Ouça o Amor - HIATUS
3 Ouça os pensamentos
Notas iniciais
Ouça os pensamentos
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~Wellie~
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“É impossível progredir sem mudança, e aqueles que não mudam suas mentes não podem mudar nada”
— George Bernard Shaw
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Passaram-se três dias. Três dias desde que ela viera em sua casa e, inacreditavelmente, a xícara ainda se mantinha lá, Sasuke nem ao menos se dera ao trabalho de retirá-la de cima da mesinha... ou sequer pensara em devolvê-la à sua dona. Bem, esta segunda hipótese, na prática, não lhe era sequer algo viável, se levado em conta o fato de estar completamente alheio à localização da mulher — sim, ele havia passado a referir-se a Sakura desta maneira, depois de refletir por alguns momentos sobre o ocorrido daquela tarde particularmente fria, o comportamento da mulher em questão e tudo o mais, não que isso lhe importasse de algum modo. Apenas se permitira reparar que ela era, de fato, mais velha que uma menina, demasiado nobre para mostrar-se como garota, ainda mais desenvolvida que uma reles moça, mais jovem que uma senhora e menos madura que uma completa adulta, portanto, ela era, indiscutivelmente, uma mulher (embora Sasuke duvidasse muito que a mente dela se desenvolvera também neste mesmo nível...).
Bem, a verdade era que o Uchiha vinha se sentindo incomodado com tudo aquilo, mais precisamente com aquela objeto sobre sua mesa de centro que parecia lembrá-lo tanto dos cabelos excentricamente rosados da mulher, não que ele alguma vez tenha reparado nestes com qualquer sentimento que não fosse sinônimo de estranheza... Ele apenas queria que ela saísse de uma vez da sua cabeça, será que isso seria pedir demais?
E, claro, não era nem um pouco exagerado dizer que as imagens daquele fatídico dia voltavam de vez em quando para atormentá-lo, porque elas realmente vinham! Assim como quando se lembrava da sensação de relaxamento que o alcançou por inteiro pelo simples fato de tê-la o tocando; aquilo fora, definitivamente, catastrófico.
Sasuke não era mesmo assim, de ocupar-se pensando em uma mulher que vira uma única vez na vida (Eu disse ‘pensando em uma mulher’? Vamos apenas ignorar essa parte). Enfim, não era como se ele nunca tivesse tido antes contato com outras mulheres, muito pelo contrário. Apesar de sua condição, ele sempre fora, desde que se entendia por gente, popular com os seres provindos de Vênus.
Quando criança, insistiam em lhe apertar as bochechas rosadas. Assim que se tornara adolescente, eram constantes as cartinhas de amor. Terminara o ensino médio e havia ido diretamente para a faculdade (aberta também para pessoas com condições... digamos, especiais, assim como ele) e adivinhe só? Até mesmo as professoras lhe lançavam olhares não muito profissionais, as jovens e velhas persistiam na esperança de o possuir algum dia, só não acho que seja preciso citar aqui os semelhantes do mesmo sexo que flertavam consigo descaradamente.
Durante este período de faculdade, havia precisado de um estágio e facilmente o encontrou logo na primeira publicadora de livros apenas porque a esposa do dono fora com a sua cara. Ele era bom no que fazia, certamente era o melhor, mas a mulher sequer se importou com suas habilidades; a verdade é que as coisas eram muito mais simples para ele e isso o irritava.
Finalmente havia concluído o curso e, veja só, agora precisava de um emprego. Candidatou-se à vaga numa das empresas e, bem, seria demasiado exagerado dizer que passara apenas por conta de a secretária ter o colocado como o primeiro da lista (por motivos óbvios), mas, em parte, isso ainda havia influenciado um tanto no resultado. No fim, ele encontrava-se devidamente empregado.
O fato era que Sasuke tinha total certeza de que as mulheres com as quais havia convivido em toda a sua vida nada mais enxergavam que sua aparência e isso era o suficiente para o afastar de tais pessoas.
Talvez isso soasse clichê ou algo não muito másculo para um homem, porém uma pequena parte de Uchiha Sasuke ainda insistia em imaginar uma mulher que visse alguma coisa além de seu estado por fora, além de sua “casca” bonita e desejável. Alguém que o entendesse verdadeiramente, lidasse com seus defeitos, e que fosse efetivamente capaz de enxergar a sua alma ou as — pouquíssimas — qualidades presentes em seu interior, que pudesse olhar para dentro de seus olhos e enxergar sua verdadeira índole... Existiria no mundo alguém assim? Suspeitava muito que não... Talvez fosse apenas melhor frear aquela onda de pensamentos bobos, afinal, não queria nunca se imaginar como um tolo apaixonado e aquelas bobagens que habitavam a sua mente não o levava a lugar algum se não a este caminho.
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Ela voltou até sua casa há exatos sete dias desde o primeiro ocorrido. Assim como da outra vez, ela bateu tão forte na superfície de madeira rústica que ele quase pôde sentir o chão estremecer. Enfurecido, girou a maçaneta bruscamente e então abriu a porta que, antes, esta mesma prendia. Deparou-se com a mesma mulher, com o mesmo cabelo estranhamente cor-de-rosa e os mesmos grandes olhos verdes. Só havia algumas pequeninas, porém, significantes diferenças: ela não mais parecia sentir frio como da última vez, carregava no rosto um imenso sorriso vagamente constrangido (e exagerado, ao ponto de vista de Sasuke) e... bem, a xícara já não estava presa entre os dedos de sua mão pequena.
Reparou em como ela parecia buscar alguma coisa bem atrás de si, erguendo-se nas pontas dos pés para que pudesse enxergar por sobre o ombro dele; Sasuke à sua frente lhe obstruía a visão de dentro do apartamento.
Pelo visto, não haveria, daquela vez, um papel para que pudessem se comunicar ou tempo para realizar este mesmo ato, paciência também parecia estar em falta, enquanto a ansiedade era quase que palpável no ar. Ela apenas queria sua xícara para sair logo dali, para dar meia volta e nunca mais tornar a vê-lo; ao que tudo indicava, até mesmo a doce Haruno havia notado toda a sua rabugice, rabugice essa que poderia facilmente ser comparada à de um velho obrigado a tomar calmantes.
Algo veemente doloroso despontou em seu peito, alguma coisa não identificada que o fez não mais prolongar aquele momento. Ele seguiu para dentro de sua casa, recolheu a xícara de cima da mesa, voltou-se novamente em direção à porta, para entrega-la à garota parada no corredor. Ela lhe sorriu timidamente e agradeceu com uma breve reverência. Se deteve, indecisa e encabulada, por um mísero segundo antes de tomar o rumo para longe dali.
Sasuke fechou a porta e levou, nervosamente, as mãos até os fios de ébano. Por que mesmo tinha de pensar tanta bobagem?
Continua
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