Os órfãos de Nevinny Vol.2
17 Entre as águas cor de néon
O silêncio do seu quarto foi substituído pelo som rítmico de ondas que não quebravam, mas deslizavam. Ao abrir os olhos, vê que não está mais entre os lençóis de seda. Seus pés agora estão mergulhados na areia que parece feita de cristais triturados, emitindo um brilho suave.
O cenário é bem parecido como o da última vez. O mar à frente pulsa em um azul neon profundo e a espuma das ondas brilha em um roxo elétrico, talvez misturado com um rosa. Talvez seja o reflexo da grande lua bem clara e super branca brilhando no céu.
— Sabia que você viria hoje. Quer dizer, na verdade, eu fiquei com um pouco de dúvida.
Virando-se devagar para o lado e lá está ele, Victor Walsh, exatamente como na última vez em que se viram mantendo o enorme sorriso no rosto.
— Oi, Victor… — você fala quase sussurrando.
Ele caminha em sua direção sentando-se na areia fosforescente e sinalizando para que faça o mesmo.
— Como você está? — ele pergunta.
— Acho que bem. Na medida do possível — você responde.
— Muita coisa aconteceu, não foi? — ele pergunta fixando os seus olhos no horizonte violeta — Eu vi o que aconteceu com a Suzanne. Aquele quase assassinato. Sei que ainda anda bastante preocupadx com essa história.
— Se fosse só isso. Esse assunto de repente voltou com mais força ultimamente. Agora estamos falando mais sobre ele, criando teorias de quem possa ter sido o responsável — você fala.
De repente, um nó na garganta. Falar com Victor é como se estivesse confessando seus pecados pra uma espécie de ser angelical ou algo assim, ainda mais pelas partes em que ele resolve falar das coisas que já aconteceram e te avisar das futuras.
— Eu sei como você está se sentindo. O caos, tudo girando. É horrível, não é? Me lembro bem quando passei pelo meu caos. Às vezes ele vem, desenterra o que estava escondido e volta para o mar ou simplesmente vem arrastando tudo e levando todos que estão pela frente. Quem não for forte o suficiente acaba sendo levado. Eu, infelizmente, não fui forte.
Aproximando-se da água, Victor toca a superfície da água néon fazendo um movimento circular. O brilho dourado surge parecendo que vem do fundo da areia.
— Você faz muita falta aqui. Meghan e Nat também sentem. Como que nós nunca percebemos que você tinha certas dificuldades? O que aquelas pessoas falaram pra você, te levando a tomar essa atitude. Acho que nunca vamos nos perdoar por isso — você diz enquanto olha para o céu sem avistar a tal lua vermelha que viu pela última vez.
— Isso tudo funciona como um jogo. Um jogo de xadrez, talvez. As pessoas estão jogando onde as peças são vidas humanas. A volta às aulas não será só sobre notas ou status social; será sobre quem vai conseguir manter a máscara no mesmo lugar enquanto o chão treme.
— Que máscara? Do que você tá falando? Lá vem você outra vez. Nunca parou de falar em códigos, nem mesmo depois de…
— Morto. É, não parei mesmo — Victor dá uma breve pausa — Já vai fazer dois anos em alguns meses.
— Dois anos? Já se passou tudo isso? — você pergunta engolindo seco.
— Sim, você se lembrava disso?
— Como eu posso esquecer? Você marcou as nossas vidas. Eu não consigo imaginar o vazio que Nat e Meghan possam ter sentido também — você fala, pensativx.
— Meus pais… — Victor inicia, sua voz agora parecendo misturada ao mar — Eles ainda guardam meus pincéis e cadernos. Há uma caixa debaixo da minha cama que eles nunca tiveram coragem de abrir. Na verdade não podem porque tem um cadeado e eu pedi a eles que nunca abrissem sem a minha autorização. Educados como eles são, nunca fizeram isso.
— Um cadeado? E o que tem dentro dessa caixa? — você pergunta.
— Se for lá… se você for o conforto deles, talvez aquela casa deixe de ser um mausoléu.
— Então você quer que eu vá pra ver o que tem nessa caixa? Eu posso ficar com ela? — você pergunta.
— Por que você é tão insensível? Quer saber o que tem na caixa, mas não quer saber como estão meus pais?
— Mas eu já sei como estão seus pais. Eles estão bem. Dentro do possível, mas estão — você responde fazendo com que Victor balance a cabeça em sinal de negação e descontentamento.
— Por favor, S/N, visite-os por mim? Eles precisam saber que nem tudo que eu era foi apagado.
— Com certeza. Eu vou visitar, sim. Eu preciso. Se for pra você ficar em paz e também seus pais, eu posso fazer.
Uma onda maior, carregada de partículas cintilantes, subiu como uma parede de luz líquida entre os dois. Por um breve segundo, você vê o reflexo de Victor não como o adolescente triste que partira, mas como alguém: forte, livre e sem medo.
A onda quebra.
O frio da água néon atinge seus pés, mas em vez de molhar a sensação é de um choque elétrico suave que percorre sua espinha, puxando sua consciência de volta para a superfície da realidade. O roxo intenso é aos poucos alterado para o grafite escuro das sombras do quarto e o som do mar é substituído pelo toque da campainha na frente da casa.
Você senta-se na cama, a respiração ofegante, sentindo o peso da promessa no peito. A cidade de Atelis ainda dorme lá fora, sob a luz artificial de outdoors, porém as palavras de Victor ainda ecoa como um trovão distante.
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