o capuz na cabeça e sai de lá fumando meu oitavo cigarro, não estava calma e a espera quase me enlouqueceu.
Entrei em casa devagar, vi onde todo mundo estava e escapei pelas paredes até o meu quarto, minha mãe tinha razão o silêncio me dava certo tipo de apreço. Era nele que a loucura me dominava, coisas em minha mente me matava, eu não me amava. O que tinha de errado comigo?
Dentro do quarto eu ainda podia ouvir os sussurros das conversas lá em baixo, porque não era aceita? Porque eu não conseguia me sentir segura dentro de casa? Liguei o notebook e deixei que as loucuras tomassem conta de mim. Mas não era o suficiente, por uma incrível força eu não queria ver nada, fui até a estante e peguei um livro, a capa branca com uma fita de rádio preta com vermelho.
Sentei na cama e o abri, depois se ler três capítulos, puxei o notebook para perto de mim, abri a Internet e observei o cursor piscar algumas vezes. Me dei por vencida, digitei:
"Como cometer suicídio"
Na página seguinte os links azuis tão convidativos a serem abertos, olhei novamente para a tela e fechei a página. Não, eu não poderia me deixar levar pelas palavras de Hannah Baker, a garota que cometera suicídio no livro. A vida dela era um grande inferno, i daí a minha também era. Cortei a linha de pensamentos rapidamente, eu era mais forte que isso, se morresse sabia que ninguém sentiria falta, mas morrer?
A ideia não pareceu tão ruim, fechei a tampa do notebook e deitei na cama. Não, estava acreditando que eu me deixei levar tão rápido assim.
Por volta das nove e meia da noite houve uma batida na porta, e permaneci olhando para ela sem reação alguma, estava tudo tão confuso. Eu não sentia mais vontade de viver.
Sem minha resposta, quem quer que estivesse atrás da porta desistiu e eu fiquei quieta, a vontade de comer se foi, eu não tinha opção, tudo o que eu queria era acabar com aquela dor que insistia em me dominar, por vezes quis abrir novamente aquele notebook e continuar com a pesquisa sobre suicídio.
Acabei dormindo, quando acordei já era outro dia, segunda. Troquei de roupa para trabalhar, mas nem isso me animava hoje, meu corpo rejeitava qualquer coisa para fazer esforço, eu me sentia mais cansada do que qualquer outro dia.
No curso, eu olhava incessante no relógio do celular, ainda era 8:46am, Michel falava comigo mais de alguma forma meu cérebro o bloqueava, tudo o que todos diziam pareciam sussurros loucos dizendo que tudo teria que ter um fim, porque eu não merecia nada.
A porta se abriu, revelando três pessoas com suas mochilas, já era quase nove horas? Não era possível que eles sejam novatos que entrariam na minha sala, com meu braço apoiado na cadeira segurando meu queixo como se ele fosse um prédio podre que se não tivesse uma bengala desmoronaria.
Primeiro a menina entrou, seus cabelos loiros os olhos claros e um sorrisinho medroso nos lábios, ela se sentou afastada de todo mundo, o menino não olhou para ninguém, seus cabelos negros e os olhos irritados, ele parecia alguém puto com a vida, ele sentou do lado da garota loira, a terceira garota era mais despojada e logo de sentou com as meninas bonitas que trabalham na farmácia.
A aula prosseguiu, logo que o instrutor terminou com a sua ladainha sobre cuidamos da nossa imagem dentro da empresa ele pediu para que os três fosse a frente se apresentar.
A garota loira se apresentou como Camile, logo que ela se apresentou eu disse que ela podia sentar perto de mim e o Michel, ela sorriu amarelo e pegou suas coisas e sentou do lado do Michel.
O menino se apresentou como Diego, e ele não era nada bonito, mas algo no sorriso contido dele me fazia querer sorrir, porque quando ele terminou de se apresentar olhou diretamente em meus olhos e eu não pode fazer nada, algo diferente se revirou dentro do meu estômago.
Michel disse que ele podia se sentar com a gente, e ele se sentou, eu não mais prestava atenção na aula ou no que os outros diziam, eu observava diretamente os olhos castanhos que sempre mostravam insatisfação. Ele não se encaixava em nenhum modelo de cara lindo, ele era intrigante demais para mim.
A partir daí a hora quase voou, ele conversava pouco, não ligava nem um pouco com a presença de ninguém, ele era frio, tão frio quanto um iceberg, e por puro sadomasoquismo da minha parte eu quis derrubar o iceberg e ver o que sobrava de verdade.
Quando cheguei em casa, eu parecia uma idiota sorrindo como se a minha vida fosse a pureza do paraíso. Senti uma fome incontrolável e vontade de ler romances e fazer coisas leves, meu humor melhorou em questão de segundos, não havia dor dentro de mim, e eu comecei a apreciar aquilo que ele fazia comigo.
Ele era melhor do que toda as drogas lícitas e ilícitas que eu ingeria para matar tanta dor.
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