Outono

2 capítulo um. outono


Sabe quando você acorda meio sonolento, olha para a parede do seu quarto como se fosse a coisa mais interessante do mundo, porque você nem sabe a razão de ter acordado? É como eu me sinto hoje.

Dei uns tapas no meu rosto tentando acordar. Funcionou um pouco. Levantei da cama com pressa porque estava um pouco atrasado. Estamos no período de provas e todos os dias eu tenho prova. Não me esforço muito para tirar uma boa nota, na maioria sequer estudo, mas mantenho o nível, sou inteligente.

Arrasto-me até o banheiro, mesmo sabendo que estou atrasado, porque não tenho a mínima vontade de voltar para a escola. Esse descontentamento todo começou quando meu pai resolveu se mudar para outro estado. Lá, eu tinha uns poucos amigos e a atmosfera do local era melhor, parecia tudo mais lindo, feliz e simples. Viemos para uma cidade suja, cheia de gente estressada e sem paciência. Na escola, não tenho amigos, só tenho conhecidos. Passo a maior parte do tempo sozinho, ouvindo música ou estudando, ou não fazendo nada, só sobrevivendo. Algumas vezes me pego quase dormindo na escola, porque é realmente tedioso ficar lá sem ninguém para conversar, mas eu converso com as músicas, apesar de que elas nunca respondem de forma correta. É estranho.

Meu pai resolveu se mudar no meio do ano passado, não porque ele recebeu uma proposta de emprego, ou porque ele queria começar uma vida nova, nem porque a cidade era melhor, porque definitivamente não é. Ele só resolveu se mudar porque “a vida é difícil de entender”. Eu nunca entendi. Acho que a vida se tornou difícil de entender para ele depois que mamãe se foi, mas a minha sempre foi difícil de entender e eu nunca pedi para me mudar, por isso nunca entendi porque meu pai quis se mudar. Aliás, ele tem um emprego de merda (muito mais de merda do que o de antes, na outra cidade); a vida continua a mesma monotonia, exceto por mamãe, talvez; e, como eu já disse, a cidade é uma merda, tipo o emprego do meu pai.

Pego um pouco de água da torneira e jogo no meu rosto, sinto uma sensação ruim, como se minha pele fosse ressecar e cair bem ali, e isso me fez sentir como se eu tivesse uns 70 anos. Escovo com rapidez meus dentes porque falta menos de 10 minutos para o sinal da escola tocar e, à pé até a escola, são mais de 10 minutos. Tiro uma e visto a outra roupa rapidamente, apenas pensando nos segundos passando. Enquanto me retorço para acabar de pôr a camiseta, sinto e ouço toda a minha coluna estalar e me sinto mais velho ainda. Isso tudo deve ser resultado do longo tempo de sono e internet.

Chego à cozinha a meu irmão menor, de 12 anos, está tomando um café com leite e comendo um pão com manteiga, tudo o que ele fez sozinho. Na verdade, ele é e sempre foi muito mais responsável do que eu sou e sempre fui. Sempre foi mais independente e nunca precisou de ninguém, nem mesmo quando era menor. Talvez tenha sido por isso que, quando mamãe se foi, ele não chorou por meses, como eu, ou ficou meio pirado, como o papai, ele apenas voltou a ter uma vida normal, o que eu achei extremamente maduro e assustador na época.

– Bom dia. – Ele me olha com a mesma expressão de toda a manhã, porque eu estou sempre atrasado.

– Oi.

– Você está atrasado. – E continua com a mesma expressão, mas também aponta para o relógio pendurado na parede. Faltam menos de 7 minutos.

– Obrigado, eu nem pensei nisso. – Tento parecer sarcástico, mas não tenho tempo para fazer o “trabalho” completo.

Ele me olha incrédulo, sem entender se foi uma piada ou foi sério.

De repente, meu pai chega na cozinha, vindo de seu quarto. Ele toma um gole de seu café preto de sua caneca grande, que está pela metade. Ele usa uma roupa suja de graxa e seu bigode fica todo molhado de café. Além de graxa, sua roupa está cheia de manchas de café, bem na parte de sua barriga grande. Meu pai costumava ser bonito, até aquilo acontecer. Quando digo aquilo, me refiro à morte da minha mãe. Não gosto muito de falar sobre isso. Meu pai é alto e tem o cabelo loiro-escuro, como meu irmão. Mas eu tenho o cabelo preto, como minha mãe tinha, e os olhos também. Percebo que meu pai estava chorando, mas não comento nada, apenas olho para meu irmão, e ele entende e concorda com a cabeça.

– Pode me levar à escola? Eu me atrasei... de novo.

– Todo dia essa merda. – Ele está sempre meio irritado. Pega as chaves enquanto eu acabo de comer um sanduíche que preparei tão rápido que não achei necessidade de citá-lo. – Vem. E Nicholas, você vai precisar de carona?

– Não, eu estou bem adiantado. – Ele me olha com uma expressão sarcástica e eu sinto certa vergonha por saber que um menino três, quase quatro, anos mais novos do que eu é muito mais responsável. Eu me esqueci de citar que meu aniversário é semana que vem.

Meu pai me leva para a escola no seu carro velho e não trocamos uma palavra sequer durante o trajeto, como sempre. Eu desembarco alguns segundos antes do sinal tocar e saio correndo, nem me importando de agradecer e me despedir do meu pai. Ele nunca fez questão e espero que nunca faça.

O sinal toca, mas nem todos se dirigem à entrada. Alguns ficam parados, apenas esperando. Passo por todos e sinto que alguns me olham com um olhar penoso, como se todos soubessem que sou uma pessoa solitária e sem amigos, outros me olham com deboche. Eu não ligo, na verdade, nunca liguei. Só é difícil, pois eu sempre estive acostumado a ter amigos, na outra escola.

Antes de ir para a sala, vou em direção ao armário. Perto dele, está um dos meus conhecidos, mas ele está falando com um amigo, então resolvo não interromper. Se ele fosse meu amigo, eu o interromperia, porque amigos têm alguns benefícios, mesmo quando o outro está com outro amigo. Não sei se você me entende. Mas ele é só um conhecido.

Guardo alguns livros e pego outros em meu armário. Meu conhecido, quando fecho a porta, está sozinho. Ele se chama Joe e ele é um cara legal, apesar de eu não o conhecer muito bem. Ele é baixo e tem o cabelo castanho-ruivo, o cabelo dele é legal.

– Bom dia. – Ele começa.

– Oi. – Eu sorrio.

E é isso. É o máximo de conversa diária que eu ganho em um dia normal. Em um dia anormal, talvez tivesse alguns “como vai você?”, ou alguns “ois” a mais, de alguns outros conhecidos. Porém, mesmo que eu falasse com todos os meus conhecidos dessa escola, eu não falaria a metade do que eu falava na antiga escola.

Vou para a sala, três minutos depois de o sinal ter tocado. O professor nem me nota porque ele está muito ocupado organizando um amontoado de papéis que estão em cima de sua mesa, também porque mais pessoas chegam junto comigo. Eu olho para a janela e vejo o céu nublado, as árvores balançam com a força do vento e algumas folhas alaranjadas caem, dando início ao outono. Sento-me rapidamente, tentando ser o menos notado possível. Sento ao lado de uma garota com o cabelo azul e piercings por todo o rosto e tatuagens por toda a pele que consigo ver, apesar de tudo, ela parece muito amigável, mas sequer sei seu nome. Abano para ela, mas ela não retribui, apenas olha e ignora. Sinto-me meio mal por isso.

A prova é de história e eu não sei o conteúdo que cai, mas eu sempre presto atenção em todas as aulas de todas as matérias, por isso sei responder quase todas as perguntas. É de múltipla escolha, então as duas das 20 questões ao total que eu não sei, eu chuto, mas não completamente.

O dia passa devagar, não falo com mais ninguém, exceto pelo meu professor de história, que, pelo que eu entendi, achou minha prova “legal”. Não sei o que isso significa, deve ser algo bom. Também falei com outro conhecido, ou melhor, conhecida. Susan é legal, mas é tonta e faz piadas bobas toda hora, além de me irritar o fato de que ela nunca parar de mexer com o cabelo a todo segundo.

Vou a pé para casa, com um bando de babacas do meu lado, de outra escola, me chamando de coisas ridículas, mas eu não ligo e mando-os se foder em meu pensamento. Porque eu não sei brigar, nunca soube. Chego em casa e meu pai está olhando tevê e chorando, mas ele tenta disfarçar o choro, mas eu sei. Nem olho para ele depois disso. Meu irmão não chegou ainda e eu não ligo para isso, nem um pouco.

Vou para o quarto fazer minhas lições e estudar um pouco para a prova de matemática de amanhã, porque, apesar de eu prestar atenção na aula, eu não entendi bem a matéria. É a primeira vez que vou estudar pra algo desde que me mudei. É uma matéria difícil.

Ouço a porta da frente bater e sei que meu irmão chegou. Mas tudo fica tão silencioso depois, por um tempo. E eu ouço o motor do carro roncar e alguém sair com muita pressa. Meu pai foi embora, como ele sempre faz quando algo dá errado, como ele sempre fez. Desço as escadas e vejo que a tevê está ligada, e nela, passa um vídeo gravado quando minha mãe estava viva, ainda. Sua expressão de alegria é angelical, como a de todos nós. Eu deveria ter uns 10 anos e era meu aniversário. Eu sopro as velas, no vídeo, e fico meio chateado. Eu não choro porque é inútil e bobo. E porque meu irmão chegou. E porque ele está com amigos. E porque ele tem amigos, e eu não.