Capítulo 10

O Presente Amaldiçoado

Dia 22 de maio.

Apesar de ter dormido bem mais do que era meu normal, ainda estava um pouco cansado e dolorido ao acordar, olhando no espelho…

“Ainda estou coberto de cortes, sinto que há menos que do que antes, mas foram tantos que alguns a menos nem fez diferença”

E claro, ainda havia a marca de quando fui perfurado por aquela espada, não parecia bom mexer, por isso tentei ignorar a dor que sentia ocasionalmente quando me movia.

Olhei no meu relógio.

—Ainda posso chegar a tempo do Louis me deixar entrar na aula dele, ótimo.

Pôs o uniforme e desci as escadas, no dia anterior já havia explicado para o meu pai sobre o que houve, não tive como mentir graças a forma que desapareci, então falei como o Ritte foi capturado e tinha seguido os criminosos, os cortes não deixaram esconder que tinha lutado contra eles.

Apesar de perplexo no primeiro momento, ele disse que só importava que eu tinha voltado para casa e me deixou ir descansar, com apenas o aviso de que eventualmente teríamos de conversar outra vez sobre isso, no futuro.

“O que ele está esperando? Talvez esteja decepcionado que fiz isso logo depois do meu encontro… é realmente ruim, pensando bem”

Pensei nisso logo após deixar minha bicicleta do lado de fora da escola e atravessar a entrada.

—Jack!

Ouvi meu nome sendo chamado, porém era num tom que nunca havia ouvido antes, sequer reconheci de quem era a voz.

—Ah!

Era a Franziska, ela pulou em minha direção, eu acho que poderia ter caído de costas se não tivesse pensado rápido, apesar disso, um segundo depois ela me soltou e deu alguns passos para trás.

Pardon… você sumiu e... quando o Ritte voltou sem você, dizendo que não sabia onde você estava... realmente pensei que o pior poderia ter vindo...

“Ele sempre me salva, ainda bem que o Ritte só falou que não tinha me visto, em vez de eu ter sido capturado no lugar dele”

Dei um segundo para que eu respirasse e melhorar a minha postura.

—Saber que você se preocupou é muito bom para o meu coração, mas não foi nada demais, eu só…

—O que são esses cortes?

“Droga… meu rosto ficou realmente bem ruim durante aquela briga…”

—Ah… nem tudo foi exatamente como eu queria…

—Você... zut! Esses cortes nem foram tratados!? C'est parti! Nós vamos para enfermaria agora mesmo!

—Esper…

J'en peux plus!

Ela tinha usado tantas expressões, a ponto de eu sequer ter entendido essa ultima, então... fui levado de lá direto a enfermaria...

Talvez pudesse ter resistido, mas lembrei do que houve longo antes da minha perseguição.

“Posso usar isso para conversar um pouco vai ser a melhor oportunidade que vou ter hoje”

Enquanto caminhávamos pela escola, percebi o novo rumor entre sussurros, nada sobre os cortes que consegui nem a briga de alguns dias atrás.

—Você viu ontem? Parecia estar bem aqui…

Outras pessoas pareciam mencionar um nome.

—Donzela escura? É assim que vão chamar ela?

—Não sei… parece que ontem foi a primeira aparição, então…

“Estão falando daquilo que eu vi na última noite? Não foi um sonho então… quando eu estive descansado, posso tentar pedir ajuda e ir investigar com o resto da banda”

—Queen, você sabe algo sobre esse rumor?

—Rumor? Qual rumor?

—Hum… você não ouviu ninguém falar de uma mulher dançando em cima do sino dessa escola…?

—...?

Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, se eu não tinha ideia do que acontecia por ter chegado na cidade na ultima noite, ela simplesmente não parecia atenta a mistérios desse tipo...

—Talvez estivesse vendo coisas, mas… eu vi. Pelo menos acho que vi.

Enquanto tentava recobrar mais algo das minhas memorias...

Chegamos na enfermaria, a Franziska preparou alguns panos e bandagens, como sempre.

Me sentei para esperar.

—Você falou com os outros? Teisd* digo, desde aquele dia acho que a Une não dormiu direito tentado fazer algo que pudesse te detectar a distância.

—Foi?… Droga, só conseguia pensar em correr atrás dos bandidos e…

—Você não é bom em pensar no que não está na sua frente. Sei bem disso...

—Eu me repito bastante, não é? Espero que isso não tenha estragado o encontro para você, seria… não consigo nem arrumar alguém para culpar.

—Seu instinto de ir salvar pessoas faz parte de por que eu aceitei ir com você até lá, mas você não confia nos seus amigos?

—O que?

Quando ouvi aquilo, por instantes, minha mente entrou em uma espiral por onde cai e pensei.

“Será que… por que não confiaria neles? Eles são, bem, tudo, sem eles essa cidade não teria graça e essa cidade é tudo, por que…”

—Ah! Desculpe, eu acabei fazendo isso de novo…

“Foi só uma pergunta estranha dela? Não, dessa vez não”

—Não, eu também já disse que gosto disso em você, mas... acho que entendi... talvez.

—Sério?

Quando fui perguntado daquele jeito, assim que ela repentinamente se virou para mim novamente, eu percebi a verdade:

—Me diga exatamente, só para ter certeza…

Ela não fez uma expressão tão boa sobre isso, ainda assim:

—Imaginei que diria isso também. O que digo é que você precisa pedir ajuda dos outros, se mesmo dando 100% você não pode resolver o problema, peça para outra pessoa fazer o que você não pode. Especialmente, peça ajuda para nós… entende?

Com isso, não podia entender ainda, mas havia feito uma resolução para mim mesmo.

“Se algum deles precisasse de ajuda para dar uma surra em arruaceiros, eu daria tudo que tenho para ajudar, então, eu posso esperar o mesmo deles”

—Queen, não sei se foi isso que você quis dizer, mas talvez… “nós só podemos dar 100% quando fazemos algo por outra pessoa”? Essa frase soa familiar.

—Era o que estava esperando você entender desde o início, não foi essa um dos versos que nós improvisamos naquele show? Foi um pouco estranho perceber que você não parecia entender isso.

—Foi?! Ah… eu só esqueci o que vinha depois e cantei algo que pudesse encaixar na composição…

—Oh…! Foi isso...

Ela levantou as sobrancelhas em surpresa, uma expressão um pouco cômica, assim eu vi.

Bon! Agora por favor, puxe suas mangas, imagino que não seja só no rosto os cortes.

Puxei minhas duas mangas, a Franziska fez uma reação de surpresa de novo, mas prosseguiu como sempre.

Até que ela perguntou se tinha mais algum corte.

Também tive de mostrar o primeiro dos ferimentos que consegui naquela busca.

—…! Isso é ruim, como isso aconteceu?

—Lembra do corte em diagonal que consegui no navio? Foi a mesma pessoa…

—Esses outros cortes também?

—Sim, o ataque dela perdeu muito impacto quando consegui roubar a sua espada favorita, ao que parece…

—A cidade está com uma atmosfera mais pesada desde o ataque daqueles bandidos. Então acho que não a veremos tão cedo.

“Mas ela ainda está lá fora…”

Franziska passou outra faixa pelo meu abdômen, mais alguns curativos no meu rosto e falou que só isso seria suficiente.

—O sino vai tocar em um minuto, Queen, vá logo enquanto eu arrumo a enfermaria, é o mínimo que posso fazer.

—Obrigada, não corra quando for para a sala, você pode acabar de volta na enfermaria.

—Isso seria engraçado, mas… não iria gostar exatamente.

Ela saiu e em pouco tempo o sino tocou, tive de me atrasar um tanto para poder arrumar a enfermaria.

“Hora de ir receber um sermão do Louis…”

Abri a porta e lentamente caminhei, não tinha tanta disposição quando já estava atrasado, os corredores já estavam vazios também, até os delinquentes da minha sala resolveram chegar na hora naquele dia.

E me encontrei, ele já havia começado a aula quando entrei.

—Jack, creio que isso seja outro atraso para você.

Num instante toda a sala tinha voltado a atenção para mim.

—Desculpe professor, eu acabei dormindo mais do que o normal.

—Hum, bem, dessa vez eu não vou registrar nada, só estou grato que depois de dois dias você tenha voltado, agora… abram na página 31.

Apesar de ter sumido por um tempo e a história se espalhado tão rápido, fui ofuscado pela “bailarina do sino” que parecia ser outro nome dado a silhueta da noite anterior.

Mas não só isso.

“Não é como se alguém fosse perguntar abertamente o que aconteceu comigo, ou reconhecer minha existência… não fora dos meus cortes e hematomas que evidenciavam outra briga, ou claro, para me chamar a uma luta”

—Ritte, desculpa a demora, mas aqueles palhaços do instituto te trouxeram de volta? Sim?

—Jack… ainda bem que eles te resgataram também, mas sim, foi você que pediu ajuda a eles?

—Claro, duvido que teriam vindo de outra forma… alias, me empreste um dos seus livros, eu esqueci minha mochila hoje.

—Ah, toma.

Depois das aulas até houve alguns alunos que me perguntaram detalhes do que houve, eu disse a verdade apenas, que o Ritte foi levado por corsários e que eu os segui para o resgatar, não mencionei o instituto porque não havia motivo para essa menção a mais, também, num menor número, porque eles pareciam valorizar essa atitude de lutar pelas sombras, mesmo sem saber o motivo, respeitei esse estilo deles.

No intervalo eu resolvi procurar a Une também, porém lembrei que ela parecia ter ficado no esconderijo tentando me encontrar com dispositivos novos, nada disso valeria de algo agora, para que ela não perdesse mais tempo, pulei o muro, subi na minha bicicleta e pedalei o mais rápido que possível para a floresta.

As árvores atrapalhavam o caminho, mas parecia que estava mais fácil de fazer os desvios, meus reflexos um pouco melhores, eu não tenho certeza do motivo... talvez aquelas lutas tenham servido como um treino?

Cheguei no esconderijo, imediatamente notei a quantidade de tralha jogada pelo chão, tudo que reconhecia como peças que a Une usaria para criar algum dispositivo estranho.

“Droga… ela fez tudo isso?… Como posso justificar minha partida daquele jeito agora? Com isso…”

Tinha pensado que era melhor não fazer eles pensarem que estava em perigo, que apenas sumiria por alguns dias e voltaria em seguida como se nada tivesse acontecido, mas não era assim, ignorei essa noção simples e cometi esse erro.

—Ei, Une…

Vi ela no fundo da caverna, várias luzes ligadas e objetos que pareciam outras versões do rádio-estrela, o mesmo do navio.

Conforme me aproximava, percebi que minhas palavras não estavam alcançando-a, o foco que a permitia fazer objetos tão fantásticos era o que também a as vezes impediu de olhar da maneira certa para o resto do mundo, olha-lo sem filtros, por assim dizer.

—Une! Eu já cheguei!

As mãos dela pararam, assim como as pernas e bem… todo o corpo dela, a Une se virou para mim, os olhos dela tinham olheiras claras, já havia visto algo assim e podia imaginar que ela não havia dormido desde o dia que eu sumi.

“Olhando para isso, o resultado das minhas ações, eu posso dizer que não tenho culpa? Tenho direito de ignorar essa sensação pesando os meus ombros?”

—Jack…

A Une falou meu nome, a voz dela estava fraca, como se não a usasse por dias, notei como também estava pálida e a roupa cheia de manchas negras como de carvão e graxa.

—Desculpe, eu demorei muito, não foi…?

A culpa estava quase me fazendo cair de joelhos no chão, mas eu a encarei, ao menos manteria isso.

—AHHHH!!

Meu mundo girou um pouco depois que um golpe quase me nocauteou apenas pela surpresa.

Então vi como Une havia me agarrado, duma forma que não podia escapar, tinha caído no chão, poderia ter a levantado sem problema, mas… não tive sequer esse pensamento.

—Eu não sabia que ia te causar tantos problemas, eu prometo que vou avisar na próxima vez.

—!…

Une tinha lágrimas se formando nos cantos dos olhos e estava dando golpes fracos, levando a mão fechada no meu rosto, mas usar a frente da mão nunca ia machucar muito.

—Isso não vai acontecer de novo...

Depois de que isso ocorresse por algum tempo, ela estava cansada demais para continuar, nem mesmo tendo energia para ficar consciente, ela rolou para o lado e começou a dormir no chão.

A levantei e a carreguei para o sofá, sem esforço quase algum.

Enquanto ela dormia, pensei em como ela estava na banda…

“Une… ela encontrou nosso grupo pouco depois de nos formarmos, ela aprendeu a tocar o teclado bem rápido depois para se juntar a nós oficialmente, mas desde aquele dia Une fazia as máquinas para criar efeitos especiais”

E mais tarde, eu comecei a lembrar...

Apesar de estar do mesmo lado da escola que eu, o que percebi foram notas espetaculares, quase todas elas eram pontuações perfeitas.

“Como uma pessoa assim pode estar daquele lado? É verdade que ela falta muito mais do eu, porém ela claramente compensa isso, então… não é como se eu fosse descobrir só pensando”

Fui para um canto da caverna mais afastado da luz, tinha um peso enorme nas minhas costas.

“Isso é péssimo… eu sou horrível, preciso de alguma ajuda agora. Espero que ele não se incomode”

Fui para o meu telefone, passei por vários contatos, até chegar…

Apertei o botão para fazer a ligação.

—Alô, pai…

—Jack? Por que você está me ligando agora? Você foi para a escola?

—Err… sim, mas, não é isso… eu acabei fazendo uma garota chorar e… o que eu faço?

—Olha aqui…

Notei como o tom dele tinha mudado repentinamente, era assim que ele falava sobre algo sério.

—Eu vou te dar uma surra quando chegar ai, mas agora que você fez, fale o resto, foi com a filha dos Calevete?

—Não, não… foi outra…

—Jack. Você não tem saido com duas garotas ao mesmo tempo, não é?

—Não! Claro que não…

—Ótimo, foi por que você sumiu então, talvez eu reconsidere o golpe de karatê que ia testar em você, aliás, você já pediu desculpa também? Imagino que ter sumido sem avisar foi o problema, foi?

—Isso, eu já pedi desculpa e… tudo.

—Ótimo, isso já é meio caminho andado. Agora é a parte difícil, Jack, mostre como você está se sentindo agora, é importante ser sincero, não precisa ser exatamente com palavras, pode ser um gesto, uma ação, talvez um presente até… podia fazer uma música, não? Letras e boa composição.

—Eu não sou o vocalista principal… não sei se ia ser uma boa ideia.

—Só uma sugestão, você já tem alguma ideia?

—Er…

Me levantei, voltei para a sala principal da caverna, ela ainda estava dormindo, meu instrumento estava lá, mas…

—Não tem como, preciso de outra coisa.

—Bem, não posso exatamente ajudar, mas… normalmente a ideia é que você tenha o efeito de prometer nunca mais deixar isso acontecer, só falar não adianta porque você já quebrou a confiança dela, mas um ato ou gesto é inegável.

—Consegui…! Uma ideia me veio agora mesmo, eu vou fazer isso, nos falamos quando eu chegar em casa.

—Ótimo, se prepare…

Desliguei o telefone e minha ideia foi posta em prática de imediato.

O tempo passou, eu esperei até o anoitecer, liguei para o Ritte e para a Franziska, individualmente, pedi para que os dois não fossem ao esconderijo naquele dia.

Também liguei para a Roi.

—Desculpe por ter sumido, eu não vou fazer isso denovo.

Foi o que disse, o qual ela, brevemente, respondeu.

—O importante é você ter voltado. Amanhã tem algum tempo livre?

—Após a aula sempre é um tempo livre.

O qual então, ela desligou a ligação.

“Direto ao ponto, não posso culpar ninguém disso agora, especialmente depois de eu mesmo ter feito algo assim. Eu sou realmente estupido só de pensar nisso”

Após horas de espera, quando já batia a meia-noite, Une acordou.

Por minha parte, já estava com a vista cansada, talvez passar tanto tempo naquela caverna não fosse tão bom assim.

—Une…? Você já acordou?

—Jack?… Precisa de algo tão cedo assim?

—Ei, não é bem isso, você devia lembrar, eu sumi por 2 dias e três noites sem dar aviso algum. Este foi o que pensei como promessa para nunca mais o fazer.

—Ah… não foi um sonho…

Ela se levantou, indo direto para sua área de trabalho.

—Deve ser ai, eu peguei emprestado um pequeno disco, adivinhei que era um rastreador seu, ou algo parecido…

—Aquilo nunca aconteceu. A culpa é toda sua e você nunca vai falar disso para mais ninguém.

Não precisava nem encarar ela para entender o que queria dizer.

—Não é como se eu pudesse me sentir bem falando que fiz uma garota chorar… dizer isso só me faz questionar se posso ter um lugar no céu…

—O que você fez com meu rastreador? Cadê ele?

—Sendo um rastreador... achar ele deve ser fácil, né...?

Ouvi ela mexer em pilhas de metal e puxar um dispositivo especifico, então ligar ele.

Ela seguiu o rastreador, ele estava em minha direção, a menos de dois metros dela...

—No seu bolso?

—Prometi nunca deixar aquilo acontecer de novo, então…

Mostrei a cicatriz que tinha no meu abdômen, após apenas algumas horas, graças ao tratamento da Franziska, minha ferida já havia se fechado definitivamente.

—Eu consegui uma ferida bem ruim, ela ainda não está 100% tratada, por isso eu coloquei o rastreador dentro dela mais cedo, agora… não acho que posso tira-la.

—E o que isso importa? Idiota. Me deixe tirar isso…

Ela estendeu a mão, mas eu cobri minha ferida novamente.

—É uma garantia, nunca mais vou fazer isso, a partir de hoje eu irei confiar em vocês, 100%. Quero que isso sirva para mostrar que não tenho dúvidas disso. Se um dia você não achar mais necessário, deixarei que você mesma tire esse disco do meu corpo, mas até lá… ele continuará comigo.

—Hum…!

—…!

Fechei e espremi meus olhos enquanto esperava outro golpe dela.

—Há! Isso é tudo que você pode fazer, aprendiz? Levar consigo minha marca é apenas o mínimo esperado de alguém que ganhou a minha benção.

—…?

“Que jogo é esse agora?”

—Não faça esse rosto estupido! Agora vá embora, você ganhou os seus poderes e um perdão meu, agora saia da minha frente!

“Entendi apenas o suficiente!”

Me prostei ao chão e fiz uma reverência como num filme de artes marciais, especificamente, um que tinha visto a pouco mais de uma semana.

—Agradeço pelo treino, irei usar o que aprendi com absoluto cuidado daqui em diante.

Então me levantei e sai da caverna, peguei minha bicicleta…

“Ficar num cargo de servitude assim certamente não faz o meu estilo, dar ordens também não, claro, então devo funcionar melhor se trabalhar em níveis iguais, imagino?”

Desci a montanha então, sabendo bem para onde queria ir, e com o conhecimento que outra pessoa sabia tão bem quanto eu.

Cheguei em casa, deixei a bicicleta do lado de fora e subi os degraus para a porta.

Puxei a maçaneta e…

“Fechado… ele nunca tranca a porta até eu chegar então… deve ter ficado até tarde hoje…”

Tentei pegar a minha chave, porém notei então que além de livros, eu também guardava a chave na minha bolsa.

—…

Sem outra opção, eu subi num muro e dele pulei para uma arvore, descobri a vários anos que dela eu conseguia entrar no meu quarto.

Ela era bem forte e parecia suportar o meu peso como se fosse nada, mal balançava, fui de galho a galho, folha a folha, até alcançar a janela.

—1… 2… 3!

Pulei e consegui pousar com mais da metade do meu corpo para dentro da casa, depois de puxar um móvel que tinha perto da janela, terminei a minha escalada e invasão.

Mas logo antes de ir dormir, olhei para o lado de fora, para a janela.

E no sino, procurei alguma silhueta naquela direção…

Por um instante, para mim, apareceu aquilo novamente, a sombra de uma dançarina em meio à noite, a qual, um instante depois, não estava mais lá.

“Isso é até um pouco assustador, já comecei a ter alucinações também”

Por isso, me deitei e deixei pensamentos brancos vagarem até não conseguir sequer os manter em ordem, quando minha mente perdeu a concentração na realidade e cai para o sono.

Naquela noite, dormir foi bem mais difícil que o normal. Acordei algumas vezes no meio da noite e tentei olhar para a lua que não estava lá, então para as ruas da cidade, procurando alguém, porém elas eram vazias e ninguém passou por lá.

Enquanto olhava para a janela, em direção a lua, memórias me vieram, lentamente, outra realidade se sobrepôs à minha visão e o mundo tomou uma forma diferente.

“Onde estou?”

Me perguntei aquilo só por não estar acordando no meu quarto, como devia ser, porém, não devia me perguntar algo, nem perguntar a ninguém algo que já tivesse uma resposta, por que faria isso?

Tinha uma figura perto de mim, tão perto, mas numa distância incompreensível.

Era aquela silhueta negra novamente, a vilã, a capitã dos corsários.

—Óbvio, óbvio… você está sumindo, entendo isso, mas como? Esse ritmo em que te esqueço não devia ser possível, por que você pode fazer isso?

Estava a metros de mim, porém minhas palavras demorariam demais para alcança-la, uma eternidade, um tempo que se estenderia ao infinito.

“Óbvio, demorei demais para pensar nisso, ela já escapou, me lembro conscientemente dela, porém toda vez que lembro do rosto… apenas sombras cobrem a minha mente”

E sim, normalmente jamais daria importância a isso, porém se não lembro do rosto dela, posso ser atacado novamente, nem saberei como morri assim… minha prioridade mudou.

Dia 23 de maio.

Acordei um pouco atordoado em torno de uma hora antes da aula.

O meu sono tinha sido horrível, mas estava de volta na minha cama, talvez mais coisas tivessem sido minha imaginação do que dou crédito, ou…

“Hoje não é o meu dia de estudar… apesar que ontem eu já matei metade das aulas do dia, nesse ritmo não vou conseguir minhas férias”

Foi isso que pensei primeiro, não tinha porquê para resolver um problema enquanto acumulo outro.

Percebi que não tinha trocado o uniforme antes de dormir, isso deixou ele com uma aparência bem acabada, mas…

“Não tenho outro, acho que consigo passar um dia assim”

Peguei a mochila dessa vez, sair sem chaves poderia ser um problema se o fizesse duas vezes seguidas.

Quando desci…

“Ele ficou o dia inteiro no trabalho…? Será que algo tão ruim assim está acontecendo?”

Não tinha nada que pudesse fazer sobre isso ainda, eu assumi isso, então abri a porta, a tranquei e parti para a escola.

Já sentado na bicicleta, uma ideia me surgiu, com tanto tempo sobrando para chegar…

Puxei o telefone do bolso e passei por vários contatos, até a letra R…

—R… de Roi.

Ele tocou três vezes, entre essa e a próxima, o telefone foi atendido.

—Ei, Roi, você já tinha acordado?

—Não…

—Imaginei, mas você pode mudar um pouco os planos? Que tal se fossemos matar um pouco de aula hoje? Agora mesmo, sendo especifico.

—Venha, quanto tempo até você chegar?

—Err… em torno de 10 minutos…

—Ótimo, chegue quando achar melhor então.

Ela desligou o telefone, o guardei no bolso e relaxei minhas pernas.

—1… 2… já…!

Comecei a pedalar. Tinha ido para a casa da Roi algumas vezes, tinha uma noção bastante vaga do caminho, porém não tinha pressa ainda, iria levar o tempo que fosse necessário.

—Nesse momento o que mais me ajudaria era ter o número do Nacrit, poderia fazer umas perguntas, mas…

Ele não era alguém tão acessível assim. Colocando de maneira simples, não era alguém que pudesse depender.

Óbvio, um protetor da cidade, alguém como Imen Nacrit não poderia andar descuidado pelas ruas, talvez a atitude dele pareça de um adulto sem lugar no mundo, porém sei que ele não é só o que deixa passar.

“Será que ele fez algo sobre o rapto do Ritte enquanto estive fora? Sinto que tem algo estranho na cidade desde que cheguei”

O céu estava cinza como se uma placa de ferro cobrisse o mundo, era apenas um dia nublado, porém as montanhas... aquele céu fechado também, tudo não estava como antes.

“Essa é uma cidade bem fechada… como aqueles criminosos conseguiram entrar afinal? Talvez o Imen tenha sido traído?…”

Enquanto pedalava, resolvi usar esse tempo de forma eficiente, talvez para cumprir outra das minhas responsabilidades, a de tomar decisões corretas.

Por isso, por mais que não fosse do meu feitio, decidi rever tudo que houve até o momento.

“Então eu estava com minha banda…”

O show pareceu se repetir pela calçada, nós 5 no palco com fantasias e letras que haviam sido improvisadas.

“Depois, o caderno, então nós ficamos ricos e…”

Pelas ruas, ao meu lado, revi como estava me aproximando dos outros.

Vi a Roi na sua bicicleta ao meu lado, então estudando com a Franziska em um banco na calçada, dentro de uma loja, vendo o mais novo experimento da Une, na próxima, roubando a loja com ela e o Ritte.

“O navio então…”

Nós zarpamos e depois de encontrar os cinco à minha frente, prestes a colidirem na minha bicicleta, era o instituto.

Eles sumiram logo que os atravessei. Como nuvens, como… hologramas, talvez.

Dentro de um beco, lembrei de ter ido contra a sombra para salvar o Otsuka, mais ao fundo, outros corsários tentaram me interromper, porém, felizmente, sem sucesso.

Por alguma razão estava passando por um túnel, não um normal, um muito mal construído, parecia uma caverna mal escavada.

E nela, me vi tendo várias conversas sobre o futuro com os outros, meus aliados e o instituto. Espalhados pelas paredes das cavernas.

Próximo, achei o restaurante onde tinha ido ao encontro com a Franziska, mas ao avançar, notei o Ritte sendo levado, uma janela do restaurante estorou quando corri em direção dele, porém andando um passo por dois. Ou talvez dois por um?

Por fim, chegamos ao que acabou de acontecer, nem parece que foi a tão pouco tempo, porém lá estava eu, ou melhor, o carro autonomo ao meu lado, por lá ele deveria chegar a França.

No vidro, não um reflexo nem o interior, mas a batalha infinita que tive com aquela capitã dos corsários.

Por último, meu abdômen apitou, porém aqueles bipes contavam novamente o que disse para a Une depois da irresponsabilidade que cometi, os sons eletrônicos soavam como palavras de uma língua que só eu entenderia.

“Foi bastante coisa…”

Tinha chegado, mas não vi sinal da Roi.

Peguei meu telefone, liguei novamente.

—Alô? Roi? Eu já cheguei, não estou com pressa, mas não sei se ficar do lado de fora por tanto tempo é uma boa ideia… só uma impressão.

—Está certo.

Então ela desligou novamente.

“Falar com ela no telefone é algo que ainda não aprendi como lidar”

Olhei ao redor um pouco, procurando algo fora de lugar.

Na esquerda, a rua parecia se estender até o fim da cidade, não havia ninguém.

Na direita, a rua acabava logo ali, porém ainda não tinha ninguém.

Na minha frente, era como se as próprias construções dormissem, ninguém havia saído ainda.

—Bom dia Jack.

“O que? O que foi isso? Quem falou comigo?!”

O mundo desmoronou e percebi um único homem, de terno e segurando uma maleta passando pela rua.

Ele é o…

“O cara que nós importunamos no outro dia... perguntamos sobre...”

—Bom dia, senhor… está indo trabalhar já?

—Eu tive muita sorte desde aquele dia, ganhei uma promoção. Tem o problema de ter que trabalhar ao lado da fábrica de chocolates, mas é um trabalho quase sem esforço.

—Ah… alias, você não está sentindo algo estranho nessa rua? Parece ter… algo fora de lugar…

—Todo dia você está investigando algo novo é? Nisso, o que era aquilo no outro dia?

“Outro dia… espera, isso tudo começou com aquele homem alto e… o convite para o navio, nós fomos convidados para um navio que acabou sendo atacado… eu esqueci de tudo isso… nem parece que foi a menos de duas semanas”

—Ah… não importa mesmo, acho que você simplesmente é do tipo de pessoa que atrai problemas para si, então você só pode fazer o seu melhor para enfrentar seja lá o que vier. Eu só vou continuar indo para o meu trabalho, boa sorte.

“E sorte…”

Enquanto o homem sumia da minha visão, uma estrela cadente parecia brilhar por um instante sobre uma montanha no horizonte.

—Isso também aconteceu, eu fiz um desejo para uma estrela cadente… não lembro o que foi, mas… será que ele se realizou?

—Você fez um desejo?

A estrela se redirecionou para as montanhas e a visão que estava construindo se espatifou como vidro do horizonte.

—Ah!

“Tem alguém me chamando! Tem alguém me chamando!”

—Roi... não é uma boa ideia só aparecer assim. Estava... refletindo... sobre o último mês.

—Tentando ficar mais responsável? Ainda bem. Aceito sua intenção.

Meus olhos podiam estar me enganando, os resquícios do mundo da fantasia ainda poderiam estar lá, mas... pensei ter visto Roi sorrir. Mesmo que o canto da boca tivesse mexido levemente e as sobrancelhas ainda menos, vi aquele rosto monótono tantas vezes que nem saberia pronunciar o número, qualquer mudança seria a notícia do dia para mim.

—Iaha!! Isso é novo!

—Do que você está falando?

—...

Por só outro instante, deixei aquela imagem ser instaurada na minha mente, para não ser perdida tão cedo.

—Uau, nem pensei que você conseguia sorrir.

—Obrigada...?

—Não sei dizer se eu estava tentando fazer um elogio, mas pode ser também. Eu vou aceitar essa conclusão!

—Ok.

Ela logo encerrou a conversa, sem pestanejar, então foi a sua bicicleta, eu, claro, a segui pelo caminho. Viramos e viramos, viramos à direita mais algumas vezes, antes de ir a questão principal.

—Ei, Roi, eu sei que não é uma boa ideia, mas não iriamos fazer algo depois da aula, não pode ser agora?

—Não. Isso vai nos atrasar, só... vamos parar aqui antes de ir.

Paramos bem em frente de um lugar que nunca esperava ter de voltar.

“Essa loja de conveniência de novo... teve isso também, eu a roubei depois de... por que eu fiz isso mesmo? Será que era algo tão bobo a ponto de já ter esquecido?...”

—Por que aqui, Roi? Você vai comprar algo logo antes de irmos para escola?

—Sim.

—...O que?

Apesar de nada indicar, esperei que ela mesma terminasse a frase.

Quando tentei perguntar, por mais que as palavras saíssem, não conseguia mais focar na Roi, minha pergunta tinha sido perdida, comigo, indo em direção ao chão.

—Ah.

Roi deixou uma interjeição vazia, quase falsa, sair e num salto, cortou a nossa distância. Antes de cair, ela segurou meu corpo com os braços e deixou meu rosto sobre seu ombro.

—Ah... valeu... ah!

Quando minha força, voltou, me impulsionei de lá e voltei a ficar de pé com minhas próprias pernas, mas foi tanto que meu corpo continuou a ir para trás, dei mais alguns passos antes de quase cair de novo.

—O que... foi... isso?

Mais uma expressão que não via ela fazer todo dia, com os olhos um pouco cerrados e o nariz parecendo apontar exatamente contra mim.

—Não foi nada...! Só queria ver se seus reflexos estavam...

Quando iria deixar essa mentira deslizar pela minha garganta, foi como se tivesse ouvido o bipe, bipe vindo do meu abdômen.

“Eu prometi não fazer mais nada assim... melhor consertar isso logo”

—Entendi.

Roi se virou, indo para a loja.

Foi mais difícil do que pensei, mas eu a puxei pelo ombro e disse.

—Desculpa. Isso foi uma mentira, queria contar isso para você e para todos os outros, é importante.

—...

Agora as pálpebras tinham se levantado, era um estado de atenção, vendo de perto, os olhos dela até pareciam ter mudado de forma.

“Um gato...?”

Não. Deve ter sido minha imaginação, humanos não fazem como gatos... eu acho que não.

Sentamos na rua, bem em frente à loja que parecia ter aberto a pouco.

Pensei um pouco sobre o que ia ter de dizer, então levantei o meu indicador para dar o sinal que havia pensado.

—Antes de tudo, você só pode falar disso com os outros membros da banda, mais ninguém. Se quiser pode contar a eles também, mas ia gostar se eu mesmo contasse, porém... talvez não seja bem assim...

—Entendido.

“Como ela conseguiu entender? Nem eu entendi o que quis dizer...”

—Sim... é horrível dizer isso, eu ativamente escondi isso de vocês desde que nos conhecemos e sendo sincero... especialmente de você, Roi, de todas as pessoas que eu conheço, você é alguém que nunca queria que soubesse disso.

—Eu?... Exatamente eu...?

—Para que... não achasse que precisava me proteger, isso ia ferir meu orgulho e tudo, mas acho que poderia aguentar, porém meu desejo era continuarmos como igualmente capazes de nos defender de qualquer coisa que nos viesse.

Roi se aproximou, arrastando as pernas, então encostou a ponta do dedo no meu rosto. Exatamente onde ainda havia um dos cortes que consegui na luta contra a capitã.

—Não preciso te proteger.

—Espero que não deixe de pensar assim...

Pelo momento, ela ainda estava encarando o corte que havia conseguido.

—Mas indo ao ponto, desde que nasci eu tive uma espécie de... defeito, por isso as vezes... agora, meus músculos perdem força, minha visão fecha e meu senso de equilíbrio se perde. Acontece bastante, na verdade, especialmente se eu estiver fazendo algo que precise de esforço, ou quando tiver muito sol... a um tempo eu tenho ido a uma clínica da cidade para ter consultas e... tem más notícias.

—...

E ainda por agora, ela ainda apontava para meu corte.

—Quando era mais novo, isso nem era percebido, agora acontece bastante, mas isso vai continuar piorando, a doutora me disse que... se ela não conseguir uma cura, em mais alguns anos a frequência e a intensidade vai ser tanta que eu não vou mais poder andar ou me mover. Também parece que é um caso quase único então ela mesma teria que desenvolver a cura, portanto... ah! Não sei mais o que dizer!...

—...

Sem mover-se, ela continuou daquela forma.

—Mesmo sabendo que eu posso nem conseguir terminar uma faculdade, que as vezes posso simplesmente não conseguir mais lutar com você, ainda quer manter essa confiança?

—Isso não é nada para você, estou vendo alguém que já me surpreendeu vezes suficiente.

—Ah... era isso o que precisava ouvir, na verdade...

—Está sendo responsável... aprecio isso...

—Já pode me soltar, eu captei a mensagem. Vamos comprar o que for que você precisa aí.

Roi se levantou, ia tentar me levantar sozinho, mas ela ofereceu ajuda para isso.

—Já está zombando de mim? Eu não tenho esses problemas sempre, só as vezes, pelo menos por agora.

—...

Ela não recuou.

“Melhor só tomar o que ela faz como a exata intenção dela, funciona melhor assim”

Nós dois entramos na loja, olhei ao redor um pouco para ver e...

—Mais câmeras que da última vez, nós tínhamos lidado com elas de outra forma, mas acho que alguém fazendo um roubo menos evasivo teria problemas...

—Jack, você disse algo?

“Estava falando isso! Ela ouviu!”

—Depois falamos sobre isso.

—Vou lembrar.

Enquanto Roi procurava algo sem me dizer o que, estava olhando as prateleiras que ela passava pensando em apenas uma coisa.

“Será que tem algo que podia comprar para ela aqui? Não sei bem o que podia ser bom... talvez... melhor fazer uma busca mental...”

Tentei lembrar de tudo que via ela fazer, fora me levar para algum lugar ou me seguir a outro canto. Que servisse de dica para o presente que pudesse dar.

E enquanto passava por algumas revistas, algo clicou em mim e percebi.

“Lendo! Ela também as vezes estava lendo algumas histórias em quadrinhos bem antigas, as datas sempre eram perto de um século atrás, mas qualquer HQ antiga ia servir?...”

Era incerto se aquela revista que dizia trazer vários contos antigos iria servir de presente para ela, porém não lembro de ter certeza de nada a minha vida inteira, portanto tomar essa decisão foi fácil.

—Vou querer isso...

—3 Euros.

“Que barato. Pensei que podia até ser um pouco caro”

Joguei várias moedas no balcão sem pensar tanto.

—Roi, eu achei que você podia gostar disso, o que acha? Não deve ser um grande exemplar, mas é ao menos uma boa lembrança, sim?

—Oh. Isso é... deixa eu ver.

Ela puxou a revista da minha mão e a folheou velozmente, vendo menos de um quadro de todas as páginas em menos tempo do que um turno de xadrez.

—Bem... o que notou? Devia ter esperado para dar algo um pouco mais... especial, só que pareceu ser uma chance boa demais para deixar de lado.

—Jack, vamos.

Ela jogou mais várias notas no balcão, pegou um pacote com várias... pilhas?

Depois me arrastou para fora da loja, enquanto ainda folheava a revista velozmente, passando as páginas com apenas uma mão e terminando um conto a cada tique do relógio.

—Ei! Ei! Para onde estamos indo?! Para onde você ta me levando!?

Em uma volta completa do relógio, chegamos.

—Para a escola. Vou falar com você depois da aula.

Na escola, era lá onde tínhamos chegado.

“Isso foi muito rápido, nem percebi o caminho que fizemos... pelo menos cheguei cedo para variar, acho que o professor Louis não vai notar, mesmo assim...”

—Jack! Que surpresa te ver aqui antes da segunda aula, você adiantou o seu relógio? Qual erro te fez chegar aqui tão cedo?

Quando eu cheguei na sala, a única pessoa que ele interrompeu fui eu mesmo, ele havia notado.

—Isso não vai me encorajar a chegar cedo em, não reclame depois, agora a culpa é toda sua.

—Você está na minha sala, então a culpa é minha de qualquer maneira, portanto isso não muda demais a minha situação.

—É assim, é?... Vou logo para a sala, não dê uma aula muito difícil hoje, logo depois da aula eu prometi falar com a Roi.

—Logo depois do encontro com a Franziska... sabia que era um delinquente, mas não desse tipo...

—Ei! Você sabe que eu nunca faria isso. A Roi... é diferente da Queen, ok?

—Pensando bem, você usa esses apelidos com todo mundo, mas gostei da forma que você pronuncia o nome da Roy, é um pouco menos direto do que o seu apelido para a Franziska.

—Sim... eu havia falado errado e... depois “daquilo” eu tentei falar do jeito certo, mas... quando ela me perguntou o motivo para eu ter falado certo... não tinha como responder e voltei a falar como antes.

—...

—O que foi? Eu falei tanto e você nem disse nada... eu disse algo errado?

—Jack, não sei se é isso, mas você devia perguntar, se você não sabe de algo, pergunte, mesmo você não sendo a pessoa mais esperta do mundo... tentar entender é tão bom quanto de fato entender, nesse caso, não ignore, não finja que a pergunta não existe.

—O que...? Mas por que professor?

—Começou bem, porque algumas coisas você não precisa entender com a mente, só precisa fazer seu coração compreender, quando você entender mais do que ela sente, seus sentimentos ficarão mais próximos, um pouco mais em sintonia, não sei se devia estar te aconselhando assim... só acho que essa é a coisa certa para você fazer.

—Você já falou algo assim para a Franziska...?

“Essa forma de pensar, me lembra dela bastante”

—Não, não, por quê?

—Parecia... bem, valeu pelo conselho do dia professor, falar de algo fora as lições que eu esqueci de fazer para variar foi ótimo.

—Isso também é parte do meu trabalho. Falar das lições que você esqueceu também.

—Ok! Mas deixe disso por hoje!

Dei passos de costas, me virei e sentei em uma cadeira, quando percebi...

“Cheguei cedo hoje... legal”

Apesar disso, as aulas seguiram como sempre, começaram como sempre, terminaram como sempre.

—Roi, o que você precisava falar?

Me sentei numa cadeira ao lado dela, não sei dizer se antes ou depois de ter feito a pergunta.

—Preciso testar algumas coisas em você, certo?

—Uma o...

No meio da frase, um pássaro atravessou a janela, a sala e bateu no meu rosto. Digo, não um pássaro, uma revista.

“O que é isso...?”

Peguei ela e vi a página que estava aberta.

Era uma HQ, a cena parecia uma luta de espadas com uma coreografia muito boa e inúmeros quadros que mostravam o caminho de cada movimento, parecia algo tirado de uma animação em vez de uma HQ.

—Jack, vamos para a quadra e treinar esgrima.

—O que?! Mas eu não sei nada disso, sabe? Acho que até o começo desse mês eu nunca tinha tocado numa espada a minha vida inteira,

—Por isso exatamente. Você precisa aprender ao menos algo de como se defender, não basta rezar que os tiros não lhe matem de vez.

—Não seria melhor só focar no que eu sei fazer então? Minha especialidade sempre foi usar os punhos. Armas de fogo e espadas... elas matam pessoas, não sou extremamente pacifista nem nada, mas... isso não é uma coisa boa.

—Armas não servem apenas para atacar elas também são ferramentas de defesa.

—Do que você está falando? E você até que está falando bastante agora...

Ela se levantou, pegou a bolsa e foi para fora da sala.

—Ei Roi! Não saia! Eu vou sentir muita culpa se não te seguir!...

Fingia não ouvir enquanto caminhava pelo corredor. Meus blefes não foram a lugar nenhum.

—Ah!

Peguei minha mochila e pulei pelas cadeiras da sala, numa disparada à saída.

Quando pulava de uma mesa para o corredor, percebi que já tinha ficado no ar por tempo demais, também não parecia estar mais pronto para o pouso...

Gah!

O pouso foi tão ruim quanto poderia, meu braço chegou perto de torcer depois de ter absorvido todo o peso da queda, mas não era tão ruim assim, tinha percebido.

Me levantei sem tanta dificuldade, mas em etapas, primeiro sentando, me pondo de joelhos e um pé de cada vez, mesmo assim, quase cai novamente, mas me joguei a uma parede e consegui manter o rosto sobre o chão.

“Essa foi uma das mais leves... só que... não estava no sol, esse esforço nem foi tanto e... já é a segunda vez hoje... não deveria ser assim. Algo está errado”

—Talvez falar sobre isso... você atrai o que você fala, era algo assim.

Continuei seguindo a Roi, que tinha ganho tanta distância a ponto de não ouvir quando murmurei, nem minha queda terrível.

Nada daquilo, pelo momento, deveria sair do pequeno espaço onde ocorreu.

Se não fosse reconhecido, não iria continuar a piorar, aquele era o limite, não podia ser pior que isso. Foi apenas o acaso, uma coincidência.

Ainda não era o dia, sequer tinha terminado o ensino médio, eu iria terminar ainda, a faculdade também, talvez mais um pouco. Só um pouco, trabalhar pelo menos um dia, um mês, só um ano.

Eram essas todas as esperanças que criei para o meu futuro, mas sabia que nem todas poderiam ser realizadas, porém, não podia o dizer. Isso confirmaria aquela realidade.

Ao mesmo tempo, sequer tinha certeza se realizaria qualquer uma delas, outra coisa que, novamente, não poderia o dizer, pelo medo que tinha de não poder mais escapar do destino.

Chegamos em uma sala do outro lado da escola, não tinha certeza de quem usaria ela, mas tinha espadas de madeira lá, a Roi foi em frente e pegou uma, dos vários tipos lá, aquela parecia ter menos alcance do que uma espada que veria em filmes medievais.

Fechei a porta, acendi as luzes e eu mesmo peguei algo parecido com uma espada bastarda, uma que podia ser usada tanto em duas quanto em apenas uma mão.

Entrei em posição, usando as duas mãos para segurar a espada de madeira.

“Acho que usar uma mão só devia servir caso eu tivesse algo na outra, como um escudo ou até outra espada. Com ambas as mãos deve ser bem mais fácil”

Enquanto Roi tinha uma posição quase estática, com uma das mãos apenas para a minha direção, a espada nela, sem tremer.

“Uma arma também pode ser usada para se defender”

Com certeza, não vou conseguir atingi-la enquanto a sua espada estiver em punho, é uma posição de defesa e ataque.

—Vamos. Irei com tudo. Faça o mesmo.

—Só não diga ao meu pai... ele não ia gostar nada disso, mas eu te devo uma, por isso não consigo recusar esse pedido, vou ir com tudo.

—Já.

Pulei com a espada em mãos, ia atacar de cima para baixo e cortar a defesa dela assim.

“Isso é uma arma! Ela é feita para atacar!”

E em resposta, ela fincou a espada no meu peito, perdi meu ataque e a força do meu pulo foi usada contra mim, eu fui para longe e cai.

—Já!?

A luta mal começou e já tinha sido derrotado.

Mas a Roi voltou a sua posição inicial, esperando que tentasse de novo.

—Certo... vou ver quantas vezes vou precisar tentar, mas saiba que esse golpe não foi nada! Eu sou conhecido por simplesmente não cair, não importa quantos golpes me acertem! Eu nunca vou desistir!

Peguei a espada novamente, então de lá até o sol cair, nós continuamos lutando, cada vez que nossas armas se encontravam, havia algo mais que se encontrava naquela arena.

Talvez nossas convicções, talvez sentimentos e talvez... apenas a emoção do momento de querer vencer, não importa o custo.

Mas de início era visível a diferença de nossa técnica, não importava o que tentasse fazer, em um instante seguinte estava levantando do chão, minha persistência lentamente a fazia se cansar, porém não conseguia atacar como fazia contra... contra...

“Essa sensação... é familiar, muito, muito familiar... sinto que algo exatamente assim já aconteceu não muito tempo atrás”

Aquele pensamento me veio, era claro que já tinha enfrentado um oponente assim. Alguém tão veloz que todos os seus ataques acertavam, que parecia prever o futuro e negava todos os meus ataques. A sensação de ir contra um oponente inalcançável era algo que já tinha provado. Com certeza.

“Mas onde? Quando?”

Assim que me perguntava isso, ouvi sinal da porta se abrir.

—Roi! Cuidado!

Estava no chão, mas me joguei para cima, deixei a espada cair no chão e me interpôs entre ela e a porta, o oponente que pensava estava finalmente me vindo a mente, estava a vendo abrir a porta.

Mas...

—O que...?

Quem abriu a porta foi alguém da minha idade, um europeu de cabelos da cor do sol e olhos como o mar. Ele tinha uma expressão de ansiedade no rosto e estava me encarando apenas.

—Lestat. É você, não?

—Roy, não esperava te ver também, mas é um prazer.

—O que você está fazendo aqui? Estava me procurando?

Me levantei, agora jogando para longe minha postura de luta, era perda de tempo usar isso contra ele.

—Bem, sim, sendo direto, vim buscar tua parte da trégua, disse-lhe que desejava ouvir tudo que observou enquanto invadia o esconderijo da capitã dos corsários, podes fazê-lo?

—Roi... está bom por hoje? Eu já apanhei suficiente? Pode deixar os básicos para depois?

—Certo. Outro dia.

Entreguei a arma do chão de volta à Roi e parti com o Amun.

“Claro, o instituto não se aliaria a mim por nada... queriam informações... claro... e me usaram como um peão para conseguir”

O levei para cima do sino, um pouco longe da borda para não sermos notados de imediato.

—Quando a... Kiu tentou atirar ela reclamou de ter algo errado nas armas e nós fugimos logo que a... ela apareceu na porta, mas não deu um passo para fora da sala, por alguma razão e... foi isso, não teve mais nada.

—É como imaginamos, tudo que articulou da roleta russa, se for tal qual descreveu, significaria que nossas hipóteses foram provadas.

—Do que você está falando agora? Aquilo foi loucura também, ela só quase se matou por nada.

—Incorreto. Ela lhe mostrou seu maior talento. Uma sorte sobrenatural, parece algo tirado duma peça de fantasia, entretanto, não há palavras ou argumentos que neguem o que observamos.

Pisquei algumas vezes, sem pensar, eu conferi se aquilo era realmente a realidade.

—Isso é sério? Além de ser insanamente boa usando aquela espada estranha, ela ainda tem algum tipo de favorecimento divino? Por que alguém maligno teria algo assim?

—Essas respostas... são além do meu conhecimento, não sabemos de onde essa sorte realmente vem, sequer pude levantar uma conjectura sobre.

—Bem, boa sorte em lidar com isso, acho que nesse caso as chances realmente estão contra vocês, mas já fiz o que pude, nossa trégua acaba aqui.

Ia me levantar...

—Um momento! Falta uma coisa... talvez seja isso a chave para podermos vencer.

Ele segurou o meu braço antes que pudesse levantar.

—O que é?

—Como você se soltou, afinal?

—Não falei...? Foi sorte. Aquele tiro que ela disparou ricocheteou exatamente entre as duas algemas e eu consegui fugir porque isso a surpreendeu. E depois dela tentar jogar a espada em minha direção, assim como vez com o corsário, consegui desviar e a lâmina abriu a porta, isso me deu tempo meramente suficiente para me reunir com a Kiu antes de entrar no alcance de ataque.

O rosto dele mudou na hora, ele tremeu, então os lábios tremiam enquanto ele tentava falar, vi os olhos se esforçando para piscar.

Ele agarrou minha mão e se levantou, falando sem parar me encarando a menos de meio metro de mim.

—É como imaginei! Essa hipótese estava correta! Você sem sombra de dúvidas é como o 01! E por isso você tem o mesmo talento que aquela vilã possui! O de sorte!

“O que...? Qual foi o meu desejo naquele dia...? Quando vi aquela estrela cadente... foi sorte, sim... agora lembrei... e... e... é tudo minha culpa. Desde aquele dia, logo depois, nós tivemos aquele show e por causa disso... o navio e...”

—Jack! Não!

Me virei, então corri o mais rápido que pude, tentei fugir e no terceiro passo, não tinha mais chão para pisar.

—Isso é bem mais alto que aquela biblioteca, acho que acabou para mim.

A minha frente, a paisagem panorâmica de toda aquela cidade, onde eu vivi desde que me lembrava, abaixo...

Até o chão era um caminho limpo, nada podia me parar, vi a gravidade começar a me puxar, ia ficar progressivamente mais rápido até atingir uma velocidade que a morte era certa. Velocidade terminal devia ser o termo.

Morte instantânea, nem teria tempo de gritar, nem de sentir dor. Minha vida acabaria sem razão, com várias pontas soltas, mas... ao menos eu pensava que havia feito bastante coisa.

“Ao menos consegui falar sobre aquilo com a Roi e confessar meu amor para a Franziska... poderia ser pior, certamente. Até que não foi...”

—Ai!

Foi o que disse, meu corpo parou, minha queda foi interrompida.

—O que... já cheguei na pós vida? Será que eu vou para o céu?

—Jack... esse é o tipo de piada que você vai fazer agora...? Realmente me assustou, mas... como você chegou aí?

Vi Louis Forscher, através de uma janela, era assim que estava vendo ele.

—O que...?

Então percebi, olhando para cima, aos lados, eu estava ainda perto do sino, em cima de uma fina barra de algum metal. Uma que Louis havia acabado de colocar por ali.

—AH! Esse metal parou minha queda... eu vou...

Escorreguei um pouco e meu corpo pendeu para frente, ia voltar em queda livre, mas um instante antes.

—Ah! Não se mexe muito!

Louis agarrou a minha perna, ele iria me puxar, foi um milagre, ele por acaso estava fazendo algum experimento naquele exato momento para me ver, para agarrar minha perna e poder me salvar.

Muita sorte.

—Não! Não! Não foi aquele desejo.

Continuei me balançando, usei o outro pé para chutar o pulso do meu professor várias vezes, quando ele enfim me soltou, vi seu rosto assustado olhando para mim, me afastei dele tão rápido, essa seria a última coisa que veria.

“Ele me deu um conselho mais cedo... nunca consegui usá-lo...”

Assim pensei, mas novamente, o que interrompeu minha queda não foi morte rápida e indolor.

—!...

—Kah!

—Uah!

Senti alguma dor nas costas, mas aquilo certamente não ia me matar, pois percebi logo.

“Impossível...”

Com os segundos que ganhei antes, dois alunos estavam passando com uma caixa enorme, cheia de lixo de todo tipo, fantasias rasgadas, plástico cortado, comida e até algumas vidrarias que não chegaram em mim. Não foi por nada que duas pessoas carregavam, ela tinha tamanho para mim e mais um monte de lixo afinal.

Claro, eles a deixaram se soltar, mas seu trabalho tinha sido feito, ela amorteceu minha queda.

Tinha escapado ileso, apesar de por duas vezes eu tomei decisões que deveriam ter levado a minha morte, ainda estava vivo, sem sombra de dúvidas o que o Amun falou era correto.

“É isso que posso fazer... eu tenho... sorte