As ruas de Nova York no outono não eram muito diferente dos filmes. As árvores pareciam ferro retorcido, e as folhas laranjas cobriam a maior parte do chão, formando um grande tapete nos parques onde as árvores existiam. E à noite a cidade ficava ainda mais intimidadora.

Sem dúvida essa era a época em que o mundo menos olhava para a incrível metrópole.

O inverno era perfeito para fazer qualquer coisa, brincar, ler, tomar chocolate quente e admirar as lindas paisagens.

A primavera era a época preferida dos namorados para tornarem as suas declarações e passeios românticos ainda mais bonitos.

O verão é ideal para as férias, piscinas, passeios em parques e momentos com a familia.

Já o outono.. Bem, ele era o problema, deixava a cidade estranha, com menos turistas e com um cheiro estranho de fritura.

Pelo meio das ruas alaranjadas, um garoto e uma garota faziam barulhos enquanto pisavam nas folhas secas.

A garota olhava a paisagem atentamente com os seus olhos azuis iguais a safiras, que quase sempre erguitarrados por uma linha grossa de lápis preto.

O garoto, que por sua vez tinha os olhos como a água cristalina de uma lagoa, olhou a garota por vários instantes.

Quem a visse com certeza se deteria em suas roupas largas e quase todas pretas, as botas descascadas, e nas meias pretas e brancas que apareciam quando as bordas da calça se levantavam enquanto ela andava. Ela nunca se separava dessas meias. O cabelo que antes era amarelo como um limão maduro, mas que agora era preto e brilhante, estava amarrado em um rabo de cavalo, e as ondas caiam em cima de um instrumento com uma capa de couro preta. Com certeza seria uma guitarra, ela mais parecia uma roqueira-punk mesmo, não, era mais gordo; um violão talvez, não era maior. Até que a ficha cairia, um violoncelo. Quem diria. Isso era uma visão estranha.

Uma roqueira-punk violoncelista.

Essa seria a conclusão de um estranho, mas não daquele garoto.

Ele se deteve nos olhos dela, eles se moviam rapidamente, como se não quisessem perder nenhum detalhe.

— Oque foi? — ele se viu na obrigação de perguntar.

Ela virou os olhos para encara-lo. Ter aqueles olhos em cima de você trazia a mesma sensação de ter uma faca sendo apontada em sua direção. E piorava mais ainda se ela estivesse com raiva

— O outono é a minha estação favorita, sabia?

"Ela vai começar" pensou o garoto. Ele a conhecia desde que a vida de ambos tinha começado. Eles dividiram tudo, o mesmo útero, os mesmos pais, os aniversários. Ou seja, os dois se compreendiam em quase tudo. Mas se tem uma coisa que Alex nunca compreendeu na irmã, Rosie, é a sua sede insaciável de criticar tudo e todos.

Talvez seja por isso que Rosie gostava muito de se vestir de maneira estranha, enquanto ele usava roupas comuns pra sua idade, calça, tênis e um casaco por cima de uma camiseta qualquer.

— Por que? — ele perguntou, para que ela pudesse expressar suas idéias rebeldes.

— Porque mostra como a cidade realmente é. Estranha, e agitada de uma maneira chata. Os filmes fazem com que fique lindo, mas se você estiver aqui realmente , e ver de perto percebe que é feio. E, logo depois, com as outras estações tudo se torna falso de novo, maquiado, com a ideia de que a nossa vida e o lugar onde moramos é perfeito.

Alex tentou entender tufo aquilo, mas foi uma missão sem sucesso.

— Por que você sempre tem que falar com metáforas?

— Porque o mundo é complicado, assim como as metáforas.

— Você está fazendo de novo — ele falou, dando um suspiro. Já estava cansado de ter aquele tipo de conversa.

— É inevitável — ela respondeu, piscando os olhos várias vezes.

Alex estava achando Rosie muito estranha nos últimos meses, mas principalmente com ele. Talvez tivesse a ver com a audição para tentar entrar para Juliard, ou talvez fosse outra Coise, algo que pela primeira vez ela não queria dividir com ele.

Silêncio.

— Esta nervosa?- ele se viu na obrigação de perguntar.

— Que tipo de pergunta é essa? É claro que eu estou nervosa!

— É o tipo de pergunta que as pessoas fazem quando outras pessoas vão fazer algo importante.

— Você sempre faz o que as outras pessoas fazem, não é? — Rosie falou olhando a paisagem

Mais uma provocação para Alex.

— É o que as pessoas normais fazem- ele provocou também.

— É o que as pessoas alienadas- Alex sentiu que ela queria acrescentar "como você"

Ele soltou um suspiro. Aquilo não fazia sentido algum, mas ele ficou em silêncio. Ele não queria iniciar uma briga agora, e fazer com que ela se saia mal na audição e ser responsável pelo fracasso dela. Portanto seguiram o resto do caminho sem falar nada.

Depois de passarem por incontáveis prédios, eles finalmente avistaram o teatro Niblo's Garden. Quando entraram o teatro parecia ainda maior, deixava Alex meio tonto, também era muito bonito. Até que Rosie parou de andar. Eles ainda estavam bem longe do palco. Ele percebeu que a irmã começou a contorcer a borda da blusa.

— Fica calma Rosie, você vai se sair bem- ele tentou conforta-la. Ele sabia muito bem quando ela estava nervosa, pois sua ficha de durona caia.

—Isso só me deixa pior Alex- ela virou o rosto para encara-lo com os olhos assustados.

Definitivamente ele deveria deixa-la em paz.

Na verdade ele tinha coisas mais interessantes para fazer, pois ele havia avistado a garota mais bonita que ele havia conhecido, Amelia Becker, a sua namorada.

Deixou a irmã de lado e foi ao encontro da garota da sua vida. Ele seria capaz de atravessar o país só para ver aquele rosto angelical sorrir. E ele faria mesmo isso.

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