Ostium: Diamond
10 Capítulo 7
Capítulo 7
Alma escorregadia
Dia 13 de maio.
Estava tendo uma experiência comum, estava acordando.
Mas estava tão cansado, parecia que um peso enorme estava me cobrindo, como se tivesse feito de tudo para passar dos limites, de tudo que é natural. E agora uma casca me cobrisse, pesasse meu corpo...
Além de que minha cama dessa vez estava muito dura, por alguma razão.
Tinha uma sombra na minha frente, uma silhueta de alguém que conhecia.
—Roi…? É você…? Eu realmente queria ver você agora…
—Calma… você esteve dormindo por mais de 12 horas…
—Ah… é isso, eu tive um pesadelo terrível, nós fomos para um navio e piratas-fantasmas nos atacaram.
—Está tudo bem, você está no bom e velho… digo, nós já saímos do navio.
—Saímos?!
Me levantei num impulso e abri meus olhos.
Vendo claramente, no que agora não era mais uma silhueta.
—Você não é a Roi!
E vendo meus arredores, aquele colchão jogado no chão, as paredes irregulares de pedra, minha visão para um mar vasto e um navio.
—Isso é uma caverna!?
—Não pr… não disse nada sobre ter calma? Por favor, você se lembra de algo do navio?
—Sim, pensei que tinha sido um sonho, mas olhando agora… foi um realista até demais, o que houve?
—Explique.
Kiu disse isso, olhando para o outro lado, lá estava passando quem se chamou de 03, ele se sentou do meu lado também e falou.
—Foi grande sorte nossa, não fosse por isso, teríamos afundado sem dúvida.
—Sorte? Mas aquilo foi terrível, você não viu que a arma de um dos piratas disparou dentro do navio e acendeu alguma coisa… não entendi como, mas ele fez outro buraco que entrou água.
—Essa foi nossa sorte, pois houve uma irrupção de ambos lados, graças a isso, o navio manteve-se estável, mesmo que por muito pouco, se a sala em questão tivesse um ou dois metros a mais ou a menos para qualquer dimensão, este teria sido nosso fim.
—...?
“Isso... é assim que a física de um navio funciona...?
—Sim, obrigado por estes feitos, se não tivesse se apressado e impedido a água de se alastrar por todo o navio, então decerto teríamos morrido. Nós falhamos em proteger… todos nós agradecemos, mesmo os que sequer presenciaram seus atos de bravura.
—Que jeito esquisito de falar é esse? E de que você tá falando?
—Perdão, há muita coisa que falhamos em explicar pelas limitações do nosso tempo, contudo ainda preciso voltar aos meus deveres, devo lembrar-lhe que nosso colega, 01, ele ainda não está nem de longe acerca da recuperação.
—Sim… você disse que ele estava por um triz, foi isso?
—Decerto, ainda não compreendo como ele sobreviveu aquela lesão, porém sou grato a você e a Roy por o terem salvo, não subestime minha gratidão sobre isso, 01 é um grande aliado.
—Não foi nada.
Não conseguia reagir bem, a gratidão dele era sincera, mas não foi como se tivesse pensado naquele cara quando salvei o outro garoto, talvez ouvir agradecimentos diretamente de quem salvei fosse me servir melhor?
Kiu em algum ponto da conversa já havia se levantado e ido embora, 03 o fez assim que respondi, ele estava prestes a ir embora, porém, percebendo como pensava sobre ele, intervi, não consegui me levantar, mas disse.
—Ei! Espera, qual é o seu nome mesmo?
03 se virou, um olhar confuso, pensativo em seu rosto.
—Você tem convicção nessa pergunta? Os nomes dos membros desse grupo são um segredo, nos camuflamos por números e codinomes por boas razões, a maior recompensa que podemos dar a alguém de fora, isso, são os nossos nomes.
—Err… não entendi, mas você falou algo sobre eu ter salvo seu amigo, pode me falar seu nome e ficamos quites?
—Entendido. Me apresento assim como Amun Kennis, use esse conhecimento muito bem, jamais o passe para alguém que não tenha uma alma caridosa, é tudo que lhe peço.
Amun voltou a andar.
E olhei ao redor, realmente era uma caverna onde tínhamos ficado.
Me levantei. Senti uma dificuldade maior dessa vez, como se meu senso de equilíbrio tivesse piorado novamente, porém isso não vinha de uma crise, era… o que era?
“Preciso falar com a doutora Kutt assim que possível, aproveitar e perguntar se ela pode me dar mais desse remédio”
Todos os 10 sobreviventes do ataque estavam lá, mas a maioria dormindo, exceto eu mesmo e os dois que haviam conversado comigo.
Vi a saída da caverna, como em um habito, eu fui em sua direção, ao ar livre então...
Quando cheguei do lado de fora, entendi o que deveria ser óbvio desde o princípio, porém o que, como muitas outras coisas, havia falhado em perceber por ignorância.
Havia arvores enormes, muito verde, areia nos meus pés, flores exóticas para todas as direções e não importava o quanto corresse, nenhuma construção no horizonte.
—Estamos numa ilha deserta então… não consigo nem imaginar como isso podia piorar… ainda mais que o sol parece mais forte aqui.
Suspirei profundamente, sem ter ideia de como essa situação era o menor dos meus problemas.
Curioso sobre o local, eu caminhei sob o sol escaldante por quase uma hora, sem realmente ver um cenário diferente do que o de uma ilha deserta e intocada por qualquer pessoa, aparentemente. Assim que vi ser uma caminhada infrutífera e frustrante, onde parecia nunca encontrar qualquer coisa de interesse, eu desisti e refiz meu caminho de volta a caverna, evitando o sol, usando as sombras das palmeiras o quanto eu podia.
“Eu já estou cansado de novo, esse sol é terrível...”
Apesar de reclamando, cheguei de volta a caverna, a mesma onde acordei mais cedo.
O Amun ainda estava olhando para o “01” a Kiu felizmente, ainda estava lá e só encarava uma parede, como se perdida em pensamentos, eu imaginei que ela poderia me ajudar, logo...:
—Kiu, com licença…
—O QUE?! OT… huh…? O que…?
Ela se virou repentinamente, como se tivesse ouvido a voz de um fantasma ou vampiro, então me olhou com bastante confusão, olhando para os lados e por trás de mim, parecendo tentar entender o que havia acontecido.
—Está procurando alguma coisa?... Kiu?
—Foi você o d… você me chamou? Você usou aquele nome?
—Kiu…? É um nome esquisito, mas…
Ela deu um passo para trás, as mãos ficaram prontas para sacar uma arma e sua expressão tinha se tornado violenta de uma hora a outra.
—Como você sabe desse nome?! Diga logo ou terei que lhe deter junto de todos os outros, eles não podem se defender enquanto dormem.
—O que?! Foi ele que te chamou assim! Aquele garoto de cabelo colorido!
A expressão dela ficou mais leve, sua pose de combate se foi, então Kiu me respondeu:
—Pensando bem, ela já teve uma conversa com você e não falou nada sobre ser um espião… realmente, qual era o seu nome?
“Ela não está me ouvindo, ou é impressão minha...?”
—Jack, Jack Delsteen, isso é importante?
—Desculpe, você deve ter ouvido dele, considerando tudo… incluindo esses apelidos idiotas… não me chame assim outra vez, é só isso.
—Espera… você também tem um problema em ser chamada pelo primeiro nome? Igual a…
—Não é o meu nome, um dia o an… um dia ele começou a me chamar assim, disse que “combina comigo” e nunca parou, foi apenas isso.
Isso era outra coisa que ela tinha de parecido com a Roi, foi o que pensei de imediato, estendi um “será então...?” silencioso logo após.
—Entendi. Qual o seu nome então?
—Bem… pensando assim, acho que isso é um tipo de segredo também… me dê um tempo. Já que estamos presos por aqui, preciso buscar comida e explorar a área. Até voltar vou ter uma ideia, adeus.
Ela saiu em passos tão velozes quando uma corrida, não houve bem uma chance de intervir, nem mencionar como ela não havia me dado sequer uma resposta.
“Melhor deixar isso como está”
E naquele momento, o que podia fazer não estava tão claro.
Fui até o Amun para fazer algumas perguntas a mais.
—Ei, por que nós estamos aqui mesmo? O navio é bem mais confortável e não é esse calor todo também.
—Foi como lhe contei, o navio está estável por algo próximo de um milagre, contudo não garanto que isso seja para sempre, ele poderia começar a afundar a qualquer momento, dormir lá seria um risco para todos nós.
Me contive para não perguntar sobre como faríamos para sair daquela ilha se nem o navio era confiável, tentei perguntar o que deveria pôr alguma luz a mais no caso...
—E, aliás, o mais importante, quem são vocês? Digo, uma pessoa tentou matar o garoto ai e depois corsários quase afundaram o navio... nós estamos em uma fria é...?
—Não pode ver bem quem o atacou? Pois nós também não temos certeza do que houve… tomarei responsabilidade, é quase certo de que a responsabilidade sobre esse evento é nossa, ao menos em parte. Por favor perdoe todos os outros, a culpa é apenas minha, deveria ter imaginado o quão fácil seria de nos atacar no mar…
—Relaxa, não é como se alguém que eu conhecesse tivesse sido levada, mas por que vocês seriam alvos? Alguém não gosta desses cabelos que vocês têm?
—Há tempo para explicar ainda, aguarde seus amigos. Teremos de falar a todos vocês.
—Ai, ai… sim, claro, então, quando esse ai vai acordar?
“Com esse tipo de pessoa, insistir nunca é bom, vai saber o que eles estão planejando...”
—Temo que não tão em breve, a lesão acabou por colocá-lo num estado semelhante a um coma. Longe de morrer, contudo não perto de viver… e sendo sincero, no estado o qual nos encontramos, ele poderia ficar assim por poucos meses até.
—Meses?! Como!?
—No estado atual isso é ótimo, caso tenhamos acesso a equipamentos médicos de alta qualidade, ou melhor, um hospital de verdade, ele não demoraria mais do que três semanas para se recuperar ao menos suficiente para voltar a uma vida normal.
—A… Kiu... ela foi explorar a área! Talvez se ela achar um ostium, possamos buscar ajuda!
—Pois sim, espero. Vou lhe fazer uma pergunta repetitiva, entretanto, preciso ter certeza. Esse corte foi feito num único golpe? Também tem certeza disso?
—Na minha visão, o tempo que demorou para esse corte aparecer foi menos de um segundo.
—Sisisisisi… vou refletir…
O Amun repentinamente parecia concentrado demais no que estava fazendo, resolvi deixa-lo pensar no que fosse, era melhor apenas olhar como os meus amigos estavam.
E por alguma sorte, eles pareciam muito bem, parece que a pessoa com os maiores problemas em relação ao sono não os incluía.
Franziska especialmente tinha uma expressão bastante serena enquanto dormia, parecia que essa beleza era o mais natural para ela.
Do outro lado, Ritte também estava lá.
“Não sei se essa é uma ideia boa exatamente, porém parece ter chegado uma boa hora para conversar”
Me ajoelhei ao lado dele e tentei chacoalhar seus ombros, só isso foi suficiente para que ele abrisse os olhos.
—Ritte, vamos, você tem que me ajudar nessa.
—Sim…? Tive um sonho estranho…
—Não foi um sonho. Infelizmente, os corsários e o navio, tudo foi real.
—...
—Bem, eu acho que duas pessoas podem ter o mesmo sonho, mas esse não foi o caso agora...
—Ter o mesmo sonho...? Isso não é um filme de fantasia, e sonhos são processos muito complexos, não é replicável.
—Confio nesse julgamento, porém nós não tínhamos o mesmo sonho? A banda inteira não queria a mesma coisa? E agora estamos compartilhando isso, não é como um sonho?
—Você tomou sol agora a pouco? É esse tipo de coisa que você fala quando acaba de entrar na sombra de novo.
Pisquei meus olhos com força algumas vezes, tentei procurar a lógica do que estava dizendo.
Era um devaneio, é certo que nós compartilhamos esse sonho, porém mesmo ele não era da mesma forma, depois de ver um número de sete dígitos nas nossas vendas, não senti exatamente felicidade, não depois da animação e festa que fiz com todos logo após vermos isso.
Nem havia nada que desse para usar tanto dinheiro, viajar não custa quase nada, um carro seria quase inútil também, além de que daria muito trabalho aprender a dirigir...
Uma casa enorme poderia valer algo, porém gosto de viver naquela cidadezinha, minha vida está lá e certamente não tem espaço para uma mansão por ali.
Mas quem pode dizer que os outros não vão ser mais criativos? Que não pensem em usar esse sonho realizado para algo de verdade?
Talvez para ajudar outras pessoas, talvez por si mesmos, depois poderia perguntar algo assim.
Jogando essas realidades e imaginações para longe ao balançar minha cabeça, foquei na realidade.
—Ah sim, Ritte, claro, sonhos, sonhos como… é, sim. Parece que o sol é muito forte por aqui, vou tentar não sair até anoitecer.
—Bom, já soube o que houve?
—Em partes, preciso de você para contar o que houve enquanto estava dormindo, aconteceu muita coisa?
—Pas tant, bem menos do que você imaginaria. Nós trouxemos colchões e nossos pertences do navio até está caverna e foi um bom trabalho... ainda mais porque você não estava ajudando... depois caímos no sono, imagino...
—Foi mal... mas Ritte, você não conseguiu nada desses caras? Esse outro grupo é cheio de surpresas, eles são algum tipo de… não sei, algo que a Une falaria sobre.
—Nada ainda, no entanto não achu* que eles são maus. Só um palpite.
—Hum…
Olhei um pouco para a esquerda, lá, por um breve instante tive o deslumbre de uma silhueta.
No outro nada, encarei aquele espaço vazio, porém que parecia haver ainda resíduos de o que quer que seja que tenha visto por lá.
—Jack, você está tendo visões também?
—Ei, não é nada. O sol realmente estava forte, mas Ritte, aquele loiro ali, ele vai explicar a situação quando todos os nossos acordarem, o que você acha?
—É melior* esperar um pouco mais, sabe, foi uma noite bem terrível ontem, poderíamos ter morrido… não sei si* isso caiu a ficha para alguém como você, mas é…
“Espera… morrer…”
—Ritte…
Olhei para mim mesmo, para dentro, na verdade, para fora, era isso que procurava.
Quando minha mão chegou próximo de onde antes havia um corte profundo, primeiro notei que minha camisa ainda estava rasgada, depois o quanto o sangue havia se alastrado, mas não era como um liquido mais.
Era seco, duro, como um gelo que não se fez frio, mais nojento também, me dava repulsa e não queria manter meus dedos por lá.
Enfim, cheguei onde haveria meu corte.
“Já está cicatrizando…?”
É verdade que meu corpo é bem mais forte do que o de uma pessoa normal, mas aquilo realmente havia chegado perto de me matar, isso não deveria se curar tão rápido, pelo menos mais dois dias deveriam ter passado.
—O que houve com o meu corte?
—Sim… quando te achamos ele não parecia tão ruim, por isso ninguém fez um curativo…
—Não parecia ruim?! Esse corte quase me partiu ao meio! Eu quase morri!
E quase pulei para cima do Ritte assim que ele falou aquilo, as memorias de quando fui atacado voltaram na mesma hora.
—Foi…? Acho que nunca ouvi você dizer isso, na verdade, não por isso, mas porque nunca imaginei que ouviria você falar algo assim.
—Sim! O corte atravessou minha carne como se fosse papel! Se tivesse alguns centímetros a mais eu teria sido separado em duas partes…!
—Et toi...? Além de uma resistência enorme, não é como se você ficasse mais de um dia reclamando de uma batida ou corte.
—Não é a mesma coisa...! Lembro bem de ter sido atropelado uma vez. Estava… não lembro bem o que, contudo, foi quase como isso, mesmo lá demorei uma semana inteira para me recuperar, acho que minha resistência na verdade aumentou desde então, mas de jeito nenhum chegaria a esse ponto!
—E se o corte não foi tão ruim quanto você lembra? Ele pode ter realmente só pequo* de raspão, é o que parece agora. Nossas mentes fazem truques consigo mesmas as vezes. E você pode então ter se confundido.
—Ritte… não posso desaprovar isso, contudo não sinto confiança na sua voz, por favor pense mais.
“E eu lembro bem. Aquilo foi um corte fenomenal feito por uma espada, pareceu até um filme de samurai”
—Oui, considerando a hora, você não estaria muito sensível a uma interferência desse tipo, pelo contrário, diz que a lua te dá mais força, é?
—Parece uma piada, mas na verdade é esse o motivo de sempre marcar minhas brigas para a noite.
—Você realmente precisa dessa vantagem…?
—Não quero chegar em casa cheio de sangue nas roupas, mesmo que possa. Ainda mais sendo o filho de um policial.
—Toi...
—Aprendi uma lição importante. Os machucados de uma briga são diferentes de um acidente, não dá para disfarçar.
—Certo… de qalquer* forma, o corte realmente foi ruim, mas então não tem outra explicação, você talvez tenha se recuperado mais rápido que o normal, talvez só tenha tido sorte.
—Sorte? Acho que estou com muita sorte ultimamente... o galego falou que se eu não tivesse tropeçado naquela hora e explodido a sala... o navio ia afundar de verdade.
—Hum...? Você não fez aquilo de propósito?
—Pareço alguém tão esperto assim? Não entendi por que acordei nessa caverna em vez de na pós-vida até terem me explicado. E até agora não entendi direito a lógica por trás do navio ter continuado acima da água.
—Zut…! Não é bom pensar nisso, ainda não consigo aceitar que foi tão por pouco que nos salvamos, isso não é nada como aquelas besteiras que fazíamos por lá.
Deu para ver que isso não era da boca para fora quando o Ritte ganhou a cor de uma bolacha.
—Não pense muito nisso, acho melhor também não falar para mais ninguém que foi tão por pouco, sim, realmente, deixe isso entre nós dois.
—Ok... se você diz.
—Vou vasculhar minhas malas e fazer alguma música, isso vai ajudar a passar o tempo.
Me levantei primeiro, sem esperar que...
—Melhor ir pegar o meu baixo, acho que podíamos tentar aquele ritmo que você me falou outro dia.
Sua cor de bolacha tinha ido embora, o Ritte voltou ao normal, já tinha aquele sorriso confiante no rosto outra vez e...
—HÁ! Sim! Boa ideia Ritte, vai combinar muito com a situação e… e… o eco! Essa caverna vai fazer um eco muito bom, ela é bem maior que o nosso esconderijo, imagine!
—Chinche!
Empurrei meu corpo com braços e pernas para chegar na mala em um canto da caverna e comecei a jogar tudo para cima até alcançar minha guitarra.
—Bem… hum…?
Do lado da minha guitarra…
“Aquele caderno estranho… ah sim… acho que acabei usando ele para anotar o ritmo, seria bom olhar, não tive tempo para memoriza-lo”
Peguei o caderno, olhei as notas do ritmo e o guardei comigo.
Fomos para o outro lado da caverna e passamos algum tempo testando novos ritmos, alguns mais calmos para esquecermos da situação em que tínhamos nos encontrado.
Dado tempo suficiente, Une apareceu, pedi que ela se juntasse e tive o pedido atendido, não tanto tempo depois, estávamos fazendo um ensaio com toda a banda naquela caverna, pois logo, logo, nossa música chamou a Roi e a Franziska também.
Nossa harmonia não tinha sido perdida, essa sintonia que permitia que nos expressássemos pela música, deixando nossos sentimentos verdadeiros soarem sutilmente pelos ares, ela não seria perdida enquanto ainda pudéssemos nos reunir, cantar e fazer nossa música.
Acabei me envolvendo tanto, que não percebi como os membros daquele outro grupo tinham se reunido para nos ouvir, era uma plateia bem pequena. E ainda assim... uma plateia.
—O que foi? Nós somos uma banda, é isso que fazemos.
—Meus elogios, vocês são boníssimos na arte, a harmonia tornou-se tangível quando todos se juntaram.
Sorrindo um pouco, o galego chamando Amun nos elogiou... provavelmente.
—Err… certo, todos vocês estão ai, nós também já estamos aqui. Vocês podem começar a explicar.
—Amun (por que esse guitarrista é tão irritante? Ele não podia pelo menos agradecer o elogio?)
Não ouvi toda essa frase, foi como se uma voz de uma garotinha tivesse ressoado na minha mente e dito isso, a fonte não era clara, mas identifiquei como a garota dos cabelos ruivos enormes.
—O que?! Foi ela que falou isso?
—Hum? (Tem mais alguém que poderia ter falado isso? Você não consegue me ouvir?)
—Perdão, Jack, bem… por favor se acostume com essa forma de comunicação, ela não fala tanto.
Depois de eu me confundir e questionar aquela garota, o Amun interviu para explicar-se por ela.
—Isso é algo psíquico?
—O que?! (De jeito nenhum! Você está me vendo levitando pedras e entortando colheres por acaso!?)
“Se eu insistir demais nesse ponto... eu queria perguntar, mas... acho que só fingir ser algo comum é melhor”
—Mas sim, Delsteen-san. Acho que agora que vocês todos estão aí, temos que nos introduzir, sim?
Fomos para um pouco longe dos instrumentos, mais próximos de onde havíamos dormido. Yui deu um passo à frente, fazendo o barulho mais alto que ela conseguia, então começou.
—Como a líder deste grupo, apresento a vocês o instituto.
“Instituto… espera…”
—Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!
—Une?!
Ela pulou em cima de mim, segurou a minha gola e começou a me balançar de um lado para o outro, para trás e para frente, tirando toda a atenção que tínhamos deles.
—Eu disse que eles existiam! Eu falei, eu falei! Idiota, babaca, trouxa, estupido, eu acertei, eu acertei!
—Calma ai!!
A segurei, não fiz tanta força, mas foi suficiente para ter um segundo para respirar e perguntar:
—Vocês! Vocês são aquele instituto?! O que as pessoas dizem ter derrotado aquele CEO do mau?
—Wahahaha! Sim, sim! Esse mesmo, Delsteen-san.
—Decerto, é infortúnio que nossa ação não tenha tido a chance de ser executada silenciosamente tal qual as anteriores, por isso houve vários rumores...
Se aquela líder, a Yui disse, e o Amun completou... com um rosto bem tristonho, inclusive.
—Assim, não esc… não tivemos escolha se não apenas conter os danos de termos ficado tão conhecidos, por pouco não viramos notícia de jornal, porém rumores de internet e passados pelos alunos daquela escola foram… difíceis.
—Imagino, Kiu, eu vejo pessoalmente como rumores se espalham...
Falei enquanto fazia a Une se soltar de mim, ela já havia desviado sua atenção de volta para as palavras do instituto...
—Não me chame dessa forma de novo. Já disse.
—...!
Foi uma ordem bem direta, apesar dela não ter mudado de expressão com aquilo.
—Um momento, então vocês são só um grupo de 5? Isso pode ser um instituto?
Franziska fez uma pergunta que apesar de fora de lugar, era pertinente.
—Talvez eles só quisessem um nome bom, eles não parecem ter nada para serem um instituto de verdade
Ritte foi ainda mais direto.
—Apesar de ser a líder, não fui quem escolheu o nome, esses dois o fizeram.
Ela desviou atenção tanto para a garota ruiva quanto para o Otsuka, que ainda estava inconsciente.
—Une, você falava que o líder deles era super forte e alto, onde está essa parte?
—Bem… diziam que ele tinha cabelo branco, pode ser esse garoto dormindo ali, mas ele não é nada alto...
—Além de parecer um fracote...
Eu tentei não falar isso tão alto, mas acho que todos lá me ouviram de qualquer maneira.
—Se me permitem, talvez vocês tenham misturado duas pessoas, não é, 05?
Amun, na sua última frase, olhou para a Kiu.
E vendo a Kiu com camisas e calças arregaçadas, ela era certamente muito forte, além de ser bem alta também, mesmo na ponta dos pés eu não era mais alto que ela.
—Há! Jack, talvez por isso os rumores falavam de quatro membros, mas aqui tem cinco!
Com a ideia da Une, olhando ao redor, passando meu dedo sobre eles...:
—Um, cabelo colorido, dois, garota asiática, três, loirinho, quatro, Kiu… cinco, a garota inglesa. São realmente cinco.
—Creio que contar dessa forma não era necessário.
“Desculpe, Roi, eu precisei”
—Além de q… levando em conta que nós dois raramente estamos muito próximos durante uma ação, não me surpreende o número estar errado.
—O que? Por que não?
“Franziska!”
—Perdão err… Franziska, sim? Senhorita Franziska, creio que falar sobre nossas táticas não seja necessário no momento, sim?
“O Amun não parecia tão incomodado com a pergunta quanto imaginei”
—Ah, perdão, acabei perguntando sem pensar.
Enquanto houve essa conversa, me aproximei do Otsuka, tive a impressão de ter o visto se mover, talvez estivesse acordando.
Quando me aproximei, ficou claro, ele estava retomando consciência.
—Ei! Ele está…!
Deixei o caderno cair no chão, ao lado dele.
No mesmo instante ele se levantou.
—AAAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!
Ele gritou com uma das mãos na garganta, como se tivesse acabado de ser cortada.
—Calma! Nós já escapamos!
Amun correu até ali e falou isso para ele.
Os olhos dele, vendo de perto, eram escuros como carvão, praticamente sem brilho.
Ele passou os olhos por nós, enquanto a sua outra mão pulava e se arrastava pelo chão, procurando algo, mesmo sem ver.
Até chegar ao caderno, o meu caderno, aquele que tinha deixado cair no chão.
O garoto abriu, seus olhos escuros deslizaram por ele por uns instantes.
—Pelo… Lestat… o caderno…
—O que houve? Esse caderno é… não…
A voz dele quebrou um pouco, pareceu ter percebido algo que deveria ser óbvio, estava decepcionado consigo mesmo, mas esse sentimento era vencido pela surpresa de ver algo que ele pensava ser impossível.
Então, Otsuka se virou para mim, seus olhos de obsidiana encararam os meus, ele alcançou o ombro de Amun, que o ajudou a se levantar.
Yui chegou e o encarou, esperando que ele explicasse algo, já sabendo que algo fora do previsto havia ocorrido.
Ele falou frases que pareciam mudas para mim, porém fizeram Yui dar um som de surpresa e em seguida chamar atenção de todos dali. Não demorou nada para nossa reunião ser movida para os seguir.
Otsuka, se segurando no ombro do Amun e Yui, um ao lado do outro, foram esses dois que fizeram a afirmação que nos coloca no ponto atual dessa história.
—Nós temos…
Ele dizia, quase sem conseguir ficar em pé, sua voz indo ao limite para nos alcançar.
—Nós temos uma notícia para vocês.
Yui continuou, com um tom bem mais forte, ela realmente passou para nós que aquele seria o evento mais importante das nossas vidas.
—Este caderno, sendo ele um pertence de um de vocês, ele os qualifica como membros do instituto. Vocês terão que tomar para si as responsabilidades de tal. Preservar o mundo, salvas pessoas e derrotar o mau, com tudo que vocês tenham. Nosso encontro aqui foi parte do destino, confiem nele e se juntem a nós, não creio que haja outra escolha.
Algumas horas se passaram.
Os outros ouviram uma longa explicação de como o instituto tinha chegado até ali, uma conversa envolvendo todo tipo de coisa que a Une entendia, ela ocasionalmente me lançava um olhar de desprezo, me lembrando como eu a tratava sobre essas teorias, que apesar de não terem pé nem cabeça, eram reais.
Viagem no tempo, conspirações, experimentos bizarros, nada daquilo chegou a mim, por um longo tempo entrei num estado em que apenas meu corpo estava funcionando, minha alma contemplava todo aquele show a distância, sem realmente compreender, mas nunca tendo o esforço compensado.
As horas se passaram, foi quando finalmente caiu a ficha, entendi o que havia acontecido.
—Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!
Foi mera sorte ter entendido quando estava longe da caverna, tinham pedido que fosse vasculhar a ilha também, já era de tarde e o sol estava há uma ou duas horas de se pôr.
“Parece que nós tivemos muito azar, já é a segunda vez que vou explorar e nada, será que essa ilha realmente não tem ninguém...?”
Andei na direção que já estava, talvez se insistisse acharia algo, se fosse o outro lado da ilha não teria como dizerem que não explorei ela bem.
“Instituto? Eu? Nós… eles falaram que nós somos como eles, de outras formas. Como ela falou mesmo?”
Me foquei em recordar das memórias de horas atrás que pareciam tão distantes, achei algumas delas vindo da Yui, ela pelo menos usava palavras fáceis.
—Nossos números podem ser portados por outros. Não sabemos o motivo, contudo é fato, nossa determinação de nos unir a quem portar esses números, e seria do interesse de vocês ter nosso suporte por enquanto também.
Depois disso eles pararam de nos tratar como se tivéssemos caído lá por acaso e não pertencêssemos ali, nos pediram ajuda em várias coisas, não consigo lembrar mais do que a minha própria ordem, a de explorar a ilha.
Pensando nisso, empurrei uma folha prestes a bater em meu rosto e vi.
“Oceano…”
Era uma ilha realmente deserta.
Dei meia-volta, o sol ia ser pôr logo.
E de qualquer forma, não sabia que tipo de coisa perigosa poderia aparecer naquela ilha, me recuperei daquele corte muito mais rápido, porém não estava afim de enfrentar um animal selvagem nem nada ruim naquele estado.
“Mas o que significa ser um membro do instituto? É só outro título idiota? Por favor deixe que seja” Falei para mim mesmo enquanto lembrava de Yui falando outra vez.
—Não temos certeza. É impossível determinar de imediato qual a função de você, porém deve se tornar claro muito em breve, por agora…
“Acho que era para focarmos em irmos embora daqui, sem um ostium acho que vamos precisar ser resgatados, ou talvez usar o navio, mas o próprio Amun disse que ele podia afundar a qualquer momento”
E nisso, os outros membros realmente pareciam ter cuidado com esses nomes, isso me traz algumas dúvidas, “Yui” soa bem como o nome certo para ela, porém aquele Otsuka também tem um nome assim e não parece asiático de jeito nenhum, não consigo dizer de onde ele poderia ter vindo, porém chutaria algum ponto da América.
“O que esse nome tem de especial afinal? Não é como se tivesse ganhando um super-poder por saber o nome dele, nem de longe”
Afinal, nada do que eles diziam parecia fazer sentido, como se tivesse algo faltando em cada lógica absurda implementada pelo “instituto”
Estava tentando me separar assim, mas o que parecia era que realmente era um deles. Assim Yui disse:
—Esse caderno é igual a um que nós temos, ele parece ser normal, mas o número de propriedades bizarras que ele contém são demais para listar.
—Devia dar ele para vocês então?
—Não. Fique com ele e continue escrevendo, depois deve haver algum lugar onde listamos tudo de especial sobre ele, mas por agora, finja que ele é normal.
Mais tarde senti vontade de escrever nele.
Assim que cheguei na caverna, não olhei para ninguém, me sentei em um canto e comecei a escrever sobre tudo que havia acontecido, até aqui. Isso ajudou a organizar mais ou menos tudo que lembro agora, sinto como se pudesse tomar uma decisão melhor.
—Creio esta ser uma das primeiras propriedades que percebemos deste caderno. Ele compele o portador e pessoas próximas a escrever nele e lhe preencher com partes de sua própria qualia, talvez seja a fonte de energia dele afinal…
—Amun…? O que…?
—Ademais, nós já podemos começar a consertar o navio.
—Consertar!? Pedir ajuda não ia ser mais fácil?
—Iríamos fazer isso, entretanto avaliamos a situação novamente, nós não conseguimos de forma alguma estabelecer comunicação. Ninguém está vindo nos resgatar.
—O que… e como devíamos consertar um navio?
—Felizmente os danos podem ser resolvidos duma forma bem mais simples, segundo os meus... não, nossos cálculos.
—Quem mais te ajudou?
—Há outra pessoa além de mim, Jack?
Franziska estava ao meu lado, acho que me guiando para escrever, porém tinha esquecido em parte disso, será que ela saiu em algum ponto sem que percebesse?
—Senhorita Franziska, sim? Sua aptidão matemática é realmente sobrenatural, me sinto honrado em compartilhar o mesmo número que você.
—Ei, vocês têm um número...?
—Jack, você não prestou atenção? Eles já explicaram isso uma vez.
—Ah… por favor, Queen, explique uma segunda vez, se você falar eu consigo entender sem dúvidas.
—Hum, então por que não pediu isso antes?
—É que…
—Digo!… Tenho que explicar!... Parece que os números que eles usam para se identificar se correlacionam com certas aptidões e papeis na equipe, nós dois temos o número 03, ele diz.
—Perdão por falharmos em determinar com exatidão a natureza do que une esses números, porém é certo que o nosso se trata de possuir conhecimento de algum tipo, ela apontou ainda que talvez nossas proficiência em medicina sejam a relação, caso seja o caso, a Senhorita terá de fazer os trabalhos de pesquisa e estudos do instituto.
—03… 03, foi esse o número dela? E 3 não é só o seu número favorito?
Fiz essa pergunta, como se estivesse prestes a unir dois fatores e enfim alcançar algum resultado.
—Também, mas deixe o senhor antropólogo terminar sua fala.
—Antro… o que?
—Parece que é um incomodo nos chamar apenas de números, sendo vocês do instituto, talvez nossos nomes reais possam ser dados, porém, tal ação não pode ser tomada sem todos os nossos discutirem antes, até lá, usem alguns apelidos que usamos também.
—Ah, entendi, antropólogo, continue.
—Com colocação estratégica de peso pelo navio, será meramente suficiente para o fazer flutuar com uma estabilidade segura, reduzindo a chance de ele afundar por si só a menos de 0.6%
—Só temos que mover algumas caixas então?
—Na prática, certíssimo.
—Um trabalho adequado para mim, pode dar as ordens.
Amun foi comigo e disse que iria carregar o peso também, Roi ajudava, assim como a Kiu, quem ele pediu para que chamasse de “maga” eu mesmo sugeri então que o Ritte viesse também, ele concordou.
Uma hora estava levantando uma caixa especialmente pesada com a Roi, tínhamos posto vários sacos que sequer sabíamos o que tinham dentro lá, fizemos o peso que foi pedido e nos unimos para a levantar.
Mesmo nessa união, nossa força combinada mal era suficiente, contudo conseguíamos erguer aquilo, começamos a dar os passos em direção ao próximo destino.
—Roi… não era mais fácil empurrar a caixa pelo chão…? Talvez congelar ele antes para negar a inércia?
—Não.
Ela não estava exatamente dando sinais de esforço, ainda era uma expressão estoica, na verdade, ela naquele momento poderia representar essa palavra.
“Até que seria uma pegadinha engraçada se colocasse ela do lado dessa palavra num dicionário e o desse para a Roi ver… preciso considerar”
—O que acha dessa situação?
Ela perguntou isso, um evento único, não, nem tanto, contudo ainda especial, tinha desistido de conversar com ela a pouco depois daquela resposta curta.
—É horrível, não é? Algumas pessoas aparecem no navio, no mesmo dia ele é atacado por piratas-fantasmas, agora nós precisamos nos salvar da ilha deserta e agora viramos membros do clube deles de caça-fantasmas ou sei lá...
—…
—Você achou algo diferente, Roi?
—É bom, não é?
—Bom? Você gostou dessa situação?!
—Não tudo. Apenas uma parcela.
—Qual parcela? Não que queira argumentar contra, mas seria bom ter uma visão mais positiva disso.
—Nós temos uma missão agora.
Me dobrei um pouco para o lado, ela fez o mesmo, vi nos olhos que ela não tinha mais nada para acrescentar, continuamos levando a caixa.
Passou-se vários minutos de trabalho braçal, porém, enfim fizemos todas as colocações. Amun reafirmou que com aquilo o navio deveria estar estável suficiente e realocamos as malas para o navio.
“Agora é como se essa embarcação fosse nossa casa… seria interessante algo assim…”
O navio se moveu novamente, o Amun devia ter começado a navegar.
Não tinha certeza para onde iriamos, mas não devia ser longe, só tínhamos que chegar de volta a civilização e usar um ostium para voltar para casa, até lá não havia muito de ruim que poderia acontecer.
“Espera… tem uma coisa faltando”
Corri até o quarto 77. Bati a porta algumas vezes.
—Se você não abrir em 5 segundos, eu vou derrubar a porta!
—Adiante Cavaleiro Jack, passe pela porta da inpen…
Para não agir precipitadamente, tentei mexer a maçaneta.
Estava destrancado.
—Isso poderia até servir de lição para mim… por que sempre penso em derrubar a porta antes de abrir ela?
—(Não faça barulho)
—Espera… Une, o que você está fazendo com a… vírus foi o nome que devia te chamar? É você, garota ruiva?
—Vírus, especialista em programação (estamos tentando concluir o porquê de não termos conseguido nos comunicar com ninguém até agora)
—Une, não seja técnica, só diga se isso é normal, ok?
—Pois sim! Isto só pode ser explicado pois estamos no amaldiçoado triângulo das bermudas! Fomos arrancados do nosso mundo.
“Nem consigo adivinhar que personagem é esse? O penteado para cima faz parecer… algo medieval?
—Vírus… não falei antes, mas você não é meio nova demais também...? Não sei se vejo sinergia em vocês.
—Sim (mas tem algumas pessoas assim no meu instituto também)
—E mais, mais Jack, parece que nós compartilhamos o número de 07, queria aproveitar a viagem para descobrir os segredos deste número, o que significa o portar.
—Me dê o resumo depois, não acho que tenha muito para me envolver, até logo.
Fechei a porta e deixei elas resolverem o novo enigma.
“Qual será que é o meu número então? Na verdade, foram os outros que escolheram seus números favoritos, eu escolhi o 1 para mim porque… combinou com o resto… então ainda assim seria o número 01? E… quem seria esse?”
Para reunir aquele bando de esquisitos não poderia ser exatamente uma pessoa comum, na verdade, ela com certeza deveria ter algo de especial.
Deveria perguntar isso ao primeiro membro deles que cruzar o meu caminho, isso seria perfeito.
Mais um minuto passou para achar outro deles, era a Yui, estranhamente, andando com o Ritte.
—Para onde estão indo?
—Na realidade, estávamos lhe procurando Delsteen-san. Quando contei sobre os números pelos quais nos identificamos, o Ambrose o quis procurar.
—Ritte, isso é bem conveniente. Tenho uma pergunta para você, vamos falar ao mesmo tempo.
—Não dessa vez, vou só perguntar, você já achou o seu número?
“Que sério! Nem parece ele!”
—Hum… queria ter falado simultaneamente… e não, era isso que iria lhe perguntar, já conseguiu? Parece que a Franziska e a Une já fizeram isso, metade do grupo.
—A Roy também, ela parrece* combinar com aquela maga, 05.
—Yui, o que a Kiu faz? Minhas memoria não é nada boa.
—Não é um problema Delsteen-san, é um prazer falar dos meus aliados. Ela é nossa lutadora, normalmente temos um código estritamente pacifista, jamais ferir, muito menos matar, porém ela ajuda bastante quando precisamos intimidar alguém ou ganhar alguns segundos a mais para fugir.
“Foi o que houve ontem, lembrei agora”
—Mas a Roi… ela não sabe lutar…
—Oh… ops…
—O que? O que isso quer dizer?
—Nada. Não se preocupe, a forma que os números se ligam é bem vaga, digo, ampla. Mas lhe garanto que vocês vão encontrar seus números.
O quão invasiva ela estava sendo era visível, mas minha vontade de questionar era bem menor.
—Er… certo, mas eu e o Ritte não achamos nada ainda.
—Delsteen-san, é por isso que estamos juntos, queria fazer alguns testes com ele, tenho uma pequena suspeita dele compartilhar o meu número de 02.
—Exatamente, Jack, o que você acha?
—Vocês não se parecem, mas… você falou de sem amplo, então não é impossível, né?
—Também, je ne comprends pas, esse papo todo é muito complicado, mas não parecem más notícias, né?
Suas palavras eram bem mornas, mas o jeito que ele estava se movendo de um lado para o outro, um pouco inquieto, ele parecia ter otimismo sobre esse futuro.
—É. Nisso, Yui, onde está o 01? Se vocês realmente forem equivalentes, eu só posso ser o 01, não é?
—Oras, está aqui, neste navio, foi quem você salvou aliás, é uma coincidência grande, não é Delsteen-san?
—Mas… por que eu seria o equivalente dele… alias, como vamos ter certeza se ele desmaiou de novo pouco depois daquela revelação?
“Foi bem bombástico mesmo, ele fez aquilo e voltou a dormir, alguém teve de carregar ele até o navio eu acho”
—Vá para a sala do capitão, a Franziska e o Antropólogo estão lá, 01 também, já que os dois médicos acharam melhor manter ele próximo.
—Ritte, acho que vou indo, é melhor vocês fazerem isso só os dois de qualquer forma, não é isso?
—Au revoir.
—Err... excusez-moi, eu acho...
Dei um pulo para o lado e corri em passos curtos e barulhentos até a sala do capitão.
Foi o caminho que Roi tinha me levado, numa parte acabei pegando uma trilha imaginaria e cheguei sem mais problemas.
Todos aqueles que deveriam estar lá, estavam, não… a pessoa mais importante estava faltando.
—Amun, a Franziska, onde ela está?
—Precisei que ela buscasse suprimentos médicos, navegarei sozinho por enquanto.
—Me dê licença então, me disseram que talvez eu seja o equivalente ao garoto de cabelo de duas cores, não gostei nada dessa ideia.
—O que você disse?
Amun se virou, soltando o timão, enquanto eu via o tal Otsuka e...
01 ainda estava inconsciente.
—Não creio que possa retirar muito dele, o estado é bem ruim, teremos que o levar para um hospital no instante que pisarmos em terra.
—Então… Amun, o que você acha? Isso não pode ser verdade, não é? Não posso ser esse membro 01, parece muito importante…
—Se tu fores, não há escapatória desse destino, sinto muito.
—Mas eu não sou, é isso que estou dizendo, pode haver outra pessoa que se encaixe no número, não é?
—Pode, certamente.
—Então? O que você acha?
Perguntei olhando para as costas dele, Amun voltou seus olhos ao mar novamente.
—Se fores, tu és, do contrário, não serás. Digo isto pois, pessoalmente apenas, não creio que és como ele, falta muito das características que o deixou salvar os outros, o mundo inclusive.
—Então isso não é prova suficiente? Você parece conhecer ele bem.
—Chama-me de braço direito, assim o faz, entretanto, como disse é apenas uma opinião pessoal, afinal, tens a mesma determinação que ele possui, por meios diferentes, porém equitativamente válidos.
—Isso é…
—AHH!!! Amun! Amun!
Une entrou primeiro, jogando a porta contra a parede, em seguida, com um computador em mãos, vírus entrou gritando o nome dele.
Amun se virou imediatamente.
—O que há?
—Veja isso!
Ela pôs o computador no chão e sugeriu que ele visse seja lá o que tivesse lá.
Me posicionei para o mesmo.
Parecia o desenho de um chapéu vermelho num fundo branco, até que uma voz veio de lá. Distorcida com algum filtro eletrônico, falando em inglês.
—Ao que minha intuição diz, vocês, o instituto ainda vive. De alguma forma escaparam do navio afundando, devem já ter percebido que aparelhos eletrônicos não funcionam propriamente nesta área do Triângulo das Bermudas, isto, podem agradecer a mim. Indo aos negócios, todos os convidados do navio ainda estão vivos, eles foram meramente capturados. Seu líder certamente já está morto, levem seu corpo para este endereço e libertarei os reféns, é isso. Esses termos não podem mudar, nada do que disse é discutível.
Após ouvir isso, olhei ao redor e vi imediatamente quem ela podia se referir.
Dei um, dois e três passos para o alcançar e olhando de perto, ainda tinha vida nele, certamente ainda estava entre os vivos.
—Ei, do que ela estava falando?... A Yui não era a lider de vocês...? E... ela nem se feriu ontem...
O chapéu, ele me fez lembrar no mesmo momento daquela sombra que havia encontrado na outra noite, aquela pessoa quase matou o Otsuka, mas só isso, eu sequer a vi depois.
Os membros do instituto ficaram muito sérios e o resto da viagem foi coberto de tensão. Eles não falaram mais de quem era a pessoa da mensagem, nem com o que eles haviam se envolvido.
Chegamos em terra e eles afirmaram que nós só deveríamos ir para casa, não pediram nosso endereço, nem deram mais dicas de quando voltaríamos a nos encontrar.
Quando íamos nos despedir, fui o último a ir embora, o antropólogo era o único deles conosco.
E quando estávamos sozinhos, lhe disse, num tom que não fosse possível ser esquecer, com palavras que sangravam meu desejo:
—Se possível, não se envolvam conosco, se é este caderno que nos torna parte de vocês, tome ele então.
Lhe estendi aquele caderno, porque o deixei cair nós fomos determinados para ter que seguir os passos do instituto, mas… isso estava errado, nenhum de nós éramos como eles, mesmo que nossos números fossem os mesmos, nossos olhos, nossas almas tinham cores diferentes, não acreditava naquilo, nessa decisão.
Ele prontamente pôs a mão sobre meu pulso, empurrando o caderno de volta a mim.
—Tu não és o que és porque o caderno caiu em vossas mãos, eres tal pois tem vocação. O caderno então é de tua propriedade para fazeres o que desejar, todavia, é de nosso desejo que o use para o bem, está é a principal diretriz do instituto.
—Isso é uma coisa que não posso seguir cegamente. Acho ótima a determinação que vocês têm em ajudar os outros, porém não é algo que posso compartilhar.
—Tuas ações falam mais alto.
—Salvei quem estava na minha frente, quem estava em perigo, isso é um instinto humano, o mais primordial que nós temos, nunca poderia me arriscar por algo que não conseguisse entender, como o mundo ou o universo inteiro, entende?
—O darei tempo, lhe daremos quanto tempo conseguirmos.
—Com licença.
Então, por muitos dias, o instituto sumiu.
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