Outfall
1 Zero
Notas iniciais
Com relação à frequência de postagem, acredito que será um capítulo por semana, mas isso pode variar.
Espero que gostem
O exército marchava pela floresta durante a noite. Homens em vestimentas esfarrapadas que mais lembravam mortos vivos. Caminhavam em meio aos insetos, suavam e fediam como escravos. Em seus olhos, uma estranha inversão dos valores: O prazer parecia emergir, como se recuar significasse a morte e lutar até o fim, a verdadeira vida. Estavam famintos por sangue.
À frente desses seres se encontrava um homem de feição menos inebriante. Seu olhar era mais calmo e paciente, aparentando reflexividade e frieza. Aspectos essenciais da personalidade dos que estão destinados a comandar e, portanto, sobreviver às batalhas da vida. Seu nome era Roter Foys, comandante supremo das forças do Ceveradk Earon Hornick.
Por dias a fio o grupo seguira por diversos caminhos. Marwine era um vilarejo distante, próxima à fronteira entre Rhur e Yunnan. Território isolado, governado pelos próprios cidadãos. Porta de entrada para uma recém descoberta mina de kati, um valioso minério. Naquele instante, dois Ceveradks buscavam o controle sobre o local: Earon Hornick e Batow Carton. A batalha que estava prestes a ocorrer, definiria o destino daquele conflito.
- Comandante! Recebemos a informação de que eles estão por perto. – Disse um soldado ao se aproximar de Roter.
- Sim, eu já imaginava. Estamos a apenas alguns minutos do vilarejo. Já não era sem tempo. Como eles se movimentam?
- Foram avistados seguindo a trilha do noroeste. De acordo com Cower, estão entre 150 e 200 homens.
Foys parou de caminhar no mesmo instante. Parecia extremamente surpreso com algo. Os soldados, que acompanhavam atenciosamente seus passos, fizeram o mesmo.
- Tem certeza do que está dizendo, Yiop? Cower realmente lhe falou isso?
- Sim, senhor. Qual o problema? É exatamente o que esperávamos, não é?
- Sim. Os números batem até demais...
Cower era um atirador sagaz e um soldado leal. Roter sabia que ele nunca cometeria um erro em seus cálculos, mesmo com aquela escuridão. No entanto, a situação lhe parecia extremamente bizarra.
Duzentos soldados fora o número previsto de inimigos que o grupo do comandante encontraria naquele dia. Duzentos eram os homens que marchavam a Marwine pelo noroeste. Seguiam o mesmo caminho, como se tolamente desejassem encontrar a morte em alguma emboscada. A mente analítica de Foys não admitia tal disparate. Principalmente, quando se levava em consideração que o líder deles era “aquele homem”.
Antes de seguir em frente, dividiu as tropas em duas partes: Avançou, com um pequeno número de soldados, por uma rota que levava diretamente à vila, e enviou todos os outros para o sudeste do ponto de destino, posição diametralmente oposta à dos inimigos. Teoricamente, estaria deixando de se aproveitar da oportunidade de criar uma armadilha. No entanto, ele tinha a certeza de, na verdade, eles seriam as presas se para lá seguissem.
Minutos mais tarde, o pequeno grupo adentrou no vilarejo. A visão de morte que encontraram tocaria o coração dos mais fortes e esmagaria o dos mais fracos. Não importava para onde olhassem, a única paisagem disponível era um misto de corpos, sangue e destruição, iluminados pela luz da lua. Mantendo sua serenidade, Roter focou-se em entender o que teria acontecido. Não fazia sentido que os soldados inimigos que vinham pelo noroeste já tivessem chegado e feito tanto estrago com os habitantes.
A resposta, contudo, era óbvia. Sem pensar por nem mesmo dois segundos, o comandante sacou sua espada, acionou seu terka e parou a primeira bala com uma destreza fora do normal. Seus companheiros, que mal perceberam o fato, apressadamente estabeleceram posição por trás de algumas casas, atentos a qualquer movimento do inimigo. Apenas Foys permaneceu imóvel.
- Então é assim que você quer jogar, Mox? Ao menos, eu não sou um covarde que se esconde atrás das sombras de mortos.
Uma gargalhada contida fez-se presente. À medida que os sons dos passos e dos risos ficavam mais altos, o vulto negro começou a tomar forma. A figura de um homem trajado com longas calças pretas e o que parecia uma capa branca, aproximou-se lentamente até parar alguns metros à frente.
- Como sempre, seu senso de humor é peculiar, Roter. Ora, não precisa levar as coisas tão à sério assim.
- E você continua o mesmo palhaço indiscreto. Olha só o estrago que você fez aqui! Se precisa mesmo derramar tanto sangue para impor sua vontade sobre meros camponeses, não é digno de ser um “quase” Ceveradk, Mox Carton.
A feição de Mox tornou-se séria e fechada por alguns momentos. Até que voltou ao normal com uma gargalhada ainda mais intensa.
- Oh, parece que sabes muito mais coisa sobre mim agora... Hahaha! É disso que eu gosto em você. Essa sua percepção apurada. Seria muito bom tê-lo como aliado. É uma lástima que tenhamos tais obrigações...
- Realmente.
Um grupo de atiradores, até então escondidos, apareceu e mirou o que pareciam espingardas em direção à posição onde cada um dos soldados de Roter estava. Eles também fizeram o mesmo. Foys e Carton entreolharam-se em silêncio por alguns instantes. Colocaram suas espadas à frente e cada um correu em direção ao outro. A velocidade dos movimentos era tanta que o primeiro choque entre as espadas fez um enorme estrondo e deslocou uma pequena massa de ar.
- Vejo que melhorou bastante. Mas com esse nível de terka, ainda não tem nenhuma chance de me derrotar. – Provocou Mox.
- Isso veremos agora. – Respondeu com um discreto sorriso.
Os movimentos de Roter se mostravam cada vez mais rápidos. A velocidade que a lâmina adquiria a cada movimento fez parecer, aos olhos dos soldados no entorno, que três espadas partiam do mesmo punho. O mais inacreditável era que, apesar dos movimentos de Carton serem mais suaves e lentos, ele jamais era atingido por um único golpe. Parecia uma luta entre dois monstros.
O único revide que o inimigo aplicou sobre o comandante, porém, foi suficiente para ferir seu braço direito. Foys, já ofegante, retrocedeu alguns passos e partiu com raiva para cima do adversário. O mesmo apenas sorria enquanto bloqueava os ataques com movimentos ainda lentos, mas inacreditavelmente eficazes.
- O que houve com toda a sua confiança? Eu consigo ver plenamente todos os seus movimentos. Quando pretende me acertar?
- Cale a boca, maldito! Eu vou te acertar de qualquer jeito!
Mais uma vez, Mox o atingiu. Agora fora na perna esquerda. Roter começou a perder o equilíbrio e acabou por tropeçar, derrubando sua espada.
Preocupado com seu líder, Yiop, que a tudo assistia, deixou sua posição e tentou disparar rapidamente contra Carton. Antes que pudesse alvejá-lo, porém, recebeu um tiro na cabeça, disparado por um soldado inimigo, e caiu morto no chão.
Um tiroteio começou e todos os soldados de ambos os lados acabaram mortos. Desolado como que viu, o comandante mal teve forças para empunhar novamente a espada. Porém, teria de fazê-lo, independentemente de qualquer coisa. Tinha uma missão a cumprir. O adversário, no entanto, não demonstrou nenhuma reação para com o ocorrido.
- É mesmo um desalmado. Não sente nada ao ver seus companheiros serem mortos bem na sua frente?
- Hahaha! Admito que estou surpreso. Nunca esperei ouvir isso de alguém sempre tão frio e calculista como você, Roter. Imagino o que pensará quando prestar atenção nos sons que vem da floresta.
Gritos, explosões, morte. Era o grupo principal. Os soldados que Foys deixou para trás com o objetivo de contra-atacar a estratégia adversária. Mas, ao final das contas, não havia contra-ataque. Tudo tinha sido um plano bem arquitetado pelo inimigo. O verdadeiro exército de Carton estava, na verdade, bem escondido a sudeste do local. Um estratagema perfeito. Naquele instante, todos os subordinados de Roter estavam sendo mortos como presas indefesas na toca do predador.
- E então? – Continuou Mox – Agora que está sozinho, o que pretende fazer? Desistir e implorar por sua vida? Ou morrer com “honra”?
- Sim... Admito que fui derrotado. Não há mais como vencer essa batalha. Minha missão fracassou. No entanto, se pensas que eu vou desistir de nossa luta, está muito enganado. Eu sou um soldado como qualquer outro. Minha função é lutar até a morte pelo objetivo daqueles que me enviaram, independente de qual seja. Ser o comandante não o torna mais privilegiado que nenhum outro soldado. Muito pelo contrário. É ser aquele que tem o peso da vida dos subordinados sobre as costas. Meu dever é protegê-los até o fim. E se não for possível, levar seu propósito adiante. Só que para isso, Mox, eu preciso te matar.
Num gesto ainda mais veloz do que o normal, Roter levantou-se e golpeou fortemente seu inimigo, que, dessa vez, mal conseguiu desviar. Surpreso, Carton decidiu pôr um fim definitivo à batalha perfurando-o profundamente na altura do plexo braquial. Sem forças para se movimentar, o comandante, ensanguentado, apenas caiu no chão, quase inconsciente. Agora com uma expressão fria e séria, Mox se distanciou do local enquanto dizia em voz baixa:
- Acho que agora, ele não terá mais dúvidas...
Ao longo dos minutos que se seguiram, Roter, ainda desperto, deu-se conta de que não havia mais o que fazer. Sorriu enquanto amaldiçoava seu rival por não o ter matado de uma vez naquela situação, e decidiu esperar pacientemente por sua morte.
No instante em que sua consciência parecia se esvair para sempre, ele teve uma súbita visão: Um homem, cujo rosto estava oculto, vestido com um longo manto preto, apareceu bem a sua frente.
- Eu respeito sua determinação. Mas ainda é muito cedo para você morrer, soldado. – Disse serenamente o homem misterioso.
- Quem... é você? – Perguntou com todas as forças que ainda tinha.
- Ninguém. Apenas a sombra que restou de alguém que outrora teve um nome.
- O... quê...? – Perdeu a consciência logo após a última palavra.
Aproximando-se do corpo aparentemente sem vida de Foys, o homem se ajoelhou e tocou a testa dele com a ponta de seus dedos.
- Como você agora, eu não sou nada. Apenas... Zero.
Notas finais
É isso aí. Desculpem-me por eventuais erros de margens ou coisas do gênero. Ainda não estou acostumado com o site. Até a próxima.
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