Outono
1 Ventania
Notas iniciais
–LORENA! ACORDA PORRA! TA ATRASADA NESSE CARALHO DENOVO!
Eu abria meus olhos arregalados enquanto minha mãe com cheiro de cigarro pronunciava lindas palavras de bom dia como de costume. Peguei meu celular; 8h30! Ok, estava super atrasada para o plantão da manhã e nem sabia que roupa vestir, tanto faz. Vesti uma calça jeans, uma blusa de frio laranja-cenoura-aspirina e um tênis surrado de a 3 anos atrás, já ouviu falar que tênis velhos são os melhores? Então. Desci até a cozinha, preparei um pão com manteiga, engoli, escovei os dentes, peguei minha bolsa, dei um beijo no meu irmão e quase voei em direção a porta, gritando a minha mãe que estava saindo, ainda correndo virei-me e vi ela dando um aceno de ok com a mão. Enquanto procurava minhas chaves do meu carro estacionado na rua, vi que algum imbecil bateu no meu carro essa noite, malditos bêbados dessa rua.
Entrei no meu carro, já desanimada pois sabia que iria tomar uma dura da minha instrutora, fiquei com a testa no volante uns minutos, pensando em como cheguei ali e em como estava tudo sem rumo, eu queria entender porque minha mãe vendo meu irmão naquela situação, não para de fumar, as vezes ela bebe também, eu não sei mais como continuar com esse objetivo e meu pai aquele filha da p. Meus pensamentos foram enterrompidos quando Matheus me ligou, atendi:
– Alô? – Disse com a voz ainda atordoada.
– Oi amor bom dia, atrasada denovo?
– Oba, obrigado por me lembrar, você não é o primeiro. – revirei os olhos
– Nossa, pra que tudo Isso?
– Desculpe, eu só preciso ir ok?
– Ok, você fica lá até que horas?
– Vou até as 18 hoje e depois vou direto pra faculdade.
– Ok, eu vou pra casa do Fernando hoje a noite.
– Ok..
– Beijos, ainda tenho que entregar as papeladas no trabalho, eu te amo fui
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele desligou. Liguei meu carro e fui , ainda bem que não peguei transito nenhum, chegando no hospital fui colocar meu jaleco e bater meu ponto, a supervisora olhou pra mim, olhou o relógio e desceu o olhar para mim novamente, balançou a cabeça olhando os papeis em cima da mesa de recepção, fingi que não vi. Percorri o corredor de oncologia com uma vontade de ficar, mas sabia que estava escalada para emergência , porque eu fiz medicina, e gente que faz medicina tem que ver gente morrendo, com as tripas e os ossos extrapolados para fora de seus corpos miseráveis e frágeis com...Mais uma vez interrompida, mas dessa vez é pelo Pedro me pedindo ajuda, eu vi uma maca pequena, e quando virou para sala de emergência identifiquei um bebe. Oh não, bebe não!
Corri pelo corredor até me deparar com a cena daquele pequeno corpo engasgado com o leite
–VAMOS LORENA, PEGUE A CÂNULA CIRÚRGICA NA SALA DE CIRURGIA, NO QUARTO ANDAR A PRIMEIRA PORTA A DIREITA!! VAI!!
Corri feito louca até elevador, apertei o botão desesperadamente, enquanto pensava que a vida daquele ser estava na minha mão, mas não era de pensar, meu Deus não, não era. O elevador não chegava, abri a porta das escadas e corri o mais rápido que eu pude, tropiquei em alguns degraus e nossa, tinha que ser no 4º andar? Abri a porta do quarto andar, a direita estava a sala, entrei e revirei tudo, eu juro que tentei ser o mais rápida que eu pude para procurar, enfim, achei. Voltei correndo pelo meio do caminho, desci o rodarel de escadas , abri a porta do andar de emergência em num supetão que todos viraram olhando enquanto eu corria, as pessoas davam passagem, cheguei a sala mas... Todos pareciam sombrios e uma mulher gritava do outro lado da sala... Será que...
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