Os órfãos de Nevinny Vol.2
5 Joseph M.
Parece que havia passado uma nevasca na madrugada quando abre a cortina de sua janela e vê seu jardim coberto com um manto branco de neve e piscina quase que congelada. Dá pra sentir o frio de fora dentro do seu quarto, claro, não porque a temperatura lá fora deve estar abaixo de zero mas sim pelo ar condicionado ligado em intensidade moderada pra dar aquele frescor que tanto gosta e te ajuda a dormir bem mais rápido do que o normal.
Ainda é estranho de alguma forma acordar e dar de cara com a paisagem afora de sua mansão depois de algum tempo, mas ao mesmo tempo ainda lhe traz um conforto ao saber que está em casa e que está bem perto de pessoas que estão presentes desde a infância e que está bem em saber que todas as ideias que tinha na cabeça sobre o medo de abandono e julgamento da parte delas era apenas algo que havia criado, tanto que depois de algumas conversas você teve a oportunidade de ouvir de suas próprias bocas o que de fato pensavam sobre tudo.
Todavia, parece que ainda falta algo para saber e que algo ainda não havia sido contado ou explicado completamente. Mas não por parte deles, mas sim de alguém em específico que para você sempre se torna um mistério por não saber de fato o que se passa em sua mente. Essa pessoa é Joseph Montenegro, cujo está sentado à mesa na cozinha tomando café com uma feição bem concentrada.
— Ah, olha quem diria. Enfim acordou. Como passou a noite? — ele pergunta.
— Oi pai, bom dia. Como o senhor está? Essa noite eu dormi super bem. Só uma vez que eu me assustei de madrugada por causa de um helicóptero que passou bem baixo por aqui. Parecia que ele ia pousar aqui perto. O senhor chegou a ouvir? — você pergunta.
— O helicóptero? Não, eu não cheguei a ouvir, mas de vez em quando eles sempre passam por aqui, sim.
— E por que? Tá acontecendo alguma coisa? Aqui nunca foi de ter isso.
— Não é nada. Não precisa se preocupar — ele fala.
— Então o senhor sabe de alguma coisa.
Ele ri com leveza e logo tenta mudar de assunto ao dizer...
— Calma, filhx. Por que todas essas perguntas? Parece que alguém acordou com espírito investigativo hoje, mas quero saber sobre o motivo lhe deixar assim — ele diz — Mas antes, não quer tomar um café? Olha, Anastacia, a nossa querida cozinheira fez um café que você gosta. Eu mandei fazer do seu agrado. Eu sei que vai gostar.
Você então começa a servir seu próprio café e a pegar algumas unidades de biscoitos, frutas e pão de queijo colocando-as no prato. Dessa vez não está como as outras, onde há várias funcionárias que vem servir à mesa e perguntar se alguém quer isso ou aquilo. Ainda está no período festivo de fim de ano, então as famílias moradoras do bairro costumam dispensar os funcionários para que eles possam descansar reduzindo a frota apenas deixando um ou dois pela residência.
— Então, o que acha?
— Tá tudo muito bom como sempre. Mas eu não quero que o senhor fique irritado ou se incomodar por eu ter feito essas perguntas — você diz.
— Mas por que eu iria me incomodar?
— Deixa pra lá, pai. Acho que eu não preciso perguntar mais nada. Eu sei que o senhor é um homem ocupado e tá buscando fazer suas mudanças. É um assunto que eu não preciso saber. Acho que esse é um daqueles assuntos que quanto menos eu saber, melhor.
— E por que você acha isso? Por acaso acha que estou me metendo em coisas ilegais? Não precisa dizer que não sabe. Com certeza você sabe de alguma coisa ou então vai pesquisar por conta própria ou com... Allison Padalecki e Lavínia Velasquez.
Por um momento você para de mastigar ficando totalmente imóvel olhando bem nos olhos de seu pai ao fazer tal afirmação.
De primeira não sabe o que dizer, já que o que ele falou lhe pegou de surpresa, mas, ao mesmo tempo, de alguma forma parece que o que ele havia falado não era algo tão inesperado quando trata-se de uma pessoa considerada influente e que tem suas fontes de informações, então... como que Joseph não poderia saber de tal informação?
— Então o senhor também sabe de alguma coisa. Por acaso ficou me supervisionando quando eu estive fora? — você pergunta.
— Não sei se posso usar essa palavra, mas um homem de negócios tem que sempre estar informado de tudo. Desde que vi você e Allison na biblioteca central eu pude perceber que alguma diferente estava acontecendo. Pra querer acessar a área privada só pode ser alguma coisa de bem importante que você possa ter interesse, não estou certo?
— Aquilo? Mas eu já disse que eu 'tava fazendo um trabalho de escola. O senhor não lembra?
— Sim, eu me lembro muito bem. Mas não há nada que os livros da biblioteca não possa te oferecer as informações que você necessitava. Porém eu queria ver até onde mais você queria chegar — ele diz.
— Os livros que eu e Allison demos uma olhada não tinha nada demais. A gente queria fazer uma coisa de diferente pra colocar no trabalho. Eu já expliquei isso pro senhor.
— Então queria arrancar essas "coisas diferentes" das páginas dos livros da ala confidencial? S/N, nos livros que são abertos a todo o público só precisam conter as informações que eles precisam saber. Por isso que o que você procurava tem que ficar na área confidencial.
— Não tô entendendo porquê o senhor tá falando desse jeito. Parece que tá me julgando ou querendo saber alguma coisa a meu respeito — você diz, incomodadx.
— Oh, S/N, por favor. Eu quero que saiba que está tudo bem em querer saber. Nós já tivemos uma conversa antes mas é provável que nem tudo tenha sido dito.
— O senhor pode ser mais específico?
— Em um determinado momento, depois de eu ter saído daquele lugar infernal que é a prisão, eu tive que me recompor fazendo aliados pra que eu pudesse voltar pro meu âmbito de vida e poder voltar o que eu estava fazendo que é viver dignamente. Eu quis me reaproximar de você pra poder tentar me explicar e falar tudo sobre o que de fato tinha acontecido. Ver você ficar sobre a guarda da sua irmã me incomodou um pouco e ali eu vi que realmente eu tinha feito alguma coisa de muito errado. Eu tive que te observar por algum tempo pra saber da sua rotina e assim criar a oportunidade de me reaproximar. Coloquei alguém pra sempre examinar seus passos e tentar saber o que estava fazendo. Então foi aí que eu soube das suas pesquisas e visitas em Miríade. Lugares subterrâneos, áreas restritas... você andou por esses lugares na companhia de Lavínia e Allison atrás de algo. Eu não vou perguntar o que é, mas só por esse comportamento eu já devo saber do que se trata.
Você fica em silêncio e nada fala.
— Eu não sei em que ponto específico você começou a deduzir as coisas, mas eu preciso ser mais claro com você no momento — ele suspira — Do quanto você já sabe até agora?
— Eu... do quanto que eu sei? Como assim? — você pergunta, gaguejando.
— Só preciso que me confirme que o que viu não vai compartilhar com ninguém. Sabe, tem coisas que estão sendo feitas na surdina, onde ninguém mais sabe do que está sendo feito ou construído. Sair falando coisas desse tipo pra alguém antes do tempo pode atrapalhar no processo fazendo presenças indesejadas acontecerem.
— Espera, pai. Confesso que o isso me pegou de supresa. Há quanto tempo o senhor tá me espionando? — você pergunta, incrédulx.
— Por favor, S/N, só me fale isso. É bem importante.
Você notando a expressão de preocupado de Joseph, a princípio fica indecisx sobre o que falar, mas vendo que parece que ele sabe bem mais do que imaginava, será que seria propício falar sobre o que já sabe ou seria melhor tentar arredondar o assunto a fim de ganhar tempo?
— Pra começar, eu não entendi muito bem o que o senhor falou. Mas, sim, tiveram alguns episódios que eu, Allison e Lavínia andamos por alguns lugares e nos metemos em alguns outros lugares que acredito que não era pra gente ter encontrado, mas tudo foi por mera curiosidade.
— Mas isso não foi só uma vez, não é? — ele questiona.
— Não, er... não foi só uma vez. Eu não sei. Fomos a tais lugares por pura curiosidade e fomos mais vezes por querer saber o que mais tinha por lá — você explica.
— Por favor, eu peço que não volte mais a esses lugares que visitaram. Existem locais que não são abertos pra visita.
— Tudo bem. Mas eu posso saber por quê? Essa conversa tá ficando estranha e o senhor falando desse jeito não tá me agradando nada. O que tem depois daquele túnel em Miríade? — você pergunta diretamente.
— Eu não posso falar mais nada S/N. O quanto menos você souber melhor.
— Mas por que isso agora? O senhor está envolvido com coisas? Até as pessoas da minha escola já até falaram sobre você no baile de inverno.
— Você não me falou isso. O que eles falaram de mim?
— Isso não importa. Mas eu não quero que as pessoas em minha volta continuem tendo uma visão má de você. Te acusaram de toda a maldade, crimes e que o senhor está envolvido na economia da cidade.
— Sim, eu estou. E isso não é bom?
— Eu acho que é, mas... não sei, pai. Eu só precisava saber um pouco mais. Tem tanta gente meio revoltada e contra a evolução da cidade, essa história de táxi voador. Tem muita gente conservadora que não tá gostando muito disso.
— O táxi voador vai ser uma das maiores evoluções dessa cidade e da história.
— O senhor tá envolvido nisso também? — você pergunta.
— Com certeza. Como ficar de fora disso? É um grande investimento pra família.
— Eu sei. Eu fico muito preocupadx com tudo isso. O senhor não está tão presente como era antes. Depois que o senhor voltou parece bem mais ocupado que antes. Eu sei que o senhor está tentando reviver sua vida e seguir em frente, se envolver em projetos novos, mas ainda ficam os resquícios pelo o que o senhor fez, o que fez as pessoas falarem e se afastarem da gente. E pelo visto, agora de mim. Poucas pessoas da escola sabem que você é meu pai, só os mais próximos na escola. Depois que o nome do senhor foi mencionado no vídeo onde falavam coisas horríveis do senhor eu fiquei com medo e pra completar ainda teve essa história do quase assassinato da Suzanne. Eu fiquei com medo de todos pensarem que somos uma família de criminosos.
— Disso tenha certeza que não precisa se preocupar, filhx. Eu obtive ajuda de pessoas altamente profissionais e sua inocência foi decretada.
— Eu sei, mas muitos ainda pensam diferente. Desculpa dizer isso, pai, mas se alguém aqui em Atelis que não deve souber dessa história, podem até pensar o contrário. Podem dizer que de alguma forma o senhor tá me acobertando.
— Você não comentou com ninguém sobre essa história, não é? — ele lhe pergunta lhe deixando sem ação.
— Não — você responde sem pensar.
É claro que a sua resposta dada a Joseph foi equivocada e sabe que de fato comentou o caso com Nat e Meghan. O "não" dado foi por pura pressão e susto, talvez por medo da reação dele. Mas Nat e Meghan são amigxs de infância, então não teria nenhum problema contar pra elxs. Porém há outra pessoa que também sabe disso: Jennifer Elliot. Agora, resta tirar uma dúvida a limpo: como ela também pode ter ficado sabendo dessa história?
— É melhor que não diga nada a ninguém. Você sabe como as pessoas podem ser maldosas, principalmente quando se envolve o meio dos negócios. Qualquer um pode usar qualquer coisa pra prejudicar o outro — Joseph afirma.
— Nem posso imaginar como vai ser difícil eu voltar pra escola e ter pessoas olhando torto pra mim.
— Mas há uma solução óbvia pra isso. É só você se mudar pra Atelis novamente e voltar a estudar na sua antiga escola.
— Eu sabia que o senhor ia dizer isso, mas não, obrigadx. Minha vida agora é Atelis, pai. Eu não posso simplesmente tudo o que eu já construí lá.
— E aqui você pode?
— Não é isso. Eu pensei que lá não seria interessante, mas depois eu fui vendo que seria diferente.
— Porque começou a investigar os lugares proibidos, não é? — ele ri.
— Para, pai. Já disse que não vou mais nesses lugares. Se é importante pra você e trata-se do seus investimentos, eu fico longe.
— Agradeço.
— E também há outro motivo que eu não posso voltar. Eu estou sob a guarda de Lívia agora. Tenho que ficar com ela. Só voltei pra Atelis por conta dessa história do que aconteceu na escola.
— Nem me fale. Odeio ter que lembrar desse detalhe. Pensei que com os colegas que tenho as coisas se tornariam mais fáceis. Mas tô vendo que não é tão fácil assim — ele diz, pensativo, parecendo irritado.
— Sinto muito pai — você suspira — Mas sabe, até que eu ia gostar de voltar pra cá de vez e poder acompanhar o senhor nesses projetos. Eu ia poder mostrar pra Jennifer que meu pai também tem projetos importantes pra ajudar a sociedade.
— Pra Jennifer? E sobre o que ela anda se gabando?
— O de sempre. Sobre o pai dela ter participado na projeção do táxi voador.
— Ah, os Elliot. Como sempre se achando superiores aos outros, mas são falhos como quaisquer um. Se sua amiga Jennifer soubesse das polêmicas e várias traições de seu pai com garotas de programas e não somente o caso que ela conhece garanto que em um instante toda essa admiração ia embora — Joseph fala dando uma gargalhada debochada.
— Pai, por favor. O senhor não tá com condições de julgar ninguém — você diz — Mas confesso que também detesto os Elliot. E Jennifer nunca foi minha amiga, caso o senhor não saiba.
— Não me surpreende, mas... vocês pareciam bem próximxs.
— Ela parece com uma garota da minha escola em Nevinny. Nem sei quem é a pior. Aliás, o senhor deve conhecer. Ela me disse que você contribuiu bastante pra economia em Nevinny. Tem alguma coisa que eu preciso saber sobre seu envolvimento com a família Delano?
— A família Delano é bem ativa na economia de Nevinny. O senhor Delano vai concorrer à prefeitura da cidade em breve. Ele é um parceiro e tanto, mas pode ser bem imprevisível também. Não se pode confiar totalmente.
— Se não pode confiar, por que o senhor trabalha com ele então?
— É tudo "negócios", S/N. Há riscos que devemos correr.
Por uns instantes, ambxs ficam sem falar nada, apenas aproveitando a refeição. O telefone de Joseph toca e de imediato ele se retira da mesa avisando que trata-se de um telefonema de negócios.
Um sentimento de certa preocupação ou talvez cansaço toma de conta, pois sua mente começa a refletir nas atitudes de seu pai. Da época da prisão ele continua parecendo uma pessoa bem diferente da que costumava apresentar quando antes viviam ele, você e sua mãe, Samantha.
Os comentários, o que você viu falarem no telão na noite do baile em Nevinny e todo o resto como a noite da prisão e a preoce saída dela lhe atormentam lhe fazendo perguntar no que provavelmente Joseph teria se tornado ou o que provavelmente ainda poderia estar se tornando.
Como ele mesmo disse: "É tudo "negócios". Há riscos que devemos correr", o quão envolvido ele poderia estar no meio de tudo isso e qual a gravidade das consequências que isso poderia ocasionar?
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