Outra História: e se...
14 Dois mundos
Notas iniciais

Não fora tão difícil viajar com Jiraya como pensava. Afinal ele mesmo já viajara inúmeras vezes desde o dia que entendera sua condição. Mas tinha que admitir: aprendera muita coisa com seu ero-sennin, como passara a chamá-lo, e o exemplo clássico é de como os homens perdem para o incrível poder que as mulheres tinham. A sensualidade somada ao sexo. Lembrava-se de como Sasuke agia, perturbado por alguma coisa. Os instintos sexuais de Sasuke eram de tais explícitos como os de Jiraya, porém somente quando se tratava de Naruto.
Um dos locais mais frequentados pelo velho sapo, ao longo da viagem, eram os bordéis e lá ia Naruto aprender sobre os três tabus ninjas.
Bebidas, dinheiro e mulheres. Jiraya infringia todos eles. Às vezes Naruto se sentia babá daquele homem, arrastando-o dos bares quando ele já caia depois de altas doses. Às vezes também desistia de ficar seguindo-o a todo instante para bares e bordeis, dando longos passeios pelas cidades onde ficavam. Em compensação os treinamentos eram dureza.
O velho sapo queria realmente que Naruto ficasse poderoso, então lhe ensinou jutsus do estilo fuuton, sendo a mais poderosa técnica delas o Rasengan.
Aprendeu o jutsu em uma noite, quando Jiraya dormia, e decidiu ali, diante da pedra destruída pelo ataque, que iria aperfeiçoar aquele golpe a sua maneira.
Primeiro de tudo seria tentar fazer sem o auxílio de um clone para manipular o vento ao seu redor. Em uma das tentativas acabou acertando acidentalmente o ero-sennin na barriga, causando um estrago considerável. Quase matou o velho. Continuaria tentando, ainda que fosse perigoso, sozinho, longe de todos.
–Hm... Preciso entender a essência desse movimento – falou observando o desenho em espiral esculpido na pedra pelo seu jutsu – Preciso sobressair as fraquezas desse ataque.
Fitou a lua. Ela sorria discretamente. Lembrava-o.
o/ o/ o/ o/
Era angustiante ver o dojo naquele estado. Não, angustiante não era a palavra. Aterrador? Talvez. Inacreditável? Estava se aproximando.
Como conseguira que algo horrível acontecesse daquele jeito? Kabuto limpou as lentes e tentou enxergar o que teria restado: só as paredes, o chão e o teto. Nada mais. No meio do entulho, de madeiras quebradas e de objetos em chamas, sorria um jovem demônio com asas em forma de mãos limpando uma reluzente lâmina.
Orochimaru não pode conter seu riso de incredulidade. Incrível. O jovem que escolhera para ser seu próximo corpo era poderoso a níveis estratosféricos, bem mais do que esperava, e seu desenvolvimento crescia exponencialmente. Destruíra toda sua sala de treinamento em poucos instantes e quase matara seus outros pupilos. Incrível o trabalho que estava fazendo agora o treinando realmente estava rendendo bons frutos.
–Incrível, Sasuke-kun, incrível! – o demônio o fitou e assumiu sua forma humana. Analisou o corpo daquele que o parabenizava. Patético.
–Hm. – levantou-se da pilha de corpos desmaiados que estava sentado e saiu da sala com as mãos nos bolsos. Aprendera a não usar camisa, por causa das inconstantes transformações que sofria sempre que se irritava. Fitou-o pelo canto do olho.
Uma maldita cobra, para resumir seu pensamento.
Entrou em seus aposentos e fitou-se no espelho. Já fazia um ano que treinava e mudara muito pouco. Qual era a razão de seu treino mesmo? Ah sim, ressuscitar e morrer. Sentou-se em sua cama e bebeu um copo de água que estava no alto do criado-mudo.
Os dias eram longos naquele lugar, longos demais.
o/ o/ o/ o/
Jiraya estava terminando de ser costurado pelo seu pupilo. Não conseguia acreditar que o garoto quase o matara por simples vontade. Maldita hora que disse “Com toda a sua força, garoto, eu aguento!”. O enorme rasgão na sua perna esquerda fora feito por um jutsu novo que o loiro estava testando, não tinha nome, somente acontecia quando ele fazia os movimentos necessários para isso. O vento envolvia seus dedos e lhe davam a capacidade de cortar feito navalha. É um jutsu muito útil, pensou Naruto, cortando a linha e colocando as bandagens. Foi até a pia e lavou os lenços sujos de sangue.
Aquilo não condizia com as descrições que o Hokage tinha de Naruto. Não chegava nem perto.
–Naruto... – murmurou – O que você anda escondendo de mim?
–Como assim, ero-sennin? – falou sem dar tanta atenção.
–Eu sei que o que os meus olhos veem é uma mera casca do que realmente você é, Naruto... O que você esconde? Se eu vou treinar uma máquina impecável de matar, pelo menos eu quero ficar sabendo disso, caso eu morra.
Naruto fitou seu sensei e riu da cara de indignação que ele fez.
–De que me vale lhe contar toda a verdade? – soltou lentamente cada palavra, com um rosto que não parecia pertencer ao garotinho sorridente que Jiraya conhecia.
–Eu posso lhe ajudar em seu propósito ou impedi-lo, se for necessário... Como sabe, eu sou o seu... – o homem engoliu em seco – Sou seu padrinho.
–Que só apareceu na minha vida depois de doze anos, quando eu estava no hospital e com meia vida resolvida – falou cinicamente, enxugando as mãos – Não lhe devo explicações... Agradeço seu árduo trabalho em me treinar, mas você não tem o direito de saber de absolutamente nada de antes de nos conhecermos.
–Então me fale de seus planos depois de quando nos conhecemos.
–Quer saber mesmo? – o velho assentiu. Naruto segurou levemente o bisturi e saltou no pescoço de Jiraya, que tentou escapar do ataque, mas não contava com a velocidade do garoto. É mais rápido que o pai, pensou angustiado sentindo a mínima lâmina querer entrar em seu pescoço – Mandar todos arderem no inferno! Uma vez eu disse ao Kakashi que não tenho perspectiva de futuro, porque não há futuro para ninguém enquanto eu viver!
Jiraya estremeceu. Estava diante de um monstro sorridente. O que Konoha fizera a Naruto? O garoto se afastou e colocou o bisturi dentro da caixa de primeiro-socorros.
–Se quer mesmo me impedir de fazer isso... – falou tranquilamente – É melhor me arrumar um objetivo mais grandioso do que esse.
–E o Sasuke? Vai matá-lo também? – indagou.
–Não. Na verdade, esse é um plano que compartilhamos. – ultimou e Jiraya se assombrou – Ele tem tantos motivos quanto eu para dar fim a... Não sei exatamente ao que ele quer dá fim. – deu em ombros – Mas é somente para isso que selamos 90% da verdade na escuridão das nossas mentes. – o velho se levantou e notou o olhar zombeteiro do garoto.
Era diabólico, disso tinha certeza. O que fazer para evitar tamanha catástrofe? Por enquanto nada, pois tinha a sensação que aquele menino poderia matá-lo se quisesse, já que não tinha certeza de tudo que ele era capaz.
–Mais uma coisa Jiraya.
–Sim?
Uma explosão pequena de fumaça contornou o corpo de Naruto e no lugar surgiu uma linda mulher loira de grandes peitos dançantes, com o corpo completamente nu.
–O que acha, hein, seu velho safado? – a mulher gemeu com a voz sensual.
Uma hemorragia nasal derrubou o velho sapo no chão. Dane-se tudo, são peitos!
o/ o/ o/ o/
–Orochimaru-sama! – Kabuto invadiu o laboratório do sennin com urgência.
–O que foi Kabuto?
–Está acontecendo de novo! – o homem arregalou os olhos, largou tudo sobre a mesa e correu atrás do rapaz de cabelos cinza. O que Sasuke estaria fazendo agora?
Encontraram-no eletrocutando uma jovem garota de cabelos vermelhos sem notar exatamente o que fazia. Sasuke parecia dormir de pé, como um sonâmbulo, parado no meio de seu quarto com poucas lágrimas correndo dos olhos. Orochimaru rapidamente fez alguns sinais de mão e tocou o chão.
–Kuchiyose no jutsu! – gritou e uma enorme cobra roxa envolveu o moreno e engoliu parcialmente sua cabeça, fazendo os raios cessarem e a jovem cair no solo. Orochimaru recuperara o fôlego ao notar que os dois estavam bem e que a jovem ainda estava consciente. Foi até ela – O que houve aqui?
Ela fitou o corpo ereto do Uchiha envolvido pela cobra parado, como se nada estivesse acontecendo. Seu corpo latejava de dor e suas pernas tremiam involuntariamente.
–Eu... Eu... Er... Eu só queria ficar um pouco com ele. – confessou.
Orochimaru acertou uma tapa no rosto dela.
–Sua tola! Eu avisei a todos nesse lugar que ninguém, além de mim e do Kabuto, podem chegar perto do Sasuke-kun! Tire-a daqui, Kabuto!
–Sim, Orochimaru-sama.
Os dois saíram. O homem cobra libertou Sasuke do jutsu depois que a cobra o deitou na cama. Continuou observando o moreno por longos minutos: Sasuke não dormia, entrava em um estado de meditação que tinha um sistema de defesa próprio.
Antes, a ser tocada sua pele queimava e as chamas carbonizavam tudo o que estivesse perto, mantendo intacto o corpo, mas com o passar do tempo e com o aperfeiçoamento de suas técnicas do Raiton, passaram a serem descargas elétricas.
O homem cruzou os braços e apertou o olhar. Como poderia assumir o corpo dele, se até inconsciente ele era fatal? Era um problema a ser superado, isso é verdade. O treinamento que ele estava recebendo o tornava mais poderoso, mas ao mesmo tempo mais perigoso. Orochimaru tinha sensação que a qualquer momento seria apunhalado pelo garoto, mas ao mesmo tempo queria acreditar que não passava de sua imaginação. Fechou os olhos, irritado. É óbvio que a qualquer momento Sasuke vai matá-lo.
–Se eu tivesse percebido antes... – resmungou. A natureza assassina do Uchiha fora liberada depois que vira Naruto morrer por suas próprias mãos. Sem mencionar o fato de ter detectado selos desconhecidos espalhados pelo corpo do garoto. Um total de cinco selos, juntamente com o Amaldiçoado que ele mesmo colocara.
Para que serviam? Por quem foram postos? Como podia quebrá-los? Tantas perguntas e nenhuma resposta, tanto poder e nenhum acesso a ele.
–Percebido o que? – Orochimaru piscou com força. Sasuke abrira os olhos e lhe encarava.
–Que você é perigoso consciente e inconsciente.
Sasuke riu, sentando-se na cama. Esfregou os dedos e viu pequenas linhas de eletricidade azul passar pelos dedos. Alguém tentara fazer algo contra ele enquanto meditava. Fitou o homem cobra. Não queria ser pego desprevenido pelo o homem que queria seu corpo.
–São medidas de defesa contra inimigos. Normal. – levantou-se e foi até uma vasilha com água, lavou o rosto e o enxugou – O garoto que eu matei era bem pior. – fitou Orochimaru.
–Como pode afirmar isso se ele está morto agora?
Sasuke suspirou. Realmente aquele homem só conhecia os 10% que eles queriam que as pessoas conhecessem. Não era tão gênio assim, como imaginava.
–Ele dormia, até demais, porém quando era tocado, assumia uma forma de ataque bizarra – Sasuke o fitou – Ele se fundia com a kyuubi e só acordava quando o inimigo estava morto. Se eu o matei facilmente foi porque Naruto sempre relaxou quando estava comigo, pois confiava em mim... Mas em outras situações – ele riu – Não haveria rastros de vida ou de morte.
Orochimaru engoliu em seco e sorriu. Esse era o poder verdadeiro da kyuubi. Não poderia esperar menos dele. Observou mais uma vez o corpo pálido de Sasuke. Havia cicatrizes ali que já existiam antes dele começar o treinamento. Teria sido Naruto o autor? Que profundo oceano é Uchiha Sasuke, profundo e interessante.
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