Ostium: Diamond
21 Capítulo 15
Interlúdio
Visita ao Futuro
Dia 13 de junho.
Nossa investigação e guerra aos corsários continuo... mais ou menos estável, o máximo que uma luta desse tipo poderia estar.
Já sabendo onde os reféns estariam, continuamos pelos dias seguintes em dois grupos, um passeando pelo litoral, na verdade em busca do exato lugar onde os corsários se escondiam. Sem se separar dessa vez, claro. Eram entre dois até quatro de nós por vez... três ou cinco talvez seja mais preciso... considerando minha sombra.
O outro grupo, não consistindo de mais de duas pessoas, contando apenas com nossos membros mais espertos, Une, Ritte e Queen. Eles tinham de resolver o mistério de uma forma menos direta... eu diria.
Depois de pedirmos para saber sobre a “ciência estranha” do instituto, eles resolveram que mostrar seria mais fácil, por isso nos deram a localização do esconderijo deles, apesar de nas palavras do Otsuka:
—Nós não vamos tanto para lá... vou tentar arranjar alguém para recebe-los de todo jeito, por favor, vão o mais rápido possível.
E não iriamos entender o motivo de imediato.
Resolvi que iria também, temendo o pior, assim, por ainda vários outros motivos, todos nós acabamos indo, a Une, Queen e o Ritte eram os que conseguiriam decifrar o que aconteceria. A Roi... bem, eu não cheguei a perguntar, para dizer a verdade...
O motivo deles não usarem o esconderijo tanto ficou claro muito rápido, ele estava na antártica, havia um ostium lá, mas ainda assim tivemos de caminhar por alguns quilômetros pela neve, nosso guia era a bussola e a ordem deles de “só sigam e entrem na primeira caverna que acharem”
Foi claro que o frio não fez tanto efeito em mim, porém estava preocupado com todos os outros, prestei atenção se eles não iriam colapsar em algum ponto.
Mas talvez tenha esperado pouco demais deles. Nenhum de nós fraquejou, da Roi isso era esperado, porém os outros nunca me saltaram como fisicamente aptos daquela forma, talvez tenha sido apenas convicção que movia eles, essa parecia ser a maior força do mundo para mim.
Dentro da caverna, depois de avançarmos até o fundo dela, havia um alçapão grande de aço, como a porta para um bunker.
Eu o abri, estava bem enferrujado e até parcialmente congelado, contudo, ao notar dificuldade, houve uma curta intervenção.
“Vamos ver o que podemos fazer juntos, servo”
Após isso girar a porta e a empurrar foi tão fácil quanto abrir uma garrafa de refrigerante, sutilmente minha força havia aumentado bem além do que seria capaz normalmente.
E então, descemos pela escada longa e escura, num túnel apertado até o esconderijo de verdade, o nome dele, ainda segundo o Otsuka era “Saiko Verstoplats” não fazia ideia do significado daquilo, nem tinha interesse suficiente para pergunta.
Ao pormos pé no chão, numa sala com cheiro de ferro e gelo uma dezena de vezes mais forte do que a do trem encontrado a alguns dias, vários fios coloridos passando pelas paredes, mas com uma arquitetura imitando uma sala de estar, tendo até uma televisão e lareira. Ninguém podia deixar de estranhar.
Para nos receber, como tínhamos apostado que seria.
Amun Kennis, Lestat, como as vezes chamavam o galego.
Não o único, ao lado dele ainda havia outra pessoa, uma garota de longos cabelos ruivos, Amélia Williams, ou Firewall, imagino.
—Graças... ótimo que tenham chego a tempo, por favor, deixem os agasalhos por aqui, como veem, o esconderijo é quase completamente aclimatado, as roupas normais de vocês serão mais que suficientes.
Senti ter os movimentos parcialmente inibidos por aquelas camadas de agasalhos, essa boa notícia foi mais que bem aceita.
Os dois irmãos focavam avidamente em ouvir e explorar suas áreas de interesse por todo o esconderijo, a Une estava se impressionando com o instituto ter uma base subterrânea tão grande, pois conforme andamos e andamos... aquele lugar não parecia sequer ter fim.
Mais, havia todo tipo de sala lá, quartos, cozinhas, escritórios até, tudo em meio a dezenas de salas cheias de aparatos científicos, tudo era bem desgastado e parecia prestes a estourar pelo menor deslize.
Para aumentar o sentimento de o quão vasto era, durante uma fala a Une acabou interrompendo o Amun, perguntou o tamanho da base, a resposta dele não me deixou certo de qual sentimento expressar.
—Apesar de já termos a base em nossa posse a um tempo considerável, não chegamos a explorar todos os andares, nem todas as salas.
—Somos ocupados (se surpreenderiam com o quão frequente nos envolvemos em mistérios e casos estranhos. E quando ocorrem... não é como se houvesse mais alguém para os resolver)
Amélia complementou, com aquele olhar que fazia sua voz ressoar na minha mente, bem diferente do que a garotinha vampira pode fazer ocasionalmente, porém o efeito prático acabava sendo parecido.
Não tínhamos ideia do tempo exato, ainda assim, eles tiveram pelo menos meses para explorar o lugar, ainda assim, os dois confirmaram ter várias salas as quais ninguém pôs os pés.
Depois ambos continuaram sua explicação, alternando como se tivessem ensaiado aquilo dezenas de vezes, pelo que entendi, os dois eram os mais familiarizados com o esconderijo, Firewall em especial, não demorava um instante para explicar a função de toda sala a qual passamos.
Lestat enquanto isso, contava sobre a ciência exatamente, não pude seguir depois de certo ponto, mas entendi que um cientista, o antigo dono do esconderijo era o desbravador dos campos os quais podiam ter as respostas buscadas.
Depois veio os termos técnicos e... era algo sobre “almas” ou “qualia” e isso foi o meu limite, os outros pareciam ao menos entender algo, porém estava distraído com outras coisas.
“Nunca desejei vir ao continente congelado, mal havia humanos em meu tempo, parece que isso não mudou muito”
—Sim. Pelo o que a Franziska disse, você parece ter só memorias até o tempo entre a primeira e segunda guerra mundial... isso foi a mais de um século...
“Bom teres a perguntado. E correto, misteriosamente, por alguma razão, não tenho certeza do que houve, estava num vazio e repentinamente... neste tempo, já ligada a você”
—Outro mistério para ser resolvido...
Deixando isso de lado, depois do tour no esconderijo, parecíamos ter conseguido um conhecimento a mais considerável, contudo, os dois não pareciam ter concluído algo de verdade, não conectaram todos os pontos, assim diria.
Usando um modo de exploração mais seguro, indo em grupos de dois a três, por vários dias não tivemos nenhum encontro com corsários. A localização exata do esconderijo deles ainda não é determinada, infelizmente.
Mas não falta muito... estamos cada vez mais perto de os achar, quando isso acontecer, a batalha chegará ao seu fechamento.
E assim, de volta ao tempo atual.
Capítulo 15
Pela Vida, em Nome da Morte
Dia 22 de junho.
Domingo as 7 da manhã. Já havia saído de casa a essa hora. A nossa última batalha se aproximava, conforme a localização do esconderijo dos corsários tornava-se cada vez mais clara e no ritmo o qual o mês estava próximo de terminar.
“Ela parecia ter outro plano, nós já avisamos isso ao instituto, o que não os fez voltar em sua palavra, ainda devíamos ter até o fim do mês, segundo eles”
Mas temia as palavras que ouvi, se fosse um plano tão maligno, caso ela realmente tirasse algum poder de atos malignos...
As duas rodas da minha bicicleta pararam, havia quase batido numa parede e joguei os pés no chão para parar o movimento, um segundo a mais e podia até ter derrubado aquela parede.
—Essas construções antigas... elas parecem prestes a cair a todo momento... ainda assim... vim por vontade própria.
“Servo, estou sentindo algo ruim... estas planejando entrar?”
Enquanto ouvia esses pensamentos, meu foco se dirigia a enorme cruz sobre a construção, essa que devia ter alguns séculos também, talvez sendo tão velha quanto a vampira na minha sombra.
—Parece que não tenho nenhuma fraqueza a crucifixos. Tente não sair por enquanto...
“Espere! Não pensas em entrar?! Estás...”
—Desculpe por isso, mas sentir que precisava, não é como se fosse um hábito. É que o peso das minhas ações está chegando em mim...
“...”
Não houve mais protestos, imaginei ser seguro de pôr os pés na igreja.
Quando estava a um passo de lá, o quão absurdo aquilo era se tornou óbvio para mim, um dia tomei a decisão de usar tudo possível para vencer, reconhecendo o poder de meu inimigo, até mesmo usar poderes providos por um ser que vive do sangue de humanos, uma existência que por si só era um pecado.
E mais, não é como se apenas tirasse poder duma fonte profana, eu era a fonte, um meio-demônio, sequer entrar lá parecia uma má ideia.
Ainda assim o fiz.
—...!
Como se por um instante, uma luz forte tivesse se projetado pelo portal, bloqueando minha entrada, uma segunda porta que não podia ser aberta.
Na verdade, uma permissão negada, não tinha um convite para entrar lá, não mais.
—Entre, mas não demore muito.
Já sabia o truque usado, Alice havia saído da minha sombra.
Olhei para a direita e ela já estava num dos cantos da igreja, o sol estava do lado oposto ainda, essa sombra duraria ao menos algumas horas.
—Por que...?
—Tu tens permissão, sempre tivestes. A única imperdoável sou eu mesma. Viver pelo sangue doutros é imperdoável, entretanto, tu não carregas culpa. Entre logo.
Me voltei para o portal, quando vi, um de meus pés já estava do lado de dentro.
Apesar de receber a permissão, ser reconhecido como ainda digno disso, não pôde sorrir.
Continuei andando em silêncio, meus passos ecoando por toda a construção, anunciando minha chegada, mesmo sem ver nada, ouvia passos além dos meus, corações batendo em ritmos diferentes me indicavam a presença de pelo menos meia dúzia de pessoas na construção.
Essa longa caminhada vazia, onde tentei pensar, mas nada me vinha, foi o que me levou ao confessionário, nunca havia feito esse rito, nem pensei em fazê-lo tão cedo, até aquele dia, talvez já houvesse culpa suficiente para me mover sem necessidade de minha própria determinação.
O confessionário era exatamente como imaginava, apertado, mas não me sentia restringido, escuro, porém podia ver tudo claramente.
—Senhor padre... pode me ouvir...?
—Claramente, obrigado por vir, espero que encontre paz de espirito aqui.
Era a voz do velho padre, ele parece ter trabalhado na igreja desde criança, agora ele já era um idoso, sua voz um pouco fraca, precisava se esforçar um pouco para a fazer sair, ainda assim ele veio me ouvir.
—O que traz um jovem como você a confessar?
—Hum... é que... você já viu... demônios?
—Eles estão por toda parte, as vezes manifestando-se sutilmente, encontrou-se com um?
—Sim... algo parecido... uma vampira... ou... algo parecido...
Após uma curta pausa, ele respondeu:
—Fazia décadas que não ouvia sobre vampiros. Meu pai contava sobre haver um lar próximo dessa cidade. E ainda assim, nunca em minha vida presenciei um eu mesmo. Imaginei se todos ficaram melhores em se esconder... ou se apenas deixaram nosso mundo definitivamente.
—Não sei também, mas acho que agora eu sou um deles... uma vampira está numa espécie de... ligação comigo, como se nossas almas fossem uma... foi o que entendi...
—Eu sinto muito, criança, é infeliz que passe por isso.
—A culpa é minha... aceitei isso como se fosse normal... decidi me aproveitar disso... tomar esses poderes para mim, agora... o que vai acontecer comigo? Para onde...
—Shh... não diga mais, está assumindo aonde sua alma ira, mas não cabe a tu, nem mesmo a mim de decidir isso. Diga, a quanto tempo isso aconteceu.
—Foi no dia 9, nesse mês.
—Você tomou o sangue de outrem?
—Não... de jeito nenhum, ela está se alimentando do meu sangue, mas eu mesmo ainda estou comendo como alguém normal.
—É infeliz... não posso lhe livrar desses pecados, pois sua alma não pertence apenas ao pai. Absolvição se tornou impossível, a menos que retiremos as impurezas, mas temo... não ser uma opção.
—O que? Por que?!
—Está seguro aqui. Não fale mais alto...
—Sim...
—Pois não vi você pedir um exorcismo, sentiu compaixão pelo demônio que se ligou a você, seria esse o caso?
—Não posso negar...
—É apenas normal, ela pode assumir a forma de um humano, isso engana nossa natureza, nosso desejo de ajudar nossos irmãos. Mas não deixe isso lhe levar a um caminho sem retorno, o que você viu não é nada como nós, não está vivo e não pode ir para o céu ou inferno após morrer. Você, no entanto... não deves deixar o desejo agora imbuído em seu corpo e alma lhe desviarem do bom caminho. Me ouve? Por favor, volte quando desejar executar um rito para purificar-lhe definitivamente... já ouviste esse salmo? “Se teu olho lhe faz tropeçar, arranca-o, lança-o fora de ti; pois te é mais proveitoso vir ao céu com um de teus olhos, que com todo o corpo ser lançado ao inferno...” “E se tua mão lhe faz tropeçar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te é melhor ir ao reino dos céus sem uma de tuas mãos, que com ambas, seja lançado ao inferno”
—...
Estava assolado de tristeza, desespero ao ver o caminho que me encontrei, mas ainda assim, meu corpo era incapaz de chorar. Uma das maldições recaídas sobre mim.
—Aceitarei sua confissão. Nada dito será usado contra ti, mas não esqueça do perigo que corres a cada dia, estarei rezando por ti, pois enquanto estiver assim, não deves o fazer.
Com a cabeça olhando para o chão e caminhando vagorosamente, fui em direção da saída.
“A... a... el... ela... deve estar me...”
Sem ter o que pensar, com tudo resumido para mim por outro, as dúvidas do que havia feito acabaram, era certeza de que havia tomado o caminho errado, só poderia viver assim, até que pudesse achar uma chance de o mudar.
—O que houve?
A voz de um homem veio, não podia sequer considerar o encontra-lo lá, ele continuou:
—É bom tentar não tropeçar, mas se só olhar para o chão, você não vai poder mostrar um sorriso para ninguém.
—Nacrit...?
—Faz um tempo, não é? Espero que esteja cuidando bem de não se machucar feio outra vez.
—O que está fazendo aqui?...
—Eu gosto de vir as vezes, é calmo, quieto também... me lembra do que estou defendendo também, esse legado...
—Ah, certo...
—Bem, eu acho que estou te interrompendo, seu rosto parece o de um pai que deixou a filha em casa para trabalhar e está voltando... apesar que espero não ter acertado em cheio.
—Claro que não, isso seria... ugh...
—De qualquer forma, siga as placas, garoto, você vai precisar.
Nacrit passou por mim, batendo no meu ombro em passada.
“Talvez ainda não possa ficar contemplando o quão miserável eu seja, tem pessoas com a vida em risco por minha causa, deixar isso continuar não seria diferente de as matar eu mesmo”
Com esse pensamento, eu emergi da igreja de volta para o lado de fora, para o verde das arvores e azul do céu, naquele dia, não haviam nuvens a vista.
—Demorastes bastante... também estava próximo ademais do limite, cheguei a sentir vossa alma se partindo...!
—Ah, desculpa Alice... bem, pode vir, estamos voltando para casa. Quando chegar acho que devia tomar um pouco do meu sangue... pode ajudar.
—Impressionante... nunca vi um humano que não havia sido enfeitiçado oferecer o pescoço tão habilmente...
—Já desperdicei muito mais do meu sangue por motivos fúteis... fúteis... o que isso significa?
—Não precisa elaborar, consigo imaginar que tipo de estupidez vosmecê estaria envolvido no passado, vamos.
No momento que emergi ao sol, notei uma sombra que não era minha se formando no chão. Algo como a sombra de uma garota alguns vários anos mais nova.
“Por enquanto, a minha vida será assim... foi essa a escolha que fiz, o futuro é apenas isso, no momento só tenho de continuar vivendo”
Meus sapatos encaixaram nos pedais. Havia ainda muito chão a correr para mim.
Logo após, voltei para casa e deixei a vampira tomar do meu sangue novamente, não foi um grande problema na primeira vez e desde então parece que só tem ficado menos dolorido.
“Apesar que as marcas de mordida... espero que dê para fingir ser só parte de uma fantasia”
—Estou muito pálido...? É bem difícil de ver sem um reflexo.
Fui para o banheiro checar por reflexo, então comecei a conversar com o reflexo da Alice, um substituto que talvez fosse ainda mais chamativo do que não ter um reflexo.
—Poderia estar pior.
O reflexo podia se movimentar sem meu comando, ela disse que era mais como se a sombra e o resto fossem uma ilusão baseada na sombra e reflexo dela do que qualquer outra coisa.
A próxima parte do dia, a mais longa também começou.
De volta a costa dos Estados Unidos.
Por causa do que houve da última vez, nós estávamos num grupo maior daquela vez, comigo tinha a Roi e a Franziska.
—Por onde começamos...?
Questionei, pois já havia esquecido onde tínhamos parado no dia seguinte.
—É por aqui, já estamos bem longe de onde começamos. À mon avis... eu diria que não está tão longe.
A Queen falou isso, porém nada que soubesse confirmava ou negava isso, poderia estar perto, longe, muito perto ou muito longe do objetivo e não teria ideia.
Olhei para a Roi, ela estava um pouco intensa, as sobrancelhas tendo espasmos novamente, como o que houve mais perto do começo desse mês.
De qualquer forma, começamos a andar. Aquele mistério não podia ser resolvido de outra maneira. Conversas alternativas e teorias não ajudavam muito, se fosse assim, definitivamente não estaria junto das duas.
—Queen... não estamos demorando muito para achar esse esconderijo deles? O fim do mês não está tão longe mais, os corsários podem ter um plano maligno também, o que você acha?
—Tivemos de desacelerar as buscas para não sermos emboscados separadamente, mas isso não é problema, já passamos por muito território, d'ailleurs, mais ainda, nós vimos os dois vilões por perto.
Só agora tínhamos voltado para as proximidades de onde os vilões tinham se encontrado. Pensei que podia ser perigoso voltar tão cedo.
Agora... pensando bem, foi uma ideia ruim, onde há fumaça, há fogo e onde há vilões, pode haver um esconderijo. Não mudava o quão perigoso aquele ponto parecia, toda rua flutuava entre extremos de multidões onde quase nos perdíamos uns dos outros, até umas com o sentimento de “estar quieto demais”
Tínhamos chegado cedo e o fuso-horário na verdade nos deixou procurando algumas horas sob o escuro, mas o sol apareceu, com ele se foi uma das minhas garantias de que podíamos nos defender de uma emboscada.
Ainda assim, depois do sol subir ainda ficamos 5 horas procurando, sem sucesso.
Bem, depois dessas horas, no entanto, houve algo sim...
Passávamos por um bairro bem menos populoso, as multidões tinham sumido por lá, mesmo a Franziska não podia sequer supor o motivo da falta de pessoas, isso me deixou muito suspeito de tudo ao redor, especialmente algumas casas...
—Olhem... não tem algo esquisito vindo de lá?
Notei uma casa pequena, de vidros arrebentados e com uma pintura malfeita.
As duas sentiram algo também e me seguiram até lá.
Circundando a casa, o terreno parecia anormal também, notei sinais de um jardim, contudo todas as plantas estavam mortas a tempo, a terra onde elas foram plantadas num tom cinza, tal qual passado por uma queimada a anos.
E as nuvens se formando deixavam mais claro o que a aura do ambiente devia ser.
Não havia cores, tudo aos arredores da casa era cinza, nenhuma diversidade, o vibrar do azul do céu se foi com as nuvens, essas já carregadas para fazer outro tom escuro, a pintura senti tentar expressar cor, porém sendo reprimida pela atmosfera do local, era incapaz.
—Sem dúvidas tem algo de errado nessa casa, deve valer a pena investigar.
Concordamos sem precisar falar mais, andamos um pouco e até olhamos para os lados, procurando janelas.
Desnecessário.
Quase podia ouvir isso vindo, assim que a porta levemente se abriu, não notei nenhum vento forte suficiente, talvez a porta só estivesse tão quebrada assim.
—Roy, Jack, tomem cuidado, a priori... digo, a primeira vista pode parecer seguro, mas essa invasão ainda é um crime, ok?
Ela fez questão de mencionar isso, para não ficarmos convencidos demais, eu acho.
—Damas primeiro...?
Olhei para a Roi ao contar isso, ela não deu nenhuma reação a mais, como imaginei, apenas tomou a frente e foi a primeira a entrar na casa.
Em seguida, estava eu, cheguei em frente a porta, a puxei mais um pouco e foquei na intenção de entrar naquele movimento, mas...
—Não posso entrar...
Falei isso, não entendi imediatamente o motivo, mas tinha certeza que naquela exata situação, da forma a qual me encontrava, não podia dar mais um passo.
—Jack? O que houve?
—Franziska... parece haver algo um pouco diferente do que imaginava.
Troquei olhares com ela, então dei um passo para trás, voltei a olhar ao interior da casa, através do portal, quando a resposta soou em minha mente, na voz não comum, a que já tinha me acostumado.
“Estava tentando entrar sem um convite? Isso funcionava em casas a qual você entrou em vida, mas uma nunca antes vista é fora dessa exceção”
—Tem alguma forma de burlar isso...?
“Bem... não, mas isso pode ser interessante para você, se essa regra se aplicou, o dono dessa casa, seja quem for, certamente ainda está vivo”
—Franziska, essa casa tem um dono ainda, ele está vivo, tenho certeza.
—...? Onde você viu isso?
A reação dela era de claro incomodo, as sobrancelhas arquiadas e o rosto pendendo para os lados não mentiam, mas minhas respostas não ajudavam...
—Eu apenas sei. Não posso entrar assim.
—Isso não soa como você... não falou nada disso quando olhamos as outras casas... et j'en passe... e também, você parecia disposto a entrar na casa a poucos instantes...
—Vou explicar depois, agora ia demorar muito. Pode ir na frente, vou ficar de guarda do lado de fora, a Roi é até melhor para esse tipo de exploração que eu...
Com uma expressão irritada, a Queen entrou na casa também, eu fiquei do lado de fora, sentado e observando se alguém se aproximava.
—Não estava sério, sim? Humano?
Apesar de estar apenas nublado, ela fez questão de se materializar ao meu lado.
—Você sabe a resposta... não precisa me fazer dizer...
Alice continuou ao meu lado, pacientemente esperando que continuasse minha frase, porém, não houve mais palavras e ela foi forçada a recuar quando as duas saíram da casa. Ninguém mais se aproximou enquanto elas estavam dentro.
—Já voltaram?
—Sim, sim, olha isso, Jack.
A Queen tinha uma fotografia nas mãos, até a ver eu não conseguia imaginar o que uma fotografia ajudaria, ainda assim, com afinco, eu a segurei...
Quando a vi em minhas mãos...
—Jack? Você viu algo?
Parecia só a foto de uma garota, não muito mais nova que eu, ela parecia olhar para algo fora do quadro... e olhando bem, eu percebi que podia sobrepor aquela foto com os arredores, ela tinha sido tirada em frente a casa, poderia achar até o ângulo se quisesse.
Mas... realmente era só uma garota de cabelos pretos em uma foto em preto e branco, a composição e as roupas, além da dica de uma certa pessoa me fazia ter a hipótese de...
“Parece uma foto tirada no fim do século 19, o que pensas? Notei como as fotos do seu tempo tem cores”
E ainda assim:
—Não vejo nada de especial nessa foto. Acharam alguma outra pista?
—Jack! Você não está vendo?! Não se parece com ninguém que você já viu?!
Olhando por aquele ângulo...
Ainda não tinha ideia do que a Queen esperava me questionando assim.
Me levantei e entreguei a foto novamente.
—Hum... não faço ideia, se você for direta talvez possa dar uma resposta melhor, só que sem isso... err... essa foto não me parece nada especial.
Tentei entregar a foto a ela.
—Ah bon?... achei que pudesse estar perto daquela vilã, pensei que não entrou por ter sentido a presença dela por perto...
—De onde você tirou essa? Não tenho como detectar a capitã como um radar só por ter chegado perto de morrer nas mãos dela umas duas ou três vezes.
Queen não iria a aceitar novamente, por isso guardei a foto comigo, caso encontrasse a capitã novamente, poderia comparar as duas, talvez a confrontar até.
—Também achei isso.
A Roi tinha em uma mão a peça de um telescópio, sem esperança de conserto, na outra, uma maleta marrom, num estado até bom.
Ela nos fez irmos para atrás de uma arvore, num parque até longe da casa, onde deixamos a aura de preto e branco, desejando nunca mais voltar.
No parque, escondidos pela sombra de uma arvore, abrimos a maleta.
—Ah! Uau! Isso são...
Diamantes, esmeraldas, safiras, dezenas de pedras preciosas fazendo um arco-íris encapsulado. Ver uma fonte de a riqueza me deixou especialmente atento aos arredores.
“Ainda não há ninguém por perto”
Pensei, só ouvindo o bater de coração de nós três.
—Ninguém normalmente guardaria tantas pedras preciosas numa maleta em uma casa abandonada, né?
—Bijou...? Mas o que são essas joias...?
Queen perguntou para si mesma, então pôs a mão em um dos diamantes. Os olhando de perto com algum cuidado...
—O que você quer dizer? Elas parecem pedras preciosas. O que mais?
—Fausse... fausse, fausse... parecem falsas...
Enquanto os olhos passavam por todas as gemas que eu a mostrava, a constatação dela era a mesma.
—...! Todas falsas?!
—À mon avis. É o que parece...
Tentando perseguir uma conclusão, eu entreguei a maleta em suas mãos e a deixei ver de perto, perseguindo ainda...:
—Isso diz algo pelo menos? É uma pista?
—Por que seria uma pista?... Digo, err... na verdade... em effet! Digo, sim! É uma pista, lembrei agora! Os corsários parecem se apoiar em alguns negócios legítimos também, como a venda itens luxuosos, ouro e outras joias, por isso...
—Eles estão procurando um tesouro escondido então...? Tem um mapa com “X” também?
Ela já parecia estar no limite daquele raciocínio, esse já soando como um tiro no escuro, minha fala não parecia... melhor, ela definitivamente não ajudou.
—Non... bien sûr que non... só que o telescópio e a foto se ligam aos corsários... Jack, você ouviu a capitã falando algo sobre o espaço? Talvez da mesma forma como Ben Verrat estava envolvido em uma ciência oculta...
“Talvez se eu tentar cooperar com essa linha mais um pouco, só mais um pouco...”
—Hum... talvez... sinto haver essa conexão, ela até que fala bastante, mas nenhuma sentença faz tanto sentido assim. Imaginando que seja o caso, você teria uma pista?
—Precisamente, não estamos tão longe do condado de Brevard, ainda não o exploramos, há uma pequena área com população bem baixa na costa, d'ailleurs, acima disso... lá tem um centro espacial.
—Ah...! Entendi a conexão!...
—Não passa de um palpite...
—Estamos a horas procurando a cegas o esconderijo deles, isso não deve ser nada ruim, Roi, o que você... Roi...?
—Ah!
A Roi havia sumido, enquanto só tinha olhos para gemas e cristais... ela havia ido embora.
Na mesma hora eu me levantei para a procurar, olhando ao redor com olhos e ouvidos.
—Não deve ter ido tão longe...
Ainda ouvia o coração dela batendo. De alguma forma ele não mudou de ritmo assim que ela sumiu, só assim poderia ter a perdido desse jeito.
E realmente, ela não foi longe.
—Roi... por que você está atrás da arvore?... Pensei que íamos a usar para nos esconder.
—Vamos à Brevard? É isso?
—Estava ouvindo então... e sim, esse é o plano, o que você acha? É um tipo diferente de tiro no escuro, mas eu confio na Queen.
—Assim será. Iremos, imagino.
—Queen... você ouviu...
Não importava quantas vezes me encontrasse com as respostas neutras e sem emoção que a Roi sempre proferia, elas sempre me desconcertavam.
No fim, colocamos o telescópio quebrado na mala e eu resolvi que ia a carregar por enquanto, não era pesado, mas a ideia de transformar a mala em uma arma, como num filme me soou divertida.
Menos de uma hora se passou.
Já tínhamos nos afastado bastante dos sinais de população, agora nossos pés eram cobertos pelo verde da grama alta, indo até nossos joelhos, a terra estava meio molhada, claro, pois no horizonte ainda podíamos ver um rio, aparentemente as vezes ele sobe e molha a terra, explicando a vegetação.
Indian River Lagoon
Foi o que uma das placas falava, parecia um nome bem longo, ao perguntar a Franziska o motivo...
—Na verdade esse é o nome da junção de três rios, acho que os nativos chamam de... Mosquito Lagoon, Banana River e o... Indian River. Tome cuidado quando estivermos perto, tem bastante animais por perto, nenhum é especialmente perigoso... o problema na verdade é como alguns deles estão em perigo de extinção...
Foi o sumario da situação que a Franziska deu enquanto andamos, eu na verdade fiquei bem impressionado quando percebi o quanto ela sabia sobre esse canto que... sinceramente não parecia importante até ele virar suspeito de esconder os corsários.
—Entendi. Isso explica por que não tem muitas pessoas por aqui. Vamos acelerar e tentar não perturbar a natureza demais.
Quando me concentrei, era como ela dizia, ouvia sinais vagarosos de vida por toda parte, o que interpretei sendo o coração de animais menores, não sabia o limite dessa audição, no entanto, logo era impreciso quanta vida podia medir.
Apesar de ter ouvido insinuação de animais maiores não tão longe de onde estávamos, felizmente, nenhum se aproximou para sequer ver se eram perigosos.
E depois de mais uma hora caminhando na lama e empurrando grama para longe de nós...
—Ho! Tem algo ali!
A Franziska foi a primeira a notar, daquela distância o que parecia só um ponto preto para mim, não podia nem diferenciar de uma sombra, mas minha visão era um pouco ruim mesmo...
Roi, no entanto, agiu logo.
—Jack, o binoculo.
Passei o binoculo preso na minha cintura para ela, nos abaixamos, esperando diminuir nossa visibilidade o máximo possível.
—Zut!... ainda bem que essas calças eram velhas...
—Falei que era uma boa ideia.
Respondi a Franziska se lamentando, não sei se ela lembrava das outras dezenas de calças no armário dela, ou sobre o dinheiro, porém isso eram só distrações, foquei na Roi descrevendo o que via:
—A construção parece parcialmente submersa... metade dela, diria, é enorme, do tamanho de uma fábrica média.
—Tem um exemplo melhor?
—Suficiente para esconder o navio dos corsários.
—Isso foi bem melhor...
—Parece ter holofotes sobre a construção, alguns homens estão acima também... parecem carregar armas de fogo, todas de longo alcance, creio eu.
—Só pode ser...!
—Vejo algumas luzes por dentro, também. A construção parece ser feita de material reutilizado, só vejo tons de preto e cinza, alguns buracos também.
—Roi, são corsários mesmo?
—Estou vendo uma mulher no chão... ela porta uma arma de fogo nas costas, um fuzil. Na cintura... é uma cimitarra, parecida com a de alguns corsários...
—Brincadeira...! Me deixa ver só um pouco!
Ela tirou o binoculo no mesmo instante e deu nas minhas mãos, eu pus meus olhos nas lentes e... exatamente como ela disse.
“Sua busca incessante enfim deu frutos, não é?”
O tempo estava próximo de terminar, os corsários tinham mais planos do que era previsto, foram mais de 100 horas andando pela costa e enfim...
—Eles perderam essa... se esconderam muito bem, porém as pistas deixadas se mostraram muito além de suficientes...
Com a ajuda de todos, usando todos os recursos ao meu dispor, mais um passo foi dado para a derrota absoluta dos corsários.
Algo que os faria se arrepender de cada ato maligno cometido por eles, por jurarem lealdade a capitã, o suficiente para não haver dúvida do resultado.
E claro... havia um alivio, não estava aguentando ver os dias passando sem termos achado o esconderijo deles, aquilo nos deixava sem opção de ataque. Isso mudava tudo.
—Foi bastante tempo onde estávamos apenas na defesa, dos ataques, os resgates e as emboscadas... agora a luta irá para o lado deles...
Novamente, um pouco menos de uma hora depois...
Já consideravelmente longe do esconderijo dos corsários, ainda no condado.
Para comemorar, mais ainda, porque havia tentado o fazer a algum tempo, eu perguntei a Franziska se poderíamos ir para um restaurante, nada tão chique dessa vez, claro, apenas para comemorar que fomos nós a achar o esconderijo.
A Roi cuidou de sumir enquanto escolhíamos a mesa, meus sentidos diziam que ela estava no restaurante, a menos de um grito de distância.
Essa vez foi bem diferente do nosso último encontro, sem as roupas bonitas, apenas aqueles trapos sujos de lama e folhas, comendo batata frita e suco. Nem parecia ser quase a mesma situação de antes.
—Franziska... será que os corsários terem vindo no dia do nosso encontro tinha sido uma coincidência...?
—À peine. Seria muito difícil eles planejarem algo assim, você lembra que só teve a ideia um dia antes? E ainda, au fait... digo, seria estranho, não?
Novamente, ela dizia a verdade. Realmente não importava se havia passado por lama e grama a algumas horas, ou se estava só em uma lanchonete barata, quem eu via em minha frente, a Franziska... ela era realmente só uma pessoa.
—Nisso, Jack, o que foi aquilo na casa? Já temos tempo suficiente, pode explicar agora?
Sendo assim... eu sabia que essa pergunta viria eventualmente, é natural, ela não o fez por maldade, pelo contrário, eu tenho certeza que suas intenções eram boas, contudo...
“Servo... pensei bastante sobre isso. Considerei exercer minha influência e o proibir de falar, você notou isso, tenho certeza, contudo, não o irei fazer, peço encarecidamente a ti para não contar a ela. Isso apenas lhe trará maus agouros, entretanto, deixarei a decisão final e legitima a vosmecê”
Era verdade, temia esse poder dela, porém no fim, ainda imaginei que não o executaria, havia algo de humano naquela vampira, na Alice, isso é.
—Sim... é meio difícil de falar, mas bem... sabe quando nos conhecemos?
Aquela não foi bem a frase em minha mente, estava tão distraído com outros pensamentos, então foi essa a primeira sentença que me veio.
—Vagamente, foi a quase oito anos, talvez nove ou até dez.
Mas essa resposta foi absolutamente inesperada, quando a recebi, havia uma linha do tempo para mim onde havíamos nos conhecido no início do ensino médio, o que nem de longe foi a oito anos.
—Como...? Não lembro tão bem... você pode recontar?
—Sim, vou dizer o que ainda leimbro*, lembro algo assim...
Fale com o autor