Os últimos dragões
9 Capítulo IX
Viserys montava na carroça sacolejante, cada sacudida da estrada ressoando em seus ossos como uma batida de tambor, desgastando-o pouco a pouco. O sol ardente pairava alto no céu, um inimigo implacável que parecia sugar toda a sua força vital. A poeira e o calor formavam uma barreira opressiva ao seu redor, envolvendo-o como um manto sufocante. Cada respiração era difícil, como se o próprio ar estivesse se recusando a lhe dar alívio.
Ele sentia o suor escorrendo pelo rosto, misturando-se à sujeira que já se acumulava em sua pele. Seu corpo estava exausto, os músculos latejando de fadiga, e o manto fino que usava para se proteger do sol parecia pesar uma tonelada. O calor, incessante e impiedoso, transformava cada pensamento em uma luta, cada movimento em uma tarefa árdua. A viagem para Astapor estava se tornando um tormento, uma provação que ele nunca havia imaginado enfrentar.
Viserys limpava a testa, mas era um gesto inútil, pois o suor continuava a escorrer em rios pelo seu corpo. Ele lembrava dos salões frescos da Fortaleza Vermelha, dos jardins sombreados de Porto Real, e uma raiva amarga crescia dentro dele. Isso não era o destino que lhe fora prometido, isso não era o que ele deveria suportar. Ele era o verdadeiro rei, o último dragão, e esse calor infernal parecia um insulto direto a sua linhagem.
Cada vez mais enfurecido, Viserys apertava os punhos, seus olhos púrpuras ardendo de ódio e frustração. Mas ele sabia que precisava continuar, precisava suportar. Havia um trono esperando por ele do outro lado do mar, e ele teria sua vingança, não importava o quanto o sol tentasse drená-lo de vida, o sol não conseguiria, pois ele, Viserys, também era feito de fogo, assim como o sol.
Por ora, porém, tudo o que ele podia fazer era aguentar, resistir ao calor esmagador e à exaustão que ameaçava dominá-lo, segurando-se à única coisa que ainda lhe restava: sua determinação inquebrável de recuperar o que era seu por direito.
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Daenerys sentia o peso da preocupação crescente em seu coração, cada dia mais ansiosa pelo que estava por vir. Viserys tornava-se cada vez mais instável, mais impaciente, e seus olhares se tornavam mais sombrios. Ele era seu irmão, seu sangue, mas havia algo no ar, uma tensão quase palpável que a fazia temer pelo que poderia acontecer. Ela sabia que o ódio e a frustração de Viserys cresciam a cada dia, e isso a preocupava mais do que ela estava disposta a admitir.
As tentativas de envenenamento por agentes de Robert apenas intensificaram sua inquietação. Ela não conseguia afastar a sensação de perigo iminente, como se estivesse sendo caçada por sombras invisíveis, sombras que o khalasar do seu marido conseguia afastar. Khal Drogo, sempre ao seu lado, prometera que atravessaria o mar por ela, que conquistaria o Trono de Ferro e lhe daria a coroa que lhe fora negada. Mas Daenerys não conseguia se livrar do medo que se enraizava profundamente em sua mente. Ela temia que essa promessa levasse a uma guerra ainda maior, que destruísse tudo ao seu redor.
Em momentos de solidão, Daenerys se pegava comparando sua situação à de Rhaenyra Targaryen, a princesa que fora rejeitada como rainha por ser mulher, mesmo sendo a legítima herdeira. Rhaenyra havia sido traída, preterida por seus irmãos, e Daenerys via uma sombra dessa história se aproximando de si. Ela tinha um irmão, Viserys, o verdadeiro herdeiro, e ela não queria ser vista como uma usurpadora, não queria seguir o caminho da princesa que enfrentara uma guerra que quase destruiu sua casa.
— Eu não quero o trono — ela disse ao sor Jorah numa noite silenciosa, sua voz era um sussurro carregado de dúvida. — O trono pertence a Viserys, é o direito dele. Eu... eu não quero usurpá-lo. Não quero ser vista como Rhaenyra.
— Minha senhora — ele começou, escolhendo cuidadosamente suas palavras —, o Trono de Ferro não é um assento comum. Ele foi forjado no calor do fogo e da guerra, feito de mil espadas fundidas. E o trono corta aqueles que são indignos de sentar-se nele.
— Você acha que Viserys não é digno? — ela perguntou, sua voz quase quebrando. Daenerys estava com a testa franzida, com um sentimento de inquietação crescendo em seu peito
— O trono não aceita fraqueza, khaleesi. E Viserys... ele é seu irmão, mas o trono não se curva a títulos, sangue ou linhas sucessórias — Jorah a olhou nos olhos, tentando transparecer uma verdade que nem ele sabia se acreditava. — Ele é impiedoso com aqueles que não têm força, sabedoria ou justiça. E temo que, se Viserys tentar reclamar o trono, ele se verá cortado pelas próprias lâminas que foram feitas para proteger a realeza.
As palavras de Jorah ecoaram na mente de Daenerys enquanto ela se retirava para seus aposentos. O peso da herança Targaryen parecia mais pesado do que nunca, e ela sabia que as escolhas que faria nos dias seguintes poderiam mudar o destino de todos. E, por mais que amasse seu irmão, ela não podia ignorar a verdade amarga que Jorah havia revelado. O trono não aceitava aqueles que não fossem dignos de seu poder.
Daenerys sentia como se estivesse presa em uma teia de emoções conflitantes, cada fio puxando-a em uma direção diferente. O peso de suas responsabilidades, o amor por seu irmão e o medo do futuro, tudo se enredava em sua mente, criando um nó difícil de desatar.
Sua preocupação com Viserys era como uma sombra que pairava sobre ela constantemente. Ela se lembrava do garoto que ele fora, antes que a ambição e o ressentimento o transformassem. Havia uma parte dela que ainda via Viserys como o irmão protetor, o príncipe prometido, destinado a reconquistar o trono perdido dos Targaryen. Mas essa imagem estava desbotada, quase irreconhecível, diante do homem que ele havia se tornado — instável, vingativo, consumido por uma raiva que parecia queimar mais intensamente a cada dia. Cada vez que ele a olhava, Daenerys sentia uma ponta de medo misturada com tristeza. Ela sabia que o amor que Viserys tinha pelo trono havia eclipsado o amor que ele tinha por ela.
O veneno, uma tentativa covarde de acabar com sua vida, despertou algo profundo dentro dela. Não era apenas o medo de morrer, mas uma compreensão súbita da fragilidade de sua própria existência. Ela estava longe de casa, cercada por estrangeiros, e ainda assim era o sangue de seu próprio povo que ela mais temia. O veneno era um lembrete cruel de que o perigo vinha de todas as direções, até mesmo de lugares onde ela deveria se sentir segura.
A promessa de Khal Drogo de atravessar o mar e conquistar o Trono de Ferro era ao mesmo tempo uma promessa de proteção e uma fonte de angústia. Drogo era poderoso, um líder temido e respeitado, e o amor que ele tinha por ela era inquestionável. No entanto, Daenerys não podia ignorar as implicações dessa promessa. Uma guerra pelo trono não seria apenas uma disputa pelo poder; seria uma carnificina que poderia destruir tudo. E embora houvesse uma parte dela que ansiava por ver a Casa Targaryen restaurada à sua antiga glória, havia outra parte, mais profunda, que temia as consequências de tal ambição.
Comparar-se a Rhaenyra Targaryen trouxe à tona uma sensação de impotência que Daenerys havia tentado suprimir. Rhaenyra era uma figura trágica, uma mulher que havia lutado com todas as suas forças para reclamar o que era seu por direito, apenas para ser traída por aqueles que deveriam ter sido seus aliados. Daenerys sentia a mesma injustiça em seu coração — ser uma mulher num mundo que não valorizava seu direito de governar, ser uma irmã que, apesar de tudo, desejava ver seu irmão prosperar. Mas o medo de seguir o mesmo caminho que Rhaenyra, de ser arrastada para uma guerra que poderia destruí-la, a mantinha acordada à noite.
Quando confidenciou seus medos a Jorah, a resposta dele fez com que um frio se instalasse em seu peito. O trono cortava aqueles que não eram dignos. E Viserys... Daenerys não conseguia afastar a imagem de seu irmão, furioso e amargo, tentando reivindicar algo que talvez nunca fosse destinado a ele. A ideia de que o próprio trono, a coisa que ele mais desejava, pudesse ser sua ruína, trouxe uma nova camada de preocupação ao coração de Dany.
Sozinha em sua tenda, Daenerys ponderava essas palavras, sentindo como se estivesse à beira de um precipício. O que ela realmente queria? A paz, para viver uma vida tranquila com Drogo e seu futuro filho? Ou a glória, para ver sua casa renascer das cinzas, mesmo que isso significasse sangue e destruição? A dúvida a consumia, e a responsabilidade de tomar a decisão certa pesava como uma coroa de ferro sobre sua cabeça.
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Joffrey, com a ausência de Robert, se viu como o rei de fato. A ideia de poder absoluto corria por suas veias como um vinho forte, intoxicando sua mente. No silêncio da sala de joias, ele encontrou o que desejava: uma coroa ornamentada, repleta de pedras preciosas, um símbolo de poder que ele acreditava ser seu por direito. Com um sorriso de triunfo, ele a colocou na cabeça, ajustando-a com cuidado como se já estivesse se acostumando ao peso do poder.
Com a coroa no lugar, Joffrey marchou até a Sala do Trono. O Trono de Ferro, imponente e cheio de história, o aguardava. Ele subiu os degraus com passos decididos, ignorando qualquer hesitação que pudesse ter sentido. Sentou-se no trono, sentindo as lâminas frias e irregulares pressionando suas costas, mas em vez de desconforto, ele sentiu-se poderoso.
Os criados e seus "amigos" o cercavam, olhos arregalados, surpresos e, alguns, temerosos. Joffrey, no entanto, estava confortável, como um animal em seu habitat natural. Com uma arrogância típica, ele começou a dar ordens, sua voz ecoando pelo salão vazio. Ele exigiu vinho, pediu que os criados se ajoelhassem, e então, dirigiu-se a Sansa, ordenando que ela se aproximasse e o servisse como a boa futura rainha que deveria ser. A menina, com um olhar de incerteza e medo, fez o que ele mandou, mas seus olhos traíam sua confusão e desconforto. Ele mandou ela ajoelhar ao lado do trono e servir como mesa de apoio, o que ela fez achando que era o certo.
Foi então que as grandes portas se abriram, e Tywin entrou no salão, sua presença imediatamente exigindo atenção, o Velho Leão era alguém que parecia exalar poder. Seus olhos frios e calculistas pousaram em Joffrey, sentado no Trono de Ferro como se já fosse rei. Tywin parou, observando a cena por um momento antes de caminhar até o trono, seu olhar duro fixo no neto.
— Desça desse trono, Joffrey. Esse não é o seu lugar — Tywin ordenou com uma voz firme, carregada de autoridade. Joffrey, em sua típica arrogância, ergueu o queixo e olhou para o avô com desdém.
—- Sou o futuro rei! Este é exatamente o meu lugar — ele rebateu, sua voz cheia de desafio, mas ainda faltando a profundidade da verdadeira autoridade. Tywin olhou para o neto com uma mistura de desprezo e diversão. Em vez de responder imediatamente, ele soltou uma risada desdenhosa, seca e cortante.
— Futuro rei, talvez… — ele disse, suas palavras impregnadas de sarcasmo. — Mas por enquanto, você é apenas um garoto tolo jogando com coisas que não entende, sentando em um assento bonito que será sua ruína.
A risada de Tywin cortou o ar, fazendo com que Joffrey se mexesse desconfortavelmente no trono. Ele podia ser arrogante e impetuoso, mas a risada de Tywin o desarmou de uma maneira que poucas coisas faziam. Joffrey não era tolo o suficiente para não sentir a verdade nas palavras do avô, mesmo que não quisesse admiti-la.
Tywin continuou a olhar para ele, a diversão sumindo de seu rosto, substituída por uma severidade gélida.
— Saia do trono, Joffrey. Um rei não é feito apenas de coroas e tronos. Ele é feito de poder real, de respeito, de sabedoria — coisas que você ainda está muito longe de entender — a voz da mão do rei Aerys II era fria e controlada, extremamente afiada, como aço valiriano.
Joffrey, sem opções, finalmente cedeu, mas não sem ressentimento. Ele desceu do trono, suas mãos apertando os punhos em frustração. Tywin o observou, os olhos estreitos, enquanto Joffrey, com uma careta amarga, tirava a coroa da cabeça e a entregava a um criado. O Trono de Ferro, frio e impassível, ficou vazio mais uma vez, enquanto o jovem Lannister deixava o salão, humilhado e furioso, mas sem coragem de confrontar o avô diretamente.
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Na vastidão gelada do Norte, o vento uivava entre as paredes de gelo da Muralha, cortando como lâminas e penetrando até os ossos. Era uma noite particularmente fria, o tipo de noite em que o silêncio se tornava quase palpável, pesado, como se carregasse segredos antigos que se recusavam a permanecer enterrados. Jon Snow, envolto em seu manto negro, observava as estrelas, pontos pálidos em um céu escuro, a mente perdida em pensamentos distantes enquanto o vapor saía de sua boca e narinas. Mas algo naquela noite não estava certo. Ele sentia uma tensão no ar, um nervosismo que parecia emanar de um ponto específico.
Ele encontrou Samwell Tarly afastado dos outros, mais uma vez lutando com seus próprios demônios. Sam, com seus ombros curvados e olhos baixos, parecia carregar o peso do mundo em suas costas, ele vinha assim há dias, cada vez mais recluso e escorregadio, como se tentasse fugir de qualquer conversa que pudesse escalonar para alguma conversa mais profunda. Jon se aproximou, o rosto sério, mas com uma leveza que sugeria preocupação genuína.
— Sam — Jon começou, a voz baixa, quase sussurrada, para não assustar o amigo — , o que está te atormentando?
Sam, que já estava à beira do abismo emocional, ergueu os olhos para Jon, seus lábios tremendo, como se segurassem uma torrente de palavras há muito represadas. Ele tentou resistir, mas a pressão era insuportável. As palavras explodiram de sua boca antes que pudesse se conter.
— As cartas, Jon... As cartas de Jaehaerys II — ele começou, a voz embargada e trêmulas. — Elas falam dos filhos... Aenys, todos conhecemos a história dele, o Rei Louco. Mas... mas Jaehaerys II... ele escreveu sobre Eamon, o segundo filho, e sobre Saerane, a caçula. Ele parecia tão orgulhoso ao descrever seus nascimentos, como qualquer pai ficaria. Ele... ele falou de Eamon com tanto carinho, como se já visse nele um futuro grande, e de Saerane... como a pequena flor de sua casa.
Sam parou, tentando recuperar o fôlego, as palavras haviam saído rápido demais, mas o alívio não veio. Em vez disso, a ansiedade apenas aumentou, sabendo que havia compartilhado algo que nunca deveria ter sido descoberto, ele quebrou a promessa de que guardaria segredo. Jon franziu o cenho, o desconforto crescendo dentro dele. Ele compreendia a curiosidade de Sam, mas também conhecia os perigos que a acompanhavam.
— Você deveria esquecer isso, Sam — ele disse, a voz firme, mas com um toque de preocupação. — Como o resto de Westeros esqueceu. Há coisas que é melhor deixar no passado, onde pertencem.
Sam balançou a cabeça, os olhos arregalados, quase desesperados, o corpo tremeu um pouco mais nesse momento.
— Eu tentei, Jon. Juro que tentei. Mas... é impossível. Como posso esquecer algo assim? Como posso fingir que esses nomes não existem, que esses filhos do rei simplesmente desapareceram? É como se a própria história estivesse me chamando, me implorando para não deixar isso cair no esquecimento.
Jon soltou um suspiro, sentindo o peso das palavras de Sam. Ele entendia o amigo, mas também sabia que mexer com o passado, especialmente um tão sombrio e esquecido, só traria problemas.
— Há uma razão para que essas coisas sejam esquecidas, Sam. Talvez seja melhor assim. Westeros já tem fantasmas demais para lidar.
Sam baixou os olhos, sua mente ainda presa nas cartas, nas palavras de um rei que há muito tempo não existia mais, mas cujos segredos ainda persistiam, como uma sombra sobre o presente. Ele sabia que Jon tinha razão, mas isso não tornava as coisas mais fáceis.
— Talvez — ele murmurou, sem convicção, sabendo que, no fundo, ele já estava emaranhado demais nesses segredos para simplesmente deixá-los para trás.
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Na escuridão gelada da noite, enquanto o vento sibilava ao redor da Muralha, Jon Snow se encontrava preso em um sono inquieto. Em seus sonhos, a paisagem branca e inóspita do Norte parecia ainda mais silenciosa, como se o mundo estivesse segurando a respiração. O frio era implacável, mas havia algo de errado naquela frieza; não era apenas o inverno comum que conhecia. A neve se acumulava de forma estranha, quase como se estivesse sendo guardada por forças além da compreensão.
No meio desse cenário desolado, Jon viu uma figura esguia surgindo à distância. Era uma garota, de cabelos prateados que brilhavam como a própria lua, sua pele pálida contrastando com o fundo branco e frio. Ela caminhava descalça pela neve, os pés finos deixando apenas rastros leves no chão. Havia algo etéreo nela, algo que a fazia parecer mais um espectro do que uma pessoa real. Ela avançava com passos suaves, mas determinados, como se seguisse um caminho que conhecia bem, um caminho destinado a ser trilhado. Seus olhos, de um lilás claro, eram enigmáticos, e Jon sentia que, mesmo sem palavras, ela o estava chamando, implorando para que a seguisse.
Enquanto Jon observava a garota se mover, ele ouviu um som profundo e ameaçador, como um rugido distante. Um dragão, tão negro quanto a noite, emergiu do horizonte coberto de neve. A criatura era majestosa e aterrorizante, suas asas imensas pareciam capazes de engolir o próprio céu. Seu hálito quente derretia a neve ao redor, revelando a terra negra e morta por baixo. O calor que emanava do dragão era sufocante, contrastando com o frio ao redor, como uma lembrança ardente de uma época esquecida.
Jon tentou mover-se, seus instintos de lutar ou fugir despertados, mas seus pés estavam pesados, quase como se estivessem congelados no chão. Ele não conseguia se aproximar da garota, nem fugir do dragão. Estava preso em um pesadelo que não podia controlar.
Então, ele viu a terceira figura. Um homem valiriano, tão imponente quanto o dragão, estava encostado em uma parede de gelo que não deveria estar ali. O homem era alto, de feições nobres e austeras, com longos cabelos prateados que caíam em ondas sobre seus ombros. Em sua mão, ele segurava uma espada de aço valiriano, uma lâmina que Jon reconheceu como sendo lendária, uma arma esquecida pela história, mas ainda pulsante com um poder antigo. O homem o observava com olhos que pareciam atravessar sua alma, como se soubesse de todos os segredos que Jon tentava enterrar.
O homem não falou, mas Jon podia sentir suas intenções, seu poder, e o peso da espada que ele carregava. Era um presságio, uma visão do que poderia vir, do que estava destinado a acontecer. A presença do homem, da garota e do dragão indicava uma ligação antiga, uma história perdida que estava prestes a ser desenterrada, trazendo consigo tanto glória quanto destruição.
Jon acordou de repente, seu corpo coberto de suor frio, apesar do ambiente gélido. Seu coração batia acelerado, e ele sabia, em seu íntimo, que o sonho não era apenas um produto de sua imaginação. Algo antigo estava se mexendo nas sombras, algo que ele ainda não compreendia, mas que logo se revelaria. O peso da profecia, do sangue e do destino, estava prestes a se abater sobre ele, e Jon não podia escapar, não importa o quanto quisesse.
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O salão principal da fortaleza era iluminado por tochas e braseiros, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra escura. Daemon estava sentado em seu trono, uma cadeira imponente talhada em obsidiana, ouvindo com uma expressão grave as queixas e pedidos de seus vassalos. Sua postura era rígida, e o cansaço de ouvir os problemas diários da ilha começava a pesar em seus ombros. Ao seu redor, homens e mulheres se amontoavam, cada um esperando sua vez de falar.
No meio da multidão, uma mulher de rosto marcado pela dor se destacava. Ela se aproximou de Daemon, suas mãos trêmulas agarrando a barra de seu vestido simples. O rosto pálido e os olhos avermelhados indicavam que ela não dormia há dias e chorava muito, consumida pela angústia e pelo luto. Sua voz, apesar de fraca, carregava uma firmeza desesperada enquanto relatava sua história. Falou de seu marido, um homem violento que, em um acesso de fúria, havia matado o bebê que carregava em seu ventre, destruindo suas esperanças de uma vida melhor.
Quando ela implorou pela separação e pela punição de seu marido, Daemon a observou com uma expressão impassível. Para ele, problemas conjugais eram problemas conjugais; não cabia a ele interferir nos casamentos de seus vassalos.
— O que acontece entre marido e mulher deve ser resolvido entre eles — disse ele, sua voz ecoando pelo salão. — Não posso desmanchar uma união sagrada pelo calor de uma discussão, por mais trágica que seja.
— Meu senhor — a camponesa se ajoelhou em frente ao trono —, por favor, imploro pela atenção da senhora Rhaella, por tudo que é mais sagrado, peço que chame-a — algumas poucas lágrimas escorriam pelo rosto dela. A menção de sua esposa trouxe um silêncio ao salão, e todos os olhos se voltaram para Daemon. Ele ficou em silêncio por um longo momento, ponderando sobre a súplica da mulher. Por fim, com um suspiro quase inaudível, acenou para um dos guardas.
— Tragam Rhaella — ele falou, sua voz carregando um tom de resignação.
Rhaella entrou no salão pouco depois, sua presença trazendo um ar de serenidade que contrastava com a tensão no ambiente. Sua beleza era inegável, mas havia uma força quieta em seus olhos que poucos podiam perceber à primeira vista. Ela se aproximou da mulher, ouvindo sua história com atenção e empatia. Quando a mulher terminou, Rhaella ficou em silêncio por alguns instantes, ponderando sobre o destino dela.
— Você foi marcada por uma perda que ninguém deveria sofrer — disse Rhaella, sua voz suave, mas firme. — E em uma união onde a violência tira a vida de um inocente, não há espaço para a reconciliação. A separação é não apenas aceitável, mas necessária — Daemon, ao ouvir a decisão de sua esposa, franziu a testa.
— Em Westeros, as tradições são diferentes — ele começou, a voz carregando um leve tom de reprovação. — Não é assim que se resolvem essas questões...
— Não estamos em Westeros. Não somos westerosi — Rhaella o interrompeu, seus olhos encontrando os dele com uma determinação inabalável. Sua voz era calma, mas com uma autoridade que poucos ousariam desafiar. — Aqui, as regras podem, e devem ser diferentes.
A sala inteira ficou em silêncio, os vassalos trocando olhares entre si. A força e a compaixão de Rhaella haviam se mostrado mais poderosas do que as tradições de Westeros, e todos ali presentes sabiam que a decisão dela havia mudado o curso daquele julgamento. O que poderia ter feito a mulher voltar para casa com seu marido agressivo, fez a camponesa se ver livre e o homem em maus lençóis.
Daemon observou sua esposa por um longo momento antes de assentir, aceitando o veredicto dela. Mesmo que ele governasse a ilha, havia momentos em que o coração e a sabedoria de Rhaella eram necessários para trazer justiça de verdade. E naquele instante, ele soube que, apesar de todas as suas reservas, Rhaella havia feito o que era certo.
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