Ouça o Coração Falar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
Grandes orbes de profundo anil observavam a cena. Kuchiki Rukia sentia a garganta fechar-se e uma incômoda ardência nas narinas. Fechou os olhos, e inspirou fundo, agarrando-se ao resquício de força que restava em seu coração. Ela não poderia fraquejar e entregar-se. Se estava ali, havia um motivo. Era uma missão, unicamente dela, que a fez contrariar a si própria, e as vontades daquele que chamava de irmão. Não poderia se entregar às lágrimas, pois isso a faria perder aquela batalha que há tanto tempo travava consigo mesma. Entretanto, o sofrimento do jovem que fitava era tão palpável a ela, que seu coração sentiu que era inevitável liberar o choro mudo. Uma lágrima, teimosa, partiu dos olhos, chegando a tocar-lhe a boca. A morena havia esquecido o gosto salgado das mágoas. Mais por instinto do que por vontade, moveu os lábios, em um sorriso triste. Sentia-se tão fraca a ponto das pernas fraquejarem, e permitiu-se, por breves instantes, contemplar a própria dor, contida naquela única lágrima.
Apenas uma lágrima...
-
Silenciosamente, fechou a porta. Ainda era cedo para ir ao colégio, mas esse não era o objetivo dele. Não naquele dia. Era comum faltar às obrigações rotineiras naquela data, e sabia que seus amigos não se preocupariam com sua ausência. Eles saberiam o motivo. Era uma tradição todos da família Kurosaki abandonarem qualquer tipo de rotina ao amanhecer de 17 de junho. Entretanto, Kurosaki Ichigo faria aquele dia diferente. Sem se importar de avisar à família, ou deixar algum recado, saiu pela porta da frente com o céu ainda escuro. Apressou-se pela rua deserta. Não tardaria o nascer do dia, e por algum motivo, queria ver a ascensão do Sol. Entretanto, um pouco contrariado consigo mesmo, sentiu que antes de qualquer coisa, deveria encontrá-la.
Os passos eram tão largos e seus pensamentos tão desconexos, que mal notou onde estava. Quando se deu conta, já estava no cemitério. Caminhava lenta e dolorosamente em meio aos túmulos. Cada um continha em si o sofrimento de alguém, e tal fato deixava o ar melancólico. Por isso não gostava de lá. Naquele lugar, sobretudo, sentia o coração apertar e as lágrimas lhe embaçarem os olhos. Seu desejo, a princípio, era não visitar o cemitério onde jazia a pessoa que lhe faltava em vida. Não queria ter que passar o dia diante de tanta melancolia, que era inutilmente mascarada por Isshin e suas loucuras. Sabia que o pai fazia isso por não querer ver o sofrimento dos filhos diante do túmulo de Masaki, e talvez por isso nunca contara à família seus verdadeiros sentimentos. Em todos os anos em que faziam aquela visita, sempre esteve presente, apesar de ignorar tudo o que o pai lhes propunha a fazer – o que era seguido, na maioria das vezes por um soco no rosto do pai, na infeliz tentativa de fazer-lo calar a boca. Não queria causar preocupações a ninguém, mas a verdade é que sempre quisera passar esse dia sozinho. E dessa vez o fez.
Parou em frente ao túmulo de sua mãe. Sentiu aquele aperto tão conhecido por ele, e pela primeira vez, soltou às lágrimas que banira de sua vida há tanto tempo. Fechou os olhos. Um murmúrio foi lançado ao vento gélido da madrugada.
Me desculpe...
-
Atravessou o Senkaimon dando um olhar de sincera gratidão a seu capitão que ficara para trás. Tentava ainda entender como ele havia descoberto que, naquela data em especial, ela precisava fazer uma visita ao mundo dos humanos. Resolveu deixar este assunto para depois, afinal, só haviam duas explicações: ou ela era um livro aberto, ou Ukitake-taichou detinha o poder de ler mentes.
O portal se abriu no céu, como de costume, e a queda da pequena shinigami foi amparada por Urahara Kisuke, o que também era habitual. Rukia olhou em volta, procurando Tessai e as crianças, que sempre acompanhavam o ex-shinigami. Não os encontrou. Deveriam estar cuidando da loja, já que o Senkaimon havia lhe lançado a uma boa distância da mesma.
- Que bom lhe ver depois de tanto tempo Kuchiki-san – declarou o loiro com seu típico tom cantado.
- Digo o mesmo, Urahara. – Revidou seca, percebendo o sorriso malicioso que o mesmo lhe dava por trás do leque. Ele provavelmente deveria saber o motivo de sua visita e aquilo a constrangia um pouco.
- Não gostaria de tomar um chá?
- Obrigada, mas não tenho tempo pra isso. – Estava impaciente, e o teatro cordial do homem a sua frente a irritava.
- Ah sim, claro. Como sou esquecido! Você não veio aqui por mero acaso, então se apresse! Kurosaki-kun deve estar precisando muito de você. – Comentou divertido, aumentando seu sorriso zombeteiro quando viu o quanto a pequena havia ficado sem graça pela insinuação implícita em sua fala.
- Bem, já estou de saída. Até mais Urahara-san. – Era possível notar a irritação em sua voz. Mas ela se recompunha rápido, pensou o loiro.
Utilizando um shunpo, a shinigami partiu para a casa de Ichigo, julgando que, pelo horário, ele ainda estivesse dormindo. Sorriu com essa possibilidade. Gostava de ver o jovem dormir. Em suas longas estadias no mundo real, à noite, imerso em sono, era o único momento em que Rukia o via com o semblante calmo, sem o costumeiro cenho franzido. Tal visão, de alguma forma, aliviava um pouco o coração da morena. Ao menos uma vez a cada dia, sabia que ele estaria livre de preocupações. Ao menos enquanto dormia, as confusões que a shinigami trouxera para sua vida lhe abandonavam.
Rukia nunca admitia pra si, mas em seu íntimo, sabia que sentia outras coisas além de alivio quando o via naquele estado tão sublime. Sentia o sangue se espalhar pelo corpo e o coração bater mais rápido. Além de uma vontade quase insana de contornar os belos traços do rosto de Ichigo com a ponta dos dedos, de conhecer a maciês que o cabelo alaranjado parecia ter. Nos poucos momentos em que a seriedade que herdara do clã Kuchiki a abandonava, os sentimentos contidos em seu coração dominavam-na. Entretanto, contentava-se apenas em observar o corpo inerte do jovem sob o colchão macio. Sua razão sempre ganhava as batalhas contra o sentimentalismo, informando ao coração de que tudo aquilo era mera loucura.
Balançando freneticamente a cabeça, Rukia tentava se livrar de suas divagações. Concordava com a razão, toda a confusão de sentimentos que Kurosaki Ichigo despertava nela era mera loucura. Concentrando-se, ela se lembrou do motivo de estar ali, e imediatamente a seriedade típica voltou a dominá-la. Ficou satisfeita consigo mesma, de fato, herdara também o autocontrole do irmão adotivo.
Apenas quando chegou a frente da casa dos Kurosaki que a shinigami percebeu que o ruivo não estava lá. Sentiu a reiatsu da família, mas não a dele. Concluiu que ele havia saído sozinho. Estranhou a si mesma por não ter notado antes. Diferente de Ichigo, ela conseguia identificar esse tipo de coisa com uma eficácia típica, e além do mais, nunca se distraía em uma missão importante. O que estava acontecendo consigo?
Achando o paradeiro de Ichigo mais importante do que seus devaneios, correu até o local onde o shinigami substituto estava, sendo desta vez, guiada pelo poder espiritual do garoto.
-
Achava-se um fraco. Covarde. Esbanjava coragem ao enfrentar as batalhas e inimigos da Soul Socity, mas não tinha coragem de encarar o túmulo da mulher que havia morrido por sua culpa. Sim, a culpa era sua. Por mais que tivesse se convencido de tudo era armação daquele maldito hollow, ele ainda possuía sua inegável parcela de culpa. Não honrava nem o nome que possuía, tendo em vista que significa protetor.
Sentou-se ao pé da árvore de uma colina, um pouco afastado do cemitério. Tinha visão completa do horizonte, e pode assistir os primeiros raios de Sol cortarem o céu, como tanto queria. Contudo, nem a beleza singela daquela manhã acalentou sua alma desolada. Encostou o cabelo de cor incomum no tronco da árvore e fechou os olhos. Tudo o que pensava era no mal que havia feito à família por roubar o Sol de seus corações.
Talvez se Kurosaki Ichigo tivesse a percepção de poder espiritual um pouco melhor, teria notado que não estava sozinho. Notaria que estava sendo observado.
-
Rukia diminuiu a velocidade de seus passos quando percebeu que Ichigo estava perto. Caminhou cautelosa, não querendo ser percebida tão logo. Avistou o ruivo encostado em uma árvore com os olhos fechados. Talvez se a shinigami nunca o tivesse visto dormir, acharia que o Kurosaki estaria mergulhado em sono profundo. Mas a experiência lhe dizia que ele só estava de olhos fechados. O semblante tinha o cenho contraído, e notou os músculos enrijecidos. Possuía a mesma postura que adotava em batalhas, e aquilo a fez ver o quanto ele não estaria sofrendo.
- Por que ele sempre prefere sofrer sozinho? – sussurrou para si, pensando alto.
Por mais que o bronqueasse por conta da atitude, a shinigami o compreendia. Ela, sozinha, acabava por se culpar pela morte de seu tenente. E ironicamente, quando os lapsos de culpa a assombravam, ela ficava da mesma forma que ele: olhos fechados tentando conter as lágrimas, músculos enrijecidos pela raiva e culpa.
Entendia aquele sentimento, e por isso se sentia no dever de protegê-lo daquilo. Ninguém foi capaz de curá-la em seus momentos de angústia. Talvez porque ninguém pudesse entender como era participar da morte de alguém querido, mesmo sem ter a intenção de matar. Achava, entretanto, que existia um abismo diferencial entre a situação de Ichigo e a dela. Era certo que ambos haviam sido vítimas da emboscada de um hollow, entretanto, Ichigo não gravara uma espada no peito de sua mãe. Ele apenas tentava salvar uma vida que acreditava que estava em risco.
- Protetor desde pequeno... – sorriu melancólica.
Rukia, entretanto, perfurou Sode no Shirayuki no peito de Shiba Kaien, simplesmente por defesa própria. Por medo da morte. Sorriu amarga diante da própria ironia. Por que alguém que já morreu deveria ter medo da morte? Ela não fora capaz de proteger seu tenente, alguém que fora tão especial para ela. Não poderia fazer o mesmo com Ichigo.
Sentiu a garganta apertar e uma lágrima solitária escapar pelo rosto. Concluiu que antes de ajudar Ichigo, ela deveria curar a própria alma.
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Depois de vagar por tantos pensamentos, não pode deixar de pensar nela. Há quanto tempo não a via? Sentia falta daquela baixinha irritante, como ele gostava de apelidar. Rukia havia sido a única pessoa que havia feito a tempestade em seu coração parar por alguns instantes. Enquanto estava ao lado dela se sentia forte. Sentia-se capaz de proteger sua família e as pessoas que eram importantes pra ele. Isso tudo porque ela lhe mostrava que ele era capaz, através daqueles olhos de azul intenso que tanto gostava em segredo. Estava longe da pequena shinigami a cerca de sete meses, e não recebera notícia alguma. Urahara Kisuke lhe dissera uma vez que não era desleixo da Kuchiki com seus amigos do mundo real. Ela estava muito atarefada com seu esquadrão, além do mais, o tempo na Soul Socity passa de forma diferente. Se para eles na Terra havia se passado muito tempo desde a última visita, para Rukia não fora tanto tempo assim, afinal, quando se tem a eternidade para viver o tempo passa a ser um mero objeto. Kurosaki Ichigo, entretanto, não havia aceitado o argumento. Para ele a resposta era clara: ou Rukia realmente não se importava com ele e seus amigos, ou Kuchiki Byakuya a estava impedindo de vê-los. Suspirou resignado. Talvez se Rukia estivesse com ele, a chuva puderia passar novamente.
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Enxugou a umidade do rosto. Depois de muito refletir se sentia mais tranqüila. Mesmo tendo receio de ser expulsa dali por Ichigo, a morena iria arriscar. Tinha certeza de que se Kaien-fukutaichou estivesse vivo, diria para ela protegê-lo, já que era tão importante. Levantou-se confiante e caminhou até o rapaz, sem se importar de ser percebida. Ichigo não precisou vê-la para saber que ela estava lá. Concluiu então que a ausência da shinigami só poderia ser culpa de Byakuya, caso contrário ela não estaria ali justamente naquele dia. Ficou levemente aliviado. Mas foi pouca coisa, levando-se em conta toda a mágoa que sentia.
- Ichigo... – ela sussurrou fraco, mas foi o bastante.
- Oi... – respondeu tentando forçar um sorriso. Em outras ocasiões não seria difícil sorrir verdadeiramente pra ela.
Rukia percebeu sua falha tentativa de sorrir, já que o sorriso de Ichigo não chegava aos olhos. Não comentou nada, e sentou-se ao seu lado, passando a fitar o nada, como ele fazia.
- Você sabe que não deveria estar assim... – começou hesitante. Não sabia exatamente o que dizer, mas tinha que começar por algum lugar.
- Você sabe que eu deveria... Ela está morta e por mi... – não foi capaz de concluir, pois uma mão lhe acertara o rosto, em um soco. O sangue subiu-lhe a cabeça, mesmo conhecendo Rukia como conhecia.
- ESCUTA AQUI SUA ANÃ... – explodiu.
- ESCUTA AQUI VOCÊ, IDIOTA! – o tom fora tão intimidador que Ichigo se calou por instantes. – Pare de se culpar, Ichigo! Você sabe que não teve culpa, que sua família não te culpa, que ninguém te culpa por isso, e que sua mãe morreu pra te salvar! Respeite a vontade dela e pare de fazer essa cara de Laranja azeda!
Ichigo assimilava cada palavra dita pela pequena, e conhecia a verdade nelas – com exceção à menção de “laranja azeda”. Faria a shinigami pagar pelo insulto mais tarde. Contudo, isso não mudava os fatos.
- Mas ela morreu... – disse em um fio de voz.
A shinigami se contraiu com o tom de angústia daquelas palavras. Sentia a dor dele. Achava que se começasse a gritar com Ichigo, o mesmo aconteceria da parte dele. Uma discussão se iniciaria e ele, por alguns instantes, esqueceria um pouco da dor. Isso não aconteceu, e ele voltou a ter o mesmo olhar perdido em tristeza.
- Ao contrário... Ela está morrendo. – proferiu em um tom mais ameno, diferente do habitual. Olhou-o de canto antes de continuar, vendo a confusão estampada nos olhos castanhos. – Se continuar com esta atitude, se martirizando por tudo... Aí sim a fará morrer.
- O que você quer dizer com isso?
- O que eu quero dizer, é que você se esqueceu de algo muito importante... Enquanto você estiver vivo... – a shinigami se inclinou na direção do Kurosaki, tocando-lhe o peito com uma das mãos. – Ela estará bem aqui. Ela sempre estará com você, Ichigo. Você guarda sua mãe dentro de seu coração. As lembranças dela, a sua vida com ela. Está aí dentro... Se culpando pela morte dela, você abre feridas no seu coração, e se esquece que é justamente nele que ela tem vivido. Você mais do que ninguém deveria saber que a morte não é um final. Mesmo que os problemas do passado não possam ser resolvidos, não jogue sua vida fora, por ela.
Ichigo olhou para a pequena, espantado com as palavras. De fato, ela tinha razão sobre isso. Quase instantaneamente, sentiu a dor que guardava no peito sair aos poucos, como se Rukia a tivesse puxando com as mãos.
- Você tem razão... – disse calmo. Num tom que Rukia nunca ouvira. A shinigami percebeu que ele havia aceitado suas palavras, e ficou aliviada. Entretanto, logo o alívio foi trocado por vergonha: ainda possuía uma das mãos sobre o peito de Ichigo e não soube o que fazer.
O rapaz olhou para a mão que continuava sobre seu peito. Cobriu-a com a sua própria. Nesse momento o coração acelerou, batendo vivo. Ficou desconcertado por saber que Rukia ouvia perfeitamente as batidas descompassadas. Mas persistiu com a mão sobre a dela, acariciando-a levemente, carregado de ternura.
- Está ouvindo, Rukia? – Perguntou. A voz era rouca.
- Estou...
- Entende o que ele diz? – viu o azul confuso dos olhos dela olhando timidamente para ele. Concentrou o olhar no dela, naquele contato visual que sempre o assustava. Sentiu-se mergulhar em profundo oceano. O cheiro doce dela lhe confundia os sentidos.
Rukia não conseguia manter os pensamentos coerentes diante da proximidade que compartilhava com Ichigo. A respiração dele lhe acariciava o rosto. Trazia consigo o cheiro dele, que ela conhecia tão bem. E os olhos... Se perdiam nos dele, coloridos de um âmbar intenso. Havia perdido do dom da fala. Havia perdido tudo. Só lhe restava ele.
- Não sei... – respondeu tempos depois. Com uma coragem que não tinha continuou. – Por que você não me diz?
Ichigo sorriu de canto. Como ela era boba! Tinha certeza que Rukia já sabia a tempos dos sentimentos que ambos compartilhavam no fundo de seus corações. Era impossível não perceber, dado tudo o que já haviam vivido até ali, os sorrisos, os olhares cúmplices, o bem estar que ambos sentiam quando estavam juntos. Até no colégio, nas poucas vezes que ela o freqüentava, os colegas comentavam que os dois pareciam um casal. Para o ruivo não haviam desculpas. Rukia poderia ignorar tudo, mas não significava que ela não soubesse de nada. Resolveu entrar no jogo dela, percebendo que ela queria uma declaração de sua própria boca.
A pequena shinigami sentiu as bochechas queimarem vendo o sorriso sapeca que Ichigo esboçava no rosto. Como se a situação já não fosse desconcertante por si só, sentia que o rapaz conseguia ler seus pensamentos através dos olhos. Não duvidou que isso estivesse acontecendo, pois ela também tinha leve idéia do que se passava naquela cabeça laranja. Rukia sabia que a relação que compartilhavam tinha ímpetos para ir além do companheirismo, se um deles cedesse. O problema é que não poderiam ceder a uma paixão, sobretudo porque estavam em meio a uma guerra contra Aizen Sousuke e seus Arrankar. E além da realidade presente existia outra, que não poderia ser ignorada: vivam em mundos diferentes, a diferença de suas idades era exorbitante. Se comparado a Rukia, Ichigo era apenas uma criança, mas o corpo da morena parecia ignorar tudo o que sua mente gritava. Estava tão envolta nos próprios pensamentos que, por instantes, esqueceu-se do rapaz que estava tão perto de si, só se lembrando disso após sentir os braços fortes abraçarem-na pela cintura.
- Você sempre me chama de idiota... Mas a única idiota aqui é você, baixinha... – sussurrou no ouvido da morena, deliciado pela proximidade que só tivera em sonhos. A voz rouca fazia o estômago de Rukia se revirar. – Tem certeza de que eu ainda preciso dizer alguma coisa? Você sabe que meu coração só bate desse jeito... por você...
E ela sabia. Em verdade, nunca tivera certeza, mas naquele momento era impossível negar a veracidade da fala do ruivo. Se não confessava, era por medo. Admitir tudo isso seria se entregar a esse sentimento, e parte de si ainda relutava contra isso. Ichigo apertou mais o abraço, passando a brincar com os cabelos da Kuchiki, na tentativa de acalmá-la um pouco. Notava o quão tensa a shinigami estava e achou graça.
“Tanta relutância... Só pode ser influência do Byakuya...” – pensou.
Rukia, que agora possuía a cabeça escorada no peito de Ichigo, começou a se acalmar, embalada pelas batidas do coração que estava tão próximo de si. Convenceu-se que não adiantaria continuar com aquela guerra interior. Por mais que soubesse que era errado, que poderia não dar certo, e que esse tipo de relacionamento poderia vir a ferir ambos, não podia negar o que seu coração e alma diziam. Ambos se deleitavam no abraço, no contato tão terno.
- Eu poderia simplesmente ter dito que te amava, já que é tão difícil pra você aceitar isso por si só... – Ichigo voltara a falar, desta vez, fitando os olhos azulados com determinação. Não a deixaria fugir ainda mais. – Mas dizer apenas isso nunca traduziria o que se passa aqui... – Tocou a mão pequenina que continuava repousada sobre seu coração.
Foi o suficiente para a Kuchiki Rukia.
Pousou dois dedos sobre os lábios dele, no intuito de calá-lo. Ichigo entendeu o recado, e olhou-a com curiosidade. Rukia tirou a mão dos lábios, passando a segurar a nuca do shinigami substituto. Olhou-o terna, totalmente rendida.
- Não precisa traduzir nada... Eu entendo perfeitamente, já que comigo se passa o mesmo. – sorriu. Um sorriso lindo!
- Deveria sorrir assim mais vezes... Você fica linda sorrindo. – Estreitou mais o abraço. Uma aproximação perigosa.
Corada devido ao elogio, a shinigami fechou os olhos, instintivamente, mantendo resquícios do sorriso no rosto de porcelana. Sentia se aproximar aos poucos de Ichigo, que fazia o mesmo, diminuindo cada vez mais o pouco espaço que os separava. Já compartilhavam o mesmo ar, levemente ofegantes. O coração lhes saltava pela garganta, não cabendo no peito, tamanha a ansiedade. Aquela era uma disputa para ver quem perderia o controle primeiro, quem tomaria a iniciativa.
Impaciente, como sempre fora, Ichigo rendeu-se, totalmente embriagado pelo cheiro dela. Necessitava provar daquele gosto, o gosto de Rukia. Roçou os lábios de leve, receoso. Não sabia ao certo o que fazer, dada sua completa inexperiência com relacionamentos. Contudo, em seu íntimo, sabia exatamente o que deveria ser feito. Cobriu os lábios de Rukia com os seus, sentindo o coração falhar uma batida. Comprimiu levemente a boca pequena, em um pedido para degustá-la.
Rukia, solícita, atendeu ao pedido, dando margem para o beijo se aprofundar. Sentiu Ichigo lhe invadir a boca, tímido, porém com urgência. A partir de então, tudo era quente. As línguas, que se conheciam ainda, eram quentes. As mãos que lhe seguravam pela cintura eram quentes. Ichigo era quente, assim como ela própria, que sentia o rosto queimar tanto a ponto supor que suas bochechas estariam rubras, tal qual a camiseta que o rapaz usava. O ruivo aprofundava cada vez mais o contato, explorando a pequena boca e deixando-se ser invadido pela morena. A timidez sumira, só restavam ali as declarações implícitas, o amor.
Separaram-se a contragosto por falta de ar, já que haviam se esquecido completamente de que respirar era algo importante. Contudo, mantiveram-se próximos, com as frontes encostadas e olhos fechados. Rukia abriu os olhos lentamente, deparando-se com os de Ichigo ainda fechados, corado até a raiz dos cabelos, respirando com dificuldade. Não pode evitar um risinho irônico com o pensamento que lhe invadiu a mente, o que atiçou a curiosidade do rapaz.
- O que foi? – Perguntou em meio a um sorriso, abrindo os olhos.
- Eu só estava pensando... – Fez uma pausa para respirar. – Que você honra o nome que tem, nos dois sentidos que ele possui. – Não pode evitar uma gargalhada diante da confusão de Ichigo. Ele sempre fazia caretas engraçadas quando não entendia algo, franzindo ainda mais as sobrancelhas.
- Você é louca? Por que está dizendo esse tipo de coisa sem sentido? – sorriu. Rukia era realmente uma garota estranha.
- Você está vermelho... Como um morango! – Riu ainda mais, vendo um feche de irritação passar pelos olhos castanhos. Adorava provocá-lo, não importando o momento.
Ichigo bufou alto, afrouxando o abraço. Vendo que o rapaz se preparava para soltar um belo insulto, – provavelmente fazendo menção a altura da shinigami – resolveu agir mais rápido. Soltou-se do pescoço do ruivo, abraçando-o pela cintura. Acomodando-se melhor, deitando a cabeça sobre a curvatura do ombro do shinigami substitudo. Havia um leve sorriso em seus lábios. De olhos fechados, alargou ainda mais o sorriso ao ouvir um suspiro de Ichigo, que prontamente envolveu seu corpo delgado em um novo abraço. Vingar-se-ia da morena em um momento mais propício, e esse pensamento o fez rir de canto, apoiando a cabeça na da garota.
Todas as divagações, os medos, as dúvidas, as mais profundas e antigas mágoas... Tudo fora esquecido, dando lugar a um sentimento novo que lhes curavam as feridas. Diante disso tiveram certeza de que tudo estaria bem, enquanto permanecessem lado a lado. Enfim, suas almas estavam tranqüilas.
Apesar de ter o coração calmo, Rukia sentia necessidade de provar mais dos lábios de Ichigo. Sendo ele que havia tomado a iniciativa do primeiro beijo, agora era sua vez. Se soubesse o que era uma droga, Rukia diria que o morango era seu vício. Era algo ilícito, que a viciava, fazendo-a querer provar cada vez mais da sensação dos braços do ruivo ao seu redor. Da boca colada na sua. Levantando-se levemente, a shinigami se inclinou em direção ao ruivo já de olhos fechados. Entretanto os abriu, quando foi de encontro à bochecha do rapaz. Ichigo havia virado o rosto.
Ela se afastou quase bruscamente, fitando o shinigami à sua frente continuar virado, sem encarar-lhe a face. O que estava acontecendo? Arrependera-se ele do que havia feito? Ichigo não a amava? Tantas coisas invadiram a cabeça da pequena, em um turbilhão de pensamentos, que nem notou Ichigo virar-se para ela, com um sorriso enorme no rosto. Abraço-a, tentando fazê-la voltar a si.
- Isso só foi uma pequena vingança por ter me chamado de Laranja Azeda e Morango, baixinha... – sussurrou por entre os cabelos negros, arrepiando a nuca da shinigami.
Ela se separou bruscamente. Seus olhos faiscavam.
- SEU IDIOTA! COMO PODE BRINCAR COM ALGO ASSIM? QUERIA ME MATAR DO CORAÇÃO? – enquanto ela surtava, aos gritos, foi a vez de Ichigo cair na gargalhada. Era engraçado vê-la tão irritada.
- Você não sabe brincar, idiota. – Disse calando-a com os próprios lábios, o que fez Rukia instantaneamente interromper os gritos. Havia achado uma maneira fácil de não ouvir suas broncas, e isso alegrava demais o ruivo.
Passaram o resto da manhã juntos entre brigas, gritos e carinhos. A situação de casal não os faria mudar certos hábitos, e de certa forma, não havia como não ser assim.
Um pouco distante, Isshin dava as costas ao casal com um enorme sorriso. Estava retornando ao cemitério. Lembrar-se-ia de agradecer à falecida esposa por seu filho não ser homossexual.
-
- Por que eu não posso te abraçar? – Questionou manhoso com os olhos suplicantes.
- Já disse Ichigo! Porque estamos no meio da rua! E cale essa boca!
- E daí?
- E daí que eu não estou numa gigai, idiota! Quer que pensem que você é um louco, abraçando o nada? – Estava extremamente irritada. O ruivo parecia ignorar cada palavra que era proferida por ela desde que deixaram o cemitério.
- Se eu ligasse para o que pensam de mim, já teria pintado o cabelo há anos!
Percebendo que as pessoas em volta começaram a olhar com estranheza para o Kurosaki, Rukia decidiu que ele precisava se calar. E rápido. Por bem, ou por mal. Ichigo se mostrava tão insistente em continuar a briga, que a morena não viu outra alternativa: deu-lhe um belo soco no estômago, fazendo-o se curvar com uma careta de dor. Um garotinho que passava pela calçada riu da cena. Rukia também.
- Se você continuar com gracinhas o castigo será pior. – Tanto as palavras quanto o olhar mortífero da pequena fizeram-no engolir seco. Ficou em silêncio. Dava valor à sua vida.
Em um ponto do trajeto, onde a rua estava pouco movimentada, Ichigo segurou de leve a mão pequena, sem olhá-la. Ninguém repararia em sua mão, pensou o ruivo. Rukia com um suspiro pesado deixou-o conduzi-la, afinal de contas, não teria sossego se assim não fosse. Ichigo ficou contente por não receber nenhuma bronca ou soco. Por mais que concordasse que Rukia estava certa, sentia a necessidade de tê-la mais perto, de não deixá-la fugir.
- Kuchiki-san! Vejo que, de fato, encontrou Kurosaki-kun! – o casal olhou para trás, se deparando com Urahara. A morena bufou. Agora teria que agüentar as gracinhas do ex-shinigami. Estavam tão concentrados nos próprios pensamentos que nem notaram que haviam acabado de passar em frente à Urahara Shop.
- Kurosaki-kun, quanto tempo! Vejo que está muito contente! – Provocou, já que não obtivera resposta da shinigami. Ichigo enrubesceu na hora, segurando-se para não socar o homem à sua frente.
- O que quer, Urahara? – Proferiu impaciente. Rukia queria sair de lá o mais rápido possível, antes que as insinuações do loiro piorassem de nível.
- Ora Kuchiki-san, não seja tão rude. Não estou aqui para atrapalhar o agradável passeio de vocês – cantarolou. O sorriso de deboche cada vez mais largo. – Só pensei que talvez fosse melhor que você pegasse sua gigai. Assim Kurosaki-kun poderá exibir sua bela namorada para todos! – sorriu mais, feliz da vida.
O casal corou no mesmo instante. Ichigo apesar de incomodado com as ironias de Urahara, acabou por concordar com a idéia. Assim, pelo menos, Rukia o deixaria abraçá-la.
- Acho desnecessário o uso da gigai uma vez que retorno para a Soul Socity ainda hoje. – disse a shinigami por fim, tentando ignorar o rubor que se espalhava por suas bochechas.
- Você vai voltar HOJE? – dessa Ichigo não sabia.
- Sim Ichigo. Não tenho motivo algum para permanecer aqui por mais tempo.
- Não tem? – Perguntou incrédulo. Ele não era então um bom motivo para ela ficar?
- É que Kuchiki-san veio para o mundo real clandestinamente. Apenas para vê-lo, Kurosaki-kun – Urahara estava aproveitando todas as oportunidades que tinha para deixá-los vermelhos.
- O quê? Você fez isso? – Então ele era um bom motivo;
- Eu não diria clandestinamente – disse envergonhada, perguntando-se mentalmente como Urahara ficara sabendo de toda a história – Ukitake-taichou me permitiu fazer esta visita hoje. Mas não tenho ordens para permanecer por mais tempo. E o Nii-sama não sabe que estou aqui...
“Byakuya sempre é um problema” – pensou o ruivo.
- Não se preocupe, Kuchiki-san. Seu irmão já sabe que está aqui.
- Ele o quê? – perguntou, incrédula.
- Ele já sabe que está aqui em missão a pedido de Ukitake-san.
- Missão? – Perguntou o casal, em uníssono.
- Ukitake-san me contatou hoje de manhã pedindo para avisá-la de que, a partir de hoje, você deverá ajudar o shinigami substituto a proteger a cidade de Karakura. Tendo em vista a quantidade de pessoas com poder espiritual elevado, a cidade se torna um dos possíveis alvos de Aizen. Dessa forma, a segurança por aqui deve ser redobrada
- E quanto tempo dura essa missão? – Rukia ainda estava processando toda a informação. Seria mesmo verdade? Se fosse, a morena já supunha como Urahara ficara sabendo de sua pequena fuga.
- Tempo indeterminado – Declarou tirando o leque do rosto, sorrindo com malícia.
- Tem certeza do que está dizendo, Urahara?
- É claro que ele tem, Rukia. Vá logo pegar essa gigai e vamos pra casa. Você não veio aqui me ajudar? Então anda logo, estou morrendo de fome! – Ichigo estava empolgado. As boas notícias chegavam aos montes.
- Não estou aqui pra te ajudar com esse tipo de coisa, idiota! — Declarou por fim e, resignada, partiu para dentro da loja com o loiro.
Não que estivesse chateada, essa missão surgira em momento perfeito. E por tamanha perfeição, passou a crer que Ukitake só fizera isso para que ela pudesse passar mais tempo com Ichigo. Então estava tão explícito assim o sentimento que possuía pelo ruivo? E se fosse assim, o que diria seu irmão?
"Provavelmente mataria Ichigo", pensou, sentindo um leve calafrio.
Não poderia mais negar sua relação com Ichigo, agora que tudo fora esclarecido entre dois. Teriam que ser fortes para enfrentar todas as adversidades que surgissem em seu caminho. Mas Ichigo era forte. Tinha certeza que o rapaz estava determinado a lutar contra tudo. Isso também a faria forte, e lutariam lado a lado. Sorriu.
Enquanto estivesse com Kurosaki Ichigo, Rukia seria forte para enfrentar qualquer coisa.
O amor lhes apresentara o Sol, e enquanto este existisse, a chuva não voltaria mais a atingir seus corações.
Notas finais
• A narrativa pode estar um pouco confusa, pois tentei ficar oscilando entre as percepções da Rukia e as do Ichigo. Talvez fosse mais fácil fazer com POVs, mas eu prefiro narrar em 3ª pessoa, é mais fácil pra descrever as coisas =D
De qualquer forma, tendo dúvidas sobre a história pergunte que eu esclareço.
• Vale lembrar que sou uma escritora nova, essa é a 2ª fanfic que eu escrevo na minha vida, sendo a primeira de Bleach que eu tento escrever. Adoro críticas (quando elas são construtivas, claro). E adoro elogios também, então, COMENTEM SE PUDEREM, OK? Obrigada!
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