Outra História: e se... vol.2
19 O louco
Notas iniciais

Primeiro um baixo resmungo cansado. Depois um riso sádico se seguiu, crescendo com o tintilar dos anéis cintilantes das pesadas correntes. Por fim uma gargalhada tão doentia que não houve uma só alma que não sentisse terror ao ouvir aquele som demoníaco ecoar através de suas almas abaladas. Ali era quente, mas as correntes eram frias, ali o ar era pesado e raro efeito, mas os ventos sopravam sem direção certa, fazendo pedras e poeira se chocar contra o teto, o chão, as paredes e as correntes. Ali correntes se mexiam e pedras se destruíam, mas o único som ouvido era uma gargalhada demente.
–Descemos até o inferno... – murmurou Jiraya. — Eu sabia... Aqui é o inferno e estamos ouvindo o capeta!
Orochimaru sorriu, mesmo estando assustado.
–Então é aqui? Interessante! Muito interessante!!! Eu não consigo parar de sentir medo, de tremer diante dessa energia tão densa, tão obscura!!! Como algo assim foi escondido por tanto tempo?! É loucura...
Tsunade colocou-se perto dos outros dois, apoiando-se nos braços deles por causa de suas pernas bambas, deixando Sasuke só, observando aquele lugar com preocupação e receio.
–Quem está aqui? – ele murmurou, praticamente para si.
A gargalhada parou.
–Adivinhe. – respondeu a voz.
Sasuke sorriu de lado.
–Onde você está?
–Adivinhe... – a voz lhe pareceu mais animada, apesar do sussurro.
O Uchiha assentiu e começou a desbravar aquele mar de metal. Os sennins seguiram-no, apesar do medo evidente. Quanto mais andava, mais Sasuke tinha certeza de quem iria ver no centro daquele emaranhado enferrujado. Estava ansioso por esse momento, estava cansado de sonhos e pesadelos, era a hora da realidade, por mais insana que ela pudesse estar se mostrando para ele. Sasuke queria seu dobe.
Alguns minutos depois, ele finalmente chegara ao seu destino. Mesmo que as correntes tivessem espinhos, Sasuke não fora cortado por mais que as correntes encostassem em seu corpo ou em suas roupas.
No centro daquele quase novelo de correntes, havia um corpo e sobre o corpo estava o pequeno Naruto, sorrindo como a criança que era. O garoto desfez seu sorriso e estalou os dedos. A realidade começou a se contorcer, como se alguma força gravitacional a puxasse para dentro de si mesma. Sasuke olhou em volta e ativou seu Sharingan. Os sennins se aproximaram do rapaz e colocaram-se uns de costas para os outros.
O Uchiha sorriu de lado. Reconheceu aquela técnica. Muitos julgariam como um genjutsu poderosíssimo, no entanto era algo muito mais complexo. Ele já havia utilizado aquela técnica para reconstruir Konoha quando ela fora destruída por um surto de ira que Naruto tivera depois de receber um soco de Sakura. Os símbolos do selo brilhavam abaixo do corpo em que o pequeno Naruto estava sentado. Como ele poderia estar fazendo isso? Só podia ser os absurdos poderes de Naruto, não havia outra explicação.
Sasuke enfiou suas mãos nos bolsos, tranquilizando o corpo e assim acalmando um pouco os sennins, e esperou tudo se estabilizar.
Em dado momento se viram flutuando no ar, com o mundo inteiro abaixo de seus pés e enormes águias planando no céu azul. Em outro segundo estavam num deserto árido, seco, com ventos fortes que faziam dunas inteiras se reduzirem a nada. No minuto seguinte, uma cidade alagada pela chuva constante que caía, com seus habitantes passeando de barco. O próximo lugar fora um profundo vale de um monte congelado pela fria neve que caía lentamente, algumas raposas brancas passaram correndo pelo grupo.
–Isso... É... Incrível! – gaguejou Orochimaru, abrindo os braços – Esse poder... Ele está nos teleportando para vários lugares.
–Realmente! Eu consigo perceber que não é um genjutsu, mas um jutsu de teleporte! – acrescentou Tsunade, extasiada com a visão de uma belíssima praia, com o mar verde-água. — É loucura esse poder!!!
–Imagine o que ele poderia fazer se estivesse solto... Isso é... Loucura! Ele poderia mandar qualquer pessoa para qualquer lugar do planeta! – completou Jiraya colocando-se ao lado dos dois.
Sasuke riu daqueles comentários de pessoas sem conhecimento prévio.
–O que foi? – perguntou Orochimaru.
–Realmente vocês não sabem do que ele é capaz, não é? – virou um pouco o rosto, apresentado seu Sharingan de três tomoes – Ele não está nos teleportando para lugar nenhum. – os três arregalaram os olhos. Naruto, ao fundo, riu claramente – Ele está mudando a realidade. Transformando-a de acordo com o que pensa. Se o que vemos está constantemente mudando, significa que a mente dele está em caos. Eu não me admiraria se de repente estivéssemos numa cidade destruída. — assim aconteceu quando Sasuke terminou de falar — Viram? Caos total.
Ao proferir a palavra “caos”, o grupo viu tudo tornar-se vermelho e gritos ecoaram para todos os lados. Eles se viram do lado de fora, nos campos de batalha, com pessoas morrendo para todos os lados, em virtude do poder de fogo dos Uchihas. Tsunade levou uma das mãos até a boca e se aterrorizou, apoiando-se em Jiraya, que mal sabia o que pensar perante toda aquela situação real. Orochimaru foi até Sasuke e o fitou.
–Você pode fazê-lo parar? – indagou. Sasuke notou medo naquela fala e alargou seu sorriso, assustando ainda mais o homem das cobras. Era bom estar de volta à realidade. Fitou a sua frente, no meio de escombros em chamas e apontou para um cruzado de madeiras.
–O ruim dessa mudança de realidade é encontrar a fonte. Por sorte eu ainda estou conectado a essa técnica. Naruto-kun está ali. Peça para que se acalme. – falou com a voz calma.
Orochimaru assentiu e fitou o ponto em questão. Aproximou-se devagar, sendo vigiado de perto pelos seus dois companheiros de longas datas, e afastou as madeiras do lugar, protegendo o rosto das chamas que se ergueram. Viu uma sombra, como se houvesse alguma coisa encolhida ali. Ele estendeu a mão para tocar, mas foi surpreendido por um corpo negro que se elevou rapidamente para acima das madeiras de chamas, derrubando Orochimaru no chão. Jiraya saltou na frente do outro, empunhando uma kunai, e esperou.
Os três ouviram uma risada aumentar gradativamente, mas não era aquela que escutaram ao entrar no recinto. Era a risada de Sasuke, que se apoiava nos próprios joelhos para não cair de tanto rir. O rapaz quase chorava de tanto rir do trio. Tsunade fitou a sombra que se movia para frente e para trás, num balanço estranho de cobra e por fim entendeu o que era aquilo.
Era uma caixa surpresa que entoava uma música estranha e de dentro dela um palhaço com um sorriso grande demais para o rosto saltara. As mãos enormes dentro das luvas pareciam querer agarrar quem estivesse ao seu alcance, os olhos enormes exibiam um senso de humor sádico e os enormes gisos em seu chapéu tintilavam em desordem. Os três se afastaram rapidamente daquele lugar e um novo repuxão na realidade a fez retornar ao seu estado natural. A risada doentia acompanhava a de Sasuke, apesar da primeira se sobressair.
–Eu não acredito que caíram nessa! – comentou o Uchiha depois de recuperar o fôlego. – Meu Deus, vocês são muito idiotas mesmo!
–Ninguém esperava que algo desse tipo acontecesse num momento crítico desse! – defendeu-se Jiraya – Eu não esperava que ele fosse fazer algo do tipo!!! Que tipo de pessoa imagina um palhaço de caixa de surpresa?!
–Mas vocês mesmos disseram que ele é um louco! O que esperavam? – alfinetou – Uma mesa de chá e xícaras fumegantes? – Sasuke suspirou e penteou brevemente os cabelos com os dedos – Ok. O que querem que eu faça? Trouxeram-me aqui para que eu fizesse algo, certo. Então, o que é?
–Se tivermos o poder dele em nosso favor... – iniciou Tsunade, com um suspiro – Talvez possamos por fim a essa guerra e trazer paz aos clãs... Não acho que seja necessário alguém morrer, mas se tivermos ele em nosso favor, então creio eu que teremos alguma chance.
–Verei o que posso fazer. – falou baixando o olhar – Afinal, é um louco.
A mulher concordou.
Sasuke suspirou profundamente. Olhou para frente e começou a caminhar para onde estaria o pequeno Naruto. Era chegado o momento. Ao passo que se aproximava, ele conseguia visualizar melhor o corpo abaixo do pequeno Naruto.
Aparentava ser um homem, um homem que estava de joelhos e com os braços cruzados diante do peito, bruscamente puxados para lados opostos prendendo completamente os movimentos superiores. Suas pernas, um pouco abertas em arco, também estavam presas em vários pontos pelas correntes, que se cruzavam e se entrelaçavam como serpentes, subindo e descendo por todos os lados, impedindo movimentos inferiores. O tronco estava de tal maneira preso que o básico movimento de respirar era quase impossível e sua cabeça estava puxada para trás ao ponto que a boca não conseguia se fechar, estando escancarada num sorriso demente, exibindo presas afiadas. Um fio de sangue e saliva escorria pelo canto da boca daquele ser e seus olhos estavam costurados nas pálpebras, unidos de tal forma que a costura seguia até abaixo do seu queixo, e sugeria que a boca também fora costurada, mas agora estava livre.
A cabeça estava coberta por uma chapa circular de ferro e era notável que estava esmagando o crânio dado às feridas e à vermelhidão mostrada nas bordas. Aliás, todos os anéis que ligavam as correntes ao corpo do homem estavam mais apertadas que o permitido. Alguns dedos estavam retorcidos e com as pontas arroxeadas, alguns sem unhas e outros visivelmente quebrados. O pequeno Naruto estava sentado sobre o peitoral esticado para trás daquele homem. Sasuke sentiu repulsa ao ver aquele corpo praticamente destroçado.
Seria aquele ser completamente preso por argolas e correntes o seu dobe? Realmente aquele ser repulsivo seria o seu Naruto, tão belo e poderoso, que conhecera e vivera em outras situações? Aquele não podia ser seu Naruto, mas o chakra emanado daquele corpo não lhe deixava ficar enganado.
–Já não é tão lindo como antes, não? – murmurou o menino. — Difícil olhar diretamente para algo tão bizarro. — ele soltou percebendo que mesmo estando com o rosto completamente voltado para frente, os olhos do Uchiha não fitavam por muito tempo o corpo abaixo do pequeno Naruto.
Sasuke o fitou sem mover o corpo, tomando coragem para analisar melhor aquele homem. Sentiu seu estômago embrulhar, mas ele se manteve firme, apesar de sua mente gritar que nunca vira nada parecido na sua vida.
–Não sabe as atrocidades que aquelas pessoas fizeram com ele. – o garoto parecia triste – Se você achava que o desprezo era um problema no seu tempo, é porque não conhece a verdadeira natureza dessas pessoas. É aquela coisa...– ele apontou para o trio sennins – Quem vê cara não vê coração... Mas deve imaginar.
–Do que fala?
–Assassinos dos meus pais, sanguessugas do meu poder, traidores da própria humanidade, criminosos de primeira ordem! – bradou apertando os pequenos punhos – Isso é coisa que se faça com uma pessoa?! Por mais estranha e louca que ela possa ser, isso não é tratamento!!! – Naruto desceu do homem e tocou a barriga exposta dele – Nem mesmo os animais recebem esse tipo de tratamento maldoso.
Sasuke apertou o olhar.
–E por que eles fizeram isso com ele?
Naruto quis chorar, mas sua fala fora interrompida por um estremecimento do corpo. Uma tosse seca e escarros de sangue fez o Uchiha engolir em seco. Ele viu a boca se mover lentamente formando um largo sorriso e emitiu uma fraca risada de velho.
–Adivinhe. – sussurrou aquela boca.
–Esse é o original? – Naruto assentiu com brevidade. Sasuke afagou os cabelos do menino em forma de agradecimento e embrenhou-se por entre as correntes, sendo um verdadeiro contorcionista para chegar onde deveria estar à face do corpo. — Vamos ver...
Por fim a localizou. Descobriu que havia uma trava na nuca que permitia a retirada da chapa que apertava a cabeça. Sasuke sentou-se e hesitou em tocar aquele corpo contorcido, mas o fez, sentindo na ponta dos dedos o frio metal e a pele ressecada. O corpo estremeceu ao ouvir a trava ser retirada. Com cuidado, Sasuke puxou a chapa de ferro, libertando os dourados cabelos de sua prisão particular. Os fios caíram, rebeldes, sobre as mãos de Sasuke e este o afagou com carinho.
Fios secos como a palha no outono que se desfaziam ao mais suave toque dos dedos. Algumas partes da cabeça do homem estavam ralas ou com falhas,, com feridas purulentas e abertas. O que fizeram com seu dobe? Destruíam toda a beleza natural de seu dobe, reduzindo-a a monstruosidade interna que Naruto guardava a sete chaves. Instintivamente o moreno beijou a testa pálida, sentindo gosto amargo e azedo do fel mesclado ao suor do homem.
–Você demorou... – a voz sussurrou. Sasuke ajoelhou-se para ver melhor aquele rosto destruído pela insanidade e pelas prováveis torturas que ele passara – Bem-vindo.
–Estou de volta. – o moreno falou, tocando de leve a testa do outro.
–Como sempre, carinhoso e esquisito... Nunca vou entender isso’ttebayo.
–Há quanto tempo você está aqui?
–Eu não sei... O tempo não passa aqui dentro’ttebayo... — ele respirou fundo, buscando ar para os pulmões — A minha visão foi selada e agora não sei dizer se falo com o Sasuke real ou se isso é apenas mais um delírio da minha mente alienada... — sorriu — É bom ouvir sua voz. O silêncio desse lugar é castigador... — ele aspirou bem o ar e tossiu secamente — Disseram-me que você estava dormindo todo esse tempo...
–É verdade. Eu estava dormindo, preso em meus próprios pesadelos, mas agora que acordei, seu que tudo continua uma merda.
–Tudo sempre foi uma merda.
Os dois riram, apesar de que a risada de Naruto era bem mais assustadora do que a de Sasuke.
–Então... O jutsu deu errado? – o moreno perguntou.
–Não. – o sorriso doente se desfez e Naruto tossiu, cuspindo sangue e quase acertando no rosto de Sasuke. O moreno tocou de leve a boca do outro e com um pedaço de suas roupas enxugou o sangue que escorria daquela boca que ele tanto beijara – Obrigado... Na verdade, o jutsu deu certo, muito certo, tão certo que eu me ferrei... O problema é que eu não previ bem o que ele provocaria ao fim... — ele tossiu novamente — Ao invés de fazer a vila voltar no tempo, eu fiz o próprio tempo regredir... O meu erro foi esquecer que voltando no tempo, eu traria seu clã de volta a vida.
–E o desejo de dominação total vei com eles. – emendou Sasuke – Tudo bem... Ninguém havia tentado esse jutsu antes, era impossível prever o que iria acontecer. Nem mesmo você poderia saber.
Alguns segundos de silêncio depois Naruto sorriu.
–Eles me prenderam aqui’ttebayo, junto com tudo o que não se pode controlar. – Sasuke olhou em volta e nesse momento percebeu que havia corpos em decomposição pendurados pelos braços em oito pontos diferentes da caverna. Atrás deles existiam símbolos gigantes. Ele voltou seu olhar para trás de si e viu que também viu um enorme símbolo ali.
O selo Trigrama. Os selos que serviam para prender as bijuus dentro dos corpos dos jinchuurikis estavam desenhados nas paredes. Naruto riu alto, de modo seco e cansado, ao sentir o estremecimento de Sasuke através das mãos que lhe tocavam a cabeça.
–Havia mais gente aqui... Reclamavam constante de mim, do meu senso de humor peculiar... – outra risada, porém mais baixa – Aos poucos eles foram se calando e mais correntes se aferraram a mim... Parece que só eu estou vivo no fim das contas. Isso não é... Engraçado? – Naruto emendou uma gargalhada alta e sádica obrigando Sasuke a hesitar em continuar a tocá-lo. O Uchiha levantou-se e fitou outra vez o corpo.
–Quem te prendeu aqui, Naruto?
Seu sorriso diminuiu.
–Sabe por que aqueles sennins não conseguem me controlar? — o moreno esperou a resposta — Porque eu os odeio por matarem os meus pais.
–Mataram os seus pais? — ele arqueou uma sobrancelha e fitou as três pessoas perdidas entre o emaranhado de correntes.
–Sim... — Naruto tossiu novamente — Sacrificaram os meus pais para selar a kyuubi completamente em meu corpo e assim controlá-la através das correntes de minha mãe. — por isso que Sasuke não fora ferido por elas: eram as correntes de chakra corrompido de Kushina — Duas vidas por duas vidas... Meu pai por Kura-sama... Minha mãe por mim... Foram mortos contra a própria vontade... — outra tosse seca — Ter a sina condenada é foda'ttebayo...
–Por que eu não sofri nada, Naruto?
–Adivinhe... — ele sorriu.
–Por que eu sou o filho incrível dos meus pais, que despertou misteriosamente os poderes do sharigan, levando a níveis inimagináveis, ao ponto de ter entrado em coma em algum momento da vida, depois de atos admiráveis de bravura e poder?
–E ele acaba de ganhar todo os prêmios! — brincou Naruto, quase perdendo o pouco fio de voz que tinha.
Sasuke continuou analisando o corpo de Naruto.
Algumas correntes tinham ganchos presos na pele do dobe, esticando-a quase ao ponto de ela ceder. Outras tinham pontas afiadas que traspassavam o corpo de Naruto, cravando-se no chão logo abaixo ou em rochas próximas. Sasuke suspirou e puxou sua katana.
–Tenho a sensação que esse é o momento em que o herói dá uma guinada na vida de um pobre coitado... – Naruto ainda ria – Diga-me, Sasuke, como consegue sentir algo por um monstro? Ainda pode gostar esta criatura que perdeu a própria alma?
Sasuke sorriu e embainhou a katana.
Ainda poderia sentir algo por Naruto?
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