Ossos
1 Ossos
Eu nasci em uma raça de anjos.
A cidade ébria erguida nas montanhas altas em mármore lustroso e entalhada em cristais e ouro, circundada pelo verde exuberante da flora rica era o lar da raça angelical. Seres quase divinos, com olhos azuis como o céu, vozes suaves e cabelos sedosos que caíam até seus pés, intocados desde o seu nascimento.
Nasciam de plumas atiradas sobre lagos de cristais, quando a lua refletia na superfície líquida e fazia as luzes cruzarem-se. Emergiam como seres tais quais os humanos, mas com rostos solenes e peles perfeitas, dotados de um brilho que se divergia desde seus corações.
Ao atingir a adolescência, as omoplatas rachavam-se liberando a base do que seriam suas asas, que ao longo de dois anos, cresciam e geravam plumas brancas como a neve.
Seres semi divinos, de beleza idealizada e costumes perfeitos, supostamente incapazes de cometer o mal. Seres tristes, de natureza macabra e oculta, dotados de asas que jamais poderiam levá-los aos céus e nada mais eram que fardos que deveriam carregar durante toda a vida para que se encaixassem entre os habitantes da cidade de mármore.
Asas que surgiam rasgando a carne, danificando permanentemente a estrutura óssea a condenando-os a uma vida de dor. Desprovidos de quilhas, com ossos sólidos e pulmões falhos, nada mais eram que patéticos humanos luminescentes, com uma capacidade respiratória levemente avantajada. Mas idolatravam seu status como "anjos" e renegavam a qualquer um que, por algum infortúnio, precisasse ter as asas removidas. Livrar-se do fardo atrofiado era excluir-se do meio e aceitar sua identidade como um forasteiro, incapaz de viver como anjo e como humano.
Seus ossos deveriam aguentar aquela carga para ser aceito em um mundo falso. Os anjos, elevados ao status de onibenevolentes, eram tão cruéis quanto a degenerada sociedade humana que vivia aos pés do morro e oferecendo sacrifícios à cidade de mármore. Preferiam danificar a si mesmos e forçar todas as gerações de sua espécie a suportarem a dor terrível trazida pelas asas a perder sua divindade simbólica.
Eu livrei-me das minhas asas atrofiadas. Refugiei-me em uma caverna para tratar das horríveis feridas deixadas pelos ossos emplumados, escondendo-me no escuro enquanto esperava pela cura, pela redenção. Minha medula permaneceu quase saudável, minha morte não foi precoce em decorrência do colapso das vértebras, sucumbindo ao peso das asas, como ocorrera a tantos de meus iguais.
Eu nasci na cidade dos anjos e a reneguei. Eu não sou humano, tampouco sou divino. Sou a revolução, sou um grito no escuro, sou o príncipe solitário nas trevas das cavernas, sou a besta que espreita no abismo, sou a última voz gritando:
Libertai-vos das asas, quebrai vossas auréolas, salvai os vossos ossos dos que os tentam esmagar. Deixai para trás seus velhos fardos e esconde-te na escuridão para que o tempo cure as vossas feridas. Emergis então do abismo, e dai início a vossa revolução.
Notas finais
Eu tenho algumas ideias relacionadas a esse conto, então talvez algum dia eu o desenvolva mais. O que vocês acham? =)
Obrigado por ler~~
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