Outra História: e se...
4 Durante o teste do Espantalho
Notas iniciais

Os outros já haviam se escondido na floresta ao redor do centro de treinamento, mas ele simplesmente se abaixara, se sentara e abraçara os joelhos. O homem com a bandana cobrindo o olho esquerdo lhe observava com curiosidade. Não queria perder seu tempo ali, não mesmo. Tinha um importante pergaminho para desvendar em casa, mas a personalidade suja, atrapalhada e completamente idiota exigia que ele cumprisse aquela tarefa.
Fingiu pensar. Levantou-se desajeitado e jogou aleatoriamente uma kunai. Dane-se aquela brincadeira toda. O jounnin desviou facilmente do ataque. O outro disparou para a mata, fingindo fugir dali desesperadamente. Diminuiu a velocidade, imaginando que o “sensei” não perderia tempo com um patético aluno que se graduara de raspão. Caminhando tranquilamente, com as mãos atrás da cabeça, se perguntou de estaria tudo bem com seus supostos colegas de equipe. O espantalho era dureza, sabia disso.
Lembrou-se de que ainda estava com aquele símbolo patético de união amarrado na cabeça. Retirou sua bandana e a lançou para trás, sem o menor interesse. Repentinamente ela retornou, atingindo sua cabeça com força, pegou-o despreparado. Fitou o caminho atrás de si. Lá estava ele. O moleque arrogante de sua equipe. O bonitão, o gostosão, o queridinho das meninas. Seu rival. O maldito era malditamente igual em todos os níveis que ele, extraoficialmente falando, já constatara com constante observação.
Na academia, ele fizera questão de ser o pior da turma, para esconder seus planos, porém mal sabia que havia alguém com capacidade o suficiente para descobrir sua farsa. Quis odiá-lo no momento que tomou conhecimento disso, mas não conseguiu, aliás, não consegue até hoje.
–Por que não volta, dobe? – sussurrou cruzando os braços. O outro lhe fitou de cima a baixo. Encostado de braços cruzados na árvore o deixava ainda mais arrogante.
A bandana amarrada levemente em sua testa, um atípico colar/amuleto com uma pedra em espiral, a camisa azul de mangas longas, cujo leque da repressão se encontrava nas costas, sobressaltava seu corpo esguio, calças negras até os pés com umas das pernas carregando seu estojo de kunais, e calçados negros, completando a “obra”.
Para ele não precisava fingir. Simplesmente negou e deu as costas, voltando à caminhada.
–Sakura está em perigo e esse teste é de sobrevivência em equipe. Vai desistir fácil assim? – o outro deixou um meio sorriso escapar ao observar o corpo do que partia tremer, incitado pelo sentimento de desafio. Uma camisa preta lisa, com mangas até os cotovelos, enfiada num macacão absurdamente laranja abotoado só de um lado e descalços.
O único toque especial que havia ali eram os acessórios: braceletes e tornozeleiras de ouro em seus pulsos e pés, além dos três brincos de ouro na orelha esquerda. Bem curioso para um gaki de doze anos de idade mais baixo que ele.
–Não vai voltar? – insistiu. O outro parou e o encarou com uma cara irritada exagerada que só provocou risos no primeiro. Não gostava da insistência dele.
–Você pode cuidar dele sozinho, então vá embora, teme! – rosnou. Esticou suas mãos para o alto e acomodou-as atrás da nuca. Voltou a caminhar.
–Vai estragar o seu disfarce, sabia? – lançou, desencostando da árvore e rumando de volta – É melhor voltar, se não já era.
Ele tremeu de raiva. O outro tinha razão e odiava quando o outro tinha razão. Buscou sua bandana, apertou-a na cabeça e voltou correndo para a clareira, bem a tempo de acertar um chute na cara do seu futuro sensei que atacava a menina.
O homem voou contra uma árvore. Mal teve tempo de levantar o rosto para descobrir quem lhe atingira e recebia no corpo uma ardente bola de fogo explosiva. Usou rapidamente um jutsu de substituição e se afastou dali. O hokage não lhe avisara que os dois meninos eram tão bons, imaginava que o herói da vila seria, mas o outro? Os índices da academia dele eram baixos demais da média. Será que o hokage sabia disso?
Os dois meninos, de costas um para o outro com a jovem Sakura no centro machucada, procuravam o espantalho com o olhar.
–Está vendo o espantalho, teme? – sussurrou um.
–Não... E não me chame de teme, dobe. – retrucou o outro.
–Então pare de me chamar de dobe, teme – ele riu. Sasuke só pode deixar correr um sorriso. Concentrou-se de olhos fechados por alguns segundos. Aprendera brincando a ser um bom rastreador de olhos fechados. Quem lhe ajudara? O seu dobe. Sim, o seu dobe. Procurava pelos rastros de chakra do sensei.
O outro esperou. Com o nariz no vento, esperou silenciosamente uma resposta olfativa. O professor é bom, pensou, se escondeu bem. Saiu de sua posição de defesa e devolveu a kunai que segurava para o seu respectivo dono. Os dois ocuparam-se em observar a garota visivelmente abalada abaixada diante deles.
–O que acha que aconteceu com ela? – murmurou Naruto, pondo as mãos na cintura.
–Genjutsu. Com certeza. O drama que ele fez ante de iniciar o teste a abalou demais e a pegou desprevenida sem sombra de dúvida. – ele cruzou os braços, em sinal de inconformação.
A menina de cabelos rosa levantou lentamente o olhar. Lá estavam eles. Seus salvadores observando-a com curiosidade. Fora difícil lutar com Kakashi até aquele momento, ela sozinha, e se sentiu altamente traída ao ver o rosto sorridente do odiado. Como pudera ser salva por ele? Logo ele! Que fosse ao inferno, pois não ficaria devendo nada a ele.
–Sasuke-kun... – sussurrou timidamente. Amava aquele Uchiha com cabelo semelhante a uma asa de corvo aberta. Se ele ao menos lhe desse uma chance – Obriga... – não teve tempo de completar a fala. Viu o corpo do sensei se agigantar atrás do seu amado. Num impulso se levantou para protegê-lo, mas foi impedida pelas mãos do odiado.
Empurrada para o chão, Sakura serviu de apoio para o poderoso chute que Naruto desferiu no queixo de Kakashi, fazendo-o voar mais uma vez para longe, porém não controlara a força do impulso por ter sido pego mais uma vez desprevenido e acabou subindo alto demais.
Sasuke meneou sarcasticamente a cabeça ao ver o dobe subir até certa altura. Ficou feliz. Teria espaço e fôlego suficientes para seu jutsu.
–Katon! – gritou – Haisekishou no jutsu! – encobriu toda a clareira com uma densa cortina de fumaça – Agora Naruto!
O menino entrou zarpando até o sensei com os punhos cerrados. Sasuke esperou o impacto. Era sua deixa. Ouviu o grito de Naruto e por fim sentiu a terra tremer sob seus pés. Agora. Estalou os dentes e toda a cortina explodiu num belíssimo efeito dominó. Sasuke não contev sua cara de exultação ao ver toda a massa cinza brilhar em chamas rubras. Ativou o sharingan, procurando pelos dois. Apertou o olhar, achara. No mesmo segundo lançou várias shurikens dentro do fogo que crescia e saltou para longe, carregando consigo o corpo atarantado de Sakura. Pousou em um galho e esperou.
Naruto surgiu em sua clássica carreira de bobalhão, rindo abertamente, sacudindo os braços freneticamente no ar. Sasuke aguçou a vista. O filho da mãe conseguira pegar os guizos.
o/ o/ o/
Algumas horas de correria, de trocas de golpes e de surpresas depois Sasuke e Naruto estavam sentados diante da Pedra da Homenagem aos ninjas mortos, comendo concentradamente seus almoços com Sakura. Ao lado dele, sentados ambos em uma espécie de degrau, ela se sentia confortável e especial, ainda que Sasuke não lhe desse uma gota de atenção.
Naruto estava calmo na grama. Fazia tempo que superara seus problemas com as mulheres. Sempre esteve só, então se acostumara com a solidão, a única mulher que lhe queria. Fitou Sasuke com o canto do olho. Estremeceu ao perceber que o outro também lhe observava da mesma forma. Bruscamente desviaram o olhar.
Kakashi surgiu atrás de Naruto e pareceu contente. Tinha uma equipe que sabia agir junta, mas curiosamente não se suportavam entre si. Realmente curioso.
–Então... Não fomos formalmente apresentados – Kakashi sentou-se ao lado de Sasuke e fitou os três – Eu me chamo Hatake Kakashi, serei o sensei de vocês e capitão do time 7. Agora se apresentem! – ninguém falou, o homem pigarreou – Que tal as damas primeiro?
–Pode falar Naruto. – brincou Sasuke, que logo desviou, movendo a cabeça ligeiramente para o lado, dos hashis lançados pelo outro. Kakashi observou os dois finos objetos de madeira cravados na Pedra. Mas o que...? – Não precisava ter feito isso, — continuou, ainda em tom de gracejo – Você se ofende fácil demais.
–Ninguém nunca te mandou ir para o inferno não, oh coisa tapada? – Naruto falou debochadamente. Sasuke assentiu e apontou para Naruto, movendo os lábios silenciosamente “Só você”. Desistiu. Jogou-se para trás e se deixou estar deitado na grama fria.
Sakura observou que a briga cessara antes mesmo de iniciar. Ficara feliz. Geralmente os dois só se acalmavam depois que o sangue começasse a escorrer. Suspirou. Os três a encararam, cada um a seu jeito.
–Eu me chamo Haruno Sakura, tenho 13 anos e moro com meus pais. Eu gosto de... Bom... A pessoa que eu gosto... – estava envergonhada demais para falar sobre seus sentimentos pelo Sasuke – O meu sonho é... Estar com pessoa que mais gosto!
–Certo! – Kakashi tentou parecer feliz, pois sua cara vivia escondida, então ficava difícil – Não gosta de alguma coisa?
–Do Naruto! Definitivamente! – resmungou de supetão.
O loiro soltou um riso curto.
–Fica na fila – comentou – Que é longa pra cace...
–Se apresente então – interrompeu Kakashi. Naruto levantou a cabeça da grama, um pouco surpreso, era a segunda vez que alguém queria saber sobre si. – Fale um pouco sobre si.
Assentiu e sentou-se mais ereto.
–As pessoas me conhecem por inúmeros insultos, os mais comuns são Odiado, Monstro e Sem-jeito, mas meu nome é Uzumaki Naruto, vivo só desde que nasci, tenho 12 anos e gosto de ramen, de pregar peças e de viajar. Nem sei exatamente se existe algo de que eu não goste e não tenho perspectiva nenhuma para futuro – o menino abriu os braços em sinal de término e voltou a se deitar na grama.
–Ok... – Kakashi suspirou. Já era esperado ouvir algo do tipo da boca de Naruto – E para finalizar, você agora – apontou para a cabeça de Sasuke.
–Meu nome é Uchiha Sasuke, existem muitas coisas que eu detesto – ele falou de braços cruzados encarando friamente Naruto, que nem percebia o olhar – E não gosto de nada em particular... Tudo o que eu quero é entender algo que aconteceu na minha vida há muito tempo. Depois disso eu decido o que fazer.
Mais uma vez o silêncio.
Primeira constatação de Kakashi: terei problemas sérios com essa equipe.
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