Notas iniciais
Escrito por Aleph Adkins.
Boa leitura! =)

Nova Iorque, 2023, 2:37AM.

Chovia. Chovia torrencialmente. Ouvia-se apenas os estranhos grunhidos e os passos lentos dos walkers pela avenida ensanguentada, os alarmes de carros abandonados as pressas por famílias desesperadas, os sons das mordidas vorazes na carne inocente. A cidade de Nova Iorque, "a cidade que nunca dorme", agora faz da frase uma realidade. A cidade que era cheia de vida, de histórias, de sonhos agora se tornou um inferno, a cidade da morte. Pelo menos para a grande maioria, que agora corre atrás do cheiro de carne fresca. No meio de toda aquela carnificina, de todo aquele insuportável odor de morte, surge a silhueta de uma garota, que deveria ter entre catorze e dezesseis anos. Apavorada, a garota andava em passos curtos e silenciosos, olhando para todos os lados para garantir que não estava sendo perseguida por um daqueles monstros. De repente ela ouve um grito, um grito ensurdecedor que dura apenas alguns segundos, provavelmente de uma criança, ela procura a fonte.

O grito ecoa e tudo volta ao mesmo silêncio de antes, a garota tenta procurar a criança, mas sem sucesso, novamente um grito, e ela percebe que está mais próxima da criança, ela ouve um choro, um choro baixo seguido de soluços sufocantes. Ela se abaixa e encontra um garoto de bruços que aparenta ter a mesma faixa etária dela, ele está desacordado. Ela nota que uma garotinha está embaixo de outro carro atrás dela... Primeiramente ela se assusta achando que fosse algum desses monstros, mas percebe que a garotinha é inofensiva, ela se aproxima e pede com gentileza:

– Saia daí.

A garotinha se afasta e continua a soluçar.

– Eu não vou te machucar. Você conhece esse garoto? — pergunta a garota tentando acalmar a menina.

– Conheço... — responde a garotinha secando as lágrimas.

– Ele é seu parente?

– Sim, ele é meu irmão.

– Você precisa sair daí, temos que tirar seu irmão de baixo desse carro antes daquelas coisas chegarem.

A menina volta a chorar por lembrar dos walkers e a garota por um instante se sente responsável pela vida daquela menininha. A garota vira-se e puxa o garoto pela perna, a menininha percebe que a garota não vai machucá-la e a ajuda a puxar o seu irmão, depois de conseguir tirá-lo lá de baixo, a garota vira o corpo e começa a chacoalhar o garoto.

– Qual é o nome dele? — pergunta a garota colocando uma parte do cabelo para trás da orelha.

– Nathan. — responde a menininha.

Parou de chover e ele continuava imóvel, mas respirava com dificuldade. A menininha vira-se para buscar seu cachorro de pelúcia que deixara embaixo do carro e encontra um braço ensanguentado vindo em sua direção tentando lhe puxar, a menininha grita e no mesmo segundo Nathan acorda rápido e inexplicavelmente pega sua irmã e puxa a garota pelos braços, eles correm o mais rápido que podem por entre os carros em chamas, pessoas dentro dos carros esquecidas ou que desistiram por perceberem que era inútil lutar perante tal desgraça, a garota ligeiramente olha para trás e percebe que uma horda de walkers estão os seguindo. Nathan para de correr, coloca a irmã embaixo do carro e pede para a garota dar a volta e ver se a porta da drogaria que encontrava-se na lateral do carro estava aberta, ela obedece e rapidamente segue até a porta, Nathan olha para o lado na direção de onde eles vieram e percebe que a horda está cada vez mais rápida, aqueles corpos cambaleando sedentos pelo sangue de Nathan que sofrera um corte no braço que sangrava incessantemente, ele se encontrava em estado de choque, paralisado diante da situação, a adrenalina que tivera anteriormente para correr havia acabado e ele voltava a si, a garota percebendo isso, puxa a menininha debaixo do carro e pede para que se esconda dentro da drogaria, a menina obedece sem hesitar e entra, a garota chama Nathan que está imóvel, aquele sentimento de responsabilidade toma conta dela, que primeiramente estranha o que está sentindo por não ser uma pessoa que se importava com os outros, mas um apocalipse zumbi muda as pessoas. Ela então misturando extinto de sobrevivência e responsabilidade puxa o garoto pelo braço e se esconde dentro da drogaria. No mesmo instante, a garota e Nathan começaram a bloquear a entrada com balcões, prateleiras, tudo o que encontravam para se livrar dos walkers por um tempo. Nathan, com muita dor no braço por conta do machucado, senta-se no chão em cima de um tapete velho com desenho indianos, estranha primeiramente por ter um numa drogaria mas não dá tanta importância, sua irmã que abraçava seu cachorrinho de pelúcia e olhava fixamente para a porta ouvindo os grunhidos dos walkers, enquanto a garota que para ele fora um anjo da guarda procurava medicamentos para tratar o ferimento.

– Pronto, peguei tudo o que precisávamos para tratar esse ferimento. — disse ela agachada colocando as coisas no chão.

O garoto sem jeito, só conseguia olhar para a garota, sua voz travou, nenhuma sílaba sequer saía de sua boca.

– Me dá seu braço, vou fazer um curativo que aprendi com minha avó. Eu não te garanto que vai melhorar 100% mas vai fazer parar de sangrar. — disse a garota colocando o braço de Nathan sobre sua perna.

Finalmente, Nathan consegue falar:

– Qual seu nome?

– Taylor. Taylor Vogelmann.

– É austríaco?

– Não, não. É alemão. — respondeu Taylor com um ligeiro sorriso.

– Obrigado por salvar a vida da minha irmã, Claire.

– Não há de quê. Eu senti em obrigação de ajudá-los. Claire... que nome lindo! — diz Taylor olhando para Claire que responde com um singelo sorriso.

– Você tem um sotaque diferente... é de onde? Mississipi? Alabama? — pergunta Nathan intrigado.

– Quase acertou! Sou de Lousiana, vim pra cá morar com a minha avó porque não me dava muito bem com minha... você não tem nada a ver com isso, não queira saber dos meus problemas. — respondeu Taylor abaixando a cabeça envergonhada com os olhos cheios de lágrimas.

Um silêncio ensurdecedor invadiu o lugar. Nathan não sabia o que falar, algumas lágrimas pingaram dos olhos de Taylor enquanto estava de cabeça baixa.

– Olha Nate! Alguns deles estão indo embora! — diz Claire quebrando o silêncio apontando para a porta.

– O que será que deve ter feito alguns deles irem embora? — perguntou Nathan tentando fazer Taylor falar.

Taylor olha para a porta e rapidamente volta para o curativo de Nathan e o finaliza. Nathan agradeceria, mas se lembrou que as pessoas são ruins, que elas te abandonam quando mais precisa, mas como eu disse, um apocalipse zumbi muda as pessoas.

– Obrigado Taylor. — agradece Nathan abraçando-a.

Quando Nathan a solta, os walkers que ficaram na porta da frente conseguem derrubar a barreira de cadeiras e prateleiras e começam a entrar, Nathan pega Claire no colo e corre para a saída dos fundos e Taylor o acompanha, eles encontram uma porta, porém estava trancada. Eles se viram, Nathan pede para Taylor carregar Claire, sua vida começa a passar diante dos seus olhos, ele analisa mentalmente os fatos e as chances que são zero. Nathan vê na parede um machado de emergência, quebra o vidro de proteção e o segura preparado. Taylor que começa a sentir um estranho formigamento na perna, nota que está machucada e sangrando e por isso que os walkers estão atrás deles já que o sangramento no braço de Nathan está estancado, ela encontra o botão de alarme de incêndio e o aperta ativando os detectores de fumaça no teto, tudo fica molhado, fazendo com que o cheiro do seu sangue somado ao seu suor desapareçam por instantes. Os walkers agora mais lentos davam uma vantagem cronológica maior aos três. Nathan dando uns passos para trás percebe que pisou em um tapete, e lembra do tapete que havia visto perto da porta da frente da drogaria, ele suspeitando, levanta o tapete e encontra a porta de um porão, onde era um estoque de medicamentos, Nathan rapidamente abre esse alçapão e Taylor e Claire entram, Nathan entra por último, fechando a porta.

Lá embaixo eles encontram longas prateleiras, aquele cheiro de mofo somado ao cheiro de madeira envelhecida e remédios tomava conta do ar, não conseguiam enxergar nada, um breu, não se sabia ao certo o que se passava na cabeça deles, mas o sentimento que predominava era o medo. Medo dos walkers lá em cima descerem, medo de algum walker estar ali esperando por eles, medo de chamarem atenção dos walkers pois não sabiam onde pisar e chutavam vários frascos de remédios. Já eram por volta de seis da manhã e só o que enxergavam eram os finos fios de luz do sol passando entre os vãos da madeira do andar de cima.

– Encontrei uma mochila...- sussurrou Nathan verificando a movimentação acima.

– Podemos guardar alguns medicamentos úteis que encontrarmos por aqui. — sussurra Taylor em resposta.

Colocando Claire no chão Taylor ajuda Nathan a encontrar itens básicos de primeiros socorros.

– Estou com fome! — reclama Claire abraçando seu cachorrinho.

–Calma querida, todos nós estamos com fome. — responde Taylor tentando acalmá-la.

Terminando de encher a mochila, Nathan a coloca nas costas.

–Será que eles já foram? — pergunta Taylor fazendo um pequeno sinal de olhar para cima.

– Provavelmente... durante o dia eles não são a nossa "preocupação-prioridade". — responde Nathan.

– E o que é nossa "preocupação-prioridade"? — pergunta Taylor com um pequeno sorriso.

– Os sobreviventes. Os humanos às vezes são mais perigosos do que zumbis famintos. — responde Nathan como se estivesse relembrando experiências desagradáveis.

– "O mundo é um lugar podre. Maldito show de putas". — diz Taylor olhando pro lado.

– Adoro esse seriado! — responde Nathan com um enorme sorriso no rosto.

– Você assistia?

– Claro, adorava assistir quando meu pai não voltava pra casa...- diz Nathan olhando para baixo fechando o sorriso.

– Desculpa se te fiz lembrar de alguma coisa ruim. — Taylor diz colocando as mãos no ombro de Nathan.

– Não foi nada. Mas nós precisamos sair daqui agora.

Nathan pega Claire no colo e abre um segundo alçapão que encontrou logo a frente. Eles saem na porta de entrada, de baixo de um tapete velho com desenhos indianos, aquele tapete que Nathan estranhara quando sentara no chão perto da porta da frente.

– Agora eu descobri a função deste tapete cafona. — diz Nathan dando risadas.

Ao sair lá de baixo, Taylor olha para o horizonte e vê o sol nascendo. Sem saber porquê os três paralisam-se e ficam observando o sol, Nathan começa a se lembrar da sua casa em Delaware e por um segundo um pensamento passa na sua mente, ele daria tudo pra voltar ao passado, daria tudo pelo cheiro de mofo dos móveis antigos de sua casa que estavam sem uma limpeza há dias, daria tudo pelos dias cinzentos e tristes de sua vida monótona e rotineira, do cheiro de pinga com o cheiro do boteco de esquina onde seu pai passava o dia inteiro bebendo, daria tudo para voltar a ver o formato do rosto de Margaret a senhorinha que sempre lhe ajudara que ele considerava como sua avó, cheiros, momentos, ele daria tudo para voltar para aquela desgraça de vida, mas só por um segundo. Taylor sentia coincidentemente a mesma coisa, um sentimento forte a dominou, era a saudade, ela sentia saudade da sua mãe, aquela mulher chata que sempre lhe maltratara, do seu meio-irmão Derek, que sempre se gabava por ter atenção da mãe de Taylor, do seu padrasto que batia em sua mãe e mesmo assim a mulher o amava e fazia tudo por ele, até rejeitar a própria filha, sentiu saudade das pessoas do seu colégio que a chamavam de "lunática", "doentia", sentiu saudades das suas camisetas antigas do AC/DC, lágrimas caíram quando se lembrou de sua avó, lágrimas silenciosas porém destruidoras, lembrou da única pessoa que um dia se importara com ela, sua avó, a mulher mais meiga que já conhecera, um alguém com quem podia partilhar seus sentimentos sem ser julgada, um porto seguro. Enquanto Nathan e Taylor recordavam-se das suas vidas antes do apocalipse, um walker que andava lentamente se arrastando, sem mesmo fazer um pequeno barulho para quebrar o transe em que se encontravam, esticou sua mão passando pela orelha esquerda de Nathan e puxou o capuz rosa de Claire feito de tricô à mão por Margaret como presente de aniversário de 6 anos, no momento que ele puxa o capuz, Claire se vira e vê aquele ser com partes de todo o corpo faltando, suas entranhas abertas com seus órgãos pendurados, aquele ser que um dia fora alguém importante ou não, alguém que tinha sonhos e vivia uma vida como todos os outros, agora resume sua vida na procura de carne fresca, Claire grita o mais alto que consegue, libertando Taylor e Nathan do seu transe emocional. Por extinto Taylor que olha rapidamente pro balcão encontra um pedaço das vidraças da drogaria que fora saqueada as pressas por famílias desesperadas tentando fugir da cidade. Cravando o pedaço de vidro no centro da testa do walker, penetrando no cérebro, no mesmo minuto, ele que estava pronto para dar seu abraço mortal em Taylor caiu no chão, morto. Outros walkers que estavam na rua de trás começavam a se aproximar da porta da entrada da drogaria devido ao grito ardido de medo de Claire, os três correm o mais rápido que podem, se esquivando dos carros, latas de lixo, walkers sem metade do corpo tentando agarrá-los pela perna e tirar o maior pedaço de carne que pudessem. Viram na primeira rua a esquerda, quatro pessoas que estavam dentro do mercadinho do bairro procurando alimento para sobreviver ouviram os gritos dos três e os grunhidos dos walkers que estavam logo atrás deles, o homem que tinha em suas mãos uma 12 de cano cerrado saiu do mercado para ajudá-los, pois não é todo dia que se encontra sobreviventes num apocalipse zumbi.

– Ei! Vocês três! Entrem aqui! — gritou o homem com cabelos e barbas negras.

Nathan pensou em continuar indo sem dar importância ao homem, mas percebeu que haviam mais pessoas dentro do mercado, uma mulher e duas crianças, provavelmente uma família e estavam armados, era a melhor opção para os três. Nathan pega a mão de Taylor e começa a correr em direção ao mercado, eles entram enquanto o homem mata os walkers, sua suposta esposa e filhos colocavam o que encontravam para comer em mochilas o mais rápido que podiam porque a cada tiro que o homem dava eram mais walkers que saíam dos becos e prédios.

– Vamos Joseph! Temos que sair daqui! — grita a mulher de cabelos curtos e louros que aparenta ter vinte e poucos anos.

Joseph recua e pede para que todos o sigam. Eles obedecem e começam a segui-lo, Taylor e Nathan carregando Claire acompanham os quatro que subiam pela saída de incêndio na lateral de um pequeno prédio residencial, Joseph esperou todos subirem e puxou a escada de volta para que os walkers não pudessem subir. Três andares a cima, a mulher e as duas crianças rapidamente entram numa janela do prédio que é onde atualmente viviam, lá Nathan põe Claire no chão e Joseph chega e também entra no pequeno apartamento de três cômodos, com pisos de madeiras corridas, as janelas estavam tampadas com tábuas de madeiras provavelmente para os walkers não vissem o movimento dentro do lugar à noite, a porta também fora tampada com uma tábua, no lugar podia-se encontrar um fogão velho, uma pia, uma pequena geladeira com ferruge, dois pequenos sofás com pequenos rasgos no estofado, duas camas de solteiro, uma TV de 14 polegadas que não funcionava mais devido à falta de energia no bairro, uma mesinha de centro com xícaras e garrafas e café, um pequeno guarda-roupa onde além de roupas guardavam suas armas e equipamentos. Podia parecer um lugar desconfortável mas fora o lugar mais aconchegante que Taylor, Nathan e Claire já viram depois do incidente.

– Sentem-se aqui por favor. — pede a mulher apontando para um sofá velho.

– Eu só tenho a agradecer, obrigado por nos ajudar lá trás. — diz Nathan olhando para a mulher.

– Não foi nada, não é todo dia que encontramos sobreviventes...- responde Joseph colocando uma grande tábua de madeira na frente da janela.

– Como você se chama garotinha? — pergunta a mulher com um longo sorriso no rosto.

– Meu nome é Claire. — responde Claire acanhada.

– E qual o seu nome? — pergunta Nathan à mulher.

– Meu nome é Blair. Esse é Joseph. — responde ela apontando para o homem — Esse é meu filho, Kevin. — olhando pro garoto que aparenta ter uns doze anos.

– E esse é minha sobrinha, Megan. — diz Joseph olhando para a garotinha que parece ter onze anos.

– Foi um prazer conhecê-los.

Notas finais
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