Outono Enfumaçado
15 Decisões, parte 3
Notas iniciais
Aki terminou os deveres, dele e de Smoke, quase na hora do jantar. Correu para o dormitório, com esperança de encontrar Smoke em algum lugar. Chegou no quarto J e bateu na porta, ouviu uma movimentação e esperou ansioso para que a abrissem. Mas quando a porta se abriu, era Lótus, com os olhos vermelhos de tanto chorarem.
— O que aconteceu? – Ele entrou no quarto e imediatamente a abraçou, olhou em volta procurando Smoke, mas ela não estava lá.
— O que você fez com a Smoke? – Ela cochichou, mas não baixo o suficiente para ele não ouvir.
— Por que? Ela disse alguma coisa? – Sentiu que ela sabia, ela andava estranha e algo tinha acontecido.
— Não! – Ela se afastou de Aki, saindo dos seus braços – Aki, você não entende!
— Ah! De novo isso! O que? O que eu não entendo?! – Ele elevou um pouco a voz e Lótus ameaçou começar a chorar de novo – Desculpa...
— Você precisa ver para entender...
Ele não entendeu o que ela quis dizer com isso, mas logo ela pegou a mão de Aki e começou a o guiar. Lótus prestava atenção por onde andava, evitando encontrar com os oficiais, até chegar na entrada do subsolo.
Lótus respirou fundo, deveria ver tudo aquilo novamente. Só de lembrar, seus olhos se encheram de lágrimas e o estomago embrulhava.
— Vamos...
Continuou a puxar Aki, cada vez mais para a escuridão. A maioria das tochas estavam apagadas quase não dando para se enxergar o que havia a frente, parecia mais frio do que da outra vez que foram lá. Mas Lótus se lembrava de cada detalhe de como chegar no corredor infernal que vira antes com Smoke.
— Lótus, não sei onde você quer chegar com isso, eu já vim aqui, lembra? – Aki não aguantava mais, queria que ela falasse de uma vez qual era o problema.
Lótus o ignorou e continuou a andar até a bifurcação. Respirou fundo e virou à direita. Aki estranhou, mal tinha percebido aquele segundo caminho ali antes. Lótus segurou sua mão mais forte, como se estivesse com medo. E então passaram pela primeira cela. A luz lá dentro estava acesa, iluminando um chão vermelho e uma cadeira no meio, que antes estava vazia, agora havia a menina da outra cela sentada. Era uma Felina, seus cabelos que deveriam ser claros, estavam sujos de sangue, e uma de suas orelhas estavam cortadas. Ela não se mexia, não fazia nada.... Provavelmente já estava morta.
Aki olhou aquilo e ficou espantado, voltou seus olhos para Lótus, mas ela estava de costas para o vidro, com as mãos no rosto, chorando. Ele colocou a mão no ombro dela.
— Deve ter uma explicação para isso.... – Tentava achar lógica naquilo, mas não conseguia pensar em nada.
— Aki! – Ela estava zangada, era óbvio – É isso que você quer fazer? — Apontou para dentro da cela – eu não quero ser um monstro que mata e tortura os outros! Não quero fazer parte disso....
Aki não tinha palavras, era para isso que havia entrado na Força, para eliminar o inimigo. Mas ver uma criança como inimigo não era certo. Então finalmente entendeu o que Smoke estava falando. Sentiu sua necessidade falar com Smoke crescer, falar que ela estava certa, que depende de quem, apesar de querer todos os monstros mortos, não podia concordar com aquilo.... Era apenas uma criança.
Estava prestes a falar algo com Lótus, mas ouviram de longe oficiais conversarem, vindo em sua direção. Aki segurou Lótus pelo braço e começou a correr por onde vieram, até saírem e se afastarem do subsolo.
— Eu preciso falar com a Smoke.... Onde ela está? – Aki segurava Lótus e olhava em seus olhos.
— Ela está na nossa base secreta.... – Ela falou sem pensar, queria que os dois ficassem bem, sabia que Aki queria vê-la – na arvore, onde vocês quase se beijaram...
— O que?! – O rosto de Aki ficou vermelho, e Lótus escondia um sorriso – Obrigada. – A abraçou por um segundo e saiu correndo.
Aki correu o mais rápido que podia, desviando de algumas pessoas que iam para o refeitório, sem nem mesmo pedir desculpas. Só conseguia pensar em encontrar Smoke. Estava quase sem folego quando chegou na árvore. Olhou em volta, mas ela não estava lá, começou a andar, dando a volta no laguinho e seguindo em frente para uma clareira. Ouviu uma movimentação de folhas atrás de si, se virou esperançoso, mas não era nada....
— Ela já deve ter voltado...
Estava triste por não ter encontrado com ela, prestes a voltar para o refeitório, quando ouviu uma voz. Uma voz suave e doce, aquela que ele sonhava em ouvir cada vez mais. Correu em direção a clareira. Foi então que viu os cabelos brancos ao vento, brilhando com luz da lua.
— Smoke... – ele cochichou, quase sem som.
Ela se virou devagar e o olhou surpresa. Tinha algo em sua mão, que se mexia e fazia barulhinhos, uma pequena coruja branca estava pousada em seu punho.
— Aki... O que você está fazendo? – Os olhos dela pareciam maiores naquele momento.
— Eu vim pedir desculpas... – Estava sem jeito, entendia uma pequena parte do que ela falara, ver o que faziam com os monstros fez com que ele percebesse o que incomodava Smoke – Lótus me mostrou as outras celas.... Eu não sei como conseguem fazer isso – Smoke tinha um pequeno sorriso no canto da boca. Chegou para frente, até ficar no limite de terra, ao lado de Smoke. A chapada terminava ali, mesmo com a luz fraca da lua, podia ver as grandes florestas nas partes mais baixas de terra. – Se rebaixarem a tanto, são quase piores que os próprios híbridos.
— Aki... – ela não olhava mais para ele, levantou o braço e deixou a pequena coruja voar – você realmente é um idiota... – ela falou baixo e sentiu as lágrimas caírem.
Se virou, tampou o rosto, para que não a visse chorando, e começou a correr, passando por Aki, que estava imóvel, sem entender nada. Ele pensou em segui-la, mas suas pernas não se moveram. O jeito que ela falou ecoava em sua mente, a palavra “idiota” nunca o machucou tanto. Olhou para baixo e viu o abismo, era tentador pular para o desconhecido. Mas se controlou e respirou fundo, tentando juntar tudo que já havia acontecido em sua cabeça, procurando uma resposta do porquê que Smoke chorava e parecia cada vez mais triste.
Olhou para cima, e a coruja branca ainda voava por perto. Estendeu o braço com um pouco de esperança, a coruja se aproximou cada vez mais, com intuito de pousar. Mas antes que pudesse sentir as pequenas garras em sua pele, algo atingiu a coruja. Aki velou um susto e cambaleou para trás, caindo no chão. A coruja tinha sido acertada por uma flecha presa a um cabo, ela ainda se contorcia no chão, sofrendo de dor.
Aki se aproximou para ajudar, mas uma voz veio de dentro de uma moita.
— Não toque nela! – Um homem encapuzado saiu daquele lugar escuro, tirando as folhas de sua frente. Quando a luz da lua bateu em seu rosto, Aki pode ver a cicatriz marcar o rosto, era Camarck.
— Você... – ele ainda estava surpreso.
— Carne de coruja é a melhor para fazer sopa – Camarck tinha um sorriso torno no rosto. Se aproximou e pegou a coruja que ainda fazia barulhos e chorava, sem nenhum remorso, quebrou o pescoço dela, fazendo ficar em silencio – O jantar já vai acabar, Riverstyle.
Sem dizer mais nada, Camarck virou de costas e foi embora, sumindo no meio do mato escuro. Aki estava sentado no chão, olhando a pequena poça de sangue no chão. “Como alguém pode machucar algo tão inofensivo? ”, então a imagem de criança felina veio a sua mente, todos ali eram iguais, machucando quem não podia se defender. “Todos aqui são monstros...”
Sua fome não chegava, preferiu então ir direto ao dormitório para pensar. Queria procurar Smoke para ver o que havia acontecido, mas achou melhor fazer isso na manhã seguinte, esperar que ela se acalmasse um pouco. Antes que percebesse, Aki já estava dormindo em sua cama.
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