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1 Capítulo 01–Apartamento dos sonhos (ou quase isso)


Como eu imaginava minha vida há um mês? Bem, eu estaria num apartamento com minha melhor amiga, estaríamos dando uma festa. Música alta, pessoas com copos vermelhos nas mãos e eu estaria rindo e bebendo no colo de um cara. Paraíso. Esse sempre foi meu ideal, sempre foi a minha idéia de primeiro ano de faculdade.

Lógico, eu estava errada, e como. Eu e minha melhor amiga Keith, uma baixinha de cabelos castanhos longos, semblante sorridente e uma preferência irritante pela cor rosa. Sempre fomos grudadas, em tudo, desde o primário. Aqueles planos bobos que toda melhor amiga faz? Tipo ter mansões rosa e ser vizinhas? Pois é, quase chegamos lá, nos mudamos para Califórnia juntas, pois é Califórnia, a terra das praias e festas incríveis. Escolhemos um apartamento perfeito perto da nossa universidade.

Paredes nuas e brancas na sala, uma cozinha com tijolos vermelhos e piso de madeira, sem quadros, mas simplesmente perfeito, quartos com detalhes antigos e modernos, em perfeita harmonia. Janelas largas, pré-mobiliado, até as luzes nos lugares ideais. Deuses, já sentiram que nasceram para estar em um lugar? Eu senti isso ali. Aquela energia deliciosa me fez sentir em casa, mesmo estando a quilômetros do Maine, do lugar onde tinha crescido ali me senti em casa.

Porém, quando fomos pagar... Os pais da Keith acabaram com o sonho. Não a deixaram morar comigo, porque segundo eles eu sou uma “má influência”. Dá para acreditar?! Eu?! Ah, falando nisso meu nome é Halley. Tenho dezoito anos, sou loira, tenho cabelos curtos, nem cacheados, nem ondulados, nem lisos; sim, meu cabelo é complicado. Ok, a minha aparência é o de menos, já fui expulsa de algumas escolas, quero ser psicóloga. Amo música, comida calórica, e garotos. Não tenho nenhum vicio serio, já usei e abusei de tudo, menos nicotina, o que é meio irônico. E não, não sou uma má influência.

Voltando ao meu início problemático na Califórnia, eu fui dar um adeus ao meu apartamento, já que eu não podia pagar sozinha. E... Tinha um garoto visitando também, nesse momento eu tomei uma decisão precipitada, sempre tomo decisões precipitadas; sou meio impulsiva; enfim, dessa vez foi diferente. Essa decisão precipitada marcou toda a minha vida dali para frente, não sei determinar se de forma negativa ou positiva, isso eu deixo para vocês. Só sei que sinceramente, não me arrependo.

E é isso um mês depois, eu estou no meu apartamento, deitada na minha cama, no meu quarto. Não me acostumei ainda, tudo ainda parece meio surreal. Levantei da cama, depois desse breve resumo da minha vida. Espreguiçando-me e alcançando meu blusão xadrez favorito, que eu só usava em casa. Empurrei a cadeira do meu computador para longe com um chute, finalmente tomando força para me levantar.

Andei até o banheiro, escovei meus dentes com pressa, improvisei um rabo de cavalo e voltei para o quarto. Só para avisar, eu tenho uma necessidade de ouvir música alta de manhã. Ou eu morro. Sério, sem minha música da manhã eu me torno um zumbi pelo resto do dia.

Sentei-me na minha cadeira, e selecionei a música “Going down” na minha biblioteca porque, convenhamos se The Pretty Reckless não consegue te acordar, você é uma pedra.

Então fui para cozinha enquanto os acordes pesados me envolviam, peguei dois ovos, muito queijo, e manteiga. Escutei alguns resmungos ao longe e percebi que a música não tinha apenas despertado á mim. A música parou e ouvi passos no piso de madeira. Enquanto batia os ovos liguei a cafeteira e me virei para o garoto que me olhava levemente emburrado.

Cabelo preto, desalinhado, olhos semi-abertos de um castanho bem claro e pele levemente bronzeada de quem passou a vida na Califórnia. A camisa larga branca e as calças de moletom cinza que eu já tinha me acostumado a ver de manhã. O cenho franzido habitual e a sobrancelha arqueada que indicavam uma reclamação. Esse garoto é Jake Sanders, ele e eu moramos juntos á mais ou menos um mês.

- Se tinha que me acordar com uma música tinha que ser logo essa? – Disse coçando atrás do pescoço e bocejando.

- Bom dia para você também. – Sorri para ele. – Por que essa implicância com todas as minhas músicas? – Perguntei virando minha omelete.

- Algumas nem são tão ruins, mas algumas são tão... Você. – Disse se sentando de frente para a bancada que ficava entre a sala e a cozinha.

- Mais um motivo para amar ué. – Coloquei uma xícara de café na frente dele e me sentei com minha omelete e meu copo de suco de uva. Ele revirou os olhos para mim antes de tomar um gole. Sim, ele não agradece me acostumei com isso também. – Ah é, o apartamento é seu até amanhã, se eu encontrar alguma garota aqui você morre.

- Ciúmes? – Perguntou sorrindo. – Não se preocupe, conheço as regras. Meus pais vão apenas vir para ver como estou. Vai dormir no Tyler? Ah, vai dormir com o Tyler. – Comentou com o cinismo impregnando a voz.

- Depois eu que estou com ciúmes. – Sorri dando outra garfada na minha omelete. Ele suspirou, pude jurar que ouvi o humor nesse suspiro. Essas raras conversas amigáveis que temos sempre melhoram o meu humor.

- Estudou para o seu teste? – Perguntou quebrando o breve silêncio. Teste? Que teste? Oh merda. – Pela cara já vi que não. – Suspirou, sem humor dessa vez. – Deixei seu livro na mesa da sala junto da sua bolsa. Se você se apressar ainda consegue revisar a matéria.

Abri um sorriso de orelha a orelha e levantei virando meu suco num gole. – Valeu Jake, valeu mesmo. Você é demais. – Ele sorriu fraco enquanto eu tirava a mesa do café.

- Vá logo, eu cuido disso aqui. – Ele levantou e fez um gesto de enxotar para mim.

Mal ele terminou a frase eu corri para o meu quarto. Mas, não reconheci o meu quarto. As minhas coisas não estavam em lugar nenhum. As minhas roupas não estavam na minha cama. Os meus livros não estavam no tapete. Os meus sapatos não estavam no chão. O que fizeram com o meu quarto? Calma, muita calma, ele teve boas intenções.

Respiro fundo e abro meu armário.

Oh, não. Não é possível. Ele não fez isso.

- Sanders! – Ele apareceu quase que imediatamente na porta do meu quarto, a sobrancelha arqueada; completamente confuso. – O que você fez com meus pôsteres?!

- Que pôsteres?

- Os que estavam aqui! – Apontei para o espaço vazio no meu armário, onde estavam as relíquias das minhas bandas e filmes favoritos.

- Espera aí. Aqueles papéis velhos no saco de lixo? – Cerro meus dentes e assinto com a cabeça. – Joguei no lixo.

A tranqüilidade na voz dele quase me fez dar-lhe um belo chute no... Ao que parece ele notou o meu nervosismo e acrescentou:

- Se quiser posso pegar de volta, ainda não coloquei o lixo para fora.

- Isso não teria acontecido se não tivesse bagunçado meu quarto. – Ele me olhou descrente.

- Baguncei? Pelo amor de deus Chase, tinha uma caixa de pizza embaixo da sua cama! A culpa não é minha se não sabe cuidar de si mesma.

- É o que?! Não sei cuidar de mim mesma?! Só porque não tenho uma obsessão doentia por deixar até minhas meias em ordem alfabética não sei me cuidar?!

- Por que esse estardalhaço agora? Não falou nada sobre isso ontem... – E lá vamos nós. – Entendo, então chegou tão bêbada que nem reparou; você tem razão, sabe muito bem se cuidar. – Novamente a voz dele era cinismo puro.

- Pode, por favor, parar de falar como se estivesse certo?!

- Eu estou certo! – Ele elevou a voz.

- Você entrou no meu quarto, mexeu nas minhas coisas, e algumas chegou até a jogar fora, me explique como você pode estar certo?!

- Eu até explicaria, mas como você é selvagem e teimosa demais para simplesmente agradecer eu prefiro não perder meu tempo!

- Agora eu sou selvagem?! Ok, você cretino babaca, eu certa, eu ir embora porque estar cansada de ouvir você, ya bada badu, tchau! – Respondi vestindo uma skinny preta e colocando meus tênis all-star pretos. Sim, nós nos vestimos na frente um do outro. Sim, ele é um idiota. Não, eu não estou sendo infantil. Sim, ele está sendo infantil.

De repente, um pensamento me ocorreu, franzi o cenho de leve e comecei a rir. Jake me olhou franzindo o cenho também, e logo começou a rir junto comigo.

Meu caro observador inapto, essa não foi nossa pior discussão. Na verdade, nunca tivemos uma discussão tão boba. Essa é a primeira vez que passamos uma hora no mesmo cômodo sem que eu tenha chamado a namorada dele de “megera mal-comida” e sem que ele tenha feito alguma insinuação babaca sobre mim, ou sobre meus amigos. Sem palavrões, sem arremessar coisas e sem qualquer ameaça. Andei até ele e envolvi o rosto dele em minhas mãos.

- Isso é um progresso e tanto Sanders. – Ele sorriu.

- Talvez consigamos passar três anos sem nos matar Chase. – Os cantos dos olhos dele enrugaram de leve com esse comentário. Então me dei conta que ainda segurava o rosto dele e o soltei.

- Tchau, tenho que estudar. – Puxei minha mochila e saí rápido do meu quarto. Sem ignorar o “Bom dia” baixo e bem humorado vindo do garoto que ficou na minha cama. Cruzei a porta do meu apartamento com a respiração pesada e sem olhar para trás.