Eu podia sentir a noite fria me abraçar, era quase duas da manhã e eu comecei a sentir estranha e chocada. A casa parecia vazia, e de alguma maneira estava porque eu conseguia ouvir os grilos cantarem sua melodia solitária.

O telefone tocou alto o suficiente para me apavorar. Hoje era o dia em que minha mãe e meu padrasto estavam em casa, e fazia dias que eles não paravam por aqui, e eu não sabia se estava feliz ou se simplesmente não queria que eles voltassem dos seus terríveis empregos. O segundo toque do telefone me fez querer atender logo, e eu atendi.

– Alô! — afirmei balançando um pouco a cabeça.

– Preciso falar com Luiza Prudence. — a voz do outro lado estava calma e solidária.

Não precisei chamar minha mãe ela estava bem atrás de mim quando chamaram por ela.

– Só um minuto! — passei o telefone pra ela e então seu rosto se transformou em dor.

A dor era algo familiar pra mim, eu a sentia constantemente, mas agora eu sentia algo diferente, algo que provavelmente eu não conseguiria lidar. Meus instintos foram alertados para o que eu deveria chamar de lamentável. Minha mãe desligou o telefone e simplesmente saiu, poucos minutos depois ela apareceu arrumada e pronta pra sair, Paulo estava logo atrás, sem questionar.

Ambos saíram em silêncio e resignados. Algo frio e doloroso se apoderou do meu corpo. Levantei os olhos para o relógio de parede e pude ver a dor e sofrimento refletidos em um pequeno pedaço de vidro. Permaneci em silêncio. Ninguém estava acordado, preferi sentir sozinha toda essa estranheza e dor.