Our Solemn Hour
2 Pelos Olhos do Oeste
Wessex
Etheldreda se limitava a permanecer parada, com seus olhos fixos no horizonte sem realmente ver nada. Ela sentia o vento soprar seus cabelos para várias direções, mas sua capa de peles e penas impedia que seu corpo estremecesse. Alfredo estava ao seu lado, também parado e silencioso; apenas a deixando ciente de sua presença.
Alfredo era seu tio, e também o próximo na linha de sucessão do trono de seu pai, já que ela era mulher. Tal pensamento a irritava completamente; Etheldreda era a única filha de rei Ethelred de Wessex, sangue de seu sangue, sua linhagem, e ainda assim não poderia se sentar no trono e se tornar rainha de Wessex por nascimento. Quem se tornaria rei seria Alfredo, irmão mais novo de seu pai.
— O que faz aqui, meu senhor? — perguntou por fim. Geralmente, não tinha nada contra seu tio, mas nesse momento já não estava suportando a presença de Alfredo perto de si — Não deveria estar auxiliando meu pai a cuidar do reino que, como nós dois sabemos, será seu no futuro?
— Deveria ficar feliz com isso, Etheldreda. — ele se aproximou — Não sabe o peso que a coroa possui, os sacrifícios que precisamos fazer...
— Eu conheço os sacrifícios que fazemos! — tentou controlar o tom de voz — Eu realmente os conheço e compreendo. Assim como sei que todo bom governante deve fazer sacrifícios pelo bem de seu povo. Pelos homens em geral.
— Você deveria entrar e rezar pelo povo então, sobrinha. — Alfredo não era muito mais velho que ela, por isso, era estranho ouvi-lo a chamar assim — Reze para que os pagãos do norte parem de invadir nossas terras e matar nosso povo.
— Será que você não compreende, Alfredo? — finalmente se virou para ele — Esses vikings atacam Nortúmbria com toda a força que possuem, e ela com certeza cairá em pouco tempo. Há confusões em Kent e na Anglia Oriental. Até mesmo no litoral da Mércia há incidentes! Perdoe-me, tio, mas acredito que rezar não será o suficiente. Precisamos agir.
— Agir, você diz. — ele entrelaçou os dedos — Nortúmbria já estava enfraquecida por conta própria, ou será que conflitos internos provocados por uma sede de poder fortalece um reino? — Alfredo a observou — Você é uma garota inteligente, mas uma mulher não deve se envolver nesses assuntos, Etheldreda. Acha que orgulhará seu pai agindo assim? Pois a resposta é não. Se quer cumprir seu dever como princesa de Wessex, se quer cumprir seu dever para com o seu reino, case-se com o filho de Burgred e futuramente será rainha da Mércia.
— Não se trata de ser rainha ou não. — respondeu, friamente, compreendendo sem esforço o que Alfredo insinuara — Ethelred possui uma filha, e ela sou eu. Eu sou a herdeira legítima, considerada privada de voz e de um trono apenas pelo simples fato de ter nascido uma mulher. — ergueu o queixo — Não vou abandonar meu sangue, Alfredo, e eu possuo uma voz tão alta quanto a de todos os reis e soldados. E pretendo usa-la.
— Então use-a bastante quando for se confessar, princesa. Use-a para rezar pela vitória de Nortúmbria, pelo nosso reino e pelo seu futuro esposo.
— Apenas uma Bretanha de reinos unidos sob apenas uma bandeira pode expulsar esses invasores, Alfredo. — ergueu seu capuz, ocultando o rosto, e se virou — Guarde minhas palavras. Alguém precisa fazer algo.
— E esse alguém não será você, Etheldreda. — Alfredo não a encarou.
— Talvez não. — concordou — Ou talvez sim.
Etheldreda sentia sua raiva se esvair durante a caminhada que fez até seus aposentos. Raiva era o que sempre sentia quando conversava com algum dos senhores saxões; não tratavam de assuntos importantes com ela, tampouco a cabia de dar opiniões. Se perguntava por que, então, seu pai a fizera ter uma educação tão rígida e ampla, para que agora a descartassem como uma simples serviçal. Não teria sido melhor que a deixassem ignorante?
Mas a princesa de Wessex poderia ser tudo, menos ignorante.
Dispensando suas criadas ao adentrar seu quarto, despiu sua capa a lançando despreocupadamente no chão aos seus pés. Tirou impaciente os apetrechos que seguravam parte de seu cabelo em um penteado digno de uma nobre, digno porém muito inconveniente. Deixou os cabelos caírem por seus ombros e costas, loiros em um tom misturado, com os tons de seu pai e sua mãe.
Ela sabia que era bela, realmente sabia. Elogios nunca a faltaram, mesmo quando era apenas uma criança; e os homens não conseguiam se concentrar em outra coisa senão ela quando se aproximava. Não seria difícil se casar e ter filhos, manter uma família bonita e saudável, para ser admirada. E ela até mesmo gostara da impressão que Burgred, filho mais velho de rei Burgred, passara um ano antes, quando ela visitara Mércia. Ele era alto e bonito, e seus olhos eram gentis. Se afeiçoara até mesmo a sua irmã mais nova, que incrivelmente não possuía um nome saxão, Ceinwyn.
Mas não deveria pensar nisso agora. Agora era um momento de planejamento e ação. Haviam algumas pessoas — poucas, bem poucas ela admitia — em quem poderia confiar seus segredos, e agora mais do que nunca precisaria da ajuda dessas pessoas.
Se tudo desse certo, seria uma troca de favores, pelo bem maior. Seria a resolução para todos os problemas.
Se não desse, seria uma conspiração suja e traição, e ela seria morta por conta disso.
Suspirando, ergueu sua pena e começou a escrever em seu pergaminho, depositado cuidadosamente ao lado de sua cama. Com sorte, terminaria até a noite, e, quando Wessex estivesse adormecida, sua mensagem se encaminharia sem interrupções até o seu destino.
E então, ela rezaria.
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