Notas iniciais
Vou lhe dar um agrado: um capítulo mais light. Espero que continuem, porque não tem mais volta.

O furdunço por causa da tragédia na escola tomou de conta de Konoha. Já fazia quase dois meses e ninguém descobrira o autor nem das explosões, nem dos assassinatos. Os alunos assistiam aulas num prédio provisório. Muitos acusavam o clã Uchiha, outros davam a autoria às vilas inimigas, mas Danzou, sentado em seu escritório, sabia quem tinha sido o culpado. Castigou severamente seu esquadrão por permitir que tamanho erro fosse cometido.

Enquanto isso a vida seguia normalmente em Konoha.

Naruto retornara de mais uma de suas estranhas viagens, desta vez fora até a fronteira de Konoha com o país do Arroz, no Vale dos Mortos, e estava se preparando para ir à escola. Iria ser apresentado a uma nova turma, supostamente mais avançada que anterior. Prometeram que nessa nova turma ele iria aprender técnicas importantes e cruciais para seu crescimento ninja. Não acreditava nisso, aliás, nunca acreditou em nenhuma promessa vinda dos altos escalões de Konoha.

Olhou-se no espelho, depois de um longo banho.

O corpo ainda era de uma criança, mas as cicatrizes eram de um adulto, fazia questão de mantê-las para lhe lembrar de seus propósitos e de que, no fim das contas, era tão humano quanto qualquer outro. Suspirou e começou a enfaixar a mão cortada. Não importava aonde fosse, nunca fora bem recebido, sempre havia aqueles que queriam extinguir sua vida, então aprendera a se defender precocemente.

Ao terminar, olhou-se mais vez. Seu cabelo precisava de um corte e era urgente. Olhou para o relógio: tinha duas horas antes de sua aula começar. Puxou um banquinho, sentou-se e com uma tesoura começou a aparar seu cabelo. Chorou. Queria uma mãe para fazer isso, mas não tinha. Era malditamente solitário.

Limpou o quarto dos loiros cabelos caídos pelo chão e foi deitar-se um pouco.

Sua casa só tinha dois cômodos, mas era sentia-a grande demais quando chegava de suas viagens. Sorriu, notando os brinquedos espalhados pelo chão. Era uma criança, que gostava de carrinhos e bonecos. Adormeceu ao som do assobio do vento na janela.

Acordou com o despertador e foi se preparar para a aula. Nem sabia o que levar. Deu de ombros. Não levaria nada. Vestiu uma camiseta laranja com o símbolo de seu clã e uma calça preta até os pés, cobrindo seus calcanhares, olhou os braceletes e as tornozeleiras: quando conseguiria ativá-los, tal como prometera um velho senhor, da extinta País do Redemoinho? E o que aquelas joias podiam fazer? Deu de ombros.

Esfregou o rosto sonolento e bebeu um copo quente de leite. Rumou.

Com as mãos atrás da cabeça via as pessoas desviarem de seu caminho. Sorriu. Todos lhe odiavam tanto que se quer queriam andar no mesmo lado da calçada que ele. Rápido chegou ao prédio. Vamos ver quem são os meus coleguinhas.

Entrou nos corredores, seguindo a indicação que o hokage lhe dera e encontrou facilmente sua sala. Antes de entrar se pegou em um dilema: seria o típico aluno bobão, o aluno indiferente, o aluno discreto ou o aluno misterioso. Seria o de sempre: cheio de mistérios, mas chamaria tanta atenção que chegaria a ser irritante.

Abriu a porta lentamente e olhou pela brecha.

A aula havia começado. O professor fazia a chamada. Empurrou-a devagar e entrou sem cerimônia. Sentiu o silêncio pairar no ar.

Oh droga, deve está todo mundo me olhando agora. O peso dos olhares irritados caiu em seus ombros na medida em que os murmurinhos iniciavam.

–É o aluno novo? – falou o professor. Naruto se virou e assentiu – Apresente-se.

–Olá! – falou alto – Meu nome é Uzumaki Naruto’ttebayo!

Silêncio. Naruto fechou a cara. Podia ter completado dizendo para todos irem se ferrar se não gostassem dele. O professor disse se chamar Iruka e lhe indicou um lugar para sentar. Começou a ir quando sentiu uma mão puxar sua camisa. Fitou quem o fizera com raiva, mas logo desfizera o nó na cara: era seu bom amigo. Sasuke apontou uma cadeira vazia ao lado dele e Naruto sentou. Menos mal, pelo menos teria alguém para conversar.

Saldo do dia: um bom começo, comparado aos outros começos.

No dia seguinte o loiro chegou mais cedo. Lá fora Naruto sentar-se ao lado de seu amigo quando notou um grupo de meninas brigando aos gritos perto do moreno. Coçou os cabelos. O que Sasuke aprontara? Fitou o menino entre o amontoado de meninas: ele estava quieto com os cotovelos apoiados na mesa e com as mãos cruzadas diante da boca.

Aproximou-se e sentou-se. Mal encostara a bunda e as reclamações começaram.

–Esse lugar é meu! – gritou uma.

–Eu é que vou sentar ao lado do Sasuke-kun! – gritou outra.

–Saia já daí, menino nojento! – gritou uma loira chamada Ino.

–O Sasuke-kun é meu, saia daí! – gritou uma menina de cabelos rosa.

Continuaram gritando, jogando bolinhas de papel no garoto, que unicamente baixou a cabeça entre as mãos e começou a contar. Iria explodir se o professor não chegasse logo. Elas não paravam. Fitou Sasuke por baixo do braço, ele nem dava importância, como se elas nem estivessem ali. Pela outra brecha do braço fitou as meninas. Irritantes.

Apertou os punhos. Vou explodir e é agora.

Naruto levantou-se repentinamente e observou uma das meninas, a mais próxima a ele. Agarrou os cabelos dela e deu-lhe um forte puxão, fazendo-a gritar. As outras se afastaram, assustadas, levando a colega consigo.

–Se... – murmurou – Se simplesmente pedissem por favor eu sairia sem nem olhar para a cara nojenta de vocês... – o loiro caminhou para a porta – Não vou fazer caso de um lugar nessa porcaria de sala. – bateu com força a porta, sem notar que quase esmagou o nariz de Iruka.

Quando o professor foi abrir a porta para descobrir o que acontecera, deparou-se com a face irritada de seu mais mal-humorado aluno pedindo licença para sair de sala. Nem respondeu, pois Sasuke já fora abrindo passagem. O que aconteceu?

Deixou seu material na mesa e foi atrás de seus dois alunos fugitivos. Os encontrou sentados na escadaria de saída do prédio. Quis falar, mas eles conversavam.

–Não se irrite a toa, Naruto, meninas são esquisitas mesmo. Ficam gritando sem motivo... Eu mesmo tenho que aturar elas me enchendo o saco quase todo dia! – ele cruzou os braços e observou o outro, que estava com a cabeça jogada para trás – Não ligue para elas.

–Por que elas têm que ser assim? Eu nem disse nada! Nem fiz nada contra elas! Você viu o que fizeram! Ai, como eu fico irado! – Naruto imitou a pose de Sasuke.

O outro riu.

–Esqueça – apoiou uma mão no ombro do loiro – Mamãe me disse que meninas são assim mesmo quando gostam de um menino. Elas ficam esquisitas, tentando fazer de tudo para chamar atenção... Mamãe me disse que isso se chama... – Sasuke pensou, Naruto viu o esforço do menino em se lembrar – Ah! É algo como Peixonite.

–Peixonite?!

–Sim, peixonite! – assentiu Sasuke, convicto do que dizia.

–É muito perigoso?! — Naruto arregalou os olhos. Que doença de nome mais esquisito. Nunca ouvira de algo tão absurdo como aquilo na vida. Devia ser algo raríssimo.

Sasuke tornou-se sério, como se falasse de algo realmente grave.

–Mamãe disse que a peixonite pode pegar em qualquer um e faz a pessoa fazer coisas estranhas! Como seguir os outros, ficar retardado, ouvindo música melosa, sem dormir de noite, sem conseguir comer direito, e ainda tem vontade de... – Sasuke engoliu em seco e baixou o tom de voz, como se fosse contar um crime – Beijar!

Iruka tapou a boca com as mãos para não rir.

–Ergh! Que nojo’ttebayo! Deus queira que eu nunca pegue essa tal de peixonite! – ele se arrepiou. Sasuke concordou veementemente.

–O problema é que não tem como escapar da peixonite! – confessou Sasuke – Mamãe me disse que tem uma época na vida da gente que a peixonite pega todo mundo que nem gripe no inverno! – Naruto engoliu em seco. Iria pegar a pior doença de todas e nem tinha como escapar – E o pior de tudo é que não tem cura!

Naruto gritou desesperado com as mãos puxando o cabelo. Essa peixonite o assustava mais que um exército de ninjas nukenins. Não queria adoecer de peixonite.

–O que se faz para não pegar peixonite? – choramingou o loiro. Sasuke suspirou.

–Não sei... Nem mamãe sabe... Ela já teve peixonite...

–Mas você disse que não tem cura. Como é que ela já teve?

–Bom, ela teve quando era mais nova, porém mais velha que a gente, e disse que os sintomas diminuíram depois de um tempo, quando ela se acostumou com a peixonite. Depois disso nunca mais teve crise de peixonite.

Naruto estava petrificado.

–C-Crise... De peixonite? O que’ttebayo?! – ele se desesperou novamente.

–É o estágio mais assustador da doença – Sasuke fez uma cara dramática – Você não dorme, nem come, nem bebe, nem vai no banheiro, fica parecendo um fantasma, andando pelos cantos arrastando os pés — ele mexeu os dedos, assustando ainda mais o loiro – Fica chamando por uma pessoa, que nem um morto vindo do além, sem sair de casa!

Sasuke fitou o outro. Desmaiara de medo e jazia com a alma saindo da boca. O menino começou a rir sem controle, derramando lágrimas de alegria, pois sabia que o seu pequeno amigo tinha pavor de trovões e, principalmente, de fantasmas. Coitado.

Iruka riu.

Peixonite? Os dois meninos debatiam sobre o amor como se fosse uma perigosa doença. E não seria? Ela fazia o coração doer, causa insônia, provocava choro e exaltação repentina. Talvez fosse a única doença que qualquer um queria ser contaminado pelo menos uma vez na vida. Fitou os dois meninos. Sorriu. Talvez eles já estivessem com peixonite e nem sabiam, o tipo mais forte de todos: o que dura para sempre.

Foi chamá-los. Tinha aulas para dar e hoje ensinaria um jutsu novo. Era de suma importância que aqueles dois estivessem presentes. Fora exigência pessoal do hokage. Eles foram sem grandes demoras e se divertiram tentando assumir a forma do outro, pois o jutsu era o de transformação. Iruka sentiu-se bem ao ver que pelo menos eles tinham um ao outro.

Veio à pré-adolescência e eles se engalfinharam, mudando completamente a opinião de Iruka.

Notas finais
Já tiveram peixonite?