Othelo

1 Capítulo 1 - Primeira Caçada


— Hah… hah… — Radd ofegava, andando a passos lentos e vagarosos.

Um imenso mar de branco se expandia no horizonte. A grama, alta o suficiente para tocar a cintura, jazia dura e coberta por neve. Cada vez que respirava, o ar gélido lhe ardia os pulmões. Cada vez que expirava, o frio ameaçava congelar seu hálito. Quanto mais andava, mais pesadamente ele precisava respirar, em um círculo vicioso que deixava seus pulmões implorando por descanso.

— Charr, você tem certeza que aqui é um bom lugar pra caçar? — ele perguntou, seu hálito deixando um rastro de fumaça branca que se desfazia lentamente. Seu corpo forçando-lhe a parar, peito arfando e pernas ardendo.

Seu grupo virou-se para ele. Seis pares de olhos fitavam-no, seus olhares emoldurados em frente ao horizonte tingido de um frio tom de azul. Charr, o mais alto deles, lançou lhe um olhar preocupado. Ele era tão alto que a grama mal lhe alcançava os tornozelos. Tinha uma grande cicatriz que cortava seu rosto, passando por seu olho direito. Seus cabelos negros, curtos e desgrenhados, caiam por cima de sua testa, cobrindo parte da peça de armadura que ele usava para proteger sua bochecha e sua testa.

Charr usava uma camiseta preta apertada sem mangas e calças compridas feitas de Brim. Todas essas peças pareciam ter sido compradas em um tamanho menor do que o adequado, mas Charr parecia preferir usar roupas apertadas. Claro que, como um guerreiro, Charr usava um conjunto de armadura para proteger seu corpo. Apesar de não ser um conjunto de armadura pesada completo, ele tinha as partes mais importantes, que eram o Elmo, o Peitoral, as Ombreiras, e os protetores de braço. Suas pernas pareciam pouco guarnecidas, o que era estranho, considerando que, dada sua altura, suas pernas eram um alvo muito mais fácil do que seu peitoral.

— Tem muitos Cobolds e Stings nessa área. Esse é um ponto de caça bem comum para aventureiros. — ele falou, esfregando sua mão na parte de trás de seu pescoço enquanto fitava Radd, seu olhar incerto.

— Nós não encontramos nenhum aventureiro nas últimas duas horas, e não há nenhum sinal sequer de possíveis presas. — falou Radd, sustentando seu olhar. Charr virou sua cabeça para o lado, desviando sua vista.

— Isso não significa que não há nada por aqui. Os outros caçadores devem ter se sentido intimidados pela nevasca de ontem e decidiram não sair hoje. — falou Cherya, pondo-se entre Charr e Radd.

A garota, apesar de sua estatura diminuta, tinha um ar imponente. Ela deveria ser alta o suficiente para chegar ao peito de Radd, o que já não era grande coisa, pois Radd era o mais baixo dentre os homens do grupo. Ela tinha longos cabelos negros que caiam pelos lados de seu rosto, emoldurando-o com um ar de graça etérea. Seus olhos, no entanto, eram fortes e penetrantes, dando-lhe uma carranca perpétua. O traço mais interessante da garota, no entanto, eram as longas orelhas de coelho que ela tinha na cabeça e o pequeno rabo que Radd sabia estar escondido por debaixo de suas vestes.

Cherya vestia-se com trajes simples de mago, usando robes negros que desciam até as coxas de suas pernas, com a ponta de sua saia pouco visível por debaixo. Suas roupas eram todas púrpura e ela até tinha o tradicional chapéu pontudo de mago. De início, Radd achara que as roupas da garota eram exageradas e chamativas, mas depois descobriu que elas possuíam alguns encantamentos protetores. Encantamentos fracos, mas ainda eram melhores do que nada, já que a garota não podia equipar armadura.

— Cobolds são criaturas de sangue frio, então faz sentido que não os encontremos do lado de fora durante um dia frio. — falou Rann, dando um passo à frente e parando ao lado de Cherya. — Eles provavelmente devem estar se escondendo em suas cavernas.

Rann estava trajada com uma armadura completa feita de couro, sendo que a única parte descoberta de seu corpo era sua cabeça. Seus cabelos longos e vermelhos estavam trançados em um tipo de rabo de cavalo. Seu rosto tinha várias pequenas sardas que manchavam sua pela branca. Ela era um pouco mais alta do que Radd e seu porto físico mostrava o quão forte ela era.

Cherya assentiu, concordando com a outra moça. Radd sentia-se um pouco incomodado com a situação, principalmente pois ele não aguentava mais caminhar, mas, infelizmente, a lógica das garotas parecia ser irrefutável. Ele virou-se para Charr e curvou-se em uma reverência, murmurando um quieto pedido de desculpas. A ação evocou um pouco de nervosismo do grandalhão, seguido por um certo senso de embaraço, mas Radd sabia que seu mal humor havia deixado Charr desconfortável. Não era preciso muita coisa para afetar Charr, ele já havia percebido.

O grupo seguiu em frente. Apesar de alguns murmúrios aqui e acolá, eles mantiveram-se, em grande parte, quietos. Sendo uma equipe recém-formada e sem muita interação entre os membros, era normal que não estivessem confortáveis ainda, e Radd não achava que pressioná-los seria uma boa ideia. Todos no grupo eram novatos, e com isso ainda tinham de suportar a pressão da primeira caçada.

O grupo atual era composto por 7 membros: Radd, Rann, Charr, Cherya, Myrr, Ludd e Lynn. Todos eles, com exceção de Rann e Cherya, se conheceram apenas no dia anterior. Após serem treinados em suas respectivas guildas, a Casa das Guildas decidiu formá-los em um grupo.

A Casa das Guildas é algo como um tipo de central que regula as ações de todas as outras guildas de Othelo. Quando uma guilda está próxima de finalizar o treinamento de um candidato, eles mandam uma avaliação desta pessoa para a Casa das Guildas, que então tem o trabalho de lhe encaixar em um grupo apropriado.

Este grupo se chama Party. Elas geralmente são compostas por entre 4 a 10 pessoas, que caçam juntas, dividindo os espólios entre si. Os motivos que uma pessoa pode ter para se juntar a uma party são inúmeros, mas, para a grande maioria, isso se dá pelo fato de que um grupo tende a lidar com números maiores de inimigos, facilitando a caça e aumentando a taxa de sobrevivência. As funções de cada membro em um grupo são definidas pelas suas classes e habilidades.

Radd era o Clérigo, ficando a cargo de dar suporte aos seus aliados e curá-los quando preciso. O trabalho de Clérigo era um dos mais difíceis, pois o Clérigo tinha de manter-se constantemente a par de tudo que acontecesse no campo de batalha enquanto também se mantinha atento às suas próprias defesas. Era também a posição com a maior taxa de mortalidade, pois quase todas as criaturas, por mais selvagens que fossem, sabiam da importância de um Clérigo e acabavam tomando-nos como alvos sempre que possível.

Charr era o Guerreiro. Seu papel durante o combate era de servir como um tanque, absorvendo o aggro dos inimigos e mantendo aqueles que lutam na linha de trás seguros. Guerreiros geralmente tinham fortes defesas e precisavam ser pessoas capazes de aguentar muitos ferimentos. Além disso, tinham de ser fortes o suficiente para empunhar armamentos pesados e acabavam sendo a principal fonte de dano físico do grupo. Por este motivo, os Guerreiros funcionavam como a engrenagem mestra que regulava como todas as outras giravam.

Rann era uma Paladina. Como os Guerreiros, Paladinos ficavam na linha de frente do combate, entretanto, diferentemente do Guerreiro, que tomava um papel mais agressiva no combate, o Paladino era um lutador quase completamente defensivo. Eles geralmente empunhavam escudos gigantescos e pesados e usavam suas habilidades para atrair a atenção dos inimigos. Suas defesas eram ainda mais fortes que as do Guerreiro, mas seu potencial de ataque era quase zero. Desta forma, o Paladino geralmente servia como um suporte para o Guerreiro, atuando como Tanque Principal ou Secundário.

Cherya era uma Maga. Como o nome já diz, Magos eram responsáveis pelo uso de Magias, geralmente ficando na linha de trás e disparando feitiços contra seus inimigos. O poder destrutivo de um mago era sem igual, geralmente atuando como a principal fonte de dano de um grupo. Entretanto, grande parte dos monstros e outras criaturas que uma party viria a enfrentar sabia da importância de um Mago e, por este motivo, faziam o possível para se livrar dele antes que pudesse causar grandes problemas. Daí vinha a importância de uma linha de frente forte durante um embate. O Mago geralmente se posicionava próximo ao Clérigo para que este pudesse, em caso de emergência, agir como Tanque Terciário ou Quaternário, atraindo a atenção de qualquer criatura que pudesse vir a ameaçar o Mago.

Myrr era o Ladino, geralmente pulando entre a linha de frente e a de trás. Ladinos geralmente não são bons em combate corpo-a-corpo, preferindo ataques surpresa ou utilizando-se de táticas de guerrilha, lançando um ataque rápido e imediatamente recuando para uma posição segura. Ladinos tendem a agir como batedores por sua habilidade de se esgueirar, permitindo que explorem localidades ou identifiquem possíveis ameaças sem alertar seus inimigos.

Ludd era o Arqueiro. Em geral, Arqueiros se mantém nas linhas de trás, disparando flechas contra seus inimigos, mas alguns também são habilidosos com adagas e podem operar como Ladinos caso haja a necessidade. Eles são ótimos em papeis de apoio, podendo atrasar os inimigos ou até mesmo finalizar alguns deles, diminuindo o número de ameaças a serem contidas pela linha de frente. Um bom Arqueiro é uma das maiores benções que uma party pode ter.

Por fim, Lynn era a Monge do grupo. Em termos de combate, Monges são um tipo de híbrido. Eles são capazes em combate corpo-a-corpo, geralmente preferindo batalhar com as mãos nuas ou, às vezes, usando armas brancas simples, como bastões e porretes. Suas defesas não são nem de perto tão fortes quanto as de um Guerreiro ou Paladino, já que precisam ser ágeis, mas seu poder de ataque é muito maior do que o de um Ladino. Monges costumam buscar a perfeição espiritual e, por este motivo, costumam estar fortemente sintonizados com a natureza, tendo um bom sentido para seus arredores.

O grupo se movia com uma formação 3-2-2, com Charr, Rann e Lynn na linha de frente, Ludd e Myrr no meio e Radd e Cherya nos fundos, afastados de um possível embate.

Enquanto o grupo explorava, eles puderam ver vários rastros deixados na neve. Alguns estavam um tanto apagados e outros pareciam recentes. Ludd se agachou próximo aos rastros que pareciam mais frescos e começou a examiná-los atentamente. Cherya e Lynn se aproximaram dele, fitando o Arqueiro absorto em pensamentos com curiosidade. Charr, Rann e Myrr estavam inquietos, checando constantemente os arredores, com medo de uma emboscada. Por fim, Radd estava parado, suas mãos em seus joelhos, arfando.

— Não há dúvidas. — Ludd falou após algum tempo, surpreendendo as garotas que o olhavam. As duas soltaram uma espécie de ganido ao serem pegas de surpresa pelo movimento súbito do Arqueiro, que as fitou por alguns instantes com um misto de curiosidade e surpresa. As duas garotas coraram e olharam para longe, evitando o olhar dele e, ao fundo, Radd pode ouvir Myrr tentando conter um riso. Por fim, Ludd se recompôs, se levantou, e dirigiu-se ao grupo.

— Essas são pegadas de Cobold. Provavelmente dois, mas podem ser três. Também vi rastros de Stingers, mas estão muito apagados. Provavelmente não os acharíamos mais nem se procurássemos.

Ludd era um jovem alto, de cabelos castanhos medianos presos em um coque. Ele vestia uma camiseta preta simples e shorts de algodão. Por debaixo dos shorts, ele usava uma bermuda de tecido que se prendia ao seu corpo, provendo-lhe maior mobilidade. Tinha também um capuz negro que o protegia do frio e, Radd sabia, vestia Ombreiras, Caneleiras e Joelheiras de Couro como armadura. Como ele não estava muito preocupado em ser o alvo dos ataques, ele se importou apenas em proteger as articulações mais importantes de seu corpo, assim como suas pernas, para que pudesse permanecer em movimento, cumprindo seu papel como tropa de apoio. Ludd tinha orelhas e rabo de lobo, apesar de que, diferente da cor de seus cabelos, sua cauda e suas orelhas eram de um tom vermelho como o fogo, uma cor muito parecida com a pelagem de uma raposa.

Os membros do grupo se entreolharam. Todos pareciam ter a mesma pergunta. “E agora?” Como o grupo havia sido recém-formado, eles ainda não haviam decidido quem tomaria o papel de líder e, por este motivo, estavam agora pegos em um impasse.

Foi Rann quem quebrou o silêncio.

— Nós viemos aqui para caçar, não é? Cobolds não costumam ser criaturas muito ameaçadoras, e nós estamos em maior número. Não acho que tenha chance melhor que essa.

Cherya e Lynn concordaram, murmurando algumas palavras de incentivo. Ludd e Myrr se entreolhavam, os dois pareciam ser farinha do mesmo saco e, desde que se conheceram, se encontravam tendo as mesmas dúvidas e as mesmas opiniões, geralmente compartilhando do mesmo ponto de vista. Charr deu de ombros, indiferente, e lançou um olhar de preocupação para Radd, que estava parado próximo a uma árvore, ainda respirando pesadamente e com um certo olhar de apreensão.

— O que cê acha, Ladd? — ele perguntou. Charr parecia ter algum problema em pronunciar algumas palavras, pois sempre acabava chamando Radd por Ladd ou Rann por Lann.

— Bem, querendo ou não, nós viemos aqui para caçar. Apesar de que eu me sentiria mais confortável se fossemos atrás de um inimigo solitário por enquanto. — ele falou, tentando forçar um sorriso em seu rosto. Sua apreensão deveria ser óbvia, pois Charr parecia ainda mais preocupado. — Quero dizer. Somos todos novatos, não é? Nenhum de nós já lutou de verdade. Apenas simulações e treinos de luta. É algo diferente quando se trata de uma luta até a morte.

Todos o fitaram. Rann e Lynn se remexeram em desconforto. Essa realidade deveria ainda mais evidente para elas, já que as garotas ocupavam o papel de Linha de Frente. Ir de cabeça contra os inimigos e ficar no centro do perigo era o papel delas e, com os equipamentos de iniciante que elas tinham, elas não deveriam sentir-se tão confortáveis com a ideia. Era mais fácil para Charr, o grandalhão era tão enorme que uma criatura tão diminuta como um Cobold teria dificuldade em espetá-lo em algum lugar mais alto do que a virilha. Na verdade, corte essa parte, ser espetado na virilha provavelmente seria um destino muito pior para um homem.

— Desde que todos façam o seu papel direito, não tem problema. — Myrr falou, e todos os olhares se voltaram para ele. A expressão do jovem era calma e ele até parecia um tanto confuso com a apreensão que se abatia no grupo. Myrr era um garoto jovem, com cabelos curtos, lisos e loiros. Sua estatura era mediana, talvez apenas alguns centímetros mais altos do que Radd. Ele vestia roupas simples de ladrão. Um capuz simples que cobria robes de um tecido que se prendia ao corpo, permitindo máxima mobilidade. Não tinha nem uma única peça de armadura protetora. Em sua cabeça ele tinha orelhas como as de um gato, amarelas assim como seus cabelos, e atrás dele pendia uma longa cauda loira que se movia preguiçosamente.

Myrr, assim como Ludd e Cherya, compunham os únicos membros do grupo que não eram exatamente humanos. Apesar de suas aparências e anatomia similares, eles eram de uma tribo chamada de “Homens Besta”. Apesar de há muito terem se juntado às comunidades humanas, os Homens Besta mantiveram parte de sua cultura e sua aparência nunca mudou. Apesar de poderem se reproduzir com os seres humanos, o descendente sempre tem a cauda e as orelhas típicas dos Homens Besta.

— Myrr, como você consegue confiar tanto em um grupo que você acabou de conhecer? — Lynn perguntou, seu olhar um pouco preocupado. Era como se ela esperasse algum tipo de epifania vinda de homem-gato que removeria todas as suas preocupações.

— Que outra escolha eu tenho? — ele falou, como se fosse algo óbvio. E, de fato, era. Para um aventureiro iniciante, a menos que você já tivesse formado um grupo com conhecidos antes de iniciar seu treinamento na sua respectiva guilda, você seria atribuído a um grupo de estranhos. Era assim com todos aqueles que viravam aventureiros.

Lynn olhou para baixo, aparentemente abatida. Com certeza, Radd percebeu, o medo que ela sentia devia ser muito maior que o dos outros. Diferentemente de Charr e Rann, que também lutavam na linha de frente, Lynn não tinha qualquer armadura protetora. O Monastério, que era o nome dado à Guilda dos Monges, não dava qualquer tipo de armadura para seus iniciados, já que era esperado que eles fossem capazes de lutar contando apenas com seus reflexos. Para alguém que tinha de lutar na linha de frente, bastava um deslize. Se Lynn falhasse em desviar de um golpe bem mirado, tudo acabava.

Lynn tinha longos cabelos negros que ela amarrava em um rabo de cavalo. Seu rosto era bonito, apesar de ter duas cicatrizes em sua bochecha e uma na testa, provavelmente advindas de seu treinamento. Dentre todas as garotas no grupo, ela era, para Radd, a mais bonita. Sua beleza era muito mais simples e terrena. Ela usava vestes simples de algodão e linho, sua túnica descia até a altura de seus joelhos, afunilando-se ao chegar no quadril de forma a cair em frente aos seus joelhos com um formato triangular. Por debaixo da túnica, ela usava calças compridas de um tecido bem frouxo que lhe permitia mover-se livremente. Entretanto, estas roupas seriam pouco mais do que um tipo de apoio moral em frente a uma lâmina.

Radd aproximou-se de Lynn, colocando sua mão no ombro da moça.

— Não se preocupe. Eu sei que eu não pareço muito confiável, mas eu falo sério quando eu digo: enquanto eu ainda estiver respirando, nenhum de vocês vai morrer. Está bem? — ele falou, tentando fazer o possível para sorrir. Deveria ser óbvio para quem quer que olhasse que Radd estava apavorado. Ele não tinha de se preocupar apenas com a própria vida, visto que ele também não tinha qualquer armadura protetora, como também era responsável pelas vidas de outras seis pessoas. O senso de responsabilidade era esmagador.

Lynn com certeza teria percebido isto, mas, se o notou, fingiu não o ter feito. A garota esboçou um sorriso fraco e assentiu, murmurando um agradecimento para Radd. Ela tocou sua mão à mão que estava em seu ombro, deixando o contato durar alguns segundos antes de se afastar. Radd pôde se sentir corando levemente.

— Nesse caso, que tal uma votação? — Ludd perguntou. — Todos a favor de procurar os Cobolds, levantem a mão.

Todos, com exceção de Cherya e Lynn levantaram as mãos. Ao ver a diferença esmagadora nos votos, Cherya ficou aborrecida, sua irritação ficando emoldurada em seu rosto. Lynn, por outro lado, após alguns segundos de hesitação, também levantou sua mão, olhando para Radd e sorrindo ao fazê-lo. O jovem então retribuiu seu sorriso.

Tendo sido decidido o próximo passo, o grupo voltou para sua formação e seguiu a trilha por dez minutos, até que ela entrou na mata densa da floresta. Ao olharem confusos para o caminho, o grupo parecia incerto de como seguir. Quando Rann tentou abrir a boca para questionar o próximo passo, Myrr tomou a dianteira.

— Me deixem ir na frente como batedor. Eu volto a qualquer sinal de perigo. — ele falou, sem parecer muito preocupado ou incomodado com o possível perigo em que ele estaria.

— Tem certeza? — Charr perguntou, seu rosto parecia estar travado no modo preocupação, pois essa parecia ser a expressão que Radd mais notou no grandalhão das últimas vezes que o viu. — Seria mais seguro se um de nós fosse contigo.

Myrr acenou em discordância, um sorriso travesso no rosto.

— Sinto muito, grandão, mas vocês brutamontes só me atrapalhariam. — ele falou com divertimento, lançando um olhar para Rann. A garota ficou incomodada, avançando em direção a Myrr com a mão levantada, antes de ser segurada por Lynn. A cena toda era, claro, cômica para o homem-gato. Rann era, ao que parecia, facilmente ofendida e facilmente induzida a violência. Radd estremeceu ao pensar no que uma mulher daquele tamanho poderia fazer com ele e decidiu manter-se em guarda quando estivesse falando com Rann, para evitar qualquer tipo de mal-entendido.

Myrr fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo. Quando ele se virou para a mata fechada e voltou a andar, seus passos não faziam qualquer barulho contra a neve e as folhas não farfalhavam ao serem movidas para abrir caminho.

— Wow… — Charr murmurou em surpresa. Claro, para alguém do tamanho dele, mover-se sem fazer o menor barulho deveria parecer algo de outro mundo, visto que só os passos dele ecoavam de forma bem alta. Para Myrr, isso já deveria ser segunda natureza. Ele era, afinal, um Ladino e, Radd acreditava, deve ter aprendido a habilidade [Passada Silenciosa] enquanto ainda era um aprendiz de ladino.

Em geral, como uma das principais fontes de renda das guildas são os alunos que aparecem para aprender novas habilidades, os instrutores e mestres de guilda não ensinavam mais do que 3 habilidades para um novato. Os mais lentos aprendem duas e, aqueles alunos mais brilhantes as vezes conseguiam aprender quatro. Mas, em geral, toda pessoa formada por uma guilda sabia três habilidades de sua respectiva classe. Radd agora sabia que [Passada Silenciosa] era uma das de Myrr.

Quanto tempo se passara? Cinco minutos, dez minutos, quinze minutos? Quanto mais eles esperavam, mais inquietos os membros do grupo ficavam. Isto é, com exceção de Ludd, que se sentara em uma árvore e se contentara em usar sua adaga para raspar um tronco. Os outros andavam ansiosamente de um lado para o outro, constantemente checando o lado para o qual Myrr foi, na esperança de que voltasse usando [Passada Silenciosa].

Quando todos pareciam estar completamente impacientes, Charr tomou a frente.

— Eu vou lá. Ele já saiu há um tempo. Quem sabe tenha se machucado. Ou pior…

— Quem sabe quem tenha se machucado? — Myrr perguntou, ao se materializar de trás de Charr. Ou ao menos ele parecia ter se materializado, já que ele não estava ali um momento atrás. Todos foram pegos de surpresa e Charr saltou em susto. Myrr havia esperado que todos estivessem distraídos com Charr para se esgueirar e surpreendê-los, aquele pequeno… — Tem três Cobolds em um córrego próximo. Eles fizeram um buraco no gelo e estão pescando. Um deles está portando um alfanje, outro tem um machado e o terceiro está usando espada e escudo. Com exceção do Cobold de Espada e Escudo, vamos chama-lo de Cobold 1, certo? Okay, de qualquer jeito. Com exceção do Cobold 1, que está usando um Elmo, nenhum deles está usando mais do que trajes de couro.

O grupo se entreolhou por alguns instantes, surpreso com a quantidade de detalhes. Pelo visto, Myrr não estava só matando o tempo enquanto esteve fora.

— “Nada mais que trajes de couro” ainda é mais proteção do que eu estou usando. — Lynn falou, incerta.

— Ah, deixa disso. — Myrr falou, com um sorriso travesso. — Você só vive uma vez. Aproveite as oportunidades quando elas chegam.

— É precisamente porque eu só vivo uma vez que eu estou preocupada… — ela respondeu, mas Myrr pareceu não a ouvir.

— Um ataque surpresa é um grande não-não. — Myrr continuou. — Enquanto um Cobold está pescando, os outros dois montaram guarda. Como eles estão parados no meio do córrego, eles só precisam ficar de olho nas duas margens. Qualquer coisa que tentasse se aproximar pelo gelo provavelmente escorregaria.

Rann levantou sua mão e pigarreou, com todos se virando para fita-la. Logo após, ela provavelmente percebeu que não estava mais na academia, pois a abaixou apressadamente e seu rosto parecia estar um pouco mais vermelho do que o normal.

— E esse gelo por acaso aguentaria o peso de 10 pessoas lutando? Se ele é fino o suficiente para que os Cobolds possam pescar, como nós vamos emboscá-los lá?

Myrr a fitou por alguns segundos. Seu sorriso não fraquejou por nem um instante.

— Moça, o gelo tem mais de dez centímetros de espessura. Acho que a gente fica ok.

— Como cê sabe que o gelo tem mais de dez centímeros de espessura? — Desta vez foi a vez de Charr questionar Myrr. Se o jovem ficava sequer um pouco aborrecido com isso, ele não demonstrava. Por outro lado, Cherya cutucou Charr e lhe falou que eram centímetros, não centímeros, fazendo com que o rosto do grandão ficasse vermelho como um tomate.

Ele fez um suspiro exageradamente dramatizado e levantou as mãos para o ar.

— O que é que eu vou fazer com vocês, homens de pouca fé? — ele falou, com um quê de divertimento. — É claro que eu sei que o gelo tem mais de dez… como era mesmo, Charr? Centímeros? De qualquer jeito. Eu sei que o gelo tem mais de dez centímetros de espessura porque eu procurei uma parte mais fina do que a em que os cobolds estavam e eu furei ela com a faca. Vocês acham que eu passei metade de uma hora fazendo o que? Catando frutas? O gelo tinha mais de dez centímetros de espessura, e ali era mais fino do que a parte dos cobolds. Acredite, Bolinho de Cenoura, o gelo aguenta.

Rann corou ao ser chamada de “Bolinho de Cenoura” e, pela segunda vez, tentou avançar para cima de Myrr, sendo contida outra vez por Lynn enquanto Myrr ria livremente. Radd não sentia inveja do espírito livre do jovem. Não, nem um pouco.

Por fim, decidiram avançar contra os cobolds e preparar uma emboscada. Myrr apontou para uma pequena trilha há uns cinquenta metros que permitia que dessem a volta, evitando a mata densa. O grupo caminhou pela trilha, chegando ao local em que os cobolds estavam. Myrr e Ludd se entreolharam e, com um aceno, Ludd subiu imediatamente uma árvore próxima, sacando seu arco.

— Ludd vai ficar aqui para nos dar apoio em uma posição mais favorável. Charr, você tem [Chamado do Desafiante]? Se tiver, seria um ótimo jeito de começar o combate. — Myrr falou, sua expressão mais séria do que antes.

Charr assentiu. [Chamado do Desafiante] é uma das habilidades mais básicas dos Guerreiros, e é usada principalmente para iniciar combates. Ela geralmente força os inimigos a olharem apenas para o guerreiro, fazendo com que ignorem aliados próximos por alguns segundos. Claro, ela só funciona contra inimigos que possam ouvir o urro do guerreiro e é menos efetiva contra inimigos que estejam esperando que ela seja usada.

— Charr, você usa essa habilidade. Eu vou usar [Postura do Defensor] para te dar suporte. Lynn, você tem [Postura do Minook], certo? Use ela quando o efeito da habilidade do Charr acabar. — falou Rann. Com mais alguns murmúrios e outros tantos olhares, a linha de frente já havia decidido que estratégia usaria para dar início ao combate.

Não era necessário dizer o que os outros teriam de fazer. Como Clérigo, Radd não podia fazer nada além de aguardar o início do combate, assim como Cherya e Myrr. Todos se posicionaram em um semicírculo, ocultos pela vegetação. Charr levantou sua mão enorme, sua palma aberta e à vista de todos. Ele começou a contar.

Cinco. Ludd colocou uma flecha no arco.

Quatro. Cherya fechou os olhos e começou a meditar.

Três. O báculo de Radd começou a tremer.

Dois. Um Cobold começou a olhar para a vegetação.

Um. O Cobold os notou e começou a gritar e apontar para Radd.

Zero. Tarde demais.

Charr levantou rapidamente e deu um passo à frente. Ele soltou um urro que parecia ecoar por quilômetros e Radd teve de se conter para não colocar a mãos nos ouvidos. A habilidade não funcionava em aliados, mas a voz extremamente alta e grave de Charr feria sua audição. O ar tremulou ao redor de Charr e um leve rodamoinho de vento começou a se formar em seus pés. Os Cobolds olharam atônitos para o Guerreiro, seus olhos arregalados e suas faces em um misto de terror e fúria.

Charr puxou sua espada e avançou contra os Cobolds. Para um homem daquele tamanho, ele era surpreendentemente rápido. Os Cobolds empunharam suas armas e avançaram contra Charr. O grandalhão desferiu um golpe contra o Cobold 2, que usava um machado, mas o Cobold 1 entrou rapidamente na frente do ataque e usou seu escudo para bloquear o golpe. A espada de Charr com o impacto, e todo o corpo do cobold pareceu estremecer. O Cobold 3 deu um salto e tentou ir direto para a garganta de Charr.

Esta foi a vez de Rann parar na frente de Charr, seu escudo em mãos. Seu escudo brilhava e algo como uma fina membrana parecia envolve-lo. Essa era a ativação da [Postura do Defensor], uma habilidade defensiva do Paladino que lhe permitia reagir instantaneamente quando um aliado fosse atacado para defende-lo. O alfanje do Cobold se chocou com o escudo de Rann e, sem deixar um risco sequer, foi repelido. O Cobold 2 tentou dar a volta na Paladina e atacar Charr pelas costas, mas o grandão já havia se recuperado do choque anterior e repeliu o golpe do machado com sua espada.

De cima dos outros membros do grupo, uma flecha voou de uma das árvores, acertando o Cobold 3 na perna esquerda. Radd pode ouvir um *tsk*, e soube na hora que Ludd estava mirando algum outro ponto do inimigo. Myrr aproveitou a abertura e avançou, rápido como um raio, em direção ao Cobold 2, dardejando pelo campo de batalha. Ao parar na frente do inimigo, as duas adagas em mão, ele fintou um ataque pela esquerda, que o Cobold prontamente se moveu para repelir, antes de dar um giro para o lado oposto e furar o inimigo no braço direito.

Ao se preparar para desferir outro golpe, Myrr foi golpeado no lado direito de seu estomago pela cauda do Cobold. Radd imediatamente levantou seu bastão e começou a recitar um encantamento, mas foi impedido por Ludd.

— Ele está bem, guarde suas energias.

Myrr apoiou-se no chão com seu braço esquerdo e fez uma acrobacia, dando um salto giratório e caindo de pé no chão de gelo. O Cobold 2 saltou contra ele, mas foi impedido por Lynn, que pisou à frente do Ladino. A garota estava em uma postura um tanto estranha, com suas pernas bem abertas, joelhos flexionados e seus braços recolhidos ao lado de seu corpo. Quando o machado do cobold estava prestes a acertá-la, ela deu um passo para trás, usando sua mão esquerda para agarrar o braço de empunhadura do inimigo e desferindo uma joelhada no estomago da criatura.

Ludd lançou outra flecha, mas esta foi bloqueada pelo escudo do Cobold 1, que havia descoberto a posição de Ludd e estava tomando cuidado para dar cobertura a seus companheiros. O Arqueiro gritou algumas profanidades, antes de saltar para baixo da árvore e correr para subir em outra. Radd olhou de soslaio para Cherya, que não havia feito nada desde o início do combate. A garota analisava toda a batalha com olhos atentos, esperando uma abertura para atacar. Radd deduziu que os feitiços dela eram destrutivos demais para serem usados com seus aliados tão próximos.

O Cobold 1 ainda se chocava contra Charr e, apesar do tamanho diminuto da criatura em comparação ao gigante que era o Guerreiro, era possível notar que ele estava dando trabalho. O efeito da [Postura do Defensor] de Rann já havia acabado e ela corria pelo campo de batalha, dando suporte para aqueles que mais precisassem. No momento, ela e Lynn estavam enfrentando o Cobold 2, cujas escamas estavam tingidas de vermelho, seu corpo coberto de cortes e ferimentos.

Cobolds são criaturas de sangue-frio, mas sua sede de sangue é extraordinária. Eles tendem a ficar cada vez mais agressivos quanto mais feridos estão. Mesmo nesse estado, a criatura não dava sinais de enfraquecer. Pelo contrário, agora, mesmo estando em maior número, Lynn e Rann pareciam estar sendo empurradas para trás pelo Cobold, que agora controlava o ritmo da batalha.

Myrr dardejava pelo campo de batalha, desferindo golpes aleatórios nos inimigos que estivessem desatentos, antes de voltar para seu alvo, o de alfanje, para evitar que ele atacasse os outros membros do grupo. Ele acabara de cortar o Cobold 3 nos ombros. Parecia ter mirado no pescoço da criatura, mas o Cobold reagiu rapidamente, usando sua cauda para golpear Myrr. Até agora, o Ladino havia sido a única pessoa da party a sofrer algum ferimento.

Uma terceira flecha saiu zunindo de uma árvore próxima, acertando o Cobold 3 no peito. As pernas do monstro fraquejaram e um de seus joelhos tombou. Myrr relaxou por um segundo.

Foi aí que o campo de batalha virou um caos.

Quando o sangue começou a escorrer do peito do Cobold, a criatura urrou. Um grito muito mais alto e aterrorizante do que o de Charr, se lançando como uma flecha contra Myrr. O Ladino, pego de surpresa, reagiu alguns segundos devagar demais. O Cobold o acertou em seu ombro, sua espada desceu em direção ao peito do Ladino, cortando a carne como uma faca quente na manteiga e estilhaçando todos os ossos em seu caminho. Antes que pudesse ir muito longe, Lynn lançou-se contra o Cobold com um chute, jogando o para longe e deixando a espada da criatura ainda atravessada em Myrr.

O Ladino tombou, suas mãos indo direto para seu ombro. A espada havia cortado muito profundamente. Provavelmente teria cortado um pulmão e passado muito próximo do coração. Myrr engasgou com sangue por alguns instantes. Radd correu em direção ao Ladino. Cherya esticou uma mão para tentar impedi-lo, mas o Clérigo rebateu a mão da moça com seu bastão.

Ao tentar se aproximar de Myrr, Radd ouviu Charr chamando por seu nome em desespero. Ao se virar, ele viu o Cobold 1 voando em sua direção. O Clérigo só teve tempo de esticar seu bastão. A criatura se chocou contra o bastão, impedindo o Cobold de alcançar mais adiante com sua espada, mas o estrago já estava feito. O Cobold rapidamente colocou seus pés contra o peito de Radd e o usou como plataforma para catapultar-se para longe, tomando distância antes de tentar atacar novamente.

Radd olhou para seu peito, que estava estranhamente quente, e pode ver uma mancha de sangue se formando no lado esquerdo de seu peito. O Clérigo caiu de joelhos e viu os Cobolds 1 e 3 voando em sua direção. O Cobold 3 estava sem arma, mas a vista de um monstro lagarto com mais de 60kg vindo em sua direção não era nada tranquilizadora, com ou sem arma. Rann pulou na frente de Radd para protege-lo. O Clérigo pode então ouvir um grito de dor e, ao olhar para o lado, notou que o Cobold 2 havia usado a distração de Rann para atacar Lynn, que havia sofrido um corte profundo em sua coxa direita.

Charr chocou-se contra o Cobold 1 enquanto este corria para cima de Radd e Rann. Rann, por sua vez, bateu com seu escudo no Cobold 3 e desceu sua espada na cabeça da criatura. O cobold usou sua cauda para rebater a espada, mas acabou sendo atingido no ombro pela Paladina. Imediatamente, ele recuou outra vez.

— Radd, rápido. Se cure. — ela gritou.

O Clérigo finalmente voltou a prestar atenção em si mesmo. Seu peito queimava. Ele quase não conseguia respirar. Seu pulmão havia sido perfurado com toda certeza e, pela quantidade de sangue que saia do corte, algum vaso sanguíneo importante deve ter sido danificado. Ele talvez tivesse mais cinco minutos. Ele olhou para o lado e seus olhos se arregalaram.

Myrr estava caído em uma poça de seu próprio sangue, que jorrava continuamente de sua ferida. Seu rosto estava pálido e seus olhos estavam vidrados e sem foco. Radd decidiu imediatamente que Myrr era a prioridade. O Clérigo se colocou próximo de seu colega, retirando a espada do ferimento, o que fez com que sangue esguichasse em seu rosto.

— Senhor dos céus e Pai Celestial. Empresta-me teus poderes divinos. [Cura]! — ele recitou o encantamento. Uma luz cálida emanou de suas mãos e, pouco a pouco, o ferimento de Myrr começou a se fechar, mas a situação não era nada boa. Por mais que pudesse fechar a ferida, ele não poderia repor o sangue. Não apenas isto, levaria muito tempo para que a ferida se fechasse, e ficava cada vez mais difícil se concentrar. Se continuasse tentando curar Myrr, Radd talvez não tivesse tempo para salvar a si mesmo, mas, caso não o fizesse, Myrr certamente morreria.

Para falar a verdade, Myrr provavelmente morreria mesmo se Radd continuasse a curá-lo.

Radd apagou todos estes pensamentos de sua mente. Não importava quais eram as chances, ele se recusava a deixar um aliado morrer em sua frente. Não importa quais fossem as consequências para si mesmo, essa era a vida que ele tinha escolhido para si.

Mas, por outro lado, se Radd morresse agora, ele não poderia ajudar os outros caso eles precisassem. Ele estava tão concentrado em Myrr que não prestava mais atenção no campo de batalha. E se Radd morresse curando o Ladino e dois de seus outros aliados acabassem gravemente feridos. Valeria a pena sacrificar três vidas para salvar uma?

Radd olhou novamente para seu colega. O corpo dele se regenerava pouco a pouco. Provavelmente levaria mais três minutos para curar totalmente, e ele já tinha gasto pelo menos três minutos nisso. O sangramento havia diminuído consideravelmente. O Clérigo estimava que as chances de Myrr sobreviver se ele continuasse seriam de 1/100. Se parasse agora para se curar e voltasse a ajudar Myrr, elas seriam de 1/500.

O Clérigo respirou fundo e fez sua escolha. Ele fechou sua mão, cancelando o feitiço curativo, antes de voltar sua mão para seu próprio peito.

— Senhor dos céus e Pai Celestial. Empresta-me teus poderes divinos. [Cura]! — ele recitou mais uma vez o encantamento. Ele pôde sentir uma leve coceira enquanto sua ferida se fechava. O sangue já parava de jorrar, mas Radd ainda se sentia fraco e de cabeça leve. Levaria talvez dois minutos para fechar completamente sua ferida. Isso era bom, o golpe sangrava muito, mas o estrago em si não havia sido grande. A única coisa que poderia trazer problemas era o vaso danificado.

Ele suspirou e cancelou novamente o feitiço. Se o único problema era o vaso danificado, então este já havia sido reparado. Ele poderia viver com um pouco de dor, mas precisava dar sua atenção para Myrr.

— Senhor dos céus e Pai Celestial. Empresta-me teus poderes divinos. [Cura]! — e ele começou novamente a curar o Ladino.

Ele pôde sentir alguém colocando a mão em seu ombro. Radd arriscou um rápido olhar para trás, tentando manter sua concentração e pode ver Ludd parado lá. Se Ludd havia descido, isso significava que o combate terminara. Quantos haviam se ferido? Haveria alguém tão machucado quanto Myrr? Ele tentou abrir sua boca para falar, mas palavras não saíam de sua garganta.

Após alguns minutos, a ferida de Myrr estava completamente fechada. Radd virou-se para seu grupo. Os três Cobolds estavam mortos, um deles completamente chamuscado e quase virando cinzas. Charr e Rann estavam sentados no chão, arfando. Lynn segurava um pedaço de pano contra um corte em sua coxa.

— Mais alguém aí está ferido? Qual a seriedade dos ferimentos? Venham aqui para que eu possa curá-los. — Radd gritou, sua voz estava rouca e cansada. Ele tentou se levantar ao dizer estas palavras, mas sentiu-se zonzo e teve de se apoiar em Ludd.

— Estamos bem. — o Arqueiro falou, seu rosto estampado com um olhar de preocupação. Ele não conseguia evitar lançar olhares para o Ladino. — Lynn sofreu um corte na coxa e outro no braço. São um pouco profundos, mas não precisa de atenção imediata. Charr quebrou três dedos da mão direita. Essas são as únicas feridas. Foque-se em se curar por enquanto.

Radd assentiu. Ele se sentou e usou novamente o feitiço de cura. Agora que um pouco da sensação voltava a seu corpo, ele notou que suas pernas e mãos estavam ensopadas. Ao olhar para baixo, ele notou que esteve sentado na poça de sangue de Myrr pelos últimos dez minutos. Ele teve que segurar uma forte vontade de vomitar, seguida de vários engasgos. O Clérigo entrou em pânico ao se ver banhado em sangue e teve de ser arrastado para longe por Ludd.

Rann andou em direção a Myrr, pegando-o em seus braços e o carregando com cuidado e carinho.

— Acho melhor voltarmos para a cidade agora. — Ludd falou, sua voz um tanto melancólica. — Não tem mais nada aqui para nós. Não hoje…

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.