Outono de Cinzas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Minha primeira one-shot.
Espero que gostem! ♥
OUTONO DE CINZAS
Há certos dias que não deveriam existir em nossos calendários. Dias como esse.
Andei apressado pisando nas folhas secas, marca de um outono intenso, até minha velha casa.
Desde o amanhecer eu estava evitando qualquer tipo de contato com meus vizinhos. Mas quando se mora em um vilarejo movimentado, isso se torna algo árduo.
Há certas coisas que deveríamos resistir e não executá-las, como entrar naquela taverna nesse fim de tarde.
Quebrar promessas todos os anos está sendo algo complicado de suportar. Sentei em um banco qualquer em frente às bebidas, logo uma moça morena veio até mim trazendo uma expressão triste em seu olhar.
— Boa noite Sr. Connor, minhas condolências. Ela falou cabisbaixa, sua voz quase não saia.
— Me traga um pouco de vinho, certo? — Pedi rouco.
— Esse será por conta da casa. — Ela sugeriu.
— Não preciso que sinta pena de mim — Retruquei.
Tomei o primeiro copo em um gole só.
Em seguida enchi meu copo várias vezes. O líquido desceu queimando minha garganta e acendendo a raiva dentro de mim.
Levantei sem pagar e sem dizer palavra alguma fui cambaleando até minha residência.
Ao caminho encontrei aquele maldito médico que um dia disse ser meu amigo, Rubben Ohio. A iluminação era péssima, mas consegui ver perfeitamente seu olhar esnobe sobre mim.
— Minhas condolências, caro Harris. — Rubben tirou seu chapéu. — Está bêbado novamente? Sua esposa, que Deus a tenha, não iria gostar de vê-lo nesse estado.
Talvez se você tivesse me ajudado naquela noite eu não estaria assim, pensei sem dizer nada, apenas passei reto.
Ao entrar em minha casa, aquele pó pela falta de limpeza invadiu minhas narinas, me trazendo lembranças de uma casa limpa e alegre. Lembranças de um outono feliz.
Procurei desesperadamente por mais vinho em meus armários. Eu precisava beber até não lembrar nada. Perdoe-me Elizabeth, por não descobrir seu assassino. Por beber para tentar te esquecer.
Não sei se sonhei, sei que do jeito que dormi, acordei. Se algum infeliz não tivesse batido em minha porta desesperadamente, a minha situação sentado ao chão, provavelmente duraria o dia todo.
Atendi com a menor simpatia. Era o informante do vilarejo.
— Rubben Ohio e sua esposa foram assassinados essa noite. O ministro está pedindo sua ajuda no caso. Na verdade, é uma ordem. – O informante gaguejou mostrando a solicitação em papel timbrado.
Sinceramente, desde que Elizabeth se foi eu não consigo me abalar com nenhuma morte. A de Rubben para mim, não fazia a menor diferença. Estranho pensar assim, mas é a minha realidade. Sinto apenas por sua esposa.
Seja lá o que aconteceu com ela, não mereceu.
O Ministro me aguardava na entrada. Muitas pessoas estavam chorando. Pessoas que não mantinham nenhum contato com ambos mortos. Bando de hipócritas.
Quando Elizabeth foi assassinada ninguém se importou. Lembro-me dela agonizando, Ohio não quis ajudar, estava em um jantar que parecia ser mais importante que uma vida.
— Sem lhe faltar com respeito, mas por que eu? — Perguntei cabisbaixo.
— Caro Harris, o senhor já foi o melhor investigador em toda Liseng. Não vejo porque escolher outro. — O Ministro falou enquanto tossia as fumaças de seu charuto.
— Sim... Já fui. Os tempos são outros. Já faz três anos que não consigo resolver nenhum caso, o senhor está ciente disso, não quero desapontá-lo. — Respondi cerrando os dentes.
— Harris Connor, isto é uma ordem. Se não resolver esse caso, será preso, e se depender de mim passará o resto de seus dias na cadeia, ou se preferir, ganhará uma pena de morte. Logo, nunca mais resolverá nenhum caso. — O Ministro Ludgi concluiu após dar um leve tapa em seu informante, para que escrevesse algo representando sua ordem a mim.
Passei pelos dois exibindo um sorriso irônico, estava prestes a entrar na residência do falecido Rubben quando o Ministro me chamou.
— Ah, sinto muito por sua esposa. — Ludgi soltou um pequeno riso exibindo seus dentes amarelos.
Juro que nesse momento minha vontade era puxar ele por aquele colarinho espalhafatoso, e lhe dar um murro.
Sem delongas, entrei logo na casa. Fui à cena do crime e encontrei Rubben e sua esposa, jogados de uma maneira grotesca ao chão. Degolados.
Uma poça de sangue gigante se formava atrás de seus corpos. Senti um leve arrepio correndo por minha espinha. Não me surpreendo que alguém tenha o matado. Uma hora alguém iria cansar de seu jeito mentiroso e interesseiro. Claro que isso não era motivo plausível para um assassinato. Mas convenhamos que suas ações cobertas por mentira causaram muita dor a vários moradores de nosso vilarejo. Aquele típico homem que faz tudo por poder.
O que mais me chamou atenção foi quando me aproximei do braço de Rubben. Estava marcado em sua pele um número, 111. E na mão de sua esposa estava uma pena.
Era um tipo que eu nunca tinha visto em toda minha vida. Era como se ela fosse cristalizada, por dentro parecia estar preenchida de cinzas. Na parte final da ponta
da pena havia resíduos de sangue.
Nesse instante eu tive certeza que o número no braço dele foi escrito com aquela pena.
Quando toquei a estranha pena, ela se desfez em minhas mãos, as suas cinzas voaram em direção à sacada. Por instinto me levantei e fui à direção delas.
Naquele momento jurei que estava ficando louco.
Vi uma mulher de cabelos ruivos em pé nas grades da sacada. Vestia um longo vestido preto com as costas abertas, e nela havia um desenho de asas pretas.
A mulher ruiva virou-se para mim, exibindo um sorriso delicado, virou-se novamente e se jogou.
Senti um arrepio novamente ao vê-la fazendo isso.
Corri, jogando meu corpo contra as grades, jurando que encontraria um corpo estirado ao chão. Mas não.
Em questão de segundos, o que parecia um desenho, se transformou em realidade em suas costas. Ela passou voando por cima de mim com um par grande de asas pretas, deixando cair várias cinzas.
Fiquei boquiaberto. Como poderia alguém ter asas?
Sai da casa do falecido Rubben atordoado. Será que havia sido aquela criatura a assassina de Rubben?
Andei cansado até minha casa. Encontrei na entrada um mandato, me obrigando a resolver o caso.
Sentei em minha varanda, fiquei apenas observando a noite caindo. Há muito tempo eu não fazia isso. Toda minha observação constante ao ambiente foi interrompida quando senti um arrepio intenso, e em seguida parecia que algo sussurrava em meus ouvidos: Os números.
Levantei irritado. Decidi caminhar um pouco. Queria paz, mas não a encontrava.
Passei observando todas as casas, até que me deparei com uma cujo número era 111. Demorei certo tempo para lembrar quem residia ali, Srta. Cathryn Holffman.
Ela se parecia muito com minha Elizabeth, por isso eu não gostava de passar por essa rua, mas com a loucura desse dia acabei esquecendo esse detalhe.
Passei na delegacia local para coletar informações dos últimos assassinatos e seus respectivos responsáveis.
Não tinha muito, mas creio que foi o suficiente.
Quando cheguei a minha casa, encontrei sentada na cadeira preferida de Elizabeth, a mulher das asas.
Tendo em mente ela como assassina, saquei minha pistola e mantive mirada a ela.
— Quem e o que é você?
— Não precisa mirar em mim. Isso não pode me matar. — Ela respondeu vindo em minha direção.
— Ainda não respondeu minha pergunta. — Falei olhando diretamente em seus olhos verdes.
— Estou aqui para te ajudar.
— Matando as pessoas? — Perguntei irritado avançando.
— Não sou eu que faço isso. — A Ruiva tocou minha testa e desapareceu em cinzas novamente, em seguida caí num sono profundo.
No dia seguinte acordei com alguém batendo na porta. Imaginei ser o informante. E acertei.
— O que foi dessa vez? — Perguntei irritado.
— Cathryn Holffman está morta. Foi encontrada do mesmo jeito que Rubben. Todos acham que há uma ligação nesses dois assassinatos. É bom você ir lá. — O informante gaguejou como da ultima vez.
Fui correndo para a residência dela. Estava da mesma forma que Rubben e sua esposa. Degolada.
Agachei-me em frente o corpo, procurando marcas como pistas, qualquer coisa do tipo. Dessa vez não havia nenhum maldito número, apenas algumas penas novamente, dessa vez eram três em volta do corpo de Cathryn.
Assim como da outra vez, quando me aproximei elas se desfizeram em cinzas voando pelo quarto.
Esses acontecimentos estavam acabando com meu psicológico. Fiquei por horas naquela residência tentando encontrar uma ligação entre esses casos.
Fui à janela tomar um pouco de ar quando me deparo com uma multidão em volta do palanque na praça. Em cima estava o informante, que dessa vez estava aos berros apontando para onde eu estava.
— O MINISTRO ACABOU DE SER ASSASSINADO E ALI ESTÁ O RESPONSÁVEL!
No instante em que o informante apontou para minha direção, todos os moradores acenderam suas tochas e se voltaram para mim com olhares furiosos.
Quando me virei em direção ao corpo de Cathryn, diante de meus olhos vi o ambiente inteiro se transformar. Em questão de segundos eu estava dentro da casa do Ministro. Ludgi estava jogado ao chão, assim como os outros, e em minha mão eu segurava uma faca cheia de sangue.
Senti uma forte agulhada em minha cabeça. Fechei meus olhos na expectativa de isso ser um pesadelo. Quando os abri novamente, a mulher ruiva estava a minha frente.
— Foi você! — Gritei indo para cima dela.
— Não Harris. Agora é a hora da verdade, você precisa aceitar!
— Aceitar o que? Por que está fazendo isso comigo? — Choraminguei.
Tudo o que em meu conceito era considerado impossível estava tornando realidade.
Num piscar de olhos novamente o tempo parou. E as únicas pessoas que conseguiam se mexer era eu e a misteriosa mulher.
— Certo Harris. Você precisa aceitar a verdade, é sua última chance.
— Pare de me enrolar!
— Foi você Harris Connor. Você é o responsável por todas essas mortes. E tudo isso aqui, acontecendo agora, é a maneira que você encontra de fugir da verdade, criando uma realidade dentro de sua mente, em que você não seja o culpado.
Quando concluiu sua frase, foi como jogar um balde de água fria em cima de mim. E na verdade eu estava completamente molhado.
— Olhe só para você. Está encharcado. Já começou!
— Pare de falar em enigmas! — Gritei me descontrolando indo para cima da ruiva.
— Cathryn era sua amante. Já faz três outonos... Você bebia descontroladamente, sua esposa tinha alguns problemas mentais... Certa noite ela descobriu sobre Cathryn. Você pegou uma faca e a matou. Foi atrás de ajuda, pedindo a Rubben, ele percebeu seu estado e entendeu que você mesmo havia feito. — A mulher misteriosa deu uma pausa para limpar a garganta enquanto as imagens iam se formando em minha mente. — Você voltou para sua casa e atiçou fogo em Elizabeth. No dia seguinte Rubben ameaçou contar para o Ministro, então você fez o mesmo com ele. Logo à noite Cathryn também descobriu sobre seus atos, e novamente você cometeu um homicídio.
— Então o Ministro descobriu e eu fiz o mesmo com ele. — Conclui.
— E agora você está aqui, há três anos no manicômio de Liseng. Porém o governo tem gastado muito dinheiro para te bancar, pois você não tem condições de ir para uma prisão normal, tudo que você faz é ficar desacordado durante a maior parte do dia. Todo mês eles te contam toda a história, na esperança que você assuma seus atos. Esse mês é último. A última chance. Se você não confessar, não terá prisão e nem manicômio. Terá apenas a sua morte. Agora cabe a você, confessar ou não.
— Como pretendem me matar?
— O povo decidiu que será no fogo. Eles querem ver você sofrer... — A ruiva sussurrou desaparecendo em cinzas junto com todo o ambiente.
Novamente o local se transformou. Agora eu estava amarrado em cima de um palanque com várias pessoas a minha volta. E eu não estava encharcado por água e sim gasolina.
— Harris Connor, você sabe por que está aqui? — O homem mascarado segurando uma tocha perguntou.
Era isso. Um sim salvaria minha vida, eu seria levado uma prisão, ficaria lá alguns anos e depois liberto.
Um não faria o fogo arder até minha alma.
Durante três anos eu neguei isso a mim mesmo. Neguei que o verdadeiro assassino era eu mesmo.
Confessar meus atos na frente do vilarejo todo não traria os mortos a vida. Confessar somente a mim mesmo também não, porém eu ganharia uma punição.
Viver carregando esses erros seria pior do que morrer ao fogo?
Confessei para mim mesmo que eu era um monstro. Quando você assume um erro, que possa ter custado vidas, ou até mesmo um erro pequeno, você assume que poderia ter sido diferente e que agora tem consciência disso e que talvez antes também. Na verdade nunca saberão o que passava na sua mente no momento do ato. Mas você sim.
Viver na ilusão durante esses três anos não doeu nada, eu estava anestesiado. No exato momento eu achei que também estava, mas no fundo eu sentia o fogo consumir cada nutriente em minha carne.
Mas pagar por erros tão pesados como esse, vivendo apenas alguns anos na prisão, doeria muito mais, a mim e a todos.
Eu tinha a opção de tentar seguir em frente, porém todo o mal que um dia você faz, ele se volta para você, talvez da mesma maneira, ou talvez de uma forma pior, como no meu caso.
E aquele ditado que todos conhecem é a mais pura verdade: Aqui se faz aqui se paga.
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