Outono
6 Lucas
Há 3 anos…
Assim que os novos hóspedes se instalaram nós começamos a treinar, a ideia de não precisar dormir era uma vantagem para nós, não tinha um momento em que me sentia exausto, eu estava com cem porcento de disposição vinte e quatro horas por dia. Abraham e Vinícius pareciam não ter uma boa relação e eu me perguntava o que teria acontecido entre eles. Não tinha muito tempo que o novo vampiro havia chegado e me impressionei da forma rapida que Vinícius criou inimizade com ele.
Desde que me tornei vampiro nunca o entendi bem. Ele sempre parecia incomodado com algo, sempre ranzinza e fechado. Quase nunca falava e quando o fazia era carregado de sarcasmo e ironia. O período na Amazônia foi quando eu me senti mais próximo dele, mesmo não conseguindo descobrir o motivo de seu mal humor diário. Nós conversamos mais e eu tomei cuidado para não invadir a sua privacidade. Ao que eu percebi ele estava magoado, e não se importava mais de ser delicado com as pessoas. Feriram ele e ele queria ferir de volta.
O treinamento era intenso, Abraham nos ensinava todas as técnicas mais eficazes numa batalha, arrancar a cabeça era a solução mais óbvia, porém tínhamos que lidar com os braços, e imobilizar o nosso adversário para chegarmos até o nosso objetivo final. Nós nunca deveríamos resguardar força nos nossos golpes, sempre tínhamos que usar a nossa força absoluta, a comparou com o objetivo de levantar um peso em uma atividade física. Os nossos adversários sempre seriam um peso maior do que estivéssemos acostumados a levantar e com isso tínhamos que usar além do que o nosso corpo pudesse aguentar.
Na luta entre ele e Vinícius, — Agora eu sabia o motivo da desavença — ele não teve problemas quando Vinícius achou que havia ganhado a luta, pensando que tudo estava terminado no momento em que o tinha arranco um dos braços. Foi nesse momento que ele abaixou a guarda e perdeu.
Vinícius não gostou nada disso, e pelo pouco tempo que eu o conhecia, ele não deixaria isso barato. Entretanto ele treinava certo, prestava atenção em tudo o que Abraham dizia, e aprendia os golpes.
Após ele foi a vez de Nicole.
Ela era rápida e ágil, Abraham teve dificuldades de agarrá-la e ele a elogiou, ela deu um sorriso convencido e meigo. Ela era incrivelmente encantadora e eu pensei que esses Hill deveriam ser muito cruéis para machucá-la se a encontrassem no campo de batalha.
— Sua vez! — Abraham dirigiu-se para mim. Eu levantei de prontidão e fiquei de frente para ele.
— Certo, mostre-me o que sabe!
Eu não sabia ao certo o que fazer, se eu deveria avançar e tentar um soco, mas isso podia machucá-lo e eu não queria que isso acontecesse. Fiquei pensando no que fazer.
Abraham parecia impaciente.
Então eu corri na sua direção e quando cheguei a certa distância eu tentei um soco. Ele deu apenas um passo para o lado e desviou, tentei outro e ele fez o mesmo, tão leve como uma folha. Seu pé foi para baixo do meu e seu braço me empurrou. Em um segundo eu estava no chão, batendo as costas com força.
— Você tentou me acertar? Estava olhando para onde? — Abraham perguntou, estendendo a mão e me ajudando a levantar.
— Eu só tentei dar um soco. — Expliquei. — Não tenho experiência nenhuma com lutas ou brigas.
Ele me analisou e então se afastou novamente.
— Você é um recém criado, é mais forte, rápido e tem os sentidos mais apurados do que nós. Use sempre tudo ao mesmo tempo, sua cabeça pode cuidar de tudo, você é um vampiro agora. — Ele se aproximou de mim. — Veja, vou te ensinar alguns golpes e como se defender de outros.
Abraham era muito bom e parecia ter participado de várias batalhas, seu corpo era marcado por vários arranhões e marcas de mordidas, principalmente nos braços e pescoço. Peguei as lições com facilidade, a postura de batalha e a forma de me movimentar. Geralmente somos muito parados, parecendo uma estátua, quando nos movemos em público o que são raras vezes para mim, nós tentamos ser mais humanos, nos movimentar mais, porém com cautela para não sermos muito rápidos.
— Você pega o jeito rápido. — Abraham me elogiou. — Muito bom, não esperava menos de um recém criado. Pratique um pouco com os outros enquanto eu auxilio quem falta.
Assim que me afastei de Abraham e Bruna tomou o meu lugar, pensei em procurar por Vinícius, nós poderíamos treinar juntos, mas ele estava conversando com o outro vampiro, Daniel. Com a minha visão concentrada eu pude ver algo saindo de Daniel, como se fosse uma névoa, porém muito dissipada e ela atingia Vinícius. A expressão corporal de Vinícius estava muito estranha, até mesmo para um vampiro, era como se ele não tivesse nenhum tipo de barreira, como se ele estivesse aberto a qualquer sugestão que Daniel desse.
Daniel correu para a floresta, parando na entrada da mata, ele sorriu para o Vinícius e então seguiu para a mata densa, e o outro foi atrás. Fiquei apreensivo e decidi segui-los. O cheiro deles era fácil de seguir, principalmente o de Daniel que tinha a característica de cravo.
Eles se afastaram alguns quilômetros da casa, parando em frente a uma gigantesca árvore, com enormes raízes, que superava em muito metros o tamanho de ambos.
Daniel estava com as mãos pousadas na cintura do Vinícius, enquanto o outro segurava o rosto de Daniel, eles começaram a trocar beijos e carícias, a névoa que eu vira antes saindo de Daniel, agora envolvia completamente o Vinícius, e eu não entendia o que era aquilo.
Ouvi um movimento a alguns metros de distância e vi que Nicole se aproximava.
— O que está fazendo aqui? Abraham disse para treinarmos. — Disse ela ao meu ouvido quando se aproximou.
— Veja. — Eu apontei para a direção onde os dois vampiros estavam compartilhando suas intimidades.
— Você veio espioná-los. Jesus, Maria e José, Lucas! — Nicole disse espantada. — Você não tem respeito ou educação? Vamos, vamos embora!
— Não, você não vê? Tem algo errado. — Eu tentei explicar.
— Pelas barbas, e eu que nasci em um tempo totalmente diferente, mais conservador que o seu… Não pensei que seria você a pensar dessa forma. Estou muito desgostosa com você!
— O que? — Ela não podia estar pensando que eu não aprovava o relacionamento homoafetivo. — Não, não é isso. Olha mais um vez, o Vinícius está enevoado.
Nicole olhou melhor.
— Eu não vejo nada, apenas dois amantes, e as coisas estão ficando mais intimas. Vamos embora. E isso é uma ordem.
— Mas…
— Mas nada, vamos. — Nicole disse a palavra final.
Dei uma última olhada e os olhos de Daniel se fixaram nos meus, e um sorriso maléfico surgiu em seu rosto de porcelana.
Os treinamentos continuaram, cada dia mais intensos. Peguei o jeito fácil, e consegui o suficiente para aguentar e me esquivar melhor dos golpes de Abraham. Entre todos Vinícius era o que se destacava mais, ele era mais rápido e ágil, seu golpe não era tão forte como o de Rudá por exemplo, mas a velocidade dos golpes e dos movimentos que ele fazia o tornavam mais perigoso. O único que conseguiu pegá-lo foi Daniel, mas por mais de uma vez eu vi aquela névoa entorpecer o Vini.
As semanas se passaram e consegui me aproximar do Vini quando Daniel, Rudá, Nina e Robert saíram para percorrer o perímetro e ir à cidade em busca dos nossos inimigos. Como sempre ele parecia estar de mau humor.
Parei do seu lado e fiquei observando-o.
— Quer que eu busque uma câmera pra você tirar uma foto? Assim vai durar mais. — Ele disse ríspido.
— Não, meus olhos conseguem ver melhor. — Eu dei de ombros. — Queria fazer uma pergunta.
— Eu ainda não comecei a procurar pelo seu amigo. Não tive tempo e Robert não me deixa sair.
— Não é isso. — Como sempre era difícil lidar com o Vini, as palavras dele cortavam, e não sei se ele percebia isso. — É sobre você e… o Daniel.
— Hum. — Ele murmurou. — Tá com ciumes ou quer participar? Onde come dois, come três, onde comem três comem o bonde.
Fiquei constrangido com aquilo, senti uma raiva subir pelo meu peito, se eu fosse humano, com certeza estaria vermelho de raiva.
— Ele tá controlando você, se você quer saber. Eu consigo ver o que ele faz quando ele tá com você, ele rouba toda a sua virtude, você parece um espantalho quando está perto dele.
— Espantalho? Já olhou pra mim?! Um vampiro me esculpiu perfeitamente, não tenho tempo pras suas comparações ridículas.
Eu já não aguentava mais.
— Você acha que é o único que perdeu algo coisa? — Eu disse gritando, mesmo não precisando fazer, mas minha manias humanas ainda existiam. — Tá aí sendo grosso e agressivo com quem não tem nada a ver, as pessoas tentam se aproximar de você, tentam te proteger e você afasta elas só porque deixou sua vida pra trás. Você não é o único que sofre aqui.
— Você tá achando que é quem pra falar assim comigo? O que você sabe de mim pra estar falando alguma coisa e…
— Sei o suficiente pra dizer que você age feito um babaca. — Sua expressão era de puro ódio, mas ele não conseguia dizer nada. — E ainda tá sendo usado pelo Daniel. Você agora é um boneco inflável? — Assim como Abraham disse meus sentidos eram mais apurados, consegui ver o punho de Vinícius me alcançando, e por questão de milímetros eu desviei, bloqueei sua outra mão, mas caí no chão com a rasteira que ele me deu. Ele tirou o pedaço de papel do bolso e jogou no meu peito.
— Boa sorte encontrando seu amigo sozinho. — E então ele correu para floresta.
Me levantei com o papel em uma das mãos. Pensei que eu iria chorar, mas não havia como isso acontecer. Fui tomado por uma culpa muito grande, eu não devia ter explodido com ele, talvez houvesse outro jeito de tê-lo abordado sobre o assunto.
Os dias e as noites passaram e Vinícius não retornou, Nicole e Bruna disseram que ele voltaria logo.
Aquela noite era dia de caçar e Bruna foi comigo, ela queria tentar se alimentar de animais também. Há alguns quilômetros havia uma fazenda, nós podiamos nos alimentar de alguns animais lá, não seríamos vistos, e o proprietário talvez imaginasse que tinha um animal a solta. A sede estava grande, tanto eu quanto Bruna. Ela lutou para não atacar os fazendeiros dentro de suas casas. Seu olho de preto onix tomou um tom dourado, assim como o meu depois que terminamos a nossa refeição. Ela conseguiu secar quatro bovinos grandes, enquanto eu me contive com apenas dois.
— Não estou mais com tanta sede, mas não é a mesma coisa, é como se faltasse algum… ingrediente.
Eu sorri com a aprovação dela. Não podia a culpar por sentir que faltava algo.
Na volta nós encontramos todos reunidos, até mesmo Vinícius, ao lado de Daniel. Ele não olhou para mim quando entrei.
— O clã de recém criados era maior do que pensávamos. — Robert começou. — lutar com eles será difícil, mas nós temos que tentar, se os Hill tomarem conta da região central de São Paulo, vão nos expor, os Volturi irão intervir, mas com a velocidade que a informação se espalha hoje… temo pelo pior.
A situação parecia muito grave.
— Seria sensato pedir ajuda deles, são muitos para tomarmos conta. — Lucan disse preocupado.
— Nós temos muitos dons aqui, vamos conseguir pará-los, e matá-los. Será rápido.
— O meu feromônio pode deixar em estado de estupor uns 2 ou 3, um exército inteiro… — Daniel começou e foi logo interrompido por Robert.
— O Vinícius irá paralisá-los. — E todos olhamos para ele.
— Ele? — Daniel olhou com desdém e eu quis vomitar.
— Fecha essa boca e não abre até eu mandar. — Vinícius disse pra ele.
Foi quando nós fomos pegos de surpresa. Daniel tentou dizer algo, mas ele não conseguia abrir a boca. O que estava acontecendo ali? Daniel começou ficar agitado e espantado, ele não conseguia mover os lábios.
— Ele pode induzir a qualquer pessoa fazer o que ele quiser. — Robert explicou.
— Não exatamente tudo, mas eu posso hipnotizar em algum grau.
— O que ele fará é tentar impedir o avanço dos recém criados e nós atacaremos. Com eles paralisados vai ser fácil para nós.
— Quantos você conseguir compelir. — Abraham perguntou.
— Com humanos… duas, talvez três centenas. Eu sondo a mente da pessoa, e então eu tomo controle. Com vampiros é mais difícil, a mente é mais forte. Talvez uns cinquenta ou cem.
— E a distância que você pode sondar a mente? — Rudá questionou.
— Dentro do meu campo de visão. Quanto mais longe, mas fraca é a indução — Vinícius respondeu prontamente.
Aquilo era incrível. Além dele ser um rastreador ele podia controlar a mente das pessoas? Mas então uma dúvida surgiu em mim. O que garantia que ele não poderia controlar a todos nós? Para tornarmos seus escravos, ou até mesmo para simplesmente usar-nos para descontar todo o seu ódio e rancor? E se ele já estivesse controlando Robert, ou Rudá, ou qualquer um de nós?
— Como sabemos se você não está controlando um de nós. — Eu perguntei.
Ele me fitou com olhos frios. Tão frios que senti como se ele penetrasse em meu peito, como se ele pudesse me perfurar.
— Não tenho motivos para isso. E prometi a Robert que eu nunca colocaria qualquer um de vocês sob o meu controle. Somente se tentassem fazer qualquer tipo de mal para mim. — E, então ele olhou para Daniel que o olhou com ódio, e voltou o olhar para mim de relance. Eu observei Daniel e vi novamente aquela névoa sair dele, e num jogo rápido de olhares Vinicius voltou-se para Daniel. — Você nunca mais irá usar seu dom em mim, você vai escondê-lo de todas as formas de mim. Entendeu? — Vinícius perguntou, mas Daniel não abriu a boca. — Você pode voltar a falar agora.
— Seu filho da puta! — Daniel rosnou. — Você tem sorte…
— Você tem sorte. Te faria ficar na luz do sol só para ver as mãos dos Volturi cair em você. — Vinícius ameaçou e Daniel recuou. — Tem sorte de Robert e Lucan terem feito eu mudar de ideia. — Agora Daniel estava visivelmente atormentado.
— Certo… — Lucan continuou. — Eles já estão prontos, estão ao norte daqui, podemos atacar amanhã.
— Estejam todos prontos. — Robert disse.
Nina olhou apreensiva para Lucan que a segurava próximo ao corpo. Rudá se retirou da sala e foi até o lado de fora. As meninas se juntaram a Robert enquanto Vini ficou parado na sala. Daniel também seguiu para fora depois de um tempo.
Eu me aproximei do vini. Tentei dizer algo mas ele foi mais rápido.
— Desculpe pelo modo que falei com você. Você não tem culpa. E obrigado por me avisar sobre o Daniel. — Ele disse olhando nos meus olhos. Dessa vez eu não senti aquele gelar em mim.
— Eu… Eu entendo. Eu devia ter abordado de outra maneira também e…
— Pode me entregar a foto mais uma vez? — Ele perguntou, dessa vez desviando os olhos.
— Era sobre isso o que eu queria falar com você. — Eu disse e deixei um tempo de espaço se instalar antes de continuar. — Robert, Lucan e Rudá estão realmente preocupados com esse exército, e eles são os mais velhos e experientes. Se alguma coisa acontecer…
— Não vai acontecer nada. — Ele voltou a olhar para mim.
— Se acontecer… — Eu continuei. — Você encontra e protege o menino da foto? Só peço isso para você, só peço isso em toda a minha existência.
Ele ficou calado por um tempo, me olhando, colocando esse pedido na balança talvez. Eu não sabia se eu tinha ultrapassado a barreira que ele sempre criava, mas por um momento eu vi um brilho em seu olhar, algo que nunca havia visto.
— Eu prometo pra você que farei o seu pedido. — Ele disse, pegou a foto e a fitou.
— Obrigado. — Eu disse e andei para o lado de fora da casa.
— Vai ser a minha primeira batalha amanhã também. — Ele disse.
— Quer vir comigo?
— Sim.
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