Outono
4 capítulo três. terapia
Notas iniciais
Eu estava assustado com tudo que estava acontecendo porque eu simplesmente não entendia o que estava acontecendo. Todas aquelas visões e aquelas alucinações, e as pessoas simplesmente desaparecendo, e o caminhão, os garotos com os balões d’água, o cachorro. Tudo se confundia na minha cabeça enquanto eu me perdia em pensamentos sem sentido. De repente, as pessoas foram reaparecendo e todas possuíam uma cor estranha, cor de pessoas sem alma, uma cor suja. Ninguém olhava para mim, ninguém cumprimentava. Elas simplesmente passavam. Algumas, simplesmente sumiam da minha visão após eu desviar o olhar delas, o que me deixou mais aflito. Olhei para o prédio alto ao meu lado e entrei pela grande porta de vidro.
Lá dentro, a única pessoa que vi foi Lary, o porteiro. Ele era diferente das outras pessoas porque tinha certo brilho, uma cor mais viva, mas não algo normal. Era como se algo tivesse retirado a cor e a vida de algumas pessoas mais do que as de outras. Cumprimentei-o e ele respondeu com um “bom dia!” exatamente igual ao da semana passada. Estranhei mas segui para o elevador. Fiquei pensando em Alice enquanto o elevador não chegava ao nono andar. Ele chegou mais rápido do que eu esperava e meus pensamentos foram interrompidos. Senti o cigarro que ela havia me dado se mexer em meu bolso quando o elevador balançou e abriu as portas.
Bati à porta de madeira oliva com a placa “Dr. Oliver, psicólogo”. Acho que a cor da madeira era proposital. Olhei em volta enquanto esperava alguém me atender. O local possuía certa coloração, diferente do resto da cidade, mas tudo parecia igual sempre, como se nada houvesse mudado, como se ninguém tivesse passado por ali, exceto por mim. Tudo estava confuso. Dr. Oliver, que preferia que eu o chamasse de James, atendeu a porta, com a mesma roupa de semana passada, o mesmo sorriso da semana retrasada e o mesmo cumprimento que me lembrou do mês passado, “Olá Connor, bom rever você.”. Fechei os olhos e quis fixar minha mente para pensar que tudo não passava de loucuras minhas, mas era tudo muito real, também.
Todo o gesto que ele fazia e tudo que ele falava me lembravam de algum tempo que estive com ele, como se ele estivesse repetindo-os. Minha cabeça doía, pois tentava entender o que estava acontecendo, de forma falha. Era como se ele fosse um robô repetindo coisas que já havia aprendido. Estava prestes a chorar quando ele se sentou e escreveu em seu bloco “11 de julho”.
– Hoje não é 11 de julho. – Falei, sorrindo, enquanto me sentava.
Ele me olhou, com um olhar de uma das primeiras visitas que fiz a ele, fez uma cara de confusão, como se não tivesse o que responder, e me ignorou. Fiquei impressionado em como isso foi estranho e assustador, aliás, ele nem arrumou a data.
– Então, como vão seus pensamentos sobre suicídio? – ele me olhou, de forma comum, sem expressão, um pouco hesitado.
Fitei meus pulsos. Essa foi uma das perguntas que ele fez na primeira sessão que tivemos. Minha mente girava e eu tentava me beliscar sem aparentar, porque eu realmente achava que estava em um sonho. Tudo parecia extremamente surreal, porque era. A sensação de déjà vu contínua começou a me dar dor de cabeça. Não propositalmente, eu começava a imitar expressões e gestos das sessões anteriores, como se estivesse fora do meu controle. O medo me estremeceu o corpo. Ele me olhou, confuso.
– Então?
– Estou bem. – Não conseguia pensar em mais nada para falar.
A sessão prosseguiu, e James continuava se imitando. Minha cabeça latejava de dor enquanto eu respondia as perguntas de forma imbecil só para não ouvi-lo perguntar “Então?” novamente. Minhas pernas tremiam de forma involuntária. Eu praticamente havia perdido o controle sobre meu próprio corpo.
– Sinto muito por sua mãe. – Ele disse.
Quando saí pela porta do Dr. Oliver e ele me disse “Até mais” da mesma forma que disse na semana passada, eu nem pensei. Estava extasiado pela sensação de estar livre daquele terror psicológico. Minha dor de cabeça havia diminuído, mas não o bastante. Eu continuava tentando encontrar uma lógica em tudo que havia acontecido dentro daquele consultório. Desci para o térreo e Lary não estava lá, mas sim, outro porteiro, o qual não possuía cor alguma, era quase preto e branco. Eu precisava ir ao médico, eu estava com alguma doença.
Antes de tudo, cheguei ao Starbucks e pedi um Frappuccino. A atendente sem cor sequer abriu a boca para falar comigo, e me olhou a todo o momento com uma expressão de loucura. O gosto do café não era o mesmo, na verdade, não possuía gosto de nada. Eu apenas o larguei na mesa e lamentei pelo dinheiro perdido. Olhei em volta, todos haviam sumido, menos a atendente sem cor e com expressão de loucura, que agora, aparentava medo. Eu estava com medo, também. Sentia-me todo frio, não por causa do frio que fazia na rua, mas por causa da minha doença – só podia ser uma doença.
Dirigi-me a um parque muito bonito onde sempre há muitas pessoas, famílias, casais, animais. Sentei em um banco qualquer e percebi que não havia ninguém ali, mas o parque parecia mais colorido que o resto. Eu o visitava muito, porque era um dos meus locais preferidos. Sorri, mas não por muito tempo, porque não havia um por que.
Aos poucos, as pessoas apareciam, mas logo sumiam como se fossem fantasmas. Na verdade, eu parecia um fantasma, ninguém parecia me notar. As pessoas passavam de forma tão sem significado que parecia que o tempo não significava nada, pois todo mundo passava, mas ninguém significava nada, o que fazia parecer que o tempo voava. Eu tentei chorar, mas não consegui. Eu queria chorar porque não havia mais nada para fazer.
Peguei o cigarro em meu bolso e liguei para Alice. Ela não me atendeu, mesmo depois das quatro tentativas. Na quinta tentativa, quase caí do banco quando senti uma mão em meu ombro. Gritei aterrorizado, mas baixo. Era Alice.
– Oi.
– Como você sabia que eu estava aqui? – perguntei a ela.
– Eu só sabia. – ela sorriu tão bonito que eu quase chorei de alegria.
Tudo nela possuía uma cor, uma alegria. Eu não havia visto tal coisa desde que a havia visto, mais cedo. Ela iluminava meu mundo, literalmente. Eu sorri junto.
– Quer fogo? – olhei para a chama que ela acendia com o isqueiro. Fiquei totalmente tentado a aceitar.
Olhei para o cigarro, olhei para ela, olhei para o fogo, olhei para mim. Olhei até para as pessoas que estavam ao nosso redor, antes de tudo ficar escuro.
Toda aquela sensação horrível de estar caindo estava amenizada, mas eu ainda a sentia. Ainda sabia que ela estava ali, ainda havia uma sensação de claustrofobia. Aquela de quando você está em um túnel e o fim não chega nunca. Arrepiei-me.
Quando tudo acabou, eu me senti afundando em algo macio. Minha visão doeu quando eu abri os olhos e vi tudo colorido demais. Olhei para o teto branco. Máquinas, barulho, confusão, sopa. E tudo acabou, congelado. Eu sabia onde estava, mas não sabia o nome.
Aconteceu como um flashback em minha mente, como se tudo se juntasse e entrasse em minha mente, como nos filmes. Bom, pelo menos, foi assim que eu me senti.
– E então? Eu não tenho o resto do dia todo. – Alice estava ali e, de alguma forma, isso me fez sentir mais seguro.
Peguei o cigarro e levantei em direção ao fogo de seu isqueiro e acendi. Depois, o pus em minha boca e aspirei sua fumaça. Tossi sem parar nas primeiras vezes, mas depois me acostumei.
Alice pegou um dos fones que estava em sua orelha – os quais eu nem havia notado – e colocou em minha orelha. Ela estava ouvindo uma música muito boa, mas eu não conhecia, só sabia que era boa.
– Que música é essa? – perguntei.
Ela não respondeu. Ela brilhava tanto. Ela apenas me olhou, sorriu, e me abraçou. Então, eu sabia. Não a música, claro. Mas depois ela me disse que era The Strokes. Eu só sabia que ela era mais brilhosa que todo mundo.
Depois que ela me soltou, nós continuamos ouvindo umas músicas legais que ela tinha no celular. Fumamos mais um pouco, não que me agradasse muito – não agradava, na verdade –, só que não queria ser um estraga-prazeres. E ela sorria tão bonito ao me ver fumar que eu morreria por problemas respiratórios de tanto fumar em uma só hora só para ver o sorriso dela de novo e de novo. Parece exagero pra quem vê cores bonitas em sorrisos toda hora, não é o meu caso.
Quando fomos nos despedir, ela se aproximou tanto de mim que eu sentia sua respiração. Uma sensação estranha passou por todo o meu corpo e eu estremeci. Ela me beijou na testa e foi embora, enquanto eu fiquei rindo feito um bobo. Não era grande coisa, um beijo na testa, mas era alguma coisa.
Quando cheguei a minha casa, ela era muito colorida, mas não tanto. Nada era tão colorido, só Alice. Isso fazia meu coração estremecer. Eu realmente achava que estava ficando louco. Meu irmão apareceu e disse “Oi”, a mesma coisa fez meu pai. Mas tudo me dava uma sensação de déjà vu, porque tudo parecia repetido. Eu tentava encontrar algumas cores por ali, mas quase nada tinha cor, só Alice.
A única coisa que eu esperava era que eu não ficasse obcecado por suas cores e as cores de seu sorriso. Era o que eu esperava.
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