Ostium: Diamond
8 Capítulo 5: Continuação
Voltei ao mundo real, a minha visão doía ao ver uma fonte de luz pelo canto do olho.
—Mais 5 minutos só...
“Espera... isso aconteceu antes?”
“Antes...”
—AHHHHHHHH!
Pulei da cama, meu corpo estava mais do que recuperado já.
“Prometi ir para o esconderijo falar com a Une!”
Pulei na bicicleta e fiz uma das corridas mais rápidas até o esconderijo da minha vida, diria que essa pode ficar em segundo lugar logo.
E cheguei, em 5 minutos e 22 segundos.
—UNEEE!
Assim... cheguei a tempo, atrasado, morto de cansado, suando sem parar, mas Une ainda estava me esperando.
—Não precisa explicar. Já fui informada do porquê de seu atraso.
A garota de cabelos de cor estranha estava na frente de sua mesa de trabalhos, como sempre, assim que apareci, ela pelo menos virou o rosto imediatamente para me encarar.
—Ah, ainda bem, então alguém passou por aqui e...
—Então a bicicleta não bastou, vieram atrás de um espécime vivo...
—Ei! A minha bicicleta está comigo. Foi que acabei me machucando depois de bater numa parede a algo como 10 quilômetros por hora.
—Só alguém como você poderia dizer isso sem estar mentindo.
—Obrigado pelo voto de confiança!... Estou precisando... ah... então, o que você queria falar?
Eu ainda estava cansado demais, meus gritos pela caverna me davam um pouco de dor de cabeça também, eu decidi só me arrastar até um sofá e me jogar nele.
Logo, antes de responder minha pergunta, a Une foi para o outro, então falou, finalmente:
—É só porque você disse que ser alto não atrai atenção, então se incluiu no meio como alguém alto.
—Algum problema com isso? Eu estou junto com a Roi em altura, é exatamente a mesma, ela, por consequência, eu, somos pouco mais altos do que a Franziska e bem mais altos que você e o Ritte. O que está de errado nisso?
—Achou que nunca ia notar?
—Notar...
“Fui desmascarado...”
—Só fazer isso com algumas pessoas não ajudou muito, ficar na ponta dos pés as vezes e mudar sem prestar atenção nos arredores foi uma má ideia. Só vou dar parabéns porque sua técnica de sustentar o corpo inteiro com apenas os dedos é bem impressionante.
Isso é verdade, não é tão difícil depois da sétima vez. Ainda mais porque mexi um pouco no sapato para fazer algo como uma plataforma no interior, ajuda um pouco.
—Devia usar calças mais largas, talvez assim eu não tivesse notado.
Após minha farsa ser revelada... ela ainda disse onde eu estava errado, logo na minha escolha de calças.
—Ok, ok... é verdade... e agora? Eu vou ter que te matar para que esse segredo não saia daqui?
—Não. Só foi para você saber que calças passando do calcanhar iam ajudar muito.
—Ainda bem... não, foi só isso?
—Err... sim, na verdade, você não tentou esconder tanto quanto eu esperava, se soubesse que seria fácil iria ter resolvido tudo no caminho para escola.
Me enterrei ainda mais no sofá, eu já tinha perdido energia demais, ficar tenso novamente havia tirado o resto de vitalidade do meu corpo.
—O que mais eu podia fazer? Eu fiz isso pensando na minha posição em relação a muitas pessoas, menos você.
—Você não se importa comigo. Entendi.
—Prefiro chamar isso de confiança. Você entende o quão nobre meus motivos são.
—Não. Não entendi até agora o motivo.
—Oras, porque se não fosse por isso a Franziska ia perceber que é um pouquinho mais alta que eu, com a Roi ia ser ainda pior, como minha posição de líder iria ficar? Aquele maluco do instituto por exemplo, é simples assim.
—Hum... até que você tinha um motivo melhor, não pensei em nada em particular, mas esperava uma razão bem idiota.
—Essa minha razão não é exatamente o contrário de um motivo idiota na verdade, você precisa pensar que eu sou o cavaleiro para a minha princesa, só faltava isso para mim, o que resolvi de uma maneira um pouco ridícula.
—Certo. Já pode ir, queria preparar mais algumas coisas para aquele cruzeiro, só mais uns brinquedos que só teriam graça lá.
—Não posso nem imaginar que engenhoca é essa, também não quero saber. Portanto, por favor me deixe ir embora.
—Permissão concedida.
Cambaleando, mal conseguindo pôr um pé a frente do outro, eu me levei de volta para casa, eu tomei um banho e dormi a noite inteira.
E cada vez mais, o dia se aproximava.
“Inclusive... o que foi aquele sonho...? ”
Me distrai tanto com a Une que foi difícil lembrar na hora.
Dia 10 de maio.
O fim de semana estava quase chegando...
“Espera... o cruzeiro é dia 12... sábado, depois vem segunda, digo, vem o domingo... espero que faltar algumas aulas não seja problema para os outros”
—De todo jeito, agora preciso fazer muita coisa.
Coloquei os sapatos e uma camisa boa, então desci as escadas o quão rápido pude, abri a porta e...
“Fazer... o que tenho que fazer agora mesmo?”
Sim, quando pensei bem, notei que não planejei nada para o dia, portanto, felizmente, havia sim algo para fazer:
Planos.
A forma mais eficiente, mais divertida também, seria visitar alguém.
“A Roi me mostrou onde fica a casa dela esse mês, melhor usar esse conhecimento”
Subi na bicicleta, senti alguma tontura como sempre, mas se não acelerasse tanto provavelmente poderia só ter duas quedas até chegar lá.
E pedalando até lá, alguém... no mínimo inesperado estava no caminho.
Com um terno que claramente não fazia o estilo dele e uma caixa debaixo do braço.
Imen Nacrit.
Fiz uma manobra para passar por ele e então voltar para ficar ao seu lado.
Então desci da bicicleta.
—Ei Nacrit, o que é esse terno? Festa de gala?
Olhando de perto, era bem engraçado, estava sorrindo e mudando o tom da minha voz a cada palavra.
—Queria que andasse daquele jeito pela cidade? Seu pai iria me prender sem nem olhar para o meu cabelo.
—O cabelo... hahahaha! Agora eu vi... hahaha!
Estava arrumadinho, jogado para o lado como um trabalhador de escritório.
—Nacrit, por que você não vai trabalhar num escritório? Daria uma nota para te ver assim todo dia de manhã.
—Eu devia mesmo te dar uma lição qualquer dia, agora já que está aí, pode me fazer um favor?
—Ah... sim, você está indo para algum tipo de trabalho importante, né? Eu posso te ajudar nisso.
—Não diria importante, mas pode vir, talvez seja útil.
Imen voltou a andar, eu o acompanhei enquanto guiava a bicicleta do chão.
—Isso pode parecer vir do nada, mas ontem fiz uma pergunta parecida para outro adulto...
—O que? É algum conselho para escrever uma carta de amor?
—Nã... espera, você soube também?!
—Minhas fontes são muito boas.
—E não é sobre isso, é sobre o que você fez na faculdade, digo... sem querer ofender, mas eu devia começar perguntando se você fez faculdade...
—Não é porque agora sou um fora da lei que não fiz faculdade, do mesmo jeito que há pessoas honestas nessa cidade que sequer começaram o ensino médio, mas sim. Eu fiz, mas não sei se você ia acreditar o que tinha estudado.
—Mais surpreendente do que a resposta que tive ontem não deve ser.
—A quem você perguntou? Os seus professores com certeza devem ter um currículo e tanto, se lembro bem tem um maluco com mais de dez doutorados.
—Foi ele. E segundo ele são onze.
—Mais de dez...
—E sim, o que foi? Só não vou acreditar se me disser que fez direito.
—Medicina.
—O...
O...
O...
O...
—O que...?
—Com calma, veja com clareza e deixe sseus ouvidos abertos. Continue ouvindo.
Disse Imen Nacrit com um olhar sério, lascivo, mesmo naquele terno e com o cabelo arrumado, nada dele havia mudado por dentro.
—Hum... você terminou?
—É claro que não, nem cheguei no fim do primeiro ano, mas foi interessante, no fim consegui aprender um pouco disso e daquilo.
—Entendi... outra coisa que perguntei ontem, por quê? Essa escolha teve algum motivo maior? Ou...
—Imortalidade. Queria achar a ambrosia, ou algo assim...
—O Ambrose? O que você quer com ele?
—Ambrosia. É a comida dos deuses na mitologia grega, dizem que quem consumisse dela teria imortalidade.
—Ah, isso... imortalidade... por que você saiu então? Não acha que era um bom objetivo?
—Chegamos.
Ele não respondeu, parou e quando viu que estava desligado e ia passar dele, me segurou pelo braço.
Quando olhei para perto, vi a casa e tudo, foi quando percebi algo...
“Roi! Essa é a casa dela!”
Me virei para Nacrit e derrubei a mão dele antes de alcançar a campainha.
—Ei!
—Eu que digo! O que você está fazendo nessa casa?!
Consegui empurrar ele e me joguei na frente da porta.
—Você não ouve o que eu digo? Siga as placas, não levante as mãos...
Sem aviso, ele se moveu para me golpear.
Acertou a minha testa, então logo bati na porta de cabeça e cai no chão, ainda protegendo a porta.
—Se você não pode vencer algo com força bruta, converse, se isso também não funcionar, fuja.
—Nem vem com esse papinho. Se eu quisesse ia te dar uma surra, mas já que você está me dando a chance de conversa, o que veio fazer aqui?
—Essa casa é de alguém que você conhece pelo o que entendi. Não se preocupe, mas se vai insistir assim, tome isso.
Então ele jogou a caixa que estava de baixo do braço dele para mim.
—O que é isso?
—É uma es... ah, não... olha o que já ia fazer... digo... pelo seu tom acho que você não sabe o que está ai, então se quiser olhar, a escolha foi sua, mas o destinatário é uma tal de Margaret Roy.
—Roi... é essa minha amiga, ela faz parte da banda.
—Entendi. Você fala o nome dela de um jeito engraçado, gostei disso.
—Aliás, como você conseguiu essa caixa?
—O entregador estava tentando fazer contrabando por essa cidade, mas ele foi idiota de só ter trazido uma entrega legitima consigo, que é essa coisa aí.
Mesmo ao ar livre, ele puxou algo do seu bolso, aquele isqueiro, começou a tentar o fazer acender... sem sucesso ainda.
—Deveria perguntar o que você fez com ele...?
—Não se preocupe, o que importa é que nada de ruim entrou por aqui e os caras maus não vão causar mais problemas.
—Seus métodos não importam desde que tenha o resultado? O resultado desejado?
—...não pense nisso, vocês todos não gostam de outras pessoas lhe lembrando disso, mas você é uma criança, o que importa para você é eu proteger a cidade, e se contente com isso.
Ele me ajudou a levantar.
Tive segundos para encarar ele, nesses segundos tentei perfurar a barreira, entender o que ele pensava de si mesmo, das suas próprias ações e o que elas causavam além da fronteira da cidade.
—Vai logo. Já vi que isso não vai funcionar.
Até entender que esse não é um talento meu, então ele saiu.
“Agora para fazer o que vim fazer”
Preparei para modular uma voz um pouco mais grossa.
Toquei a campainha.
—Entrega! Pacote da... BLD...?
Falei o nome que estava escrito na caixa, só percebendo o quão feio ele era no momento.
“Que nome estranho. Nunca ouvi falar de alguma empresa com esse nome, será que é algo de música? Talvez baquetas novas?”
Tirei essa conclusão pelo tamanho da caixa, era um pouco maior do que seria necessário para baquetas, mas não pensei em mais nada que coubesse.
Enfim, a porta abriu, antes disso coloquei a caixa atrás das minhas costas.
—O que você está fazendo aí?
—Ah... nada, só vim te convidar para sairmos agora, você está ocupada?
—O que você sabe?
—Hum?
Aquele olhar, foi a primeira vez que vi aquilo, era violento...
—Calma... só estava brincando, o pacote está aqui, nem olhei dentro nem nada
Mostrei ele e estendi a caixa para ela.
E Roi voltou ao normal.
—Ah, ainda bem.
Com a entrega feita, ela já iria fechar a porta.
—Espera!
Mas coloquei meu pé no último instante
—Você está ocupada? Não pode sair agora?
—Só nós dois?
—Se quiser podemos chamar os outros.
—Entre e me siga.
Passei pela porta, fui eu quem fechou ela também.
Ela me levou para as escadas, subimos e entramos ao segundo quarto a direita, tentarei lembrar, a casa era um pouco grande demais para o meu gosto, eu posso me perder se não tiver cuidado.
Aquilo devia ser o quarto dela, um quarto bem azul.
Ela passou a mão por mim para trancar a porta, então deixou a caixa em cima da cama.
—Chame os outros.
Foi o que ela disse antes de abrir uma gaveta, pega uma muda de roupas e entrar em outra porta.
“Me deixou mesmo aqui sozinho? Ou ela não tem nada a esconder, ou ela confia muito em mim... melhor aguentar a curiosidade”
Comecei a ligar, primeiro para a Une:
—Une, estou indo sair agora, quer ir?
—Tem mais alguém?
—Sim, a Roi vem.
—Hum... não posso mesmo assim.
—Você nem devia ter perguntado então.
Percebendo o motivo da pergunta, desliguei.
Ritte estava ocupado.
A Franziska também.
“Isso é uma coincidência, ou será que é algo da família...?”
Após toda a espera. A Roi veio, bem arrumada até, com calça e jaqueta, ela realmente parecia pronta para sair.
Mas antes ela examinou com cuidado as gavetas.
—Você está vendo se eu mexi em algo? Se for isso eu...
—Não é isso.
—Ok, se você diz.
“Às vezes essa atitude de poucas palavras me irrita, mas as vezes me agrada de poder resolver os problemas tão rápido”
—Vamos ir para longe ou ficar na cidade? Vim por não ter ideias, então qualquer ajuda sua é bem aceita.
—Quero ir para o cinema.
—Boa ideia, não acho que tem algum filme bom, mas nós estamos ricos, cuide de pegar muita pipoca e refrigerante.
—Certo.
O cinema era bem avulso, estava numa zona meio residencial, mas não realmente residencial, bem estranho eu diria.
Nós pegamos o maior balde, 2 para cada um e dois litros de refrigerante, não me arrependi disso até lembrar que comprar saúde não é tão simples quanto comprar algodão doce.
O filme era especialmente mencionado como sendo “do mundo antigo” o que imagino ser por ele ter sido feito muito antes dos ostium, em 1950.
E entendi o motivo, pois ele era obscuro suficiente para a única coisa reconhecível dele ser isso.
Apesar disso, não era ruim, pelo o que vi sua obscuridade foi apenas pelo tempo, acho que a expectativa de vida para alguém nascido nos anos 50 realmente não passava de 70 ou 80 anos.
A sala estava preenchida pela metade, nós conseguimos um lugar relativamente afastados de todos os outros, só o bastante para falar em tom normal sem atrapalhar outras pessoas.
—Preste atenção.
Apesar da maioria das respostas que recebi terem sido essas duas palavras, sempre nessa ordem, sempre em tons semelhantemente irritados.
Foi a primeira vez que tínhamos saído só nós dois, começar tudo isso com um filme antigo foi uma escolha bem, bem boa.
Nós saímos e na verdade ainda tinha um pouco de refrigerante e um balde inteiro de pipoca, os quais apenas deixamos no cinema sem ligar tanto.
Simples assim, as horas passaram como segundos, eu mal consegui ter uma conversa e talvez, ter ido sozinho teria sido efetivamente a mesma coisa, mesmo na saída...
—O que achou do filme Roi?
—Bom.
—Seja mais especifica, entre 0 e 100, vamos.
—7.
—Como? 7 é bom? Você ouviu que era entre 0 e 100?
—70.
—Hum, entendi. Também esperava mais, aquele pôster era muito legal, tinha um charme dos anos 50, tem muitas coisas boas dessa época.
—Você acha?
—Sim, nossa banda não tem essa estética porque admito não ter ouvindo músicas dessa época em especifico, preferi ir para algo dos anos 90 e 2000, uma mescla de músicas animadas e lentas muito equilibrada, quase uma divisão exata.
—Você gosta de matemática?
—Claro que não, desde o professor ter mostrado como uma divisão pode não ser exata deixei de estudar matemática e comecei a pedir as respostas do Ritte.
—Ah...
—Melhor deixar isso de lado em... quer ir para mais algum lugar? Tenho o dia inteiro.
—Vamos jogar um pouco.
—O que? Não quero algo que você tenha uma vantagem muito alta.
—Cartas.
—Ok... pode ser então.
Conseguimos uma mesa e ela mostrou ter algumas cartas escondidas consigo.
Nós mudávamos de jogos a todo momento, sempre que um perdia a graça, só isso foi divertido, quando pensei que tudo necessário foi um baralho e nossa ligação, por mais que esse pensamento não faça nada o meu estilo, esqueci de todo o dinheiro que estava sendo acumulado para nós.
E isso me distraiu um pouco do jogo, nem entendi muito as regras e por isso perdi a noção do placar, estava ganhando? Perdendo?
Um tempo passou...
—Quanta sorte
Foi o que Roi me disse.
—Eu ganhei...?
—Sim, minha contagem passou de 21.
—Ufa, fiquei com medo de pedir outra carta já tendo 17.
—Jack, você acredita em sorte?
—Que algumas pessoas têm naturalmente mais sorte que outras? Algo assim?
—Isso.
—Hum... provavelmente, afinal tem muitas pessoas na história que claramente pareciam ter muita sorte ou muito azar, mas... acho tão estranho o padrão, tem pessoas que não parecem ter merecido, pessoas que mereciam e não tiveram... acho que sorte é, no fim, algo injusto, não?
—E você tem sorte?
—Eu desejei isso para uma estrela cadente, talvez seja por isso que estou ganhando nesse jogo, não é?
—Talvez.
Depois de jogar o suficiente, nós terminamos o dia, em breve teríamos um evento muito importante para atender.
Dia 11 de maio.
Comecei a andar antes do meu cérebro acordar totalmente, já estava na frente das escadas então.
“É só descer...”
Dei o primeiro passo e...
“Logo agora?”
O mundo tinha ficado estranho, não entendi bem onde estava, tinha pulado? Estava no chão? Talvez num sonho? No espaço? Já estou no cruzeiro?
E nessa confusão não consegui dar o passo direito, não entendia o motivo, mas meus ossos estavam recebendo pancadas, elas vinham de todos os lados e num espaço de tempo tão curto.
Depois disso parar, depois da dor passar, percebi o que houve, pois estava no chão e olhando para as escadas da parte de baixo da casa, não era a primeira, provavelmente nem a última que sofri esse acidente.
“O que eu vim fazer mesmo?... Pela hora eu poderia cozinhar algo, se tiver sorte...”
Fui até a cozinha, meu pai já estava lá, imaginei os motivos.
Ele estava comendo já, eu fiz o que minha habilidade de cozinhar limitada me permitia e sentei na mesa, talvez fosse impressão, mas tinha sentido que ele falaria algo importante.
—O que eu ouvi agora a pouco...
—Foi outra crise. Eu cai da escada, só isso.
—Vou sair e resolver algo bem importante. Vá ver a doutora.
—Ei...! Não é para tanto, foi só que...
—Por favor, já faz muito tempo que você foi lá, eu entendo que agora você aguenta rolar abaixo de uma escada ou tropeçar e cair de uma janela...
“A parte da janela não foi bem um acidente...”
—Mas você sabe que essa condição só vai piorar com o tempo, eventualmente você não vai aguentar mais todos esses acidentes, você precisa pensar que se não tiver cuidado agora... você não vai ter futuro algum. Não um futuro ruim ou bom, ele só nunca vai chegar.
—Futuro... certo, eu vou.
—Por favor, agora tenho que ir.
Ele não ajeitou a gravata, apenas colocou os sapatos e foi embora.
“Futuro... odeio pensar nisso”
Depois de um pouco de indecisão, também pôs meus sapatos e sai de casa.
Passei por algumas ruas que estou familiarizado, mas no fim do caminho entrei na parte da cidade que nunca ia, exceto numa ocasião como essa.
Primeiro tenho que passar por várias ruas com casas abandonadas, então assim que entrar num caminho sem saída, é só procurar pela única construção com pintura branca.
E finalmente, na clinica eu chegaria, a porta se abriria para mim, por dentro o ar era denso e frio, respirar podia até doer para alguém mais frágil, eu mesmo sempre sentia como se fosse difícil de me mover por lá...
Estava me aproximando da maçaneta, atrás daquela porta teria a sala de consultas, mas senti algo anormal.
Senti que tinha outra pessoa lá dentro, isso não estava certo.
Olhei ao redor, não tinha ninguém próximo, então aproximei o ouvido da porta e esperei conseguir pegar algo, de imediato não ouvi nada, mas logo...
Era uma conversa entre duas pessoas, se ficasse parado e abaixado poderia escutar tudo sem se percebido.
—Doutora, você tem que fazer isso. Você ignorou, você nunca fez o juramento para ter essa liberdade, não é? Usar seu conhecimento e posição assim.
—Você consegue lembrar? Acho que não, então, então, então o farei para você. Eu fiz o juramento, apenas o quebrei, é muito diferente, entende como diferente?
—Mas então por que não dizer que você nunca o fez? No fim não há mais motivo para segui-lo, não é? Então qual é a diferença entre as duas verdades?
—Por que você sempre vem com essas conversas? A diferença é que eu uma vez decidi segui-lo, mas o quebrei, essa é a diferença, também, também, não é por tê-lo quebrado uma vez que posso fazê-lo novamente, ele segue comigo, mesmo que mereça a punição de ir contra o juramento, o seguirei, pois ele é justo, ele me guiara para meu objetivo.
—Isso foi um bom ponto... desculpe pelo meu equivoco, de qualquer maneira, então lhe deveria dar um tempo, voltarei para outra consulta quando tiver tempo, isso seria em... duas semanas. Também gostaria de receber uma resposta então.
—Vá logo, nunca tive uma paciente conversando tanto depois da consulta.
—Obrigado por tudo, com licença.
“Ele está vindo!!”
Me arrastei em silêncio para tentar sair, até ouvir...
A porta abrindo, ele já estava saindo.
Sem escolha, usei meus braços e fiquei entre uma parede e outra, bem ao lado da linha que alguém faria ao sair.
“Ele vai ter que passar por aqui para sair, mas...”
Nem estava tão bem escondido, minhas roupas eram claras e as paredes obviamente eram brancas.
No pânico, apenas prendi minha respiração, fiquei o mais imóvel possível e esperei que ele passasse sem olhar para os lados.
Ele apareceu no meu campo de visão, a porta abriu para ele e... sem sequer olhar em minha direção, ele deu seu primeiro passo para fora.
“Consegui!”
Parecia ter sido o caso.
Até ele dá um passo para trás, com a porta se fechando atrás dele.
Ele olhou diretamente para minha direção, mas não para mim exatamente, ainda assim pude ter uma boa vista do rosto daquele sujeito novo.
A pele dele mal tinha cor, seus olhos tinham olheiras fortíssimas e próximas do roxo, como se ele não dormisse a anos, os olhos vazios e desalmados pareciam apontar para esse ser o caso, seu cabelo era... esquisito, no mínimo, ele tinha um terno quase em puro preto com uma gravata em vermelho escuro, o que parecia ser um adereço para mim estava em sua garganta, parecia um símbolo de baralho, sim, eu ainda ontem havia jogado e reconheci como sendo o símbolo do naipe de paus.
E ele tinha voltado e olhou ao redor, uma hora parou diretamente na minha direção. Olhando para minha direção, mas não para mim.
Até que ele se aproximou, seu rosto estava tão próximo, os olhos cansados e sem brilho me encarando, mas ainda assim... ele não me via.
Como se estivesse tentando comprovar minha existência, ele estendeu a mão em minha direção, lentamente.
Esperei que ele parasse antes.
Mas seus braços eram longos e finos, estava prestes a me alcançar.
Tinha me encolhido e tentado mascarar minha presença, então o que era aquilo? O que ele estava tentando fazer?
Mesmo naquele estado, assim que ele chegou próximo, por reflexo movi meu corpo um pouco ao lado e a mão dele passou direto, sem sequer encosta num fio do meu cabelo.
—Depois...
Então ele recolheu sua mão, se levantou e voltou a saída, dessa vez a porta não abriu novamente.
E seguindo um roteiro imaginário, eu me levantei e andei pela clínica como se tivesse acabado de entrar.
Por fim, quando entrei no consultório, a doutora foi apresentada.
“Kutt Sinclair, por algum motivo esse sempre me soou como um nome perigoso”
Se você olhasse para seus olhos, nunca pensaria que era uma doutora, muito menos a chefe de uma clinica própria.
Ela usava uma espécie de curto vestido preto, normalmente essa cor devia fazer a silhueta se tornar menos acentuada, mas eu tinha a impressão que aquela peça fazia exatamente o contrário, porém, na clinica ela sempre tinha seu jaleco branco por cima, entre o cabelo cheio, mas claramente mal-cuidado e as sombras sobre os olhos, realmente só um jaleco branco a faria parecer uma médica.
—Chegou agora, Jack?
—Sim... aliás, quem era aquele homem que saiu? Acho que nunca vi ninguém além de você nessa clínica.
—Nise Yamada. Ele tem um problema de visão e foi... enviado, parece que o conhecimento da condição dele ficou muito mais escasso.
—Escasso? Como um conhecimento de uma doença pode ficar escasso?
—As condições que a levam a se manifestar são raríssimas, poderia elaborar nos fatores ambientais e genéticos, mas não pretendo o fazer, tome apenas minha palavra.
—Claro, eu não ia entender, mas eu tenho outra pergunta... o que essa condição faz exatamente?
—A pessoa perde a capacidade de discernir tons parecidos, objetos de cores próximas parecem se “juntar” e os detalhes que os diferenciam se perdem.
“Será que minhas roupas se misturaram com a parede...? Pelo o que ela diz, deve ter sido isso”
—Por que você está aqui, aqui mesmo? Não que não saiba já.
—É outra consulta sobre aquele problema, vou precisar dizer todas as vezes?
—Essa vai ser a última. Se sente, por favor.
O ar, claramente, era mais frio ainda, sei que precisam manter uma temperatura controlada por causa de remédios e outras... razões médicas.
Mas já tinha ido para outros hospitais, tem outro na cidade e já visitei outros pelo mundo, por curiosidade apenas. Nada era tão denso assim, parecia que as paredes que estavam congelando o ar, se mover por lá era difícil, me deixava ofegante só andar de um lado para o outro.
Vendo mais de perto a mesa da doutora, tinham livros, telas e gavetas, além de alguns instrumentos médicos bem sofisticados que só vi neste lugar até agora, a única coisa que podia apontar com certeza o uso era a tela por cima da mesa, que uma vez foi usada para iluminar um raio-X, por mais que não tenho como afirmar que não existem outras funções.
E na direita estava uma cama, normalmente eu sentava nela para a consulta, e o fiz também dessa vez. Não sentia que isso deixaria respirar nem um pouco mais fácil, no entanto.
Kutt Sinclair dava passos rápidos, seus saltos fazendo barulho um após o outro, ela sentou na sua cadeira e cruzou as pernas, como sempre, de forma extravagante.
—Antes de tudo, como sua condição está desde a última visita? Alguma mudança notável?
—Bem, acho que está ficando um pouco mais constante, mais forte, estou ainda conseguindo me adaptar a essa evolução, mas...
—É o que imaginei, vou precisar dar um passo a mais então.
Ela girou a cadeira e abriu uma espécie de geladeira, tinha muitos frascos, tubos de ensaio e aparatos de laboratório.
—Você não disse que não tinha nenhum remédio para tratar isso? Qual o...
—Também, também, essa aceleração, em parte, se deve a seus hábitos perigosos, hemorragia de classe II, traumatismo craniano, etc, etc. Isso certamente está agravando o quadro, por isso...
Ela alcançou algo, imediatamente o puxou, se voltou para mim pôs o frasco sobre a mesa.
Um frasco com algumas pílulas brancas, acho que quatro delas.
—Sua condição afeta direta e indiretamente vários órgãos, os pulmões, coração, além de sistemas inteiros, como o sistema vestibular, nervoso e articular, os sintomas são variados, aceleração ou diminuição do ritmo cardíaco e respiratório, perca parcial ou total dos sentidos, incluindo o principal de desequilíbrio intenso além da desregulação de todos os sistemas afetados logo após.
—Isso faz parecer algo bem pior... eu ainda consigo correr e tudo mesmo numa crise, ou “ataque” não sei como você chama aquilo.
—Por que não é como descrevo? É isso que você tem de se perguntar.
—Err... isso não é meu papel, não...
—Seu ritmo respiratório e cardíaco, além de taxa de multiplicação de células é simplesmente fantástica, aquela hemorragia que para você foi apenas de classe II, ainda perigoso, mas nada comparado ao o que aconteceria com uma pessoa normal de seu peso e estatura.
—O que tem minha estatura?!
—Hum... nada em especial na verdade, por quê?
—Continue...
“Por um momento pensei que ela tinha percebido também, nesse caso minhas tentativas de esconder realmente teriam sido fúteis”
—Sim, serei direta. Uma pessoa normal teria morrido instantaneamente, mas você se levantou e voltou a andar de bicicleta como se tivesse se cortado numa arvore, perdeu ainda mais sangue depois, mas naquele ponto creio, creio que seu corpo tinha reposto tudo que foi perdido, se não creio que até você teria morrido.
—Não fale da minha morte como se eu pudesse só cair morto repentinamente...
—É uma possibilidade certamente, mas não se preocupe, não é algo que esteja em meu interesse, por mais que a autopsia me interesse, é quase certo que não poderia entender como seus processos biológicos trabalham se eles não funcionassem.
—Por esses motivos que tento não parar nessa clínica...
—Não se preocupe, queria fazer alguns experimentos em você, deveria lhe cortar e pegar um pouco de pele e sangue para descobrir como seu corpo funciona, entretanto, o juramento me impede...
“Juramento... eles falaram disso antes”
—Juramento? Qual juramento mesmo?
—O juramento de Hipócrates. Ele consiste em várias éticas para execução da medicina profissional, é tradicional que médicos o façam depois da graduação.
Aquilo tinha sido diferente, deve ser óbvio que nem sempre ela responde minhas perguntas, em vez disso só fica falando o que acha relevante, enquanto tento buscar minhas respostas sozinho, mas com aquela pergunta...
Uma resposta clara me veio, facilmente...
—E o que ele diz?
—Ainda bem que perguntou, tenho a versão que recitei decorada, aqui vai...
—Estou esperando...
Kutt tomou mais um segundo de olhos fechados, então começou a recitar, sentença por sentença em um único tom, com as mãos fazendo uma esfera e erguidas no ar.
—“Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade. Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos. Exercerei a minha arte com consciência e dignidade. A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação. Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado. Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica. Os meus Colegas serão meus irmãos. Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente. Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade. Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra”
Foi uma afirmação recitada com certeza, acharia bonito normalmente, não sou especialmente bondoso, porém a bondade de outras pessoas me fascina as vezes, esse código parecia infalível, consolidava o papel dos médicos na sociedade, pessoas que salvam vidas.
Mas... o que ela falou antes...
Em algum ponto, ela quebrou esse juramento, mas como...?
—Arg... isso é interessante, mas o que é esse frasco?...
—Pelo momento, não devo dizer, antes preciso que faça 3 promessas para usar esse medicamento, pode fazê-las?
—Sim... claro, não deve ser difícil.
Pensava isso honestamente, não tinha considerado se poderia cumprir as promessas se elas fossem difíceis, porém, agora havia dado minha palavra, ela começou:
—Primeiro, apenas use isso quando sentir algum dos sintomas, e em mais nenhuma outra ocasião.
—Certo. O que isso faz afinal?
—Segundo, guarde isso com cuidado, não o perca e não deixe o frasco quebrar. Muito menos deixe outra pessoa tomar posse disso.
—Por que...?
—Apenas dê sua palavra, sim ou não.
—Então... sim, garanto que não vou perder isso, ou deixar ninguém mais encostar nele.
—Terceiro, lembre o que isso é, um remédio para curar uma condição, não é um energético, nada assim, não é sobre ir a 200, é sobre continuar em 100, plena capacidade e não mais.
—Eu vou. Não é como se precisasse ficar muito mais forte ou rápido.
—Todo seu. Depois de usá-lo, poderia vir de volta? Isso também é de suma importância.
—Certamente, doutora Kutt.
—Agora preciso explicar para você como isso funciona, começando por...
Fiz o que pude para prestar atenção naquele longo monologo sobre como o remédio funcionaria.
Porém não lembrei de tudo, nem de longe o suficiente para escrever aqui.
A doutora devia ter imaginado essa cena, por isso ela me deu um papel dando os básicos de como isso funciona.
Ela entrou em longos detalhes dos efeitos, porém o importante é que isso vai deixar meu corpo em alerta por uma hora, uma crise será respondida com vários efeitos “interessantes” e ela espera que esses efeitos anulem os problemas da minha condição.
Caso ache adequado acabar com o efeito antes, para ele não ativar por uma crise sem motivo, ela disse que tomar refrigerante deveria acabar com o efeito.
—Sempre devo tomar somente uma pílula, nem mais nem menos... essas anotações realmente ajudaram.
Me incomoda como tomar refrigerante ser a solução para acabar com o efeito, pois ela mesma me disse antes. e depois confirmei, ingerir açúcar aumenta a frequência dessas crises em proporções impressionantes.
“Isso vai ser muito útil amanhã, que sorte a minha de ter caído da escada”
Esse pensamento otimista estava funcionando, ele mascarava minha preocupação sobre aquele homem falando sobre um juramento quebrado.
“Será que ele é algum tipo de criminoso? Se ele for sair da cidade agora é bem ruim, mas... o Nacrit deve cuidar disso melhor do que eu”
Por preocupação, durante a noite preparei uma carta e arranjei alguns métodos diversos para que Nacrit a achasse, apenas ele, eram informações vagas, sim, mas ele deveria conseguir fazer uso delas.
Dia 12 de maio.
O motivo de não ter feito mais nada no dia seguinte foi por ter o usado para me preparar, fisicamente, mentalmente e espiritualmente para o dia de hoje, preparar as malas, imaginar o que veria lá e tudo o que poderia acontecer apenas lá.
Assim, pelo conflito de horário almocei bem mais cedo, usei o meu melhor shampoo e assim, ao meio dia pelo horário local, todos da banda tinham se reunido na frente do ostium da cidade.
—Ritte, Queen, Roi, Une, sim! Todos presentes, bem melhor do que imaginei.
—Poderia ter sido pior? Sendo um pouco mais realista...
Ritte quem fez essa consideração moderada.
E com isso, finalmente chegou a hora.
—AVANTE!
E nós estávamos cada vez mais próximos de termos a vida terminada, uma aventura tomando seu lugar, porém foi uma jornada totalmente diferente do que esperava.
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