Our Endless Curse
1 Born to be an Assassin
Notas iniciais

Inglaterra.
21 de fevereiro de 1087.
O dia ainda não havia nascido. Um breu tomava conta da cidade devido à pouca iluminação nas ruas. Nos telhados, uma sombra se movia rapidamente. Chegando ao limite das casas, ela parou, observando a carruagem que passava quase despercebida. Não havia restrição de horário, mas também não era algo comum. Observou a carruagem parar em frente a uma taverna. O cocheiro e seu ajudante desceram do transporte e seguiram para a sua traseira. Após soltar o baú, os dois o carregaram para dentro do estabelecimento. A sombra desceu a discreta trilha de tijolos na lateral de uma das casas para se aproximar.
Usando sua habilidade de visão da águia, ela observou os dois se aproximarem do balcão e, logo em seguida, sumiram por algum caminho escondido na despensa. Sem mais escolhas, ela os aguardou voltar. Enquanto esperava, notou que a carruagem não estava vazia. Havia alguém dentro. Ela fazia uma ideia de quem era. Tentou recuar para não pôr seu disfarce em risco, mas deu de frente com dois guardas. Acionou sua lâmina oculta e acertou a jugular do mais alto. Quando o menor virou para ver o que havia acontecido, a mesma lâmina cortou sua garganta. Antes de voltar a correr, uma voz fez a sombra parar.
— Pare onde está! – o tom firme e ameaçador a fez congelar em seu lugar.
Estava a poucos instantes de ser desmascarada, não havia muito mais o que fazer. As ordens de seu mestre haviam sido claras, mas ela não conseguiria cumprir. Ela havia cometido um erro do qual não era capaz de corrigir ou se livrar. Se envolvera demais. Sentiu quatro mãos agarrarem seus braços, a incapacitando de se defender.
— Pelo visto, sabe a hora de obedecer – o homem resmungou e se aproximou. Os guardas viraram a sombra para o chefe, que parou bem à sua frente. – Tirem o capuz – ordenou. Um dos guardas agarrou a peça e o puxou, revelando os cabelos longos e castanhos da mulher de preto. A surpresa tomou as feições do homem, mas ele logo retomou sua postura e trincou o maxilar. – Levem-na para o castelo. Acho que precisamos ter uma conversa bem séria.
Os brutamontes a arrastaram até uma segunda carruagem e lhe prenderam às correntes, aproveitando para tirar a lâmina oculta que tinha no pulso esquerdo e o cinto de lâminas em sua cintura. A viagem até o castelo não fora nada agradável ou confortável, tampouco longa. Em poucos minutos, a carruagem parou e os homens desceram. Quando as portas traseiras se abriram, ela não protestou ou interveio, os acompanhou calmamente até a cela, onde o mais alto a empurrou violentamente para dentro, visivelmente rancoroso por ter perdido dois colegas. Dois de poucos que ela já havia matado apenas nos últimos dias.
Assim que trancaram a porta, ela se apoiou no chão e se levantou, seguindo até a pequena janela na parede. Não dava para ver muito do lado de fora, parte pela escuridão, parte pelo posicionamento, já que as masmorras do castelo ficavam de frente para o violento rio que corria pela região. Após algum tempo, passos foram ouvidos a descer as escadas. A Assassina se virou de frente para a porta de sua cela a tempo de ver o homem da carruagem adentrar.
— Quem é você? – questionou, observando cada mínimo movimento ou sinal dela.
— Você sabe quem sou.
— Sei? – riu descrente. – Abra! – mandou ao guarda que o acompanhava, indicando a porta da cela.
— Mas, sir William – tentou protestar.
— Agora! – repetiu, mais alto, e o viu obedecer, ainda receoso. – Nos deixe a sós.
Assim o fez. Ao sair, o guarda fechou a porta de madeira atrás de si. O primeiro homem tirou a capa vermelha que havia presa em suas ombreiras e pendurou na grade da cela, entrando e fechando a porta novamente. Se aproximou da mulher, que abaixou o olhar, e a rodeou.
— Confesso que não acreditei quando Jasper me contou o que você era – murmurou, parando de frente para ela novamente. – Diga-me, por que mandar uma mulher fazer o serviço de um homem? – pôs ambas as mãos atrás do corpo e ajeitou sua postura, aguardando a resposta.
— Uma mulher pode fazer inúmeras coisas que um homem não consegue. Às vezes, com uma facilidade bem maior – explicou.
— Exemplos – pediu William.
— Ganhar o amor ou a atenção de um homem.
— Por que não mandar uma prostituta? – sorriu de forma arrogante.
— Você não confia em uma prostituta quando não está na sua cama, muito menos quando ainda está vestindo suas calças – expôs. – Você, no entanto, apenas não consegue confiar. Em ninguém.
— O que veio fazer em Londres?
— Vim buscar o que roubaram de Jerusalém. Os pergaminhos que carregavam no baú não pertencem a vocês – ergueu seus olhos para William. No entanto, não demonstravam raiva.
— Prostitutas e ladrões, bem, me parece que todos morreremos com nossos pecados – se aproximou da mulher um passo mais. Um vento gélido invadiu o local, fazendo os cabelos castanhos e cumpridos do homem se balançarem junto aos dela.
— Não, você viverá o bastante para sofrer com os seus – ela sussurrou, encarando os olhos do homem dolorosamente. Sabia o que viria a seguir. – Apenas faça.
William desembainhou seu punhal e a viu fechar os olhos. Ele pôs a mão nas costas da mulher, mesmo sabendo que ela não fugiria, e fincou a lâmina em seu abdômen.
— Me perdoe, mas é algo que devo fazer – pediu num sussurro.
Conforme suas pernas perdiam as forças, ele se agachava com o corpo da mulher em seus braços. Recolheu seu punhal e depositou a mulher delicadamente no chão de cimento e feno. Embora não tivessem um desfecho tão bom em sua história, ele jamais negou a si que sentia algo por ela. Algo diferente e, talvez, até especial. Naquele momento, ele havia acabado de matar suas esperanças para algo bom em sua vida. Ele observou os traços da mulher uma última vez e passou os dedos sobre seus olhos verdes sem brilho, os fechando. Se levantou e seguiu para fora do local.
— Meus parabéns, William – seu tutor o saudou, com um sorriso estampado no rosto. – Fez um ótimo feito para sua nação. Em breve, se tornará um excelente rei.
— Não tenho pressa para a coroa, Jasper – confessou e soltou um suspiro cansado. – Se precisar de mim, estarei em meus aposentos.
William se retirou, enquanto Jasper adentrou a masmorra seguido por dois guardas. Se aproximaram da cela e viram o corpo da Assassina.
— Livrem-se do corpo. Joguem no rio, quem sabe assim ela não retorna para o fim de mundo de onde veio – ordenou e logo os viu acatar. Adentrou um pouco a cela e observou a janela. A lua brilhava alto no céu e provavelmente presenciara toda a cena. Por um instante, o homem a invejou. Acabara de se livrar de um grande fardo em suas costas. Agora, o caminho de William ao trono seria muito mais rápido, graças ao próprio. E, claro, seu caminho até os Fragmentos do Éden, graças aos pergaminhos roubados. Seus planos estavam próximos de se completarem.
Em setembro de 1087, William foi coroado o rei da Inglaterra após a morte de seu pai. Devido ao vazio em seu peito pelo que havia feito com sua amada, William não se casou, nem teve filhos. Em agosto de 1100, durante uma caçada a veados em Hampshire, na Inglaterra, uma flecha acertou seu peito, o matando na hora, assim como havia ocorrido com seu irmão e sobrinho em caçadas anteriores. O que ninguém sabia é que suas mortes haviam sido pelas flechas de um Assassino. Apenas três dias após sua morte, seu irmão mais novo, Henry, assumiu o trono inglês.
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