Outono Enfumaçado
12 Subsolo, parte 3
Notas iniciais
Era a primeira vez que os novatos poderiam visitar o subsolo. Aki estava tão animado quanto Thor, falavam a horas sobre isso. Eles ainda não haviam visto as meninas, aguardavam do lado de fora do salão junto a todos os outros do dormitório.
Camark soou o apito, exigindo ordem, todos ficaram em silencio e prestavam atenção. Ao seu lado, uma mulher ruiva de cabelos curtos e nariz em pé, olhava suas anotações em um caderno.
— Bom dia. — ela falou com uma voz rouca, quando olhou diretamente para o grupo ali em pé, puderam perceber que ela era mais velha, tinha olheiras profundas e um sorriso torto, o jaleco branco, um pouco sujo sugeria que ela fosse descuidada, mas ela não se importava — Dirijam-se a mim como Doutora Sarah. Vamos entrar no subsolo, e é essencial que não façam barulho, se houverem perguntas, apenas levante o braço. — Ela virou de costas e começou a andar — Sigam-me.
Fizeram como foi mandado, a seguiram em uma fila dupla até uma entrada de pedra, que dava direto em uma enorme escada, adentrando a escuridão. Camark foi na frente, ascendendo mais algumas tochas, fracas e não o suficiente para iluminar um corredor tão comprido e largo.
Ali dentro era úmido e frio, fez com que Aki se arrependesse de deixar o casaco no quarto. Ele olhou em volta à procura de Lótus, mas ela não estava no grupo. Ouviu um tumulto logo a frente, a doutora Sarah conversava com um oficial. Quando olhou, percebeu que não era apenas com o oficial, mas com duas meninas, Smoke e Lótus, que pareciam que levavam uma bronca. Lótus estava de cabeça baixa, como fazia quando era repreendida, mas Smoke olha nos olhos de Sarah, quase sorrindo, e parecia que havia respondido, deixando Sarah furiosa. Aki tentou chegar mais perto para ouvir.
— Voltem para o grupo, — ela se aproximou de Smoke, tentando a intimidar — Que isso não se repita.
— Farei o possível. — O deboche de Smoke era evidente, ela puxou Lótus gentilmente pelo braço, indo em direção ao grupo, enquanto Sarah a olhava com ódio.
— O que aconteceu? — Aki perguntou para as duas, preocupado. Olhou para Smoke e se lembrou do momento na árvore, então desviou o olhar, mas ela não pareceu perceber, ou se importar.
— Nada demais. — Smoke tinha um falso sorriso no rosto, e não parecia esconder isso — certo, Lótus?
— Certo. — Lótus não tinha olhado para Aki, estava envergonhada e chateada, e isso incomodava Aki de uma maneira peculiar. Ela olhou para Sarah e oficial, conversando, e então olhou para Aki. Um olhar que não fazia a muito tempo, quando tinha um segredo que não sabia se deveria contar.
Ele percebeu, havia seguido o olhar dela, algo estava realmente errado. Aki queria saber o que acontecera, mas não poderia perguntar agora. Olhou de realce para Smoke, a sua expressão de deboche de segundos atrás não existia mais, ela estava triste, e olhava para Sarah com nojo. Não sabia o que fazer, então abraçou Lótus com força.
— Vai ficar tudo bem. — Cochichou em seu ouvido, da mesma maneira que fazia quando eram pequenos.
Ela o abraçou de volta com força, segurando as lágrimas e respirando fundo. Sarah voltava para guiar o grupo. Chamando atenção e pedindo novamente para que a seguisse. Logo adiante havia uma bifurcação. Para a direita, as tochas não estavam acesas, fazendo com que o corredor fosse macabro e assustador. Seguiram pela esquerda, e pararam de frente a uma porta de ferro, ao lado de uma janela de vidro.
— Essa é uma cela de prisioneiros. — A cela era bem grande, com uma cama, mesa, cadeira e banheiro. Ela abriu a porta com uma chave, que ficava pendurada ao lado da porta — podem entrar e olhar.
As pessoas foram entrando aos poucos, e logo saíram. Aki entrou, sempre quis saber como era uma cela, já havia lido em livros, mas era completamente diferente.
— Hey, Aki. — Thor o chamava — olha a janela. — A enorme janela de vidro era um espelho.
— Um espelho que duas faces! — Ele se aproximou junto a Thor, e colou o dedo, sua unha encostava com a unha do reflexo — Smoke, Lótus, olhem isso!
As duas olhavam, mas não pareciam tão surpresas.
— Isso é tão... — Lótus não sabia o que falar, queria agradar Aki, mas depois do que viu, não sabia mais se podia, se era certo.
— Doente. — Smoke completou a frase de Lótus. Thor e Aki ficaram surpresos, não esperavam por isso.
— Como assim? — Thor perguntou exatamente o que Aki queria saber.
— Ficar preso em uma caixa, — ela colocou a mão no espelho — olhando todos dos dias para seu próprio rosto, se perguntando o que se fez de errado para estar aqui, — parecia que olhava para além de sua imagem — sem saber se a pessoa do outro lado está, ou não, rindo de você.
Eles não sabiam o que responder exatamente, Aki engoliu a seco, Smoke estava completamente diferente, esta da mesma maneira que a viu pela primeira vez, fria e assustadora. Ela passou por eles sem falar mais nada, e saiu da sala. Eles a seguiram, pensando e deixando a sala vazia. O grupo todo já estava mais adiante no corredor, olhou mais uma vez pela janela, pensando o que Smoke havia falado.
Aki correu para alcançar o grupo, eles estavam parados em frente a outra cela. Olhando curiosos para dentro da sala. Abriu caminho para que chegasse mais perto, ao lado de Lótus. Queria saber por que todos estavam tão surpresos. Observavam um homem, ou quase, tinha a pele tão branca quanto a neve, mas não era humano. Seu rosto lembrava o de um felino, com olhos grandes e pupilas longas. Mas o que mais chamava atenção era suas orelhas de gato, quase no topo da cabeça. Ao virar de costas, puderam ver uma cauda branca e fina, saindo de um buraco de sua manta suja.
— Ele é um dos primeiros espécimes que capturamos, um Hibrido Felino, — Sarah falava com orgulho, como se fosse um prêmio — depois de vários testes, pudemos aprender mais sobre aqueles que vivem além da Chapada... — ela olhou no relógio — mais tarde vocês estudarão suas fraquezas. — Virou de costas, e continuou a andar pelo corredor escuro — Prosseguindo.
Todas as salas possuíam prisioneiros, de várias cores e idades. Lótus ficou chocada com mais uma criança, de pele escura e cabelos longos. Uma vez pensou que aquilo era certo, mas agora não sabia mais. Andaram bastante até virarem em uma esquina, onde Sarah parou, e sorriu.
— A próxima sala, é, o que nós chamamos de Híbridos Lagartos. — Os recrutas não pareciam saber o que ela estava falando — é uma nova espécie, que foi descoberta há alguns anos.
Ela abriu espaço para se aproximarem, e como uma onda, eles grudaram no vidro, olhando espantados e curiosos. Era diferente dos Felinos, grandes asas saíam de suas costas e escamas que refletiam vermelho. Ele pareceu sentir que o observavam, olhou diretamente para o espelho, com olhos vermelhos como o fogo. Usava apenas uma calça de moletom, o que deixava exposto cicatrizes pelo corpo.
Aki olhava com uma certa felicidade, descobrir o que tinha além da Chapada era seu grande sonho, e, de alguma forma, ver aquilo o fazia sentir que estava chegando ao seu objetivo. Olhou em volta procurando por Smoke e Lótus, não estavam no meio da multidão. Pode ver em seu canto do olho, Smoke seguindo o corredor sozinha, indo para longe. Pretendia segui-la, mas alguém segurou seu braço.
— Aki, vamos continuar. — Lótus seguiu os olhos de Aki, e viu Smoke sumindo na escuridão do corredor — Deixe-a sozinha por enquanto.
Ela parecia saber algo que Aki não fazia ideia, e isso o deixava com ciúmes. Apenas concordou e seguiu Lótus, logo atrás do resto do grupo, para o resto da visita.
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