Capítulo 13

Sombras e...

Dia 10 de junho.

Olhei no meu relógio, o dia passou assim que todos se reuniram.

Tanto nós, cada um de meus amigos:

Une, Ritte, Roi, Quenn.

Assim como os membros do instituto:

Otsuka, Yui, Amun, Kiu e Firewall, assim eu os conhecia.

Por mais que nem todos estivessem exatamente focados... notei pelos sons que a Une e a Firewall tinham ido para a mesa de trabalho e pelos cliques de metal, deviam estar fazendo alguma invenção, ou algo parecido.

A Yui e o Otsuka ao menos estavam um ao lado do outro no sofá preto, dessa vez o garoto de cabelo branco não estava com um quimono, era... uma espécie de uniforme, foi o que imaginei graças a algo parecido com um emblema no peito, contudo a cada vez que lembro, tenho mais dúvidas da minha conclusão.

O Amun também, ele pegou uma cadeira e estava pacientemente esperando a sua hora de falar. A Kiu parecia não conseguir se sentar e estava atrás do Otsuka, com as mãos indo de um lado ao outro do sofá, rasgando ele um pouco com as unhas.

O Ritte e a Franziska ficaram do outro lado, quase opostos aos membros do instituto, com a Roi quase espelhando a Kiu.

Eu, enfim, tomei meu lugar isolado, em um canto onde tivesse destaque.

—Valete, esse esconderijo que vocês têm é... diferente do nosso, um café pode ser mais confortável, porém este canto é bem mais isolado, permite maior modificação, também, imagino que muitas melhorias possam ser feitas... sim?

O Otsuka falou, estava prestes a responder, mas:

“Teus aliados? Vosmecê envolveu-te com figuras interessantes, factualmente, até gostaria de sair e conversar pacificamente com alguns, aquele de cabelo branco em especial”

—Não fale agora...! Deixe para depois!

“Perdão. Irei observar quietamente, se me permite”

—Valete? Falou algo?...

—Só que... vamos logo ao ponto, isso aqui é só uma caverna que tomamos para nós, nada demais. Podem ignorar.

—Suka-kun, posso começar? Já devia mencionar como aqueles corsários eram de um culto? Devia contar também sobre o vilão que eles buscaram aqui?

Apesar de já ter começado, a Yui esperou o aceno para continuar.

—Você, o Delsteen-san e a Mounteur-san encontraram corsários, eles eram do grupo que nós encaramos, os rogues, apesar de agora servirem a capitã, eles têm algum tipo de obsessão com o vilão que nós derrotamos e aparecem em locais dizendo estar procurando-o, não achamos o padrão ainda, contudo esperamos que deixem de ser problema por agora.

—Eles... usam armaduras medievais...? Une, você viu também, eles não estavam com armaduras e capuzes? Tinha um com uma espada enorme também.

—Lembro vagamente.

Ela respondeu, mas voltou-se para a sua bancada novamente.

—Pois sim, Delsteen-san, eles são bem esquisitos, imprevisíveis, porém certamente nada espertos, sendo sincera, eles provavelmente foram afetados muito, muito negativamente possivelmente graças a terríveis experimentos, ou apenas graças as atrocidades que testemunharam. Cheguei a ver um dos rogues que você derrotou...

Pude ver um tom mais sombrio conforme ela lembrava daquele homem, uma voz que se arrastava, os lábios se torcendo e olhos para o chão:

—Não tenho duvidas de sua mente foi distorcida, talvez além do ponto de ser salva...

—Como assim...? Eles são loucos então? E o que de tão ruim aconteceu com eles?

Perguntei aquilo, os olhos da Yui agora me encaravam e tinham uma cor forte, ela não parecia ter gostado do que eu disse, mas antes dela falar:

—Pois sim, Ben Verrat é o homem mais maligno que já pôs os pés na terra.

Otsuka começou, então passou a mão pelos cabelos brancos e pretos, então segurou a franja acima do rosto, continuando a falar.

—Alguns foram enganados e o ajudaram crendo fazer o bem, esses... são os restos da maldade dele, é nosso trabalho acabar com esses rastros, vocês só precisam pensar nos corsários.

—Ben Verrat era o...?

Franziska se pronunciou, quando então ele deixou a franja cair e a respondeu:

—Um vilão. Como a capitã. Ele queira usar o que sabia para benefício próprio, se tivesse sucesso, nosso mundo estaria condenado, na verdade... imagino que pior... ainda assim, é tudo hipotético, acho que nenhum de vocês devia pensar nisso.

—O que fizeram com ele afinal? Esperam que vençamos contra a capitã, o que isso seria?

—Está preso, num canto fora do mapa, num país sem nome e em uma região isolada, com a cela feita especificamente para ele, pela única pessoa capaz de criar uma estrutura que o parasse.

—Quem a fez? Você?

A Franziska fez a pergunta, como era o esperado. Eu também havia silenciosamente assumido pelo tom dele, o tom de hostilidade, que teria sido ele a fazer uma prisão para tal vilão.

—Ele mesmo. Pode parecer insano, mas acima de tudo ele era orgulhoso, depois de perder, Ben Verrat cooperou com seu aprisionamento diretamente, uma vez visitei ele e... talvez não devesse ter o feito...

Dia 24 de dezembro, ano passado.

Ele ainda estava numa prisão normal, bastou dizer que... bem, o importante foi conseguir falar com ele, era véspera de natal, porém havia um tempo sobrando para mim, antes de ir passar o dia com os outros.

—Otsuka...? Por que está vindo? Até onde sei por onde você mora, nesse dia não era para estar saindo com a sua namorada, o Japão tem essa forma de comemorar o natal, é absolutamente compreensível, não é como se houvesse tanta presença cristã por lá.

—Por que? O que é essa prisão feita por você mesmo? Esse esquema...

—Foi feito para que nem eu mesmo possa escapar. A única maneira de fugir seria se me tornasse melhor do que era antes, até lá, seria perda de tempo minha e de vocês fugir só para ser preso novamente. Não se preocupe, farei uso da vida que decidiu poupar, um dia voltarei, esse será o fim do instituto.

Dia 10 de junho, presente.

—Foi isso, foi o melhor possível. Ele é o pior mentiroso que já vi, por isso não tenho dúvidas de suas palavras... era o certo... imagino...

—Um segundo... não, chega, ele está preso, é isso? Vocês têm certeza?

—Sem dúvidas, Valete, foi como disse, ele é um péssimo mentiroso. Mais, Ben Verrat é nosso inimigo, não precisam sequer considerar como lidar com ele.

Um momento passou para esquecer tudo sobre esse inimigo do passado, no fim, ele realmente nunca seria uma ameaça direta para mim mesmo, ou meus amigos.

“Vou deixar o Ritte falar, ele está mais ciente da situação em geral”

—E enfim, por que vocês vieram? Ainda mais todos vocês, imagino não ser bem algo simples de fazer.

—Ah, claro. Decidimos nos apresentar propriamente, ainda mais depois de alguns problemas que a Kiu me contou.

—Não continue com isso.

Depois da troca deles, cada um deles se apresentou, não com apelidos e codinomes, nomes reais, o que eles davam valor por alguma razão:

—Deve ser a primeira vez que a maioria me vê acordado, me chamem de Otsuka, espero o suporte de todos no futuro.

—Não sei se será uma surpresa, mas... meu nome é Yui Sasaki. Se quiserem posso contar como se escreve também.

—Creio haver dito antes, entretanto o repetir se faz necessário, meu nome é Amun Kennis.

—Annie Miller, esse é o meu nome.

“O que todos esses apelidos significam? Kiu não tem nada com o nome dela...”

—Amélia Williams (me avisem da próxima vez que formos fazer uma apresentação)

“Firewall... acho que consigo até entender o porquê...”

E após ouvir os nomes de cada membro, precisando acelerar a discussão, resolvi pergunta:

—Vieram falar dos reféns? Só um palpite, foi algo assim?

—Decerto, creio assim, Jack, nós desejamos que façam essa parte, perseguir, procurar pistas, por fim, um resgate, depois daquele ataque ao esconderijo conseguimos um bom tempo para vocês, o resgate precisa ser feito, portanto, o limite de tempo será até o fim desse mês, mais precisamente, à meia-noite do dia 1 de julho.

—AH?! COMO!?

Num instante recebemos as pistas que eles tinham, ouvimos sobre outros planos.

Logo após o motivo da Une estar tão focada naquela construção, o motivo dos cliques de metal era um comunicador unicamente feito para contatar o instituto.

—Usem (mas apenas quando necessário. Diga que estou grata pela Mary ajudar na construção)

E quando notei, eles estavam indo embora, antes de ser tarde, os questionei uma última vez:

—Como podemos fazer tudo isso? Quase morri mais de uma vez contra esses corsários, imagino o que os outros...

Então Otsuka respondeu, com os olhos que não piscavam e visão que se estendia além das paredes da caverna e das arvores da floresta.

—Se lembro bem, nós conseguimos fazer algo parecido, não deve ser tão difícil para vocês. É o que acho...

Depois eles sumiram.

E com isso, nós precisávamos decidir por nós mesmos mais um item.

—Vamos? Queremos mesmo ir contra os corsários?

Mais cedo eu decidi por todos eles que daríamos ouvidos ao instituto, seja lá o que eles tivessem a dizer, agora, faltava nossa resposta.

—Vamos, Jack, decida isso por mim, ontem pude decidi a quem devo confiar. Penso que se formos poderia ao menos garantir nossa segurança, se nos escondermos e focarmos em nos defender, no entanto, haveria um resultado similar.

“A Une tinha bastante entusiasmo antes com o instituto, não posso nem chutar qual conclusão ela chegou para mudar tanto, mas agora, minha escolha conta como a decisão de duas pessoas... é uma responsabilidade que preciso me dispor a carregar”

—É a coisa certa. Se nós podemos vencer contra o mal, ignorar seria o pior crime que podemos fazer, pessoas inocentes estão em perigo...

O Ritte apesar de parecer indiferente a justiça, para ele ignorar um ato maldoso, uma injustiça é inaceitável, sinceramente, foi com ele que aprendi como não conseguir ignorar alguém em perigo é parte da natureza humana.

“Mas agora... ainda posso dizer isso? Essa atitude ainda é da minha natureza primordial, ou...”

—Pode ser perigoso, mas se não formos todos juntos, vai ser ainda mais perigoso.

Não tinha dúvidas sobre a Franziska, ela não tem a natureza de lutar, mas eu acho que o pensamento das vidas que estavam em jogo a faziam pender para que nós agíssemos.

—Falei... uma arma serve tanto para defesa, como para ataque.

“Portanto, agora a usarei para atacar. Imagino que a Roi estava pensando em terminar a frase assim, talvez esteja certo e talvez...”

De uma forma ou outra, ela quis melhorar minha defesa, porém meu ataque também era importante, ainda mais numa situação dessas.

Com as decisões tomadas, só faltava que eu contasse o resultado:

—Após todos se expressarem, eu declaro... até o fim desse mês, iremos apagar os corsários da face da terra!

Foi a minha decisão, a nossa decisão, não de ninguém mais, iriamos vencer.

“Vini, vidi, vinci, é o teu plano, humano?”

Eu havia subido em minha bicicleta e começado meu caminho de volta para casa, havia sido o ultimo a sair do esconderijo, agora, entre uma piscada e outra, na cesta onde antes eu levava doces para o esconderijo, havia aparecido uma vampira, bem, uma espécie de vampira que parecia uma garotinha.

—Foi muito cansativo essa reunião? Ver tudo pelos meus olhos e ouvir meus pensamentos deve ser tão irritante.

—Até que és um exemplar dentre tua raça, assim vejo. Vi casos piores através dos séculos.

“Cheguei a esquecer disso, tem uma vampira comigo agora, minha sombra sumiu também. Ao menos não acho que alguém tenha percebido”

—Obrigado pelo elogio. Temos que conversar sobre essa relação esquisita quando chegarmos, ao menos decidir exatamente como resolver tudo.

—Decerto, se assim que pensas...

Quando ela piscou para mim, sua forma lentamente virou algo diferente, como uma forma de escuridão, talvez sombra ou fumaça negra e entendi que ela havia voltado a fingir ser minha sombra.

Logo cheguei em casa, deixei minha bicicleta do lado de fora, precisei subir pela arvore, não cheguei a avisar sobre minha saída, não devia ter esquecido a chave.

“Subir parece um pouco mais fácil hoje, talvez de tanta prática eu consegui virar um mestre da escalada?”

—A quanto tempo... poder mover-me é libertador.

Dizia a vampira após sair de baixo da minha cama.

—Hum... vampiros ainda precisam descansar... isso devia ser de dia, mas... parece que sou imune ao sol, não vou mudar minha rotina.

—Um momento, humano. O que está planejando?

—Err... acho que tem problemas de longo prazo também. Esses prefiro deixar para amanhã, em umas cinco horas preciso pegar minha bicicleta e ir para escola sob a forte luz do sol. Isso podia ser um problema.

—Isso o que pensas? Não o resto da tua vida?

—Me dê um tempo, ok? Na verdade, o que você acha? Por quanto tempo poderia ficar escondida como minha sombra todo dia?

—Não há limites. É meramente um incomodo.

—Isso ajuda. Para essa noite...

“Definitivamente não queria mais alguém sabendo disso, portanto, melhor desviar atenção o quanto puder”

—Vou fechar as cortinas, trancar a porta e assim podemos evitar o sol, enquanto isso vou dormir no sofá, assim meu pai não vai procurar nada aqui.

—Humano?!

Apesar de notar que estava encarando menos de um resquício de uma verdadeira vampira, o tom que ouvi me fez acordar de novo, a voz dela ficou mais alta do que deveria, aquelas palavras repentinamente pesavam mais.

Então fiquei em silêncio... quando ficou claro que ela não falaria mais, me foquei, tentei “ouvir” a alma dela e... logo entendi:

—Ah... preciso perguntar... isso de estar ligado a um humano deve ser bem irritante para uma vampira de verdade, como resolvemos isso?

—É assim que tu desejas? Vosmecê entendes o que pode alcançar tendo as forças dum “vampiro” sim?

—Mesmo assim... e voc-

—Não és incomodo. Diria até... trata-se duma chance única, a de viver como semelhante a um humano, algo quase-vivo, mas ainda morto... portanto não pense em mim, tome tua decisão da forma mais adequada a ti.

“Um vampiro... sei que eles tinham uma capacidade de sobreviver impressionante, considerando que sequer tenho fraqueza ao sol... iria ter uma vantagem enorme sobre os corsários, mas... ser um morto-vivo não me agrada, poderia manter essa ligação até a derrota deles, só que... se aproveitar de alguém desse jeito, mesmo não sendo exatamente uma pessoa... não tem como”

—Acho que não é sua intenção de influenciar minha escolha, por isso irei com o que realmente desejo, que é sermos separados assim que possível. Há uma forma de me transformar novamente em o que era na manhã do último dia?

—Claro. Sempre há como voltar atrás. Será trabalhoso, pode demorar, assim como poderá ser perigoso. Entretanto não o fara sozinho, o suportarei, humano.

—Bem... tomara que tenha paciência, estou bem ocupado com outras coisas pelos próximos dias, mas vou usar todo tempo livre para trabalhar nisso.

—Faça em teu próprio ritmo, humano.

—E sim, o sofá não é tão longe, não deve ser problema eu dormir lá, perdão, mas não sei como poderia trazer um caixão para o quarto tão cedo...

—Uma noite desconfortável não será nada. Terás muito trabalho a tua frente, descanse enquanto pode.

Fechei as cortinas, chequei o quarto todo por outros caminhos que o sol podia entrar.

—Você só tem fraqueza a luz direta, é assim, né?

—Correto, reflexos não são mais de um incomodo, luz direta, no entanto, nenhum vampiro poderia manter sua forma por mais de um segundo sob ela.

“Sempre imaginei que fosse o caso, se eles temem tanto a luz, o efeito deve ser devastador...”

Estava saindo do quarto, quando pensei um pouco e... apesar de parecer uma má ideia, podia sentir algo vindo da vampira, não me vinha vontade de deixar de confiar nela, por isso fiz só uma pergunta.

—Só uma pergunta... você não vai fazer nada enquanto eu durmo, claro, né...?

—Estou desgastada também, preferiria não me mover por algumas noites seguidas, na verdade.

—Tranque a porta, só uma precaução.

Disse isso e a fechei, então desci as escadas.

Enfim senti sobre o que ela falava, cada passo parecia haver alguma energia sendo sugada de mim, quanto mais me afastava, vida deixava meu corpo, lentamente, porém parava se não me movesse.

Cheguei a temer ir além da escada, porém com um passo por vez, cheguei no sofá.

“Devo estar bem perto do limite... sorte minha ter sido suficiente...”

Quando me deitei no sofá, senti minha temperatura caindo lentamente, tentei me cobrir, mas... não parecia estar funcionando, apesar disso, dando tempo suficiente, minha mente se perdeu nos pensamentos de acordar amanhã na minha cama, como se tudo até agora fosse um sonho.

Imaginei acordar novamente no dia logo antes do show, refaria tudo? Iria ao cruzeiro? Me encontraria com o instituto? Ou... a vampira ainda vai estar comigo no próximo dia...?

Em meio a essas perguntas, perdi a noção do tempo e quando vi, estava olhando para o relógio da sala, ele marcava que faltava apenas uma hora para as aulas, todas minhas 5 horas de descanso se perderam num instante.

Novamente.

Dia 10 de junho.

Apesar das minhas esperanças, eu acordei no sofá, quando olhei para a televisão desligada, tentei focar no pouco reflexo que ela fazia, logo notei que eu não estava lá, assim como minha sombra não se projetou no chão quando levantei.

—Jack...? Você dormiu no sofá?

—Foi... cheguei cansado e... ah! Preciso correr, a aula vai começar!

—Era o que ia dizer. Mas tome cuidado, tenho um mal pressentimento sobre hoje... não dormi tão bem...

“Talvez isso tenha sido... não, não lembro de nenhum mito sobre vampiros atrapalhando o sono de humanos diretamente, digo, sem a pessoa ao menos ter noção da presença do vampiro”

Subi ao meu quarto, como imaginei, ele nem tentou abrir.

Mas eu mesmo o fiz, entrei, fechei a porta novamente e falei num sussurro leve:

—Está na hora...

Sem me responder, uma sombra lentamente apareceu por onde antes a minha estava, crescendo da forma de um recém-nascido atingindo rapidamente a forma de uma criança.

“É a primeira vez em centenas de anos em que fui acordada por alguém sem intenção assassina, porém devo dizer como dormir num aposento de vivos não foi tão mal quanto minhas lembranças contavam”

Com isso, tive a confirmação, o que houve ontem não foi um sonho, mesmo percebendo isso, fazia tanto tempo que nem pude entrar em pânico, só respirei profundamente e disse:

—Prepare-se... o dia será longo, assim como a noite...

“Servo, o que desejas contar-me com isto, estas prestes a ir onde? Ira usando aquele seu veículo estranho? Bicicleta foi como chamastes”

—Você não sabe... sua memória está com algum problema...?

“Decerto, creio que junto de minha forma e poderes, tenho de ter perdido alguns séculos de minha vida. O mundo parece bem diferente”

—Bem... não sei quando isso foi inventado, mas sim, vou usar ela para ir à escola. Não é tão anormal agora. Você parece saber o que é uma escola.

“Claramente, já ouvia desta palavra quando era viva, infelizmente não muito mais que isso, usarei suas memorias para suplementar-me”

—Só posso confiar em você... é assim, não é?

Não ouvi uma resposta.

Deslizei pelo corrimão, disparei para a porta, a abri e fechei no mesmo instante, quando percebi já estava na bicicleta.

—Isso foi um pouco mais rápido que o normal...

E acima de tudo, quando olhei para cima, pondo minha mão sobre a testa e tentando proteger os olhos, vi o sol sobre a cidade.

“Servo, parece que estava certa, enquanto estivermos nessa forma. Teremos as forças que precisas, porém, nenhuma fraqueza, como um hibrido, um meio-humano”

—Do que me chamou...?

“Notei vosmecê incomodando-se quando o chamava apenas de ‘humano’ e tomei a providência devida. No entanto, lembrar os nomes dos vivos é um trabalho demasiado árduo, entende isso?”

—...

Não consegui responder, mesmo querendo, ficar ofendido era difícil por alguma razão, talvez porque sabia bastante, lembrei como vampiros pareciam ter hábitos de transformar humanos em mortos-vivos e fazer deles, “servos” de certa forma, era isso o que estava acontecendo.

Enfim, resolvi deixar ela usar o termo que fosse mais conveniente para se referir a mim. Argumentar com uma sombra seria o pior uso de tempo que consigo imaginar.

Durante o caminho, no entanto, lembrei das falas dela e comecei a fazer outras perguntas:

—Você disse sem fraquezas... só que isso não é bem verdade, minha sombra ainda é a de uma criança, meu reflexo também acho, talvez até precise me preocupar com outras coisas...

“Claro, pois não somos um hibrido verdadeiro, somos duas metades imitando um, é apenas natural que haja imperfeições. Entendes?”

—E mais isso, híbridos? Existem algo como um meio-vampiro de verdade?

“Claramente não. Entretanto há de outras criaturas sobrenaturais, um princípio claro é esse, dois meios acabam sendo melhores que um inteiro, um hibrido possui menos fraquezas e mais forças de seu sangue. Não imagino tu encontrado essa informação em livro algum, sei após testemunhar o princípio em prática por séculos”

—Sangue...

Alcancei a esquina da escola, mais uma virada e estaria de frente.

Naquele caminho havia um beco, nunca havia prestado muita atenção onde havia ou não sombra antes, mas naquele espaço entre duas casas, nenhum sol poderia bater, meus olhos bateram e se fixaram naquela sombra, uma que parecia até perfeita...

Mas com um segundo, ao olhar para a sombra que fingia ser a minha, eu voltei a andar.

“O que houve? Senti dúvidas vindo de vosmecê, mas por apenas um instante, sequer pude observar”

—Perdão... queria conversar, mas preciso chegar na escola a tempo e...

Teria de passar um dia comum sem ninguém perceber o que houve, talvez nem meus amigos devessem saber ainda, muito menos um possível inimigo.

—Você tem alguma dica...? Esconder minha sombra é uma ideia muito estranha...

“Nunca pensei nesse problema, ninguém perceberia a falta de sua sombra a noite, lhe desejo apenas sorte”

Sorte... isso é algo que poderia apostar realmente.

Tentei manter atenção aos meus arredores enquanto caminhava à sala, nesse dia realmente prestei atenção como as janelas do meu corredor não refletiam nada, o que podia salvar minha vida.

Entretanto a sombra era algo ainda mais difícil de se esconder.

—Jack, obrigado por chegar antes da hora outra vez.

—Louis... professor, a quanto tempo... digo, não faz tanto tempo assim, mas... esse relógio não está me ajudando em nada.

—As máquinas não podem fazer de tudo. Nem consertar qualquer problema. Apesar de poderem prever quedas... as vezes...

—Sem lembrar disso, já expliquei. Estou entrando na sala agora e vou me sentar...

—E preste atenção dessa vez, se você tirar notas ruins o problema é meu e vou precisar dar um jeito de resolver.

—Não olhar quando estou trapaceando nas provas seria uma grande ajuda...

E chegar na sala de aula, a primeira fase passou sem o menor problema.

“No fim as pessoas não prestam atenção na sombra dos outros, é o que aparenta, sim?”

—Definitivamente... pelo menos...

“Servo, percebi também durante a noite algo, agora pareço ter certado, possui algo tal qual uma sorte sobrenatural, sim? Senti a pouco”

—O que... você sabe algo sobre isso? Da minha sorte? Ainda não entendi exatamente nada disso, nem sei os limites dessa habilidade, porém... parece real.

“É sem dúvidas, de tua alma senti uma alteração nas energias em vosso redor, como uma onda, uma pedra jogada no lago”

—E de onde isso vem? Não sabe os detalhes?

“Infelizmente nada que dissesse seria de valor a tu, nem a vossos aliados. Farias melhor se não a compreendesse, tirando... tema interação com tua nova forma... é perigoso”

—A forma de um vampiro...?

“Tua sorte e o que sustenta minha falsa vida são perigosamente semelhantes, algo que não devia ser misturado, como fogo e fogo, juntas fazendo um inferno o qual nenhum vivo ou morto pode controlar. Haja cuidadosamente”

—Más notícias então...

Claro, o quão ruim, o que exatamente tudo isso significava não era claro, estava lentamente entendendo o poder de sorte, porém ainda longe de sequer ter como estipular origem ou o funcionamento exato.

E agora mais um elemento se misturava a isso, era realmente um inferno ter tantos problemas jogados em mim de uma vez, por isso nem pensei em insistir em pergunta mais sobre o que a vampira sabia, não era o dia para isso.

—Vai começar a aula... acho que é de história... se quiser pode ouvir elas para... você quem sabe. Só dizendo...

“O farei. Sem dúvida”

Talvez por algum senso compartilhado, mesmo tentando, desviar minha atenção para fora da aula era quase impossível, quando tentava conversar com alguém, metade da minha atenção ainda estava no quadro, se imaginasse o som de uma nova nota, metade da minha mente imaginava a cidade antiga que o professor descrevia.

Enfim, eu tentei até a aula terminar, sem muito sucesso.

Metade das aulas passaram, agora... intervalo.

—Jack, onde você vai?

O Ritte me esperou sair, mesmo após a sala esvaziar, ele estava sentado e me esperando.

—Err... vou para aquele canto escuro e dormir um pouco, a última noite foi demais para mim.

—Com sôno...? Prestando atenção na aula ainda...? Você está bem diferente mesmo. Será que ainda vai precisar das minhas respostas?

—Sem dúvidas! Eu não prestei atenção em nada daquilo...! Aliás, falando em respostas... como está seguindo com o plano de derrotar os corsários? Aquele monte de papeis do instituto serviu?

Devo ter falado alto demais quando pedi as respostas dele, com a sensação de que alguém estava observando, eu fugi do assunto e abaixei minha voz...

—Tão uteis quanto você imaginaria... acho que le projet está pronto, maz não sei se vai funcionar ainda...

—Claro que não, só vamos saber se algo funciona quando tentarmos. Aquele instituto parecia também gostar de usar esses planos e truques para ganhar vantagem, e eu realmente não acho que eles tinham certeza do que fazer até a ultima hora...

Foi o que ouvi da Une, pelo menos, junto da minha má impressão sobre eles.

—Sim... deveríamos fazer algo assim também, só que... não sei se poderia fazer um planejamento como o Otsuka, nem comme le criminel que eles enfrentaram...

Mesmo sem sair do lugar, o jeito de se mover, como os ombros dele iam de um lado ao outro, parecia que essa não era a primeira vez, a pergunta feita pelo Ritte já havia sido repetida mais algumas vezes.

E para mim, só podia morder meus lábios com a frustração, afinal, com certeza aquele instituto não era normal, sequer imagino o inimigo que os uniria... eu acreditava no Ritte, porém, apenas isso. Uma fé cega não ia servir muito para ele, mas talvez algumas palavras, algo que só eu sabia...

—Nem, nós estamos enfrentando algo um pouco diferente, essa capitã não é nada como o vilão que o instituto enfrentou. Posso falar com toda propriedade, já senti os golpes dela até demais...

E mesmo sem querer admitir, acreditava nas seguintes palavras, as disse tendo certeza delas serem a verdade, para ajudar meu amigo, nada mais:

—Já sabe como tenho uma sorte como a dela, portanto talvez seja eu quem possa entender, mesmo vagamente, o próximo passo da capitã. E... posso estar errado, contudo senti como se ela quisesse explorar mais essa sorte estranha, torna-la ainda mais poderosa talvez. Isso não é nada de meu interesse, ainda assim, senti exatamente isso vindo da capitã.

—É porisso* que ela fez tudo isso?... Tem alguma ideia de qual o plano?

—Nenhum... isso é importante ainda, pois o que importa é que essa capitã não é exatamente inteligente como o vilão do instituto, ela tem mais um “instinto” ou uma “convicção” e por isso é difícil ganhar vantagem, mas Vite...

—...?!

Acabei usando o nome real dele por acidente, isso não acontecia a algum tempo.

—Enfim, eu acho que se você conseguir realmente pensar algo de uma ponta a outra, nós podemos vencer, menos é mais aqui. Tipo... algo assim, você entendeu.

Apesar de eu ter falado tanto e mal feito sentido no final, ele não pareceu perdido em ponto algum, ele havia, de alguma forma, entendido.

—Alguém coum* instinto incrível, em vez de pensar, as suas decisões vem como uma segunda natureza, mas apenas isso?

E de alguma forma, ele parecia agora entender exatamente, ou ainda melhor a vilã do que eu, apesar de tudo, apesar de minhas pernas tensionarem só de pensar em lutar contra a capitã outra vez, parece que nada pode substituir uma mente brilhante.

—Isso mesmo, talvez com alguns encontros eu a entenderia melhor... pff!

Aquilo havia soado como algo que eu não falaria, tentei fazer descaso e ignorar, mas o futuro teria outros planos...

—Inclusive... a Franziska está ocupada hoje?

—Le pr-

—Ah! Lembrei de algo! Preciso ir, tchau!

Falei isso e percebi o tempo gasto conversando lá, então sai da sala de imediato.

Pois eu queria evitar luzes fortes, eu devo ter terminado tomando o caminho mais longo até meu destino, ainda assim, eu acho que ninguém ter percebido minha sombra tenha sido a recompensa, enquanto o fim da escadaria, um ponto onde não havia luz alguma, seria onde poderia descansar.

“Esse seria um bom lugar para pôr um caixão”

—Nem pense... vou ficar aqui para ninguém perceber que a minha sombra é a de uma menina de 12 anos e nada mais...

—Uma menina de 12 anos?

—...!

Estava focando em responder a sugestão absurda da vampira em minha sombra, por isso eu não ouvi os passos de quem descia as escadas, até ela seguir seus instintos e imediatamente fazer uma inquisição estranha... eu não tinha ideia de sua presença.

“Perdão, não a percebi se aproximando”

Descendo as escadas era...

—Queen?! O que você veio fazer aqui...?

—O Brose me diz...ele disse que você tinha descido até aqui, mas do que você estava falando?

—Falando? Eu não estava falando de nada! Absolutamente nada! E se você ouviu algo, garanto que foi só a sua imaginação!

—Entendi...

A Franziska sentou do meu lado, naquele escuro eu só via sua silhueta vagamente, as cores apenas vários tons de cinza. Eu me questionei se minha visão não deveria estar melhor no escuro, mas antes de responder minha própria pergunta:

—E... o que está fazendo?

Precisava de uma resposta de quem estava ao meu lado.

—Você não veio dormir aqui? Vim dizer que podia haver um lugar melhor do que o chão... é um pouco sujo também.

—Não... aqui é bem escuro... e... não tem barulho. Talvez até pudesse trazer um colchão na próxima mesmo... se conseguisse invadir a escola a noite e... nada, melhor não, né?

—Hum, você tem certeza então...

Enquanto ela falava, elaborando sua próxima sentença, meus olhos andaram um pouco pelo cenário, pelo rosto da Franziska... havia notado que ainda eram tons de cinza o que observava, mas a silhueta ficava mais forte, detalhes mais nítidos, por eles meus olhos flutuavam até alcançar...

O pescoço, mesmo sem luz podia ver que era branco como neve, vendo bem... o coração dela estava batendo um pouco mais rápido que o normal... aquela vida... era tão barulhento, não pude pensar em mais nada enquanto ouvia o ritmo de quase noventa batimentos por minuto, um e meio por segundo.

Levemente, sem perceber, comecei a deixar minha garganta um pouco mais aberta, meus dentes ficaram visíveis, mais algum tempo... a ponta das duas presas também, essas também eram fáceis de ver, não eram mais enfeite, elas sempre tiveram força de perfurar pele como se fosse papel e...

—Deite aqui... vou te acordar quando o intervalo acabar...

—Gah!

—Wah!... O que houve...?

—...

Meus olhos estavam vidrados, meu coração parecia prestes a parar, logo antes de disparar, deixando a minha respiração pesada, era difícil falar, por alguns instantes ainda... eu estava aterrorizado...

—Você está tão cansado...? Hum...

Enquanto eu não botasse em palavras o que havia acontecido, ela acabaria tendo que tirar conclusões sozinha, logo:

—...

Mas eu não conseguia, nenhuma palavra iria passar pela minha garganta.

—Shh... bonne nuit.

Soltei meu corpo e aquele cansaço repentino me tomar, aqueles momentos de sono a noite, eles não eram suficientes, porém, talvez aqueles poucos momentos a mais... talvez eu poderia os aproveitar.

Porém, o que havia passado a poucos segundos, a linha de pensamento pela qual fui puxado e milagrosamente resgatado pela sugestão da Franziska... apesar de não entender nada, eu sabia muito bem quem entenderia, assim, com um sussurro que apenas eu podia ouvir:

—O que foi aquilo...?

“Servo, notei uma sensação de dúvida novamente, perdão, isso é apenas minha culpa”

—Como?...

“Essa é a natureza de algo sem vida, mas que ainda não morreu, o instinto de tirar a energia dos vivos. Tu olhaste fixamente a garota, parte dos meus instintos o afetaram, nada mais”

—Você então...

“Faz parte da minha natureza, não fales mais disto pelo momento... depois responderei as perguntas que tiveres, sem falta”

—Ok...

Pude fechar os olhos, eu não precisava dormir muito para me manter, mas parecia que eu não havia dormido nada naquela noite, assim, esperava reparar o erro naqueles breves minutos...

—Jack!

Até a Franziska me acordar batendo na minha testa.

Me levantei na hora, pensei que minha reação seria lenta por ter abaixado a guarda para descansar, isso nem de longe parecia o caso, meus reflexos estavam em seu ápice já, como numa luta.

—Mas já? Queria ter mais alguns minutos.

—Vamos, vamos, diligência para você.

A Queen segurou meus dois ombros, não era como se pudesse fazer ela perder mais tempo naquele canto escuro, iria ter de compensar mais tarde.

Me levantei e...

—Damas primeiro, por favor.

Ser desonesto com isso me causou aflição, porém a deixei ir na frente apenas para esconder como a sombra nos meus pés não era a minha, claramente.

—Queen... o que você sabe sobre vampiros?

—Hum? Por que não pergunta isso a Une?

—Você está mais perto.

Talvez a vampira que fingia ser minha sombra não tenha apreciado tanto o jeito que puxei esse assunto, eu senti algo como um puxão no meu pescoço, cheguei a desacelerar meus passos...

—Beber sangue, uma aversão ao sol... toujours... isso nunca muda, não importa onde você vá.

—Sim, sim...

Tentei acelerar meu passo outra vez, ela não ia parar por mim enquanto estivesse pensando.

—Às vezes eles não têm sombras, às vezes não tem reflexos...

—Isso eu sei também.

Olhei para “minha” sombra e tentei encarar o “meu” reflexo nas janelas... sem sucesso.

—Hum... sabe algo que você não deve saber? C’est très intéressant

—O que?

—Lendas e mitos de vampiros na verdade são bastante localizados, por toda a Europa existem vários mitos parecidos com os de vampiros, o que causa isso varia bastante, mas os resultados... beber sangue, fraqueza ao sol estão sempre presentes, uniquement... apenas aqui

—Como?!

—Quando passamos do continente não há algo parecido, os mortos-vivos dos outros continentes são radicalmente diferentes, na Ásia, Africa e Américas não se originou nada perto dos vampiros europeus... você podia conversar com alguns membros do instituto... eles podem saber mais, a maioria deles não pareciam vir de nenhum país por perto.

Com um tempo perfeito, chegamos na divisão, não queria ir muito para o outro lado, as janelas podiam refletir, ou no meu caso, não refletir e causar suspeita.

—Eu vou, obrigado Franziska, vai estar ocupada hoje?

—Imagino que sim, está com algum plano novo? É outro encontro?

—Calma...! Apesar que, é uma boa ideia... que tal no fim de semana? No sábado.

—...réalisable. É possível.

Mesmo que nada mais desse certo, ao menos eu teria um encontro para ir no próximo fim de semana, com esse desejo realizado, eu acenei e fui em direção a sala.

“Perdão perguntar, servo, que pensas da galega? Pareces enfeitiçado, encantado, como se sobre efeito de um feitiço”

—Acho que do seu ponto de vista deve ser como parece, esse interesse é normal? As vezes eu imaginei como seria encontrar um vampiro, nunca imaginei que um teria interesse assim... especialmente pois...

Iria trazer a tona o que houve mais cedo, mas como se tivesse previsto minha próxima fala, ela interviu e respondeu a pergunta que ainda não havia posto em palavras.

“O sangue jovem sempre teve um gosto melhor para mim, infelizmente essa memória veio enquanto vós admiráveis a dama de vestido. Apenas isso”

—Quando voltar para casa... prometo resolver isso também.

Depois de passar mais uma aula sem conseguir desviar atenção do quadro, o meu dia de aula normal passou sem uma suspeita sequer ser levantada.

“Este mundo mudou tanto...”

—Roi, pode deixar para treinarmos mais tarde? No esconderijo?

—Sim.

—Ótimo! Tchau!

Falei isso e corri o quão rápido pude para fora da sala, não cancelei por completo o treino pois podia acabar sendo útil como um aprendizado sobre... vampirismo.

“Do que está fugindo, servo? Sua atenção estava em pico perto daquela humana”

—A Roi tem uma atenção anormal! Não queria arriscar ficar numa sala com tanta luz... eu sinto que ela podia acabar notando que minha imagem não está se refletindo no próprio olho dela.

“Hum... tens amizades realmente... interessantes, o coração dela, no entanto, não batia rápido, nem um pouco”

—É tão fácil de ouvir...?

“...”

Subi na bicicleta e não recebi uma resposta da vampira mais.

Não até a deixar na porta, subir as escadas, me trancar no quarto e fechar todas as cortinas.

—Ah! Finalmente!... Mover-me por mim mesma é incomparável!

—É tão ruim assim? Não reclamou ontem.

—Aquela reunião não passou de umas horas, quanto tempo ficas naquela escola? Metade do dia?! Estava no meu limite já.

Pela forma que ela jogava o corpo e os braços de um lado ao outro, eu conclui que aquela vampira não era do tipo de reclamar sem razão, foi por isso que a sugestão me veio:

—Bem... no intervalo você poderia sair um pouco, não hoje, mas... outro dia... talvez se disfarçar e fingir...

—Não pretendo o fazer, tua falta de sombra eventualmente seria notada, também seria quase impossível andar por lá em pleno dia sem cair sob a luz do sol.

E logo fui rejeitado, era lógico, se pensasse mais, ainda assim eu me virei para a janela coberta, tentei enxergar as nuvens através dela.

—É... melhor só se acostumar, a cada 7 dias de uma semana, preciso ir 5 a escola, digo... poderia não ir, mas...

—Faça como quiseres, agora, por favor.

—Agora...? Ah, claro.

Olhei novamente a porta, as cortinas, tudo se mantinha perfeitamente fechado, espiando pela janela, ninguém parecia estar sequer perto da casa, meu pai, claro, havia saído a tempos e não chegaria tão cedo.

—Err... vampira, desculpe por não falar disso até agora, acabei esquecendo, mas... vampiros precisam de sangue, isso é verdade, né?

—Claramente. Os mitos contam verdades, o medo dos vivos nunca fui irracional, acima disso, é assim que mantemos uma forma quase-viva, pois tomamos parte da energia de vocês, compreende?

A vampira dizia enquanto caminhava de um lado do quarto ao outro, com passos leves, sem fazer um barulho sequer.

Pois vendo bem, ela não respirava, seu coração não batia. Algo assim não é nada perto de vivo.

—Entendi, pode ser uma ideia ruim, mas ainda assim tenho uma ideia de o que fazer. Você precisa de sangue e só isso. Certo...?

—Precisa-se de sangue humano, sangue tirado diretamente de um vivo. Essas são as únicas regras, porém qualquer outra coisa não é efetivo para manter minha forma. Caso passe mais tempo... lentamente voltaria a ser como um corpo, de volta a minha sepultura.

—Imaginei, qualquer outra solução seria fácil demais, portanto... tenho uma que envolve algum sacrifício próprio...

Ajeitei minha gola, meu cabelo e atravessei os dedos pelo meu próprio pescoço.

Sentei no chão, encarei os olhos que não eram de um morto, mas que ainda não tinham vida.

—Isso...

—Acho que estou fazendo errado, quando uma pessoa oferece o sangue para um vampiro ela devia dar o pulso. Então...

Olhei para baixo e tentei ajeitar, a manga, porém uma mão que veio das minhas costas tocou meu ombro e contou:

—Não. É mais fácil assim. Sabes dos riscos, sim?

—É... pode não funcionar, talvez meu sangue já não sirva por ser metade-vampiro, talvez só uma pessoa não seja suficiente para impedir sua decomposição, ainda assim, pode ir em frente.

—...

Senti duas agulhas grudarem no meu pescoço, mas essas eram rígidas como ferro, então ambas se fincaram aos poucos no meu corpo.

Certamente era dor, mas comparado ao que já havia passado, nem era tanto incomodo.

Assim, senti minha vida ser perdida, sutilmente, um pouco de tontura, pensar era difícil, mas naquele momento, enquanto minha vida se esvaia, ainda pensava.

“Não posso deixar ninguém dessa cidade se ferir... essa vampira existir é por minha causa, de uma forma ou outra, mas... ela ainda está viva de certa forma, não é? Ela sente algo, sei disso, algum tipo de emoção, incompreensível para um humano, mas ainda assim, é algo, sim? Como poderia então a jogar no sol e ver seu corpo virar pó”

Ninguém mais sabia da existência dela, isso poderia ser levado comigo até minha sepultura.

“E não quero... se existe ainda uma chance onde não preciso ferir ninguém, não preciso ferir quem está bem na minha frente e quem nunca teve más intenções contra mim... como posso sequer tentar?”

Após mais de um minuto, senti as presas fincarem mais forte, minha vida era perdida um pouco mais rápido.

—Gah! Calma!... O que é isso?!

Meus espasmos foram contidos pelas mãos minúsculas em meus ombros, ainda era mais forte que ela, porém isso também não era a força de uma criança.

No outro instante, repentinamente as duas presas se soltaram da minha carne, um pouco da minha pele deve ter sido arrancada, assim como senti um tanto de sangue ao redor da ferida.

E o som de algo rolando pelo meu quarto e batendo da parede, quando virei, a vampira pareceu ter sido jogada a minha parede.

Me virei, com a tontura acabei não conseguindo levantar, porém a alcancei apenas me arrastando, não era uma grande distância.

—Droga, você se machucou?...

—Ah... perdão, servo... não havia considerado tal possibilidade.

“Não parece...”

Eu havia com meus espasmos a lançado para longe, é o que pareceu, mas não foi tempo algum até ela se recuperar daquilo, agora o problema, naquela expressão...:

—Más notícias...?

“Será que não funcionou...? Então eu vou...”

—Não creio que vosmecê as veras como tal...

—...!

Caso só meu sangue não fosse suficiente, o que viria depois... é algo que nunca quero imaginar.

—Estavas mais correto que jamais imaginaria. Teu sangue é um dos melhores que já provei, entretanto... essa forma parece não ser tão boa para tomar sangue, havia de ter cogitado.

—Ou seja...? Meu sangue pode servir?

A vampira pegou uma posição melhor, se aproximou e estendeu a mão para mim, lembrando de que ela parecia ainda haver um grau de força sobrenatural, eu aceitei.

“Deve ser mais ou menos a força de um adulto normal, não muito forte, mas nem de longe fraco. Ainda devo conseguir fazer mais que isso”

—Sem dúvidas. Diria que seria ainda melhor do que o sangue de outro humano, creio até de que teu estado de morte parcial, ou nossa ligação, deixou este sangue mais adequado para vossa situação.

—Hum... ótimo, vai precisar de mais? Talvez meu sangue ajude a conseguirmos nos libertar?

—Já tomei ainda mais que o necessário, também não creio que será útil o deixar ainda mais perto de morrer, guarde tua vida consigo, dê a valor.

—Certo... só não achei que ia ser tão pouco...

—Pouco...? Os vivos aparentam ter evoluído com o tempo. Ao menos tu...

Com um pulo que ela mal guardou impulso, a vampira foi de um canto do quarto, voou quase batendo no teto e pousou do lado oposto.

Meus olhos a seguiram, não tive bem surpresa, tinha deixado de ser impressionado por pouco já. Só pensei se...

“Outra hora”

—Aliás, vampira, qual o seu nome? Não parece que isso importa nada a vocês, mas vou cansar de a chamar assim com o tempo.

—Nome...? Perdão, contudo, já esqueci o meu nome humano a séculos, a minha vida acabou a tempo demais para lembrar-me.

—Isso parece um problema... então do que posso te chamar?

A... vampira... ela pegou um dos livros da escola e começou a folheá-los, ela o fazia rápido, talvez por um poder vampírico, talvez apenas por prática.

—Tu tens a liberdade de escolher meu nome. És mais que digno. Dê o nome para minha nova não-vida, ninguém mais além de vosmecê o poderia fazê-lo.

—Eu... um nome... quanta responsabilidade, vou fazer algumas ligações enquanto você lê, ok?

—Depois conte-me sobre este aparato de metal, a forma como a tecnologia avança sempre me interessou.

—Sem problemas. Faço isso depois de treinar com a Roi.

Liguei primeiro para...

“O Ritte, preciso falar com ele sobre denunciar meu canto secreto”

...

—Alô? Ritte?

—Jack, bem na hora, preciso da sua ajuda.

“Ah... agora não...”

—Diga, achou alguma pista?

—Oui. Tem um local onde suspeito que os corsários estejam guardando os reféns, três na verdade, preciso que você vá em um deles e investigue.

—De três... você tem certeza que um deles é o correto?

—Sim. O problema é que qual... isso é élément inconnue.

—Ok... diga os três, vou escolher ao acaso, se você não pode deduzir, alguém como eu não pode ter chance.

—Um deles é na Costa Rica, no litoral e bem próximo da fronteira com a Nicarágua.

—Costa Rica... esse não é o país que não tem um exército...? E fica na... é perto da Espanha?

—Mais ou menos... digo, eles falam espanhol, mas esse país está na américa central, não ouviu o que disse sobre a fronteira com a Nicarágua?

—Ah sim, realmente.

“Melhor só continuar... mesmo que eu não faça ideia de que país seja esse...”

—Estou mais surpreso que saiba sobre o exército do país ter sido abolido, lire des livres?

—Devo ter ouvido da Franziska, mas sim, os corsários podem estar nesse país é? Isso soa ruim, sem um exército... eles não poderiam tomar o país?...

—Não normalmente... diplomacia não vai funcionar e os números deles também são um élément inconnue, mas não é como se tomar um país ocorresse da noite pro dia fosse fácil.

—Espero que não.

“Um país inteiro, enquanto eles são só alguns criminosos... não tem como eles terem um plano com isso”

—E diplomacia... esse parecia o estilo do outro instituto, sim?...

—Definitivamente, marceneiros e criminosos não foram suficientes para eles apelarem a força, apesar que talvez diplomacia também seja um exagero.

—Talvez eles tenham algo ao favor deles então, hum... imagino.

“Mesmo contra pessoas más... contra mercenários e criminosos, não posso ver a solução dos problemas em armas, talvez isso seja apenas uma moralidade distorcida... ainda assim, talvez haja o que pensar sobre ainda”

—E o segundo ponto? Não quero pensar que os corsários possam ter ido num país vulnerável assim, fazer base onde não há exército parece apenas errado.

—Se você diz, o segundo ponto é um pouco perto daqui até, no norte da França, no ponto mais próximo do Reino Unido.

—Outro litoral?

Com isso, outra vez eu tentei olhar através da cortina, não tinha como ver o mar por ela, as montanhas bloqueariam essa visão, ainda assim... a possibilidade me intrigou.

—Posso entrar em detalhes quando você vier ao esconderijo, mas sim, eles devem ter se fixado onde pudessem esconder o navio deles, lembro um pouco e... éclatant é a melhor palavra para descrever, eles devem estar num galpão ou algo parecido também, um grande suficiente para esconder os passageiros.

—Entendi. E o último local?

—Miami, não tão longe de onde nós passamos durante o cruzeiro. Na verdade, esse seria o mais estranho, a densidade populacional parece alta demais para os corsários tentarem esconder algo lá, seria um pouco à la limite... mas a capitã tem truques estranhos, por isso é possível ainda.

—Não duvido, é possível até que estejam apenas confiando na “sorte” da tal capitã.

—Imagino... então, para onde vai ser a investigação?

—Ritte, preciso ver o quão longe meu ponto pode ir, quanta confiança eles têm nessa coisa de sorte. Queria investigar esse último ponto antes dos outros.

Ça marche. Pode vir no esconderijo mais tarde, essa noite?

Era cerca de uma da tarde, o sol não devia se pôr tão cedo hoje, portanto o disse, já planejando vários passos à frente.

—Pode vir as dez da noite? É meio tarde e tudo, só que preferia sair depois da lua aparecer, ia pensar melhor assim.

—Sem problema, pode avisar aos outros sobre essa investigação também?

—Vou dar um jeito, foque na sua parte.

—Nos vemos as dez, au revoir.

O Ritte me esperou desligar, eu o fiz após responde a despedida dele, logo fiz a segunda parte do meu plano. Ligando para a Roi e dizendo que iriamos treinar no esconderijo, logo após o sol se pôr.

E então...

—Servo, vais deitar novamente? És preguiçoso assim?

—Me acorde se precisar de ajuda...

—O farei sem hesitar. Ademais, pretende dormir por quanto tempo?

—Até o sol se pôr, então vou sair...

—Hum, irei o acordar eu mesma.

—Por favor...

Apesar do breve descanso provido entre as aulas, eu realmente não tinha condição de treinar bem naquela condição, já estava em meio-sono enquanto respondia a vampira, e assim...

Minha consciência ficou leve e meu corpo parou de se mover, livre das várias duvidas que eu havia esquivado da ultima vez, finalmente pude descansar.

Aquele foi o meu primeiro dia normal como um pseudo-vampiro, pseudo-humano.

E nem de longe o ultimo, naqueles tempos eu sequer tinha ideia do destino que me esperava...

Em seguida, viria o primeiro dia nada normal como um pseudo-vampiro, pseudo-humano. O primeiro, mas nem de longe o último, pois o normal e o anormal no fim, são dois lados da mesma moeda, necessários um ao outro, ao mesmo tempo conflitantes.