Capítulo 1

Dois Caminhos

Acordei. Não era mais um sonho.

“Hum... mais 5 minutos só”

Devia ser seis da manhã e havia acordado em casa, mas no momento que minha consciência surgiu, os dados rolaram e decidi cabular aula naquele dia.

“Uma vez por mês foi o trato...”

—Ei! Acorda! Você consegue me ouvir?!

—...?

Me dei o trabalho de levantar, meu corpo estava leve e minha mente clara até demais.

Olhei ao redor, havia um círculo de pessoas me rodeando, estava dormindo no meio da rua.

Procurei minha bicicleta, ela estava jogada no chão.

—Ei, só estava um pouco anêmico hoje, circulando gente.

Levantei ela, amarrei a corrente de volta, subi e comecei a pedalar.

—Espera! Você...

Não pude ouvir o resto da frase dele, porém, porém, agora sei bem o que seria...

Ganhei um relógio de prata do meu pai no dia anterior, olhei as horas nele.

06:20. Tinha saído cedo demais.

Meu pai, chamado pelo resto da pequena cidade de “senhor Delsteen” tinha um filho, apenas um. “Jack Delsteen” Esse sou eu.

Também sou um estudante de uma escola local, não tão longe de me graduar. E é essa a minha identidade, não há mais nada a contar.

Assim segue meu dia:

Pedalei por mais meia hora, sem chegar na escola. Isso não era normal, nadica de nada de normal.

“Devia ter chegado já, se lembro bem sai as 6 e já que demora no máximo 30 minutos para chegar... me perdi, provavelmente foi depois de ter dormido na rua”

Já estava pronto para dar meia-volta, estava.

No entanto. Deus havia planos para mim, ele me deu uma visão da real beleza logo a minha frente.

Cabelo brilhando como uma estrela, olhos fortes como diamante, um vestido branco, longo e elegante, tal qual uma princesa. Sem imperfeições, a pele era limpa, parecia ter vindo de um quadro, toda aquela essência parecia ser um presente do reino dos contos de fadas para nós humanos.

É com certeza errado um plebeu sequer olhar para ela por mais de um segundo, porém aceitei cometer essa ofensa.

Ao mínimo deveria mostrar meus truques a ela, como um bobo da corte em frente a realeza.

Botei força nos braços e impulsionei o corpo. Grudei os pés na parede e corri por ela, acompanhando minha bicicleta.

Foi força demais. Meu corpo acabou voando e fez um arco completo, para que ela não se machucasse, movi a roda para o lado e cai no chão junto da bicicleta.

—AH!

Ela apenas pulou para trás e deixou uma fina exclamação de surpresa no ar.

Me levantei de imediato.

—Perdão! Perdi meu senso de equilíbrio por um segundo e não pude calcular a força necessária direito. Então meu ato falhou.

—O que?...

—Ah sim, por que veio aqui? Tenho certeza que me perdi e sai do caminho da escola e você?

Como uma princesa iria contra as regras e se atrasaria? Faria qualquer coisa senão o correto e tomaria a ação mais ética possível? Ainda assim, ela estava ao meu lado, eu tinha ido fora do curso até a escola, como? Como?

—Entendi... olha seu braço... seu braço esquerdo...

Havia o ignorado, melhor, não o dei atenção. Por isso enquanto olhava, ela me entregava e explicitava o que havia acontecido.

—Seu uniforme... os tons de azul e verde nas mangas... seu cabelo loiro... a pele amarelada... ! Vermelho! Rouge! Isso tudo é sangue! Você passou direto da escola porque seu olho esquerdo estava coberto de sangue, o verde escuro se afogou em vermelho! A escola estava do lado esquerdo, seu ferimento também! Por isso você não viu!...

—Agora entendi...

Era uma quantidade impressionante de sangue, relativamente, talvez o bastante para um vampiro passar duas semanas sem caçar.

—Obrigado Franziska.

Não era bem atento aos meus redores, minha visão era má desenvolvida. Já disseram que talvez possa precisar de óculos, mas não me dou o trabalho de ir para um médico ver.

Portanto, ter as coisas apontadas diretamente ajudava, a Franziska é a melhor aluna de sua classe, então apreciei o quão detalhado foi sua descrição.

—Isso acontece as vezes. Algum sangue caiu em você?

—Não...

Ela olhou para o próprio vestido, eu mesmo não conseguia ver nada, mas a incerteza estava me preocupando, jamais poderia me perdoar se uma ideia minha tivesse manchado um vestido branco tão belo, sim. Saber que nada assim havia acontecido me deixou respirar direito.

—Quando chegarmos, vamos para enfermaria mesmo assim...

—Como quiser, agora... lembrei de algo...

Comecei a seguir pela calçada e guiando minha bicicleta a pé, passando por um distrito domiciliar e em direção a escola, lembrei de deveria ter a cumprimentado:

—Bom dia, Franziska.

—Olá, Cheque, digo Jack!

Ela pareceu ter a palavra travada em sua boca, então espirrou aquilo.

—Cheque...? Um sorteio?

—Digo, Delsteen.

Por causa do meu pai, não, simplesmente porque esse nome era difícil de pronunciar para qualquer nativo, e eu não merecia o respeito para eles se esforçarem para pronunciar esse nome, nunca me chamavam pelo meu sobrenome, exceto se a pessoa fosse uma estrangeira, isso é.

—Não precisa imitar o meu jeito de falar, eu nem sou um nativo de verdade de qualquer jeito.

—Eu preciso treinar, então preciso conti-luar!

Novamente, foi como se a palavra tivesse parado na garganta e aquilo fosse um espirro.

—Hum, eu gosto da lua. Um pouco mais que gosto do sol.

Voltei a olhar para o caminho, eu havia perdido um bom tempo, mas parecia que ainda conseguiria chegar sem problemas.

Apesar da explicação de como me perdi, ter deixado a escola passar apenas por não a ver é uma vergonha, não que sinta algo sob isso. Estou reconhecendo o quão ridículo deve soar.

—Que dia estamos?

Não conseguia lembrar, talvez só procurar um calendário fosse ajudar, porém no meio do caminho, no distrito onde estava, pergunta a garota logo ao meu lado soava como a melhor ideia.

—2 de março.

—Devia cuidar de lembrar disso, o show vai ser dia 6, certo?

—Dia 6.

Foi o que ela confirmou. O dia em que estávamos, o dia do show, era tudo que precisava saber sobre as datas. Por isso não tinha um calendário em minha casa, não seria útil para nada.

Entramos no prédio mais alto daquela cidade.

Melhor dizendo, construção. Também não a mais alta apenas. Eram pelo menos três partes separadas. Todas conectadas internamente, com alturas diferentes, mas a do meio, sim, de fato era a mais alta.

—Franziska, você sabe por que fizeram a maior escola do país ser numa cidade com a população tão baixa? Não seria melhor construir numa metrópole, ou melhor, na capital?

—Eles não quiseram demolir nenhuma casa, aqui tinha uma grande área vazia que não servia de nada, assim resolveram fazer por aqui

Com isso, ela respondeu meu rosto pensativo com um leve sorriso enquanto explicava, não, não por explicar. Isso era um hábito já. Algo naquela história parecia bom para ela, para mim...

—É um bom descaso, né?

Não sabia direito se era, tinha acabado de ouvir sobre, ainda assim, foi a impressão que tive.

—Não vejo assim. Ao menos essa cidade está bem mais atrativa agora, teve um salto de 180% na população assim que a construção terminou. Foi bem lógico.

Falando isso, ela parecia estar voltando a uma expressão neutra, então:

—*Mas, graças a isso ninguém teve de perder nada. Nada foi destruído.

Ela parou de falar, esperava algo mais. Ela retomou uma expressão quase feliz, mas era realmente pelo o que contava? Quando penso agora, não tenho mais certeza.

Também não tinha mais o que falar sobre a cidade, não me importava realmente com o que não via, perguntei porque queria ouvir a explicação que a Franziska daria. Não para ter uma resposta. Naquele dia, para mim, o mais importante não era nem de longe a política do mundo estranho onde estou, nunca seria, em vez disso.

—Cuidado, você acabou engolindo um “I” no “mais” é uma diferença sutil, porém você é esperta suficiente para saber o erro.

—...!

Sentia culpa toda vez que precisava corrigir uma pronuncia errada, mas foi o que ela me disse para fazer.

Logo ao passar da grande porta para o prédio principal havia uma intersecção, direita e esquerda.

Na primeira vez que entrei não sabia qual ir, apenas fui pela esquerda porque tropecei nos meus próprios pés e balancei para esse lado, apenas agora entendo o significado dessa intersecção.

Ambos lados pareciam ter paredes e vidros limpos e brilhantes, porém tinha uma grande diferença, que ainda assim era restrito aos alunos dessa escola, no lado esquerdo você consegue ver seu reflexo na maioria das superfícies, contudo não é possível o mesmo no lado direito.

E assim fomos para a esquerda, lá estava a enfermaria.

—Bom dia... já?...

Claro, a responsável estava acostumada com um evento desses. A ponto da sua expressão não mudar ao me ver, não era mais uma surpresa, na verdade, imagino que o rosto que ela faz quando eu não apareço seria mais engraçado.

—Com licença, eu meisma* vou cuidar dizo*

—Ah... claro.

Ela saiu da sala. Foi quando expliquei novamente porque a pronuncia dela estava errada. Pedi para não o fazer novamente, se ouvisse outra pronuncia errada não teria mais coragem de a corrigir.

Essa era um dos papeis dela, Franziska Rubria de Calevete. O seu uniforme totalmente branco a apontava como aluna responsável pela enfermaria.

Claro, era apenas um símbolo, ela pôs a devida proteção antes de fazer os curativos e limpar o sangue.

Por isso era doloroso ter de apontar os erros dela, não é como se importasse tanto afinal, era a coisa mais comum carregar um sotaque para cada língua além da sua própria.

Não chamaria esse desejo de egoísta, mas era doloroso apontar os erros de alguém que podia fazer qualquer coisa melhor do que eu mesmo jamais poderia. Só conseguia pronunciar melhor por ter tido essas duas línguas comigo desde sempre, era injusto.

Muito material foi gasto limpando tudo, ainda assim minha manga não tinha voltado a cor original.

—Mansas* de sangue são quase impossíveis de tirar...

Foi o que ela afirmou, enquanto continuava tentando tirar as manchas com um lenço.

Eu não queria tirar a concentração intensa dela, mostrada nos olhos se espremendo, porém, ficar calado me incomodava. Era o que menos desejava.

—Não é um problema para mim, se não é um problema para você.

“Foi só um acidente. O uniforme está ensanguentado não é um problema”

E olhando para minhas mangas, não era tão ruim, sequer me fizeram mudar de expressão, um feito pouco significante ainda.

—Isso é um problea* para mim.

Acho que soei como se estivesse afirmando algo. Ela ter mordido a língua daquele jeito foi minha culpa então.

—Então preciso substituir esse uniforme o mais rápido possível!

Tentei fazer um rosto engraçado, sem o sucesso desejado.

—Sem tanto, sem tanto.

Ela botou mais força nas mãos.

—Dama Calevete, não sei se isso é porque você não colocou tanta força ou porque minha resistência é maior, mas apesar de não sentir dor, senti você colocando mais força nos dedos.

—Hum...

Ela voltou ao normal.

Enfim, uma fita foi passada ao redor da minha testa para interromper o sangramento.

O sino então tocou, as aulas tinham que começar eventualmente, era um milagre termos tido tempo de fazer tudo aquilo, eu diria..

—Vá para a sala, sou eu que se encarregou de limpar a bagunça, não foi?

Era o mínimo para agradecer, melhor, para compensar o trabalho que a fazia passar, bons atos merecem boas recompensas, ou ao menos, não merecem punições.

—Você não pode tentar fazer tudo só porque pode, há um limite, 80% é o ideal...

—Nunca entendi essa conversa de 80%

—Hum... depois vou te dar uma bronca e ver se algo muda...

Falando sobre “80%” ela tinha apenas uma expressão neutra. Um sorriso leve, mas que ainda não parecia de como alguém feliz, sabia diferenciar os dois.

Ela saiu. Não a perguntei mais nada, afinal, sua pressa ao pegar a bolsa era porque ela não podia se atrasar de propósito.

Me livrei de toda a bagunça.

E assim voltei aquela intersecção e eu...

Tive que tomar a direita, é por ali que minha sala está.

A área dos delinquentes, daqueles que não puderam cumprir com o necessário para se tornarem símbolos da nação. Efetivamente não há nenhuma diferença em estrutura ou currículo, porém lá se agrupa as falhas, é lá o círculo externo, dentro da escola o nosso valor é tão qual o de areia, não somos as joias dos que estão do outro lado, muitos terão de sair da escola eventualmente, antes da graduação.

Enfim, acho que cumprimos nossa função ao menos, de sermos exemplos de falha, apenas tirando os reflexos das paredes e espelhos a escola conseguiu fazer todos os seus alunos se dedicarem mais e focarem em manter estabilidade para jamais ir para o nosso lado, é uma lógica cínica diria, mas funciona, não posso falar mal de algo que funciona.

Quando vi ele já com o livro em mãos, me sentei ao lado, vendo o quanto ele demoraria para tirar o rosto das letras

Aïe! O que foi isso!?

—Cai da bicicleta, acho que sonhei acordado e bati em algo.

—Isso... cera* que vai deichá* uma cicatriz? Você sangrou até os braços dessa vez.

—Espero que não, uma cicatriz na testa não ia ficar nada maneiro.

—É... realmente né... a bicicleta quebrou? Se sim vamos ter de cancelar a ‘missão’

—Não, não. Isso ainda está de pé...

Chequei se alguém podia ouvir

—Continua a ideia, vamos entrar, pegar besteiras e fugir para as montanhas.

Não podia falar muito, pois havia esquecido a maior parte dos detalhes.

—E mais algo?

—Jogar pedras...? Isso é bem típico de vandalismo...

—Não, vai ter uma ou duas pessoas na hora, elas podem acabar se ferindo com os cacos, deixe la vitre em paz, ok?

—Ah! Bem pensando, Ritte.

—Preciso manter controle, foi minha ideia, né?

—Sim, de certa forma.

—Seu sentimento de vingança foi catalisado por mim em ação, esse é o fato.

E esse é Ambrose Vite, ou “Ritte” assim o chamo.

Um aluno da escola também, o que noto mais sempre ao vê-lo é um cachecol azul-claro, bem esfarrapado e com dois furos perto da ponta. Apesar de fazer uma aura ruim ao redor dele, nunca o vi sem aquele cachecol.

Se a mesma pronuncia esquisita não foi suficiente para entender, ele é também o irmão da Franziska. Isso é vagamente visto no formato do rosto e até nos olhos, mas ele tinha cabelo preto como um asiático e era até um tanto mais baixo que a irmã, apesar de não creio que há uma diferença na idade, não muita pelo menos.

O Ritte também é insistente em manter o cabelo curto, ele as vezes tenta me irritar porque o meu é um pouco longe demais, em troca, eu apenas acho o corte dele idiota..

—Ok. Lembre-se de ir para o esconderijo, de lá vamos para o mercado, do mercado voltamos para o esconderijo.

Essa era a única parte do plano que lembrava e a parte a qual me agarrava.

—Alguém mais vai vir?

Com essas palavras, via nos olhos dele, quando ele os desviava e pensava, só havia outra pessoa a mais que pudesse concordar com o plano, o lábio se esforçando para não mudar era o sinal de arrependimento.

—Talvez... tenho que falar com a Une, né?... Sim, logo depois da aula vou chamar ela para isso.

—Feito...

Ritte voltou a olhar o livro, não tive a chance de ver sua expressão quebrar de vez. Ainda não iria deixar de convidar uma amiga para isso.

As horas passaram.

Sai na primeira chance que tive.

Passei pelas ruas calmas da cidade, não tem prédios por aqui, no máximo casas com três andares, era para ser apenas uma pequena cidade na fronteira da Bélgica com a França, foi apenas aquela escola gigante que fez tudo isso mudar.

Apenas em parte, ainda era um lugar tranquilo, as indústrias ficavam a dezenas de quilômetros e por isso o ar é puro.

Uma cadeia de montanhas circunda a cidade.

Na base de uma montanha, há uma abertura, digo, uma caverna. Não sabemos o que a causou, porém, o local está coberto pela floresta, achamos por um acaso enorme e apenas nós teríamos motivo lógico para ir até lá.

Assim colocamos sofás e acomodações tiradas de um lixão, limpamos o quanto foi possível, guardamos alguns instrumentos musicais e as bases de montagem, para Une fazer algumas engenhocas.

É esse nosso esconderijo, apenas nós decoramos o caminho e a sua localização nunca foi divulgada para ninguém de fora.

Se ela não foi para escola naquele dia, como de costume, Une estava lá:

—Une! Você não está saindo muito c...

—AHYA!!!

Um corpo de laranja e vermelho se formou perante os meus olhos a partir de um único tubo, por reflexo dei um pulo para trás.

—AH!

—O que foi o susto?! Não é como se fosse fogo de verdade, no máximo você ficaria com os olhos ardendo se alguém atirasse isso contra o seu rosto.

—Você não acabou de fazer isso? Você quase acertou o meu olho.

—O que!? Você está me acusando de te atacar com minha mais nova invenção?! O pseudo-lança-chamas versão 2.333?!

Ela bateu naquela coisa desengonçada, a junção de vários metais e cola que ganhavam um nome exagerado, mas provavelmente sem muito significado.

—Absolutamente. Irei levar esse lança-chamas a corte!

Mas eu decidi entrar na brincadeira, com a atuação de um ator de teatro, gritando do fundo dos meus pulmões e balançando meus braços como se minha vida dependesse disso.

—Não seria eu? Por que minha invenção vai para a corte?

—Claro que não! Vai ser o lança-chamas! Apenas o pseudo-cha... pseu-la... pseudo-lança-la... pseudo-lança-chamas versão 2.333! Ele tem o direito de permanecer calado até um defensor público ser chamado!

—Ei, Jack, se você se graduar em direito, vai poder cuidar das partes de legalidade e tudo para a gente? Bandas sempre tem algum advogado próprio, não é?

Quem fugiu da encenação para questionar o meu futuro é Mary Monteur, ou como a chamo, “Une”

Apesar de ter me assustado com a nova invenção dela, era apenas isso, a própria Une não era fisicamente imponente. Era bem magra e era costumeiro que ela pedisse minha ajuda, ou ajuda à Franziska para alcançar algo alto. Para mim, ela parecia papel, um papel que brincava com fogo.

—Isso na verdade é uma ideia muito boa... talvez... eu não faço ideia sobre o que você perguntou.

Falei isso e cruzei os braços, mas aquele rosto pensativo, minha mão no queixo, isso tudo era uma encenação, eu não tinha nenhum pensamento profundo acontecendo na minha cabeça.

—Algo novo com o seu cabelo?

Tentei desviar daquilo, perguntar isso foi o blefe que me veio.

Não serei injusto, apesar de ter sido pego, foi uma boa ideia, o cabelo dela não era bem longo, mais que o meu certamente, porém não como fazia a Franziska ainda. A Une gosta da cor esquisita dele, não é bem claro como outros europeus, nem escuro como africanos. E nem é uma cor diferente, definitivamente essa não veio do espaço. Só que me falta a exata palavra para o descrever...

—Como você notou!?

Ela agarrou as mechas, quase como se fosse fazer uma exposição, tirou um pente e passou por aquelas mechas, imaginei se ela ainda lembrava sobre o que tínhamos falado a alguns instantes.

—Só um palpite...

Deixei meus braços soltos. Considerei que essa tinha sido minha vitória.

—Combina com essas meias com padrão de teia? Não acha? Sim? Não é?!

“Deveria sentir culpa pelo o que fiz? Não consigo sentir, mas não sentir culpa me traz culpa... acho que essa é uma culpa ainda mais dolorosa”

Tentei ignorar isso ao pôr todos os materiais potencialmente perigosos dela em mesas, especialmente o tubo por onde o fogo saiu.

—Tome cuidado com esses inventos. Eles não são tão importantes, é só efeitos especiais para um show que vamos fazer.

—...! Sim! Tome cuidado, foi difícil fazê-los usando sucata e 50 euros.

Ela estava me seguindo com as mãos estendidas, esperando que fosse derrubar aquilo, acho.

—Nisso, Une, ouça isso...

Expliquei brevemente o que planejava fazer com o Ritte mais tarde.

Apesar de ela ser feita de papel, ela deixava essas ideias mais divertidas, portanto...

—Estou dentro.

Depois de ouvir atentamente a meu monologo de um minuto, ela sorriu com intenção criminosa e concordou, acenando a cabeça também.

—Quanto mais melhor. Agora preciso ir, não fique até tarde se ninguém aparecer.

—Se preocupando desse jeito... nessa idade... que vergonha. Isso é uma vergonha para um jovem desse século.

Enquanto saia, ela falou isso, ainda mais, a Une estava com a mão no rosto e negando qualquer intenção minha, balançando a cabeça.

—Então antes de anoitecer eu volto! Passe o tempo que quiser.

Voltei a andar, pensando que ela não teria mais uma resposta para isso.

—Quanto é o salário de um guarda-costas?! Não posso pagar por isso!

“Ela tinha...”

Com a cabeça abaixada, derrotado, eu pulei na bicicleta e pedalei de volta à civilização.

No meio do caminho percebi, na verdade não havia nada que pudesse fazer pelo resto do dia. Isso era o que devia mais ter evitado.

“Sai porque pensei que era melhor ter deixado ela continuar a inventar sozinha. Ela tem um talento para isso, sem dúvidas, mas... até ficar assistindo ela era melhor, agora não posso voltar também... seria vergonhoso”

Ficar muito tempo sem nada acontecendo era tudo o que queria evitar. Se passasse tempo demais assim... iria continuar pensando no que não devia.

Pensar muito abre o seu coração para dúvidas, isso não é bom. E o que evitaria a todo custo. Naquele caso, naquele dia...

Corri para um fliperama. Normalmente viria com alguém mais, porém esse não pode ser o caso por causa da pressa que tinha.

Passei algumas horas por lá, a concentração que tinha de manter para não gastar todo o meu dinheiro até anoitecer foi suficiente para não deixar espaço para mais nada.

Refletir e pensar muito é o trabalho de pessoas com talento para isso, os outros, meus amigos podem fazer isso quanto quiserem, eles farão descobertas e chegaram a grandes conclusões com isso.

Para mim... é só uma perda de tempo, por mais que uma difícil de evitar.

Assim que escureceu tentei ligar para a Une.

—...

Fui ignorado.

“Ela pode estar fazendo isso só para que vá até o esconderijo, me fazer perder tempo...”

—Vou ser rápido...

Corri do fliperama e subi de volta à bicicleta.

“Sempre achei melhor fazer exercícios a noite, não sinto tanta tontura quanto sinto de dia”

E no caminho, como já imaginei que aconteceria.

Numa rua cheia de lojas fechadas. Arvores a cada cinco metros, quase uma floresta dividida por uma rua de pedras.

Encontrei mais uma pessoa naquele dia. No meio da rua. No meio das arvores, como se ela fosse a atração principal daquela rua.

—Roi, está voltando do esconderijo?

—Estou. Por que? Isso importa?

—Na verdade sim. A Une estava lá?

—Saiu comigo

—Imaginei...

—...

—...

—...

—E o que você estava fazendo? Não marcamos nada, sim?

Depois de alguns segundos de silêncio, ainda de cima da minha bicicleta, eu perguntei isso, mas ainda não estava encarando a Roi, não diretamente.

—Trouxe a sucata, Mary tinha me pedido.

—Bem, vou pedalar mais um pouco, sabe... sou o maior aliado da lua.

Apontei para meu aliado, mas não tinha certeza se a lua sentia o mesmo sob mim, era mais correto só dizer que o sol era meu inimigo, portanto se a lua fosse um inimigo do sol... seriamos aliados, de certa forma.

—Irei lhe acompanhar.

Foi o que ela disse assim que estava prestes a voltar a pedalar. Ela falou sem pressa, sem mudar de expressão apesar de tudo.

—Err... claro, vamos passar na sua casa, você já trocou o pneu da sua bicicleta?

—Evidentemente.

“Apesar de ela não falar muito comigo, ela ainda é uma amiga. Talvez ela seja menos falar e mais agir, sim, isso é uma boa forma de descrevê-la”

Essa é Margaret Roy, no entanto é aconselhável jamais a chamar pelo seu primeiro nome.

Mais alta que a Franziska, na verdade, quase tem a minha altura. Ela pode não parecer forte, certamente é leve como uma pluma, mas ela não é nada frágil, como a Une.

Sinto que os olhos escuros dela estão olhando para todos os lugares ao mesmo tempo, a forma que ela se move parece não exigir esforço algum, ela também não faz barulho ao andar.

Isso tudo não é uma presunção. À primeira vista, apesar de sentir algo estranho, não entendi o quão forte ela poderia ser, porém tive uma experiência de primeira mão para lembrar como essa velocidade dela pode ser útil para brigar.

—Roi, é difícil acreditar como a um ou dois anos nós estávamos brigando, né? Você sequer podia conceber andarmos juntos pela floresta naquele tempo? Se perguntasse para mim eu nunca acreditaria. “Isso é um desenho animado?! ” Acho que diria algo assim.

E não era meu estilo falar por mais de uma linha, ainda menos por mais que duas, porém esperava que com isso acabasse tirando uma resposta não monossilábica da Roi.

“Roi é só outra forma de pronunciar o sobrenome dela... foi um erro, na verdade, eu não sabia a diferença. E quando tentei falar da forma certa, quando viramos amigos de verdade, ela questionou o que me fez mudar, eu só voltei a pronunciar dessa forma, sem perguntar mais”

Lembrei enquanto íamos até a floresta.

—Desculpe.

Foi o que ela respondeu. Sem olhar na minha direção, mas em um tom vagamente distinto.

—Não era isso. Já disse que a culpa é igual para nós dois. Decidimos isso, então toda vez que você pede desculpas eu preciso retribuir, isso me pesa, aliás, desculpa...

—Por isso.

—...?

Ela replicou sem mudar de tom, isso me confundiu, tentei encarar os olhos dela para receber algum esclarecimento.

—Sabia que você responderia assim.

—Continue elaborando, alguém esperto já teria resolvido seu enigma, mas eu não sou assim.

—Falou o que queria ouvir.

—Entendi...

Olhei de volta para a rua.

“Ah! Eu não preciso ouvir mais nada, ela pode continuar sem falar direito! Não preciso mais ouvir isso! Vou continuar calado”

Não falei mais nada naquele passeio. Tinha sido chocado demais para tentar esclarecer o que ela queria dizer, temia não ser diferente do que entendi.

E então...

Num acaso que antes diria impossível, como quem vagou por essas florestas desde... sempre.

Independente disso, me perdi.

Assim que notei, eu estava andando em círculos, sempre parando na mesma arvore bifurcada.

“Vou tentar seguir reto em alguma direção até achar o céu de novo” Foi minha melhor ideia.

Tinha me separado de Roi para procurar uma moeda que tinha deixado cair na floresta, no final, se separar foi uma ideia idiota. As minhas ideias de como voltar eram ainda piores.

Não que fosse um problema. Eu sabia que eventualmente chegaria em casa, porém me perder continuava sendo inconveniente. Andar tanto por cenários repetitivos, as arvores que pareciam as mesmas, os poucos pontos onde via a lua...

Isso dava muito tempo para pensar. Até demais.

Percebi isso e fui forçado a acelerar, pedalar o quão rápido pudesse, no limite da minha bicicleta e além ainda.

—Onde? Onde?! Onde?! ONDE?!

Não ouvia resposta da floresta.

—Onde?! Onde?!

Estava odiando aquela floresta, mais ainda, o que percebi no curto tempo que estive nela, o paradoxo que vivia.

Sem pensar, estava cada vez mais vulnerável a chegar numa situação como essa, foram decisões ruins que me levaram até aqui. Talvez continuar com isso não valesse a pena.

Era esse o real perigo da floresta. Sua escuridão escondia tudo o que desejava esquecer. Era esse seu poder.

Pensei ter chegado a alguma saída, enfim vi a luz da lua a distância. Depois de tanto correr.

—Isso é uma piada...

Gotas de desespero caíram no meu coração.

Era só uma clareira.

“Já que estou aqui seria bom pelo menos apreciar a vista. Eu vou ganhar algum tempo assim ainda... melhor deixar essa como uma batalha perdida por hoje”

A bicicleta ficou encostada numa arvore, não podia deixa-la quebrar.

Deitei no chão e comecei a procurar constelações, perdi minha amiga, minha moeda, ao menos devia achar constelações.

Não era um entusiasta, também não pude identificar sequer uma constelação.

“No passado as pessoas usavam as estrelas para se guiar através de longas viagens. Muitas dessas estrelas já podem ter morrido, sua luz ainda assim se perpetua pelas distâncias astronômicas que as separam da terra”

—Pensando assim, é realmente incrível, nós usamos até coisas que sequer existem mais, apenas sua luz atravessando o espaço por um tempo incompreensível. Nós usamos o nada, nos guiamos pelo vazio.

Esses foram os devaneios que tive enquanto buscava, em vão, as poucas estrelas que conhecia.

Para interromper meus pensamentos, um brilho atravessou o céu noturno.

“Uma estrela cadente... não sou bem supersticioso, mas deveria fazer um pedido”

—Desejo ter... bastante sorte, em tudo. Tudo que for possível, não posso escolher só uma coisa.

A estrela continuou atravessando o céu.

Sumiu da minha vista, de volta ao espaço.

“Não sinto como se algo tivesse mudado, deve ser só uma superstição afinal”

Já tinha pensado e sonhado o suficiente, voltei a procurar a saída.

Não era bem uma saída, mas a Roi tinha um senso de direção bem melhor que o meu e ela havia me encontrado naquela clareira. Apesar de estar agradecido, eu havia resolvido guardar a gratidão para outro dia. Tinha passado por suficiente, decidi voltar para casa.

A moeda não foi encontrada naquele dia.

Minutos passaram enquanto pedalava da floresta de volta para minha casa, mais um pouco para subir as escadas, entrar em meu quarto e...

Assim que entrei...

Pisei em algo, não fez barulho, apenas senti que tinha pisado.

Peguei o objeto e sentei na cama para começar a análise.

Um caderno, cor vermelha, não havia nenhuma numeração, mas pela grossura devia ter muitas folhas, ainda assim era pequeno suficiente para levar num bolso de sobretudo.

Também tinha uma caneta, de tinta preta.

Abri, todas as folhas estavam em branco, ainda assim, num papel separado, tinha algo escrito.

Guarde este caderno. O guarde como se fosse sua vida

“Hum, quem teria feito isso?...”

—Como se importasse... é um caderno, não uma arma. Vou ficar com ele.

Naquela noite, algo me chamou nos meus sonhos, ouvia meu nome quando estava prestes a cair em sono, porém a ignorância me deixou continuar. Não liguei os pontos.

Pelos próximos 6 dias continuei vivendo como se aquilo não significasse nada, sem entender a virada que minha vida tomaria nesse tempo.

Acho que esse é o primeiro de muitos erros.