Ostium: Diamond
3 Capítulo 3
Capítulo 3
Contagem Regressiva
Dia 4 de maio.
Une, Ritte e claro, eu, os três mosqueteiros tinham acabado de executar a justiça.
Não justiça realmente, só uma vingança estupida, mas ainda assim, podia sentir algum orgulho do que tinha feito. Consigo imaginar o quão repulsivo isso é vindo do filho de um policial, mas o tempo que tinha para mudar de ideia acabou. O que está feito, foi feito.
—Hahaha! Aquilo foi um saque! Nós fomos como piratas, fomos melhores que eles!
—Mary, cesser! Alguém pode acabar nos ouvindo...
A Une estava comemorando nossa vitória, rindo e contando sobre essa estranha superioridade que dizíamos ter, enquanto caminhávamos um curto pedaço do caminho a pé, Ritte, felizmente ainda não tinha cedido a isso
—Ritte tem razão, não seja tão convencida assim.
—Hum... certo...
Ela parecia não realmente ter sentindo frustração pela voz que ouvi, mas seu corpo fingiu estar.
—Mas em... Ritte trouxe muita coisa, eu admito que corri para sessão com o que gostava mais, mesmo sendo a opção menos eficiente.
—O importante é termos fugido a tempo.
Ele, o Ritte era como o chefe de operações, apenas os resultados importavam.
Nós três, sem problemas, voltamos a caverna.
Enquanto colocávamos as bicicletas dentro da caverna e jogávamos aquele “saque” pelo chão, tentando nos livrar daquele peso, quando a Une falou, trazendo um possível problema...
—Ei, ei, Jack, onde vamos esconder tudo isso? Como é o resto do plano de vocês?
“Será que uma invenção dela resolveria isso...? Não, ela só soube disso a alguns... três dias”
—No esconderijo, levar para casa seria um grande risco.
—Mas é sobre as duas, como vamos esconder delas?
Respondi sem pensar e como era mais ou menos normal, alguém, nesse caso a Une, apontou uma falha na minha lógica. A Franziska jamais aceitaria um ato criminoso, ela provavelmente deixaria de me olhar nos olhos depois disso. E a Roi... eu nem quero imaginar, provavelmente teríamos uma inimizada muito pior do que a de alguns anos atrás.
—Ritte, o que você acha?
Olhei para ele, pois se havia alguém com a solução, só poderia ser o Ritte, apesar de que quando olhei para ele... vi os seus olhos abrirem e escurecerem ao mesmo tempo.
—Não pensei nisso...
Então, começou uma frenética troca de ideias para nos salvar.
—Ritte!... Tem condição de comermos tudo isso ainda hoje!?
—Zut! Não tem nem chance, tudo junto deve dar uns... trinta quilos!? Como você carregou tudo isso!?
—Arg... vamos pensar... sim! E se doássemos para caridade? Usamos um ostium e levamos tudo, assim nos livramos dessa e ainda fazemos uma boa ação, todo mundo ganha!
—Jack, eu acho que não pensou a fundo nisso, podemos ter acabado de roubar uma loja, mas não acredito essa ideia de entreçar* bens roubados para pessoas inocentes seja o seu estilo.
—Quando você fala assim...
Realmente. Em mim ouvia que isso passaria das minhas próprias linhas de certo e errado. Era uma linha torta e iníqua, porém uma a qual seguia sempre.
—É verdade... alguma outra ideia, Ritte?
Ritte olhou para o lado de fora alguns segundos, como se esperasse que nas estrelas tivesse escrito a resposta, então...
—Pan! Tive uma ideia! Me esperem aqui! Jack, também vou com sua bicicleta, ela é mais rápida.
Ele se virou, suas palavras condizendo perfeitamente com sua expressão.
—Claro, mas nem pense em deixar ela suja.
Ritte disparou para fora da caverna, tomou minha bicicleta e pedalou para longe.
“Apesar que... por que ele não me deixou fazer isso? Eu provavelmente chegaria bem mais rápido que ele... deve ter algum motivo, provavelmente”
—Você podia ter dito algo, Une.
Portanto, só tínhamos nós dois lá, apenas cinco pessoas sabiam da caverna, nosso esconderijo, então quando os outros três não estivessem, ninguém mais apareceria.
—Eu não. Quando vocês fazem um plano juntos, eventualmente a solução chega, não preciso me dar o trabalho.
—Não sou bem a melhor pessoa para fazer essas perguntas, mas você não se esforça em nada fora seus inventos?
A Une parecia estar mexendo com alguns parafusos na mesa dela, só podia ver seus cabelos de cor estranha balançando, junto do perfil de seu rosto.
—Meu talento é apenas esse. Qualquer outra coisa é uma perda de tempo.
—Hum... talento...
“Não é como se fosse um problema, com a sucata que trouxe ela fez 20 daqueles inventos”
—Quais são os seus talentos, Jack?
—Você não ouviu? Eu sempre conto essa história de como aprendi a tocar guitarra.
A peguei e comecei a fazer uma melodia, a primeira melodia que tentei executar, era bem leve e mal ecoava pelas paredes da caverna, eu gostava bastante dela.
—A única coisa que me lembro é o nome dela, “Charlotte” antes de contar essa história, conte de onde esse nome veio.
Ela parou de mexer com parafusos e circuitos quando ouviu o som de quase-música, então me olhou, olhou para a guitarra que chamo de Charlotte.
—Não sei. Quando peguei a guitarra pela primeira vez... toquei alguns acordes, continuei assim e toquei por uma noite inteira, no dia seguinte tinha ficado tão bom quando agora, um ano em uma noite.
—Como isso aconteceu?
—Bem... não adiantaria contar. Você gosta de teorias da conspiração que envolvam ciência, aliens e tudo, acho que sei o que houve naquela noite, porém para você não passaria de uma invenção boba, a imaginação de uma criança suprindo os buracos do seu conhecimento, justificando o que ela não entende.
—Ah, Jack, adoro como você filtra nossas conversas para só incluir o que me interesso.
Ela tinha se virado novamente depois desse comentário que quase soou maldoso, mas vindo dela... não sentia hostilidade.
—Mas bem, o que houve naquela noite, comigo, pode ser isso, talento, não é?
Aquela palavra, exatamente a palavra “talento” pareceu ressoar diferente, ela ecoava mais por aquela caverna apertada onde nos escondíamos, se repetia mais do que as outras, parecia ser reconhecida, sua importância e poder...
—Me parece, assim que tiver um tempo vou pensar um pouco nisso, neurologia não é minha área, não uso jaquetas, nem óculos.
—Qual a ligação?
—É assim que visualizo uma neurologista, uma mulher muito bonita, parece nova mesmo sem usar maquiagem e tem esse estilo “cientifico” e você não acha o mesmo?
—Isso é muito, muito especifico... não perguntarei ainda mais para não lhe incomodar.
Melhor dizendo, eu preferi não entender como ela poderia inferir que toda neurologista teria esse visual tão especifico, até me perturbou um pouco.
—Não pense assim. Me incomode o quanto quiser.
A Une respondeu, antes de voltar a ter todo seu foco para um novo invento.
Ritte não demorou muito mais, ele realmente tinha achado uma solução. Não posso entrar em detalhes porque ele não é bom em explicar, mas na prática nós só levamos tudo para outra caverna e escondemos lá. De alguma forma poderíamos fazer minha ideia de Robin Hood funcionar com isso, mas por enquanto ficaria por lá.
Une foi para casa depois disso.
Enquanto eu voltei para o esconderijo, com o Ritte.
—Essa foi por pouco...
Nós sentamos nos dois sofás que carregamos ao esconderijo, falei isso, pensando o que faria sem o plano do Ritte.
—Jack, não devíamos deichá* as duas saberem disso? Ajo* que elas deviam saber, ainda mais depois de amanhã, seremos um grupo 100% oficial.
—Sem chance, a Roi não vai gostar nada, ela pode ser mal-encarada, mas odeia criminosos, além do mais importante...!
—O que?
—Onde que a Franziska, uma estudante exemplar da ala principal, uma princesa loira vindo de um conto de fadas, como eu posso querer ficar perto dela se descobrisse que eu roubo lojas e ainda fico orgulhoso?!!? Isso seria o meu fim, entendeu?!
—Ah... certo, vou deixar dessa vez.
Ele se inclinou mais, olhando para cima, para as partes escuras da caverna. Naquela hora da noite nossa única iluminação era uma vela entre nós dois, em uma mesa.
—Bom ponto. Não é hoje um dia para pensar nisso.
Ainda tive de voltar para casa naquela noite, eu dormi o quanto podia, mas ao acordar...
Dia 5 de maio.
“Melhor não sair hoje. Mesmo que o mês mal tenha começado, eu vou deixar o tempo passar, posso pedir para o Ritte resumir o que houve mais tarde”
Fiquei alguns minutos olhando a cidade pela minha janela, tendo então vagas lembranças do que houve no passado, pois isso iria impactar o meu presente.
Ainda mais do que imaginava, isso é.
Mais ou menos 1 ano atrás, nós resolvemos começar a banda, assim nos dividimos.
01, eu, todos disseram que a banda só existe por minha causa, assim sou 01, guitarrista e vocal de apoio.
02, Ritte, ganhei ao direito de escolher os números, por isso ele seria 02, baixista e vocal de apoio.
03, Franziska, porque vem depois do 2 e... só isso, ela é a vocalista de verdade.
05, Roi, tendo o poder de escolher os números, apenas usei primos, Roi é nossa baterista, a melhor do mundo, isso digo sem culpa.
07, Une, números primos me chamam atenção, misteriosamente, Une é nossa técnica de efeitos e tecladista.
E bem, amanhã vamos para outro festival e nos apresentar, não acontece tanto assim, mas é muito divertido, provavelmente minhas melhores memorias vem desses festivais locais.
Horas depois:
Tinha saído de casa, na bicicleta eu pedalava, deixando distrações irem com o vento, fazendo meu caminho para o único lugar que podia ir num dia como aquele, àquela hora da manhã.
Em um dia nublado, no distrito comercial, mas afastado de todas as outras lojas comuns, as que sequer abriram ainda. Do lado de fora não passava de uma casa normal, pequena e parecia ser bem apertada.
Não tinha vitrines ou placas, mas aquilo era uma loja, qualquer pessoa pode fazer como fiz:
Mexi a maçaneta, empurrei e pôs um pé após o outro dentro, não precisei de um convite, não estava cometendo nenhum crime, fiz exatamente o esperado.
O interior parecia o olho de um furacão.
Bonecos, armas falsas, peças de computador, metais, joias, malas, cadeiras, mesas, olhos de vidro, frutas, sapatos, chapéus.
Qualquer coisa.
Tudo espalhado pelo chão, pelo teto, presos em cordas, nas paredes tudo parecia flutuar por mágica.
—Tudo aqui está à venda, pelo preço certo.
Ele disse seu bordão, como sempre. O homem que apesar de ter tantas responsabilidades, sempre estava na frente do balcão quando eu chegava.
Tentei achar algo que me interessasse, ponderando como responderia.
“Não tem nada tão legal... será que devo? ”
—Até a sua vida? Até sua felicidade?
Contei o código secreto.
—Bem-vindo novamente.
Imen foi para o fundo da loja, segui ele, passei pelo balcão e cheguei numa parede.
Ela se abriu, era uma porta disfarçada.
Lá dentro era uma visão do submundo.
Homens de chapéu e sobretudo, armas de fogo postas sobre a mesa, cartas de baralho, garrafas vazias e o forte cheiro de álcool.
Um único pianista tentando apaziguar aquele pedaço de mundo.
Os dois homens, de etnias totalmente diferentes, antes conversando, me encararam com desconfiança.
—Ei! Não se preocupem. Ele não tem nada com vocês, continuem o negócio.
Imen me levou para o bar.
Enquanto caminhava, eu percebi que os dois realmente tinham feito como dito, eles pareceram ter esquecido por completo da minha presença, voltando a conversar sobre algo em uma língua que eu sequer consegui identificar, muito menos entender.
Me sentei, era desconfortável e tudo parecia prestes a desmoronar. Aquele lugar não fazia o meu estilo.
—Tem suco de uva?
—Claro.
Ele puxou uma garrafa de vinho do balcão.
—Já falei que isso não é tão engraçado. Só me dê o suco, você sabe que é minha bebida favorita.
—Não seja ingrato. Estava te dando um dos bons.
Ele guardou a garrafa e botou um copo de vidro na mesa, cheio de suco de uva.
—Só me irrita questionar se você faz isso por hábito ou é de propósito.
—Quase tudo que faço tem um propósito. E você? O que faz por aqui?
—Só checando se você ainda estava vivo.
Mesmo enquanto ele olhava para baixo, ainda conseguiu me lançar um olhar afiado.
—Aqui estou. Já pode ir.
—Nada aconteceu? Faz um mês desde minha visita.
—O que talvez haja ocorrido não é de seu interesse, nada para você se preocupar.
—Sei, esse é parte do seu estilo, não há suborno que lhe mova.
—É assim que tento pensar, você sabe por que estou aqui: Manter o equilíbrio. Sem mim essa cidade não seria tão calma, ninguém aqui é roubado ou assassinado, não há contrabando, todos aqui são do bem, sabe o porquê faço tudo isso? Porque eu amo essa cidade, simples assim, nasci, cresci e morrerei aqui. E por isso preciso manter o equilíbrio, proteger os estudantes, trabalhadores, crianças, idosos. Qualquer um que more nessa cidade está sob minha proteção.
—E por que você está contando tudo isso uma segunda vez?
—Para fazer um ponto. Quem ameaçar esse equilíbrio, não será perdoado.
Imen olhou ao redor.
—Ou seja...?
—Qual seu nome de novo? Desculpe a minha repetição.
Ele jogou um revolver sobre a mesa.
—Jack...
“Jack Delsteen...”
—Essa noite, quando imagino que as crianças deviam estar dormindo, houve um roubo a uma pequena loja, ninguém se feriu, mas os criminosos fugiram com muita coisa.
—Não estava sabendo, acordei a pouco, fui andar de bicicleta e passei por aqui.
—Matou aula de novo?
—Sim, algum problema?
—Claro que não, isso é problema seu, mas... esse furto de hoje é problema de toda a cidade, por consequência, um problema meu.
Ele puxou um isqueiro, como sempre, ele estava tentando acende-lo, mas por alguma razão nunca o vi conseguir. As faíscam se espalhavam e tiques eram ouvidos, mas nenhum fogo saia.
—Vai procurar o culpado?
Perguntei, após afastar a arma do copo e tomar um gole.
—Talvez já tenha o achado.
—Você não gosta de enrolar, ou fazer enigmas. Isso é uma acusação, não é?
—Exatamente, esse tipo de conversa realmente não faz o meu estilo, então, foi você, Jack?
—Não, estava planejando isso para o fim da semana, mas vou deixar para lá agora que alguém fez antes de mim.
—Hum, ainda bem. Admito que estava torcendo para ouvir isso, é um alivio.
Ele guardou o isqueiro e guardou a arma consigo novamente, até agora seu rosto tenso e olhar focado se foram, ele desfocou, seu pescoço pendeu um pouco e sua expressão tornou-se leve.
—Nunca imaginei que você teria uma boa visão de mim. O que eu falei não é um problema também...?
—Jack, esse nome não é comum por aqui, portanto irei levantar um proverbio que veio da sua terra, era algo como... “A estrada para o inferno é construída com boas intenções” o que ela significa?
—Err... eu não tenho certeza...
—Claro, é um provérbio, então o que você acha? Para você apenas, qual seria o significado?
—Boas intenções não são suficientes, se você nunca agir sob elas, só poderá ir para o inferno.
—Da mesma forma, para ir ao inferno más intenções não são suficientes, não acha?
—Algo nisso soa bem errado, se me permite...
—Bingo. Você tem estudado ultimamente? Parece esperto agora.
Nacrit falou isso, sentando e se servindo de uma espécie de cantil do seu bolso, como o de um soldado, notei, porém apenas em forma, não conseguia imaginar ele estando no exército, ainda menos o ver carregando uma memória como essa consigo.
Esse era Imen Nacrit, o mediador. Ele mantém o equilíbrio do submundo, mais especificamente ele o redireciona, todo acordo que desfavorecer a cidade é inaceitável, quem ir contra ele não dura muito, acho que ele não opera sozinho.
Não parecia perigoso, ele se vestia desleixadamente, com camisas mal abotoadas, sem manga e calças que me lembravam das de um soldado, também, mas isso não era evidência alguma.
Apesar de que o cabelo dele era bem anormal, pelo menos para um homem de meia idade, a forma como a gravidade parecia funcionar em reverso para o cabelo dele, era bem estranho.
“Será que significa alguma coisa? ”
Nacrit diz ser o real motivo da escola ter sido construída aqui, mais especificamente ele diz ser a causa e a consequência ao mesmo tempo.
Não creio que a punição extrema esteja fora do que ele se dispõe a fazer pela cidade.
Ainda assim, não tenho certeza, achei o lugar por acidente, falei o código pois era a letra da música que estava pensando no dia, isso foi a uns 8 meses.
E desse dia em diante, ocasionalmente vou para o canto, não posso dizer que sei muito.
O passado de Imen, seu objetivo, seu caráter.
Por mais que sinta vontade de vê-lo como um dos mocinhos, não tenho nada para provar isso.
—E... sobre o festival de amanhã? Se me pegarem entrando de fininho você me cobriria? Eu gostaria de ir assistir vocês.
—Você não vai, mas se seu irmão gêmeo for, eu cobriria ele.
—Devia me deixar mudar o clima. Não vou continuar dando essas lições por hoje, mas foi bom você ter ouvido com tanta atenção, eu prometo. E minhas promessas são minhas posses mais valiosas.
—Lições? Você só estava falando sobre provérbios outra vez.
—Siga as placas. Elas vão te mostrar o caminho.
Não havia placas em lugar nenhum.
Vi que ele não tinha mais tempo para matar comigo, então me levantei, olhando ao redor procurando alguma placa, mas, não havia nada assim.
“Mentir foi tão fácil... chega a ser estranho” Pensei enquanto saia da loja e subia em minha bicicleta.
Ainda lembro o que tinha em mente quando decide mentir “se ele cair, nada acontece comigo, é só mentir” por isso não tremi ou suei, apenas deixei a fabricação rolar pela minha língua.
Voltei para casa.
—Hum... você está...
—Você também. Isso é uma grande coincidência.
—Mas... como? Pensei que a cidade iria cair aos pedaços se você faltasse um dia sequer.
—Ganhamos alguns novatos, daqui para frente vou poder pegar um pouco mais leve.
—Entendi.
—Também, não é como se eu fizesse muito, essa é a cidade mais pacifica do mundo. Meu trabalho é mais uma formalidade.
—Formalidades não são importantes? Isso não parece algo que você diria?
—Importam. Porém isso quer dizer que qualquer um pode tomar o meu posto.
—Hum. Certo.
O homem alto, cabelos que deviam ter sidos de outra cor a alguns anos e a pele num tom marrom, nada parecido comigo, “senhor Delsteen”, esse é o meu pai.
—Jack, você ainda está praticando com a guitarra?
—Sim.
“De tudo que faço, a única coisa que ele valoriza acima dos estudos é a música”
—Pai, por que você me deu aquela guitarra, melhor, por que me deixou ficar com ela?
—Boa hora. Já devia ter dito algumas coisas assim para você...
—O que então?...
—A sua mãe, era dela, na primeira vez que nos vimos, ela estava com aquela guitarra nas mãos. Foi em um festival local, mas não nessa cidade, estava mais perto de onde você nasceu.
Depois de falar isso, ele voltou a pressionar botões em uma espécie de computador, ele nunca me deixou o usar, então imagino que tenha algo com a polícia.
—Entendi.
Apesar de não saber nada daquele homem de cabelo esquisito, o que é isso próximo de não conhecer a própria mãe?
Não sei seu nome fora o que ela recebeu do meu pai “Delsteen”, não sei sua profissão, sua idade, família, nacionalidade, sequer vi uma foto dela.
Mas seria errado perguntar mais.
Sinto que meu pai não quer contar o que houve, ele trabalha num ritmo infernal apenas por minha causa, serei grato a isso e não perguntarei mais nada.
Portanto, talvez ela tenha ido embora, talvez já tenha morrido, não sei e não busco saber.
“Até onde sei, tenho apenas um pai”
Não era bem o que queria ouvir antes do show, passei o resto do dia ensaiando minha parte para ter certeza que ia acertar, nada seria deixado para a sorte.
Dia 6 de maio.
Finalmente, o dia chegou.
Todos nós estávamos prontos.
Fantasias de bruxas, fantasmas e vampiros incluídas.
—Ritte, pronto para o show?
Eu perguntei, já com minha guitarra em mãos, nossa apresentação era bem no começo do festival, não havia conseguido me divertir de verdade, ainda não.
—Prêt à partir! Minha parte é fácil, só seguir seu ritmo.
—Gostou da fantasia de feiticeiro? Não sei se faz o seu estilo.
—Era a única opsão*. Não tem problema.
—Nós dois não tínhamos muita opção na verdade, as garotas foram quem escolheram mesmo...
—Sim, mas essas presas reais dão um toque bem...
—Macabro?
—Ia dizerre* maneiro.
—É... podia ser os dois.
“Minha opção realmente, realmente era um pouco limitada”
Nasci com essa condição, meus dentes caninos cresceram muito e num modelo afiado, assim como presas, eles também em especifico nunca caíram, nasci com presas permanentes por assim dizer.
Portanto só havia um papel para mim, um vampiro.
Ouvi o som como o de bater de asas, metal tremendo, um som que invocava a ideia da realidade se distorcendo, então uma chama seguida do cavalgar de um cavalo.
Era o sinal.
—Somos nós. Hora de ir.
O Ritte pegou seu instrumento, pôs o chapéu pontudo e ajeitou o manto.
—Vamos.
Todos entraram em posição, mais uma apresentação ia começar. Não pude evitar de sorrir bastante, pensar que minhas presas iriam parecer só uma decoração até deu a sensação de que estava fazendo algo errado.
As cortinas se levantaram. Uma visão me veio, com ela, uma voz:
“É aqui que tudo começa”
No dia, não pude entender o real significado daquela frase.
Fale com o autor