Outono
1 prólogo. inverno
“E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.” — Albert Camus.
Sabe quando você olha para o céu e percebe que sua vida não faz mais sentido? Provavelmente não, eu espero. Bom, era assim que eu me sentia.
Sentado naquele banco, sozinho, eu podia pensar. Pensar demais nunca me fez bem, porque eu conseguia pensar em tudo, até nas merdas que eu fiz. Eu olhei para o céu de novo, mas tudo continuava sem sentido, sem propósito. Respirei fundo, senti o ar gelado adentrar meus pulmões e levei a mão ao peito. Eram os primeiro sinais do inverno gelado que estava chegando. Apesar de tudo, não eram sinais facilmente perceptíveis, porque o outono fora tão gelado e solitário quanto o inverno. Mas o inverno tem suas peculiaridades, como todas as estações: as pessoas ficam com um aspecto mais triste. Não sei se é o frio, ou se é a quantidade de roupas que quase as tampa, nem sei se isso realmente acontece, mas tudo é mais triste no inverno, mais monótono.
Vejo algumas pessoas passeando pelas calçadas cheias de neve, com roupas grossas, cachecóis e gorros bonitos e luvas peludas. Alguns passam sozinhos, outros, em família ou com seu parceiro. Consigo ver alguns casais se beijando, apaixonados, provavelmente. Todos parecem felizes, não eu. Eu sinto o verdadeiro frio, dentro de mim. Eu respiro fundo mais uma vez e, parece que o ar está mais frio. Arrasto minha mão para longe do corpo, mas ainda tocando o banco, até encontrar a mão dela.
Sua pele é fria e pálida, ela não veste luvas peludas, nem cachecóis e gorros bonitos, na verdade, ela não veste nada. Não literalmente, ela só não veste nada típico do inverno. Eu a olho, ela não parece com frio. Mesmo assim, pego meu casaco e a cubro. Ela aperta minha mão com força, mas eu quase não sinto. Eu quase não sinto porque eu quase não a sinto, em pessoa. Eu sei quão longe ela está, apesar de tão perto.
Ficamos nos encarando por um tempo, apesar de sabermos que logo, logo tudo isso irá acabar. Desavio meu olhar e fico encarando as pessoas com suas luvas e os casais compartilhando cachecóis. Vejo uma criança jogada na neve, fazendo um boneco. Mas eu não me sinto feliz.
Eu sinto como se nada disso estivesse certo, eu sinto como se eu nunca tivesse pertencido a este lugar. Olho para o lado e vejo nossas mãos enroscadas.
– Você sabe que eu não posso ficar por muito tempo, não é? – Sua expressão é tão calma, mas amedrontadora e feroz, tudo ao mesmo tempo. – Você sabe que eu tenho que partir.
– Eu não ligo. Veja aquelas crianças. – Sorrio fraco e aponto para a criança que observava há uns minutos atrás. – Eu me lembro de ser criança. Lembro-me de quando o inverno era bonito.
– O inverno ainda é bonito. – Ela desvia o olhar, mas percebo que ainda o direciona para mim, de uma forma ou de outra.
Ficamos em silêncio. Começo a mexer em suas articulações da mão. Tudo me parece artificial nela, como se ela fosse um robô realístico. Eu sei que ela não é assim, mas eu gosto e continuo mexendo na sua mão. Ela se vira e sorri.
– É hora. – Ela diz, e meu sangue congela. Congela como se eu estivesse apenas de roupas de baixo fazendo um anjo de neve. Congela como se houvesse um inverno dentro de mim.
– Fique mais um pouco. – Tento convencê-la, mas sei que é inútil.
É hora. Eu olho para seu rosto. Ela sorri e eu seguro sua mão com mais força e mais tristeza. Meus olhos ardem porque algumas lágrimas tentam sair, mas o frio, de certo modo, as prende, como se quisesse protege-las, guarda-las para um momento mais importante.
Eu olho para as árvores do parque, todas cobertas com neve ao invés de folhas. Olho para as crianças, para os casais, para as famílias, para os gorros bonitos e peludas luvas. Tudo congela, eu congelo.
Retorno meu olhar a ela porque sei que ela está indo, porque a sinto cada vez menos. Sinto seu toque como se fosse uma formiguinha em minha mão. Ela olha para mim, quase sumindo. E sorri, pouco depois, se esvai levada pelo vento. Eu vejo tudo descongelar. Olho para meu corpo e percebo que meu casaco continua sobre mim. Tento relembrar de tudo, mas nada volta à minha memória. Olho para os lados, tentando entender tudo o que ocorreu.
Eu vejo os casais, as famílias, as crianças, os bonecos, as árvores, os cachecóis, os gorros, as luvas, a neve. Eu não vejo memórias, eu vejo vazio. Sinto que uma parte do meu cérebro foi arrancada, sinto como se faltasse algo. Onde as memórias ficam, sinto como se uma parte estivesse em branco, como se algo houvesse se dissipado e não houvesse tido tempo de preencher este vazio. Relembro tudo que consigo, sei que me chamo Connor e tenho 15 anos, sei de mais um bocado de coisas, só não sei o que estou fazendo aqui. Respiro fundo e o ar gelado adentra meus pulmões.
Sinto uma imensa vontade de chorar, inibida pela timidez de estar em público. Olho para os lados e nada faz sentido.
Minha cabeça dói, como se algo estivesse martelando-a por dentro, como se uma memória quisesse explodir e explicar tudo para mim. Sinto uma pontada de dor e um nome surge na minha cabeça. Alice.
Ela nunca existiu.
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