Outra História: e se...
22 Um dia na vida de Sasuke
Notas iniciais
Ninguém concordara com sua atitude, mas ali estava Sasuke, recolhido sobre um banco de alto de madeira, fitando o corpo inerte de Naruto fitar o teto inconscientemente. O dia já raiara e o Uchiha não se permitira dormir, apesar de ter cochilado alguns minutos abraçado ao corpo do loiro, manteria sua vigília até seu dobe voltar. Estava sumamente retribuindo, pois o próprio já cuidara do moreno em diversas situações: nas três vezes em que ficara cego, quando colapsara por causa do selo em seu pulso, ou quando eles lutaram contra o javali. Devo-lhe tanto, pensou Sasuke admirando o rosto sereno de Naruto.
O vento frio da manhã soprou levemente as cortinas e os lençóis.
Estava em casa e na companhia de seu dobe, era quase um sonho realizado.
Fitou o criado-mudo ao seu lado. Sua mãe fora lhe deixar o café da manhã e fazia de tudo para que o marido não entrasse no quarto e começasse uma briga com o filho caçula. Sasuke riu bobamente: tinha sua mãe de volta, uma boa notícia em meio aquela loucura toda. Foi até a cama com a bandeja e serviu-se, observando se Naruto reagia. Nada.
Da forma que o trouxe e deitara na cama, Naruto estava há dois dias deitado ali. Sasuke fitou o pescoço e os ombros descobertos, pois o loiro estava sem camisa, acabou por enrubescer sutilmente as bochechas. Havia marcas de seus beijos, seus chupões e suas mordidas pela tez bronzeada. É, ele se aproveitara da situação.
–Desculpe usuratonkashi... Não pude resistir – falou mirando seu próprio reflexo na xícara de café – Eu achei que se tentasse algo você acordaria, mas nem se quer um gemido você soltou... Desculpe dobe, mas enquanto você estiver aqui eu vou fazer isso. – ele levantou o rosto e sorriu envergonhado – Mas não se preocupe! – dizia mais a si mesmo do que a Naruto – Eu não vou passar do umbigo, ok? O limite é o selo de trigrama!
Tomou um profundo gole de café e abocanhou uma torrada. Sorriu, recordando-se da conversa que tivera com Kurama na noite anterior.
o/ o/ o/ o/
“Boa noite, Uchiha-safado de meia tigela de ramen!” – um riso grave e macabro ecoou por toda a sala inundada. Sasuke volteou-se, girando nos calcanhares, procurando entender onde estava e como chegara ali. Num segundo estava lambendo avidamente um dos mamilos de Naruto, enquanto masturbava a ambos os membros em sua mão, no outro estava de pé num lugar estranho. Fitou dois portões gigantes atrás de si. Gigante é pouco para medir a imensidão infinita que aqueles portões tinham.
“Onde estou...?” – murmurou para si.
“Na minha casa” – simplesmente a voz respondeu.
Sasuke fitou mais uma vez o alto. Dois olhos vermelhos lhe fitavam atrás de um enorme sorriso de dentes afiados. Caiu sentado na água. Era a Kyuubi.
“Kyuubi?” – indagou levantando-se.
“Sou tão assustador que você caiu, koso!” – outra risada – “Acredito ter surpreendido você...”
“Com certeza” – o moreno sorria. Era a primeira vez que estava nas profundezas da mente de Naruto. Parecia um infinito e escuro porão inundado e cheio de tubulações de água. “Então é aqui que você fica... Incrível que algo assim exista dentro do dobe!”.
Kurama apertou o olhar e aproximou-se de uma estranha luz que vinha de um teto que parecia não existir. Exatamente como muito dos retratos que vira era a raposa, no entanto de aterradora não tinha nada, na verdade tinha ares tranquilos e até, de certa forma, simpáticos. Na ponta de cada cauda, existiam aros dourados semelhantes aos que carregava Naruto em seus pulsos e em seus tornozelos.
Sasuke fitou onde deveria estar o teto e a luz: um globo azulado de chakra flutuava acima de sua cabeça e da de Kurama, engaiolado em tubos de ar metálicos. Tinha o aspecto mesclado: meio aquoso, meio gasoso, porém em um tudo ligado ao globo, pingava um pouco daquele chakra, uma gota a cada minuto em uma balança flutuante.
“Diga-me, koso, quando vai parar com isso?” – a raposa o tirou de suas reflexões.
“Parar com o que?”
A kyuubi riu, abaixando-se até que seu focinho ficasse na altura do rosto de Sasuke.
“De iludir Naruto. Envolvê-lo com seus sentimentos não vai salvá-lo de nada, nem diminuir a dor que ele carrega no peito. Há muito tempo decidi parar de odiá-lo e tornar-me parte do garoto, depois de ser comovido pela situação vazia dele, achei que poderia ajudá-lo a escapar da escuridão, no entanto... Seu mergulho foi ainda mais profundo!” – as caudas se moviam lentamente no ar, conforme a boca se movia para cima e para baixo.
“Eu não estou iludindo o dobe.” – falou rispidamente, sem deixar se abalar pelo tom perigoso que o outro demonstrava – “Não existe ninguém, nem nunca existiu nessa Terra, que o ame semelhante a mim!” – gritou – “Antes eu achava que era só uma obsessão, mas agora eu sei que é amor de verdade, pois eu não consigo ver um futuro em que Naruto não esteja nele!”.
Kurama se levantou e escancarou a boca.
“Se o ama de verdade, deixe-o, Uchiha!”.
“Nunca, kyuubi!” – Sasuke ativou seu sharingan e encarou profundamente a raposa – “É por causa desse garoto que eu tenho esses olhos! É por causa desse garoto que eu enfrentei o homem mascarado!” – ele cobriu parcialmente o rosto com a mão e seu olho vermelho intimidou o outro – “Não posso deixá-lo, ele é meu único amigo...”.
Kurama voltou a se deitar e sorriu sinceramente, perdendo toda a cara carrancuda.
“Eu sei...” – riu.
“E por que me pede para deixá-lo?” – Sasuke cruzou os braços, sem entender.
“Apenas queria saber o há em seu coração... Mas eu já sabia desde que Naruto selou seus poderes que os dois ficariam juntos, de um jeito ou de outro. Eu decidi ajudá-lo.”
“Com?”
“Ele.”
Sasuke apertou o olhar e como um soco em sua mente entendeu.
“Não me diga que...” – Kurama assentiu. Sasuke sorriu abertamente – “Você é realmente gentil, Kura-chan!”.
Uma veia saltou na testa da raposa.
“Só o Naruto tem direito de me chamar de Kura, seu idiota pervertido! Ouse me chamar assim novamente e todas as vezes que tocar em Naruto eu vou sugar seu chakra até você morrer!” – o moreno riu da face atordoada que a Kyuubi exibia. A raposa se emburrou de vez e se recolheu entre suas caudas – “Pelo menos o Naruto me chama com respeito...”
O outro continuou a fitar aquele corpulento ser se mover lentamente diante de si, até que se recordou do atual estado de seu dobe. Era melhor revelar, antes que o pior aconteça.
“Kurama.” – iniciou Sasuke. Uma cauda levantou e mostrou o olhar curioso da raposa – “Você sabe que Naruto tem medo de fantasmas e que estávamos em uma missão envolvendo a gravação de uma novela, certo?”.
“Hm. O que tem uma coisa com a outra?” – a raposa voltou-se completamente para o Uchiha.
“Numa noite, depois de derrotar um bocado de nukenins contratados para matar a atriz principal, que também é princesa do País da Neve, Naruto foi pego de surpresa...”.
“De surpresa? Isso é novidade... Surpresa pelo quê?”.
“Gravaram uma cena de terror com ele, porém se esqueceram de avisar ao dobe... Acontece que” – Sasuke respirou fundo, tomando coragem – “Fizeram a cena muito realista e Naruto acreditou estar sendo atacado por fantasmas de verdade.”
Silêncio.
“Naruto desmaiou de medo e está de coma.” – falou logo. Kurama arregalou os olhos e quase derrubou os portões num ataque de fúria.
“COMO PODE DEIXAR ISSO ACONTECER COM O MEU NARUTO, SEU FILHO DA PUTA!!!!”
“PRIMEIRO, ELE É MEU! SEGUNDO, NÃO FUI EU! TERCEIRO, EU NÃO SABIA, PORRA!!!” – Sasuke esfregou os cabelos com força – “Eu quase matei todo mundo depois que descobri que era só uma encenação! Eu temo, Kurama, pelo Selo Mestre...”.
A raposa assentiu lentamente.
“Entendo... Vou fazer o que puder para diminuir as ações das chaves, mas faça o possível para ele acordar. Precisamos dele consciente.”
“Tem razão.” – Sasuke suspirou, recobrando a calma – “Por sorte ele está começando a reagir aos meus estímulos. Ele come, bebe, toma banho, faz várias coisas quando eu peço, às vezes eu o vejo fechar os olhos e depois abrir. Só queria que não demorasse tanto...”
“Só irá demorar por causa da quantidade de processos que Naruto acumulou no próprio corpo... Sabe do que falo. Se houvesse acontecido com você, seria de igual ou pior. Não se preocupe, não por agora, manterei as coisas tranquilas aqui por dentro.”
“Obrigado, Kurama.”
“Não faço por você, faço pelo Naruto.”
“Eu sei...”
o/ o/ o/ o/
Sasuke levara Naruto para dar um volta pelo complexo. Conseguira fazer o chunnin caminhar sendo guiado para todos os lados e quando soltava sua mão, ele parava. O moreno passava horas em companhia do loiro, pois ninguém, além de Sasuke, sabia exatamente o que estava acontecendo. Nem mesmo Tsunade.
Ele o observava pelo canto do olho. Era estranho vê-lo daquele jeito, sem se manifestar nenhuma palavra por estar caminhando de mãos dadas com Sasuke. Ainda sim, Sasuke sorriu. Sentia-se como um casal com ele.
Num ato veloz, beijou suavemente os lábios de Naruto e aos poucos aprofundou o beijo, empurrando sua língua para a cavidade quente. Não houve reação por parte do loiro, mas não conseguiu parar o ósculo, queria mais daquele sabor, mais daquela boca. Abraçou possessivamente a cintura do dobe e encheu suas mãos com as nádegas macias dele. Suspirou profundamente, excitado. Soltou-o para que pudesse respirar e o dobe também.
Fitou-o com intimidade e voltou a caminhar de braços dados.
–Então Naruto – ele o sentou num banco e Sasuke olhou para ele – Eu tive que adiar todos os meus planos por sua causa... Ainda tenho umas pessoas para matar, mas eu estou fazendo esse sacrifício por você – ele sorriu. O jovem Uzumaki continuava inexpressivo. Sasuke suspirou e sentou-se ao lado dele – Quem eu estou querendo enganar... Faria qualquer coisa por você, apesar de não poder fazer de tudo levando em consideração meu “status”. Queria nunca ter nascido Uchiha nem me tornado herói dessa vila, aí eu não teria tantos problemas para ficar com você... Poderíamos viver sem sofrer...
O vento soprou os cabelos dourados, chamando a atenção incondicional de Sasuke. Seu dobe talvez fosse a criatura mais linda que seus olhos já haviam contemplado. Sorriu com sinceridade, sentindo o rosto se aquecer. Sasuke esfregou rapidamente os cabelos e tentou conter o rubor: estava agindo como um adolescente no primeiro encontro! Que bobagem, ele um ninja incrível não poderia estar agindo assim.
–Esquece o que eu disse, Naruto. Se eu não fosse um Uchiha e não tivesse me tornado um herói, talvez eu jamais pudesse andar ao seu lado. Ninguém iria permitir que isso acontecesse – virou cuidadosamente o rosto do garoto para si. Nada, nem mesmo um piscar foi esboçado – Fico feliz que esteja em minha vida – murmurou selando levemente um beijo de carinho.
Como se os instintos naturais de proteção estivessem impregnados pelo seu corpo, Sasuke sentiu alguém se aproximar repentinamente. Só teve tempo de perceber quem chegava. Arregalou os olhos ao ver o punho envolto em chakra que se chegava velozmente e um rosto enfurecido de uma garota de cabelos rosa surgir logo em seguida. O punho acertou o queixo de Naruto em cheio e o fez subir alto. Sasuke ficou estático.
Sakura riu, triunfante e depois mirou Sasuke boquiaberto encarando o vazio.
–Sasuke-kun? – ela sentou-se onde antes estava Naruto – Tudo bem?
–O que você fez...? – ele murmurou.
–Eu não consigo acreditar que Naruto se aproveitou da sua boa vontade só para lhe beijar! Que garoto mais nojento! Eu achando que ele realmente estava mal quando na verdade ele estava só se aproveitando de você!!! – ela apertou o punho – Ele me deixa tão shanaro!!!
–Mas por que, Sakura? – Sasuke a mirou com incredulidade. A garota enrubesceu.
–Bom... Sasuke-kun... Eu amo você! Desde os primeiros dias em que éramos colegas de academia! Bem mais que qualquer uma! É sério! Eu te amo de verdade! – falou depois de muita coragem – Eu sei que talvez o dia que você corresponda os meus sentimentos nunca chegue, mas eu preciso tentar mesmo assim... – Sakura levantou o olhar e não encontrou nenhuma expressão no rosto polido do outro.
Sasuke suspirou, imaginando com quanta força ela havia socado Naruto.
A garota voltou a baixar o olhar. Não tinha jeito. Ela não podia entender o coração de seu amado. Apaixonara-se por um personagem criado só para si, pois aquele Sasuke que com ela conviveu não era o mesmo Sasuke que ela via agora, o verdadeiro Sasuke, que só aparecia quando alguma situação envolvia Naruto.
–Desculpe-me Sasuke-kun, eu não vou...
–Entenda uma coisa Sakura. – Sasuke começou, fitando um jardim na sua frente – Não sei que tipos de sentimentos eu tenho por Naruto, também não sei o que ele sente por mim, na verdade eu e ele nunca entendemos coisa alguma sobre nós. – Sasuke sorriu. Sakura se assombrou: era a primeira vez que o via sorrir sem ser por deboche – Então não espere muito de nós nesse aspecto... Por alguma razão Naruto pode absorver ódio como uma esponja e carrega tudo sozinho, sofrendo em silêncio, enquanto todas as outras pessoas são felizes. Não posso sentir esse ódio fluindo pelo corpo dele, mas posso vê-lo e sei o quanto é torturante viver desse jeito...
–Mas ele é... o Odiado... Não é justo que ele sofra?
–Por quê?
–Bom... Ele quase destruiu o clã Uchiha e nossa vila! – falou com convicção.
–E há quanto tempo isso aconteceu? – Sasuke a fitou com a certeza de que daria um xeque-mate. Sakura pensou e contou, mirou-o e antes que pudesse responder o moreno assentiu – 10 anos. 10 anos sendo odiado e repudiado por uma população inteira... Não, população não, um mundo inteiro e por quê? Por algo que não foi culpa dele.
–Como assim?! – ela se exaltou – Todo mundo sabe que foi ele!
Sasuke se levantou. Um pressentimento lhe dizia que algo ruim iria acontecer com a jovem rosada. Não era mortal, mas era perigoso.
–O que todos sabem é que ele atacou e matou, mas ninguém sabe que ele estava sendo controlado por alguém... Por um Uchiha poderoso. – a garota ficou boquiaberta – Um homem com tanto poder quanto meus pais poderiam ter, que desejava o fim do nosso clã por negarmos os planos maléficos dele. – Sasuke sorriu – Imagine sua vida destruída por um homem que pertence ao clã mais respeitado pela vila, você ser julgado, castigado amaldiçoado por um crime que não fora sua culpa e viver sozinho, às margens da sociedade... Imagine tudo isso na mente de uma criança de cinco anos... Como você se sentiria?
Ela não sabia o que responder. Sua vida era boa demais para lhe permitir pensar em algo do tipo. Tinha pais que lhe amavam, tinha amor, tinha amigos, tinha casa, enfim, tinha uma vida feliz desde que nascera. Mas Naruto. Só conseguia imaginar um fundo negro como sua vida.
–Sakura.
A rosada fitou o outro. Ele sorria sadicamente fitando o alto. Os orbes negros brilhavam de satisfação quase que sensual. Ela fitou a direção e notou que algo se aproximava.
–Sinto muito em lhe dizer isso, mas... – Sasuke fitou-a, ainda sorrindo como um palhaço macabro. A kuinochi sentiu um gélido arrepio percorrer-lhe a espinha – Você está ferrada!
Um corpo atingiu o jardim, fazendo flores e grama voar para todos os lados. Ela se levantou, percebendo o chakra do corpo. Um par de oceanos furiosos lhe encarou. Sakura sentiu em seus ossos o medo que uma presa sente ao ver seu predador.

Fale com o autor