Capítulo 5

Minha Vida, Nossa Jornada

E dessa vez, diferente do último capítulo, o uno e único a escrever serei eu.

Dia 9 de maio.

—Une! O que você está fazendo por esse caminho? Você não devia vir pelo outro lado?

—E o que você está fazendo sem a bicicleta? Ela foi capturada porque o governo tentou descobrir a fonte da sua energia infinita?

—Não seria mais fácil eles me capturarem?...

Alguns eventos estranhos não me isentam das responsabilidades de um adolescente comum, por isso estava indo para a escola e no caminho achei a Une, o que não era nada normal, não só era estranho ela ter decidido ir para escola naquele dia, como eu a ter encontrado no caminho.

—E aliás, o que é o seu humor hoje? De fazer teorias da conspiração?

—Você está sabendo do novo rumor sobre o instituto?

“Na mosca”

—Mais um... você insiste tanto, qual é a organização do grupo afinal? Quem são os membros?

—Parece que são 4 membros, mas as descrições, quase todas, são vagas. É bem lógico que estejam tentando passarem apercebidos.

—Quase todos? Algum deles foi... digamos... catalogado é a palavra?

—Não diria tanto, mas é quase certo que o líder deles foi, segundo o que vi ele é um homem, um pouco mais alto que o normal e com cabelos brancos, algumas fontes falam que ele tem a pele pálida também, mas isso soa estranho, a parte dele usar um sobretudo cinza também.

Conforme ela descrevia, eu tentava montar a imagem daquela pessoa na minha cabeça, era esquisito suficiente para me fazer não querer pensar mais.

—Agora entendi porque ele é o único que sabemos da aparência, alguém assim ia chamar atenção onde quer que fosse.

—Mais por ser alto ou por ter cabelos brancos?

—Bem... ele é velho?

—Isso varia um pouco, apesar de algumas pessoas dizerem que parecia alguém com pouco mais de 20 anos, o consenso atual é que ele esteja ainda no ensino médio.

—Então... ele ter cabelos brancos, claro, isso não é natural.

—Pessoas altas não chamam atenção então?

—Bem... acho que ninguém presta atenção em mim ou na Roi, se nós tivéssemos cabelo branco seria bem extravagante.

—Há! Me encontre no esconderijo logo depois da aula, por favor, temos algo muito importante para discutir.

—Bem... certo.

Nem imaginei o que seria.

Une é muito perspicaz, como subestimei ela assim? Nunca devia ter me aproximado dela, jamais. Ela descobriu tudo, o meu maior segredo.

Sem perceber isso, fui assistir a aula.

Mais tarde, durante a chamada:

—Ambrose...

—Presente!

“Apesar de tudo que aconteceu nos últimos dias... por aqui, na escola, acho que nada precisa mudar, não que esse desejo vá se manter”

—Jack...

—Ah?...

—Saia da sala, por favor.

—Sim... espera! Como assim?! Só por eu não ter respondido com animação?!

—Não. Vá para biblioteca e conserte a janela, não tente mentir, eu vi você caindo no arbusto.

—Droga... mas espera, como eu vou consertar uma janela? Isso é possível...?

—É sua hora de descobrir. Fiz questão de que nenhum equipamento adequado lhe fosse provido para isso.

—O que...?

Presenciei um milagre da engenharia antes do intervalo começar, mas tarde demais para assistir a aula, pelo menos peguei o professor saindo da sala.

Louis Forscher, esse era meu professor, digo, não que fosse o único, mas era o único que tinha simpatizado.

Com uma camisa social vermelha de vinho, um pouco esfarrapada e meio solta, a gravata que sempre chamava atenção com onze prendedores, todos de cores diferentes, a impedindo de sequer se mover, todas as vezes que o vi, seu cabelo castanho estava bem penteado, seus óculos limpos e disfarçando discretos sinais de falta de sono. Com tudo isso, além do seu rosto que era estranhamente liso, ele parecia bem mais novo do que devia ser de verdade.

—Jack? Já desistiu?

—Consegui consertar, não entendi exatamente como, acho que algum deus engenheiro quis me ajudar.

—Você realmente conseguiu... incrível.

—No sentido mais exato da palavra?

—Sim. E nisso, estude da página 55 até a 81, foi o que passei hoje.

—Tudo isso?! Logo quando estava fora da sala?

—Não seria “quando você estava fora da sala” e sim “pois você estava fora da sala”

—Professor... eu sei que posso ser inconveniente as vezes..., mas não é para tanto.

—Claro. De qualquer forma, bom trabalho em consertar seu próprio erro, você voltou para o zero.

—Só o zero? Se essa fosse minha nota eu iria ter que passar por um treino de mente e corpo bem intensos, prefiro evitar essa situação.

—Antes você estava no negativo, agora você não tem nada lhe limitando, diria que estar no zero é a melhor situação para o começo da sua vida adulta.

—Não vou conseguir manter isso por tanto tempo... falando nisso, professor, não tem nada demais nisso, foi só por causa de um desenho antigo que meu amigo falou para eu assistir, mas por que você virou professor?

—Bem... já me perguntaram muitas vezes isso, inclusive outros alunos... isso não é bem certo, mas eu menti todas as outras vezes, vou fazer uma exceção para você e dizer a verdade.

—Agora estou genuinamente interessado, pode começar da facção criminosa que você se envolveu quando era mais novo.

—Mais novo? Esse tipo de sentença implica que ainda sou novo.

—Arg!... Não acredito que você está quase com 40! Se colocasse alguma maquiagem e talvez dessem um jeito de disfarçar os seus ombros você poderia se misturar com os outros alunos, fácil!

—Dizer assim faz parecer que é ruim, como se eu parecesse uma criança ainda...

Eu sabia que ele estava só brincando com aquele rosto choroso, mas acabei continuando:

—De um jeito bom, eu acho que ia gostar de não ficar com o rosto marcado com a idade e tudo, não ia fazer meu estilo.

—Entendi, inclusive, se ajuda, também menti sobre ter quase quarenta para provocar mais reações.

—Ah, então você tem o que...? Vinte?

Sua afirmação, apesar de feita sem o menor drama... ela poderia mudar tudo sobre Louis, se ele realmente só tivesse vinte e alguma coisa... ele seria só um homem adulto normal.

—Não faz tantos anos que fiz trinta.

—AH!

“Qual a diferença?! ”

Tentei pegar um lápis esquecido de uma mesa e atacar ele com isso.

Ele em resposta, usou uma caneta para mudar minha trajetória e então tirar o lápis da minha mão, que então voou de volta para cadeira.

—Não mexa nos pertences dos seus colegas sem pedir.

—Arg... obrigando pela bronca, o que você ia contar de verdade?

—Eu estava passando pela escola... achei a arquitetura bonita e resolvi trabalhar aqui, sabe, ser um adulto.

—É isso?

—Sim.

—Você não foi para faculdade com plano nenhum? Você não tinha um doutorado incrível e coisa do tipo?

—Onze deles para ser preciso.

—Isso é possível? Onze doutorados com menos de quarenta anos e parecendo um adolescente de voz grossa e ombros largos?

—Hum, você realmente não entende os limites da minha determinação.

—Então... o que você fez com esses onze diplomas? Um monstro de Frankenstein?

—Vou lhe corrigir que na obra original, Frankenstein não era um doutor, ele parou de estudar ainda na faculdade para criar seu monstro.

—Certo, certo, vai logo para o ponto.

—Eu tentei criar a poção do amor.

—Ah...?

—Brincadeira, não é como se falsificar amor fosse possível, mas é verdade que eu estava tentando entender isso, seria mais acurado dizer que tentei criar uma formula do amor.

—Não é bem o que imaginei vindo de você na verdade..., mas por que tantos?

—Biologia para saber o que nos faz sentir amor, química para compreender sua composição, física para entender a gravidade, matemática para aprender sobre formulas, história para...

—Está bom já. Entendi o seu ponto, mas o que te deu todo esse interesse? Não é algo que você consegue normalmente, digo, não ia ser um amor platónico sem graça que ia te levar a isso.

—O seu sim? A sua confissão foi muito boa, não melhor do que a que fiz durante a apresentação de um trabalho, mas ainda assim boa.

—Até você já sabe...?

—É uma cidade pequena, até o fim da próxima semana todo mundo vai estar sabendo.

—Nisso, o que seu doutorado em amor diz do que aconteceu?

—Nunca mais diga que tenho um doutorado em amor, soa bem mal. Sobre suas chances... diria que é igual a minha idade, usando porcentagens de 0 até 100%

—Sua idade de verdade ou sua idade aparente?

—A idade a qual você insiste em dizer que eu pareço ter apesar da falta de evidências objetivas e não-circunstanciais.

—Isso é...

—Caso você esteja prestes a dizer algo como, “mas 5% é muito baixo” lhe aviso que se fizer isso vou quebrar a janela e colocar a culpa em você.

—Assim vou ter que virar um santo para não pagar o conserto!

—Hum, que conhecimento interessante você tem, pelas suas notas nunca achei que seria capaz de trazer um fato à tona sem mencionar “foi o que ouvi de um amigo” ou “li numa revista de ficção cientifica”

—Isso é tão estranho assim? Não é algo que todo mundo sabe? Como que para ser um santo, você precisa fazer dois milagres? E sobre isso... eu só fui para igreja da cidade algumas vezes...

—Ao mesmo tempo você está numa banda de rock e tem cigarros na mochila, você sabe que depois de se confessar precisa se arrepender do que fez?

—Ei! Você sabe que aquilo é só chocolate. Só parecido suficiente para ninguém tentar arrumar problema comigo.

—Sim, sim, aquela cartela de verdade você achou no chão, eu acredito nisso.

—Ah... conversar com você é muito difícil, suas respostas não tem fim? Eu nunca posso vencer?

—É divertido falar com você, sabe... não, desculpe. Ia falar algo que minha posição de professor não me permite continuar. Não posso lhe desencorajar assim.

—Como?... O que isso quer dizer?

—Você vai entender quando for mais velho, agora por favor saia e entregue o lápis de coelho para sua colega antes que ela saia da escola. É o favorito dela.

Já tinha conversado com ele suficiente para entender, ele não tinha tanto tempo assim para ficar perdendo comigo, quando dissesse para eu correr e ir fazer algo, o deixando sozinho, eu só deveria o fazer de uma vez, portanto...

—Está bem. Começa a contar para mim.

Entrei na posição, mãos no chão, corpo inclinado.

3... 2... 1... JÁ!

Disparei, em direção a porta, mas não tinha o lápis comigo, fiz um movimento suave para o pegar e manter minha velocidade.

—AHHHHH!

Não tão suave, acabei tendo uma pequena crise, para não bater de cara na parede, tiver que fazer uma virada muito brusca para o outro lado.

Isso me fez sair com mais do dobro da velocidade planejada pelos corredores da escola.

E para piorar, tive uma crise e não tinha coordenação suficiente para parar sem ter que me jogar de nariz no chão.

—Não! Não! Não!

Estava gritado para as pessoas, elas saiam do meu caminho para não serem a primeira pessoa a morrer por atropelamento em décadas.

Quando a crise acabou, estava a vinte metros de uma parede, naquela velocidade devia ter pouco mais de dois segundos antes de bater.

Por sorte, não precisei decidir o que fazer.

Tudo porque alguém da escola não tinha empatia pelos outros, ao mesmo tempo que gostava de bananas.

Escorreguei e propulsionei pelo ar, dando vários giros até bater de costas na parede.

RRRRRRRRRRAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

“Qual era a forma, digo, formula mesmo? Era força sobre massa igual a aceleração? Não, força igual a massa vezes aceleração? Acho que sim, mas por que é massa vezes aceleração em vez de massa vezes força? ”

Pelo menos, por ainda mais sorte, o meu grito atraiu a atenção da dona do lápis, eu entreguei a ela e disse para ela ir, imaginei que alguém da enfermaria ia chegar logo, se não chegassem eu iria me arrastar até minha casa, era bem possível.

Agradeço por essa segunda opção não ter se tornado realidade.

Dois alunos que eu não reconheci me levantaram por cada braço, me ajudaram a chegar na enfermaria, lá não tinha muito que eles pudessem fazer, apenas me deixaram na cama, iria descansar até conseguir andar de novo, mesmo com a força do impacto, não diria que seria mais do que uma hora.

E nessa hora...

—Queen... sobre aquilo do outro dia...

Ela finalmente tinha passado por lá, estávamos sozinhos, era a hora H.

—O que? Sobre aquela carta? Você já pensou no que fazer sobre?

Ela falou isso, com um rosto bem neutro, ainda puxando e sentando em uma cadeira ao meu lado.

—Não... isso é importante, mas agora não, sobre o que aconteceu mais cedo, enquanto estávamos estudando.

—Ah... sim... não, não, foi só uma frase que você lembrou de um desenho, não é? Só algo assim...

“Sem pestanejar, vamos nessa”

—Não. De jeito nenhum, o que eu disse realmente foi o que sinto, desde que nos conhecemos e da forma mais sincera.

—Ah...

Essa reação... tinha sido indecifrável, eu tinha usado toda a coragem que tinha, ainda assim, estava já sentindo meu coração batendo forte suficiente para fazer meu corpo pular um pouco por cada batida.

“Preciso continuar...!”

—Era isso. Queria saber se você entendia meus sentimentos, desde que os aceite pelo menos como genuínos, será suficiente para mim.

—Ben... euh... eu não devia dar uma resposta agora...?

Essa pergunta era outra pergunta estranha dela, mas eu não ia fugir, não ia desviar, iria ir contra ela de frente.

—Quando se decidir, tipo... eu também queria mais um tempo para te impressionar, a partir de agora vou fazer tudo pensando em fazer você dizer que aceita, está bem assim?

—É... oui, sim, vamos fazer desse jeito, não sei bem o que ia dizer se fosse agora...

“Eu ainda tenho uma chance!”

—Ótimo... finalmente posso dormir... falando nisso... que sono...

Finalmente, percebi que as sobrecargas de 3 conflitos de altíssimo nível tinham me deixando sem dormir por duas noites.

Cai no sono, acho que antes de terminar minha frase.

Tive mais um sonho, outro sonho estranho...