Notas iniciais
Fim :( terminamos aqui e eu deixo vocês com essa frase de efeito meio dramática, mas que espero que abra a imaginação dos meus caros leitores de o que virá a seguir.

Seus olhos se abriam lentamente e ela se acostumava com a claridade do ambiente, embora ainda não soubesse dizer onde estava. Ela estava deitada e ela podia sentir o calor do fogo e as peles jogadas sobre seu corpo.

Ela estava em seu quarto, percebeu então. As cortinas denunciaram o ambiente, mas quando ela procurou o lado vazio da cama ela viu Arya cochilando na poltrona.

— Arya... – sua voz era irreconhecível, extremamente rouca devido a desuso.

Os flashes de memória tocaram sua mente e Cersei apenas se lembrava de estar indo presidir a reunião da colheita de inverno quando sentiu uma dor forte. Durante o dia inteiro ela estava sentindo pequenas pontadas em seu abdome e em suas costelas, conforme o dia passava elas iam aumentando até que então ela se deu conta que não eram gases, não era seu bebê nadando. Era na verdade, o bebê tentando sair. Ele sairia mais cedo.

Ela se lembrava de gritar quando Lorde Umber a encontrou jogada no chão e se contorcendo de dor. Lembrava-se de Jon ser o primeiro a chegar e ele e Lorde Umber a carregaram para a câmara enquanto se contorcia de dor, chorava e perguntava de seu marido.

— Onde está Eddard? – perguntava esbaforida. – Eu quero meu marido... se o bebê vai nascer agora chamem meu marido. Procure seu pai, Jon.

Foi um daqueles momentos das canções tristes... das canções sobre morte. Parte de Cersei sentia que ela estava se despedindo daquele mundo, mas ela não poderia ir sem antes se certificar que Eddard ouvisse o que ela tinha a dizer.

— Se eu morrer... – ela dizia engasgada com a própria dor.

— Cala a boca! Você não vai morrer. – ele disse bruscamente e a apertando contra o peito. Ele ficaria para o parto. – Você não pode morrer, Cersei.

— Eu te amo. – ela chorou apertando a mão dele com força. – Eu te amo tanto, mas tanto.

Enquanto ela empurrava e fazia força para que seu bebê saísse, muito embora seu corpo implorasse para que desistisse, ela escutava as palavras daqueles que acompanhavam o parto.

— Ela está perdendo muito sangue... Ela não vai conseguir.

— Perderemos a Rainha e o bebê.

Ela não se importava se o Estranho a levasse, não realmente. A vida era difícil, complicada. A morte era mais fácil, ela ouviu falar que era mais rápido que adormecer. Mas ela não podia ceder, porque se cedesse seu bebê não conseguiria sobreviver e sair de seu corpo. Ela precisava ser forte, ela precisava...

— Faça força, minha Rainha! Eu já vejo a cabeça da criança!

Cersei chorava, sentindo Eddard tremer atrás dela. Ele estava assustado, ela podia dizer. Queria se virar pra ele e dizer que estava tudo bem, que ela havia tido nove luas para estar em paz com uma possível morte decorrente de um parto muito sofrido.

Reunindo os últimos vestígios de força e coragem que lhe restavam, ela empurrou pela última vez e foi questão de segundos para escutar o choro de sua criança. Ela havia conseguido, pensou consigo mesma e ainda descrente.

— É um menino, Sua Graça!

— Ele é um anão? – a pergunta saiu fraca de seus lábios.

— N-não, Sua Graça.

Ela sorriu. Nenhuma droga de anão escorregaria do meio das suas pernas outra vez. Ela podia descansar em paz e então levemente sua cabeça tombou.

— Cersei?

Ela escutou seu marido chamar sua voz no fundo de sua mente e ela só desejou que ele parasse de gritar. Ela se sentia tão cansada.

— Cersei!

Sentiu suas mãos fortes em seu corpo. Ele clamava, implorava para que ela acordasse, mas a verdade é que ela não queria acordar. Não realmente. Não depois de tudo...

E durante aquele longo e profundo sono a mente de Cersei lhe pregou peças, porque ela viu Jon voar nas costas de um dragão, ela o viu surgir das chamas e ela também se viu. Capturada, espancada e ensanguentada, com os cabelos curtos e usando trapos imundos. Ela não era mais uma Rainha, ela era a prisioneira de alguém. E ela acordou quando viu a cabeça de seu marido ser cortada.

— Mãe. – Arya disse suspirando de alívio. – Você está acordada...

Engoliu em seco sentindo Arya segurar sua mão. Sua menina sorria e tinha os olhos cheios de lágrimas. Ela não via sua filha chorar desde que ela era uma pentelha ciumenta.

— Há quanto tempo estou dormindo?

— Três dias. Você teve febre, você perdeu muito sangue e... Deuses, mãe, nós já estávamos perdendo as esperanças.

— Onde está seu irmão? – sussurrou. – Eu gostaria de vê-lo. Ele é perfeito? Oh Arya, ele não é um anão, é?

— Não, mãe. – sua filha sorriu e negou com a cabeça. – Tommen é lindo, ele se parece com você. Myrcella está o acompanhando no berçário.

— Traga ele pra mim. – pediu. – Traga ele e seu pai, por favor.

O primeiro a chegar havia sido Eddard e em seguida Jon. Seu marido foi o primeiro a chegar até ela e ele a agarrou com força e ela se agarrou a ele, como se aquilo pudesse mantê-la mais próxima do mundo dos vivos, como se aquilo fosse impedi-la de a qualquer momento ser arrancada dele.

— Eu pensei que você fosse morrer. – ele dizia ainda em pânico.

“Eu também” pensou consigo mesma, mas não diria aquilo. Ele parecia já muito transtornado.

— Mas eu não morri. – beijou os lábios dele. – Você tem muitos anos ao meu lado ainda.

— Felizmente, meu amor, felizmente.

Ela sorriu e se virou, estendendo a mão para Jon que se aproximou e a abraçou com muito mais delicadeza que seu pai. Ela beijou o rosto de seu menino homem, alisando seus cabelos selvagens.

— Você tem um irmãozinho agora. – afastou-se para olha-lo. – Você finalmente vai ter alguém para bater espadas com você.

Ela conseguiu roubar um sorriso de Jon, mas então ela percebeu seus lábios tremerem e seus olhos encherem de água. Ela limpou as que escorreram, beijando seu rosto e sentindo seu filho tremer.

— Está tudo bem, eu estou aqui ainda.

Cersei ainda abraçava Jon quando Myrcella chegou ao quarto trazendo o embrulho azul. Sentiu seu coração aquecer enquanto estendia os braços para que sua filha a entregasse seu bebê, havia sido tanto tempo desde que ela havia segurado um, mas como imaginava ela não havia se esquecido... não, ainda estava entranhado nela.

— Talvez você devesse tentar amamenta-lo. Ele não aceita o leite de nenhuma ama. – disse Myrcella se sentando aos pés da cama, bem ao lado de Jon e Arya.

Sorriu para a criança, oferecendo-lhe o peito. Ela estava um pouco receosa ainda, preocupada que ele talvez não fosse reconhece-la como sua mãe já que ela havia dormido por um bom tempo, mas para sua completa satisfação, o pequeno Tommen aceitou-a imediatamente e assim como seu irmão havia feito, ele agarrou seu dedo com força e mamou tranquilamente.

— Nenhum de vocês aceitou outro leite... não me surpreende que com ele não tenha sido diferente. – Eddard comentou, ele tinha um grande sorriso e beijava o pezinho do bebê.

Quando finalmente Maester Luwin chegou apenas Eddard e Cersei ficaram no quarto. Myrcella aguardou por um tempo até que Tommen terminasse de se alimentar e então ela levou o pequenino nos braços para que Cersei pudesse realizar os exames.

Ela nunca havia passado por aquilo. Não importa quão dolorosos todos seus partos tenham sido, ela quase havia morrido dessa vez. Ela sentia que estava presa a vida apenas por um fio, como se os Deuses tivessem dado a ela a opção de arrebentar essa linha insignificante ou se segurar mais firme.

Aparentemente ela segurou a linha o mais firme que pôde e vendo o estado abalado que seu marido e seus filhos se encontravam, Cersei pela primeira vez percebeu que a morte de alguém como ela poderia mudar tudo.

Se ela morresse, Eddard conseguiria tomar conta do filho deles? Ou será que ele encontraria uma ama de leite e o filho cresceria chamando a camponesa de mamãe?

— Os Deuses foram bons para a senhora, minha Rainha. Você vai ficar bem, mas precisa descansar absolutamente por uma lua pelo menos. Não poderá carregar peso, não poderá ter relações sexuais, nenhum tipo de emoção forte e em nome dos Velhos e Novos Deuses minha Rainha, nada mais de filhos.

— O chá da lua não funcionou. – disse Cersei enquanto com a ajuda de Eddard se vestia. – Eu o ministro religiosamente há mais de dez anos e ele não funcionou dessa vez.

— Durante as luas que a senhora estiver em resguardo não haverá necessidade de toma-lo, vamos dar uma pausa ao seu corpo. Eu vou ministrar outro chá que irá limpar seu sangue e os efeitos do chá da lua e a senhora então vai começar a toma-lo novamente em uma dosagem mais elevada. Ministrarei pessoalmente, minha Rainha. No mais, é apenas isso por hoje, trata-se apenas de descansar e reunir forças. Eu vou visita-la amanhã, até lá, passe bem Sua Graça.

Cersei digeria as palavras de Maester Luwin cuidadosamente enquanto seu marido o escoltava até a porta, fazendo algumas perguntas básicas. Tudo que Cersei conseguia pensar era que por três luas ela se tornaria uma inválida praticamente, ela ficaria presa aquela cama, afastada de suas obrigações, de suas crianças e de Eddard.

— Maester Luwin disse que não podemos ter relações sexuais, ele não disse nada sobre dividir a cama. – disse quando Eddard se aproximou. – Você não concorda?

— Eu posso machuca-la durante a noite... – ele sorriu tristemente.

Com certo ressentimento, Cersei percebeu que seriam tempos difíceis dali em diante.

Conforme os dias se passavam lentamente e Cersei parecia que nunca ia sair daquela cama, seu maior companheiro se tornou Tommen. Ele era um bebê muito tranquilo, como se tentasse compensar todo o susto de seu parto. Não era silencioso como Myrcella havia sido, mas ele certamente não era tão chorão quanto Arya e Jon.

Outro companheiro era a bola de pelos negra que a cada dia estava maior. Desde que Cersei descobriu sua gravidez, ficou bastante óbvio para ela porque Jon havia encontrado quatro lobos na floresta e por que aquele filhote em especial parecia tão afeiçoado a ela. Não era nada com ela, era tudo sobre Tommen.

A fera passava seus dias nos aposentos de Cersei, ressonando tranquilamente embaixo do berço de Tommen. Dificilmente alguma pessoa, além de Cersei, podia se aproximar do berço da criança sem levar pelo menos uma dentada nos calcanhares.

— Ele precisa de um nome. – comentou seu marido certa noite em que ele foi visitar a ela e Tommen.

— Tommen é muito pequeno para dá-lo um nome.

— Talvez você devesse batiza-lo então.

De fato era estranho que eles não soubessem como se referir a bola de pelos negra que se movimentava lenta e silenciosamente. As vezes o lobo de seu filho a lembrava um pouco dos felinos e um felino em especial que Cersei teve na infância.

Ele era preto, gordo, tinha uma deficiência na pata traseira e somente um olho. Ele ia ser afogado no rio por seu tio, mas Cersei impediu, dizendo que cuidaria dele e ele acabou se tornando um gato bastante ativo e exímio caçador. O nome dele era Gato Felpudo.

— Acho que Cão Felpudo é um bom nome...

— Ele não é um cão.

— Sim, mas Lobo Felpudo não soa tão bem quanto Cão Felpudo.

A ferinha pareceu aceitar o nome que lhe foi dado pela mãe de seu mestre, porque desde o primeiro instante, ele passou a responder por Cão Felpudo.

Diariamente suas crianças passavam em seu quarto para vê-la. Jon principalmente, ela só ainda não sabia se era porque ele gostava de segurar o irmãozinho ou se porque ele ainda estava assustado com sua possível morte.

— Ele é um bebê feliz. – Jon comentou rindo com Tommen no colo. – Como eu era quando bebê?

— Exigente. – Cersei sorriu. – Mas adorável, você era muito carinhoso, dócil e apegado a mim.

Jon sorria sem tirar os olhos do menino e Cersei percebeu que aos poucos Tommen ia dormindo nos braços de seu irmão mais velho. O pequenino soltou um longo bocejo enquanto segurava com força o dedo de seu irmão.

Lentamente, após uns minutos de pleno silêncio no quarto, Jon colocou o bebê no berço próximo a cama de Cersei e então se dirigiu a ela, sentando-se e pegando em suas mãos.

— Será que a senhora poderia me contar sobre... sobre nós? Sobre como aconteceu no seu ponto de vista? – Jon pediu.

— Jon... – começou, soltando um longo suspiro cansado.

— Mãe, eu não estou tendo dúvidas sobre voltar pra casa. Eu não duvido que a senhora me ame da mesma forma que ama as meninas e Tommen... é só que as vezes eu fico me perguntando se é realmente justo que eu tenha tudo isso quando nem do pai eu vim.

Cersei balançou a cabeça negativamente e riu sem humor. Jon podia realmente não ter vindo de Eddard, mas eram tão parecidos...

— Jon, eu vou começar do começo. – disse lentamente. – Eu engravidei nas minhas núpcias de seu irmão Joffrey. Ele era um bebê feliz e quietinho, encontrei-o morto no berço e eu achei que minha vida tivesse acabado ali. Marque bem minhas palavras, você nunca vai amar algo tanto quanto seu primeiro filho, Jon. – ela esticou a mão e pegou a dele. – E pra mim, Jon, você é meu primeiro filho. Você chegou com seu pai e eu não te vi, Eddard demorou a falar de você porque eu estava muito abalada, eu entrei numa terrível depressão, eu tentei me matar diversas vezes enquanto seu pai estava fora. Eu me joguei das escadas duas vezes e somente não saltei da torre mais alta porque Ser Rodrick me agarrou e me jogou em seus ombros como se eu fosse um saco de batatas.

Jon escutava-a pacientemente, apertando sua mão, sem esboçar uma reação e sem interrompê-la.

— Quando eu vi que as pessoas da casa não iam permitir que eu desse um jeito em mim mesma, eu comecei a destruir coisa. Eu destruí meus aposentos, destruí o berçário. Seu pai me conheceu com vários quilos a menos, descabelada e rasgando uma cortina. A extensão da minha dor parecia não ter fim, eu achei que estava enlouquecendo e quando eu descobri sobre você, reconheço envergonhadamente, eu fiquei furiosa. Eu queria matar seu pai, eu queria que você desaparecesse...

Havia um vestígio de dor no olhar de Jon quando ela disse aquilo. Foi doloroso mesmo para ela, porque Cersei o amava tanto, ela amava tanto Jon, que doía pensar em uma realidade que ela não pudesse sentir aquilo por seu menino especial.

— Mas então eu estava sem sono uma noite. Eu estava caminhando por Winterfell e lhe escutei chorar. Parte de mim acreditou que era Joffrey que havia voltado, segui seu choro, mas quando cheguei em seu quarto, lá estava você... descoberto, esperneando, pronto para pegar uma pneumonia e faminto. Você não aceitava o leite das cabras, das amas, das vacas, mas você aceitou o meu. Confesso que na hora fiquei deslumbrada porque você se parecia tanto com meu Joffrey e eu estava tão triste, Jon. Eu tomava a mistura de Maester Luwin, mas meu leite não secava, eu tinha tanto amor para dar dentro de mim, mas nenhuma criança pra receber. E você estava lá, precisando de alguém que cuidasse de você...

Seus olhos se encheram de lágrimas ao se lembrar do menino pequeno e magro para a idade, esperneando no berço e então se calando em seus braços.

— Eu me apaixonei por você imediatamente. Eu sabia que cuidaria de você dali em diante como se fosse meu. Implorei para que seu pai nunca o dissesse a verdade sobre seu nascimento, eu nunca quis saber quem era sua mãe de barriga. Na minha cabeça quanto menos eu soubesse, mais você seria meu. Nós éramos um só, Jon. Assustava seu pai a dependência que você criou de mim, mas a verdade é que você só tinha muito medo de ficar sozinho. Você se agarrava em mim com força toda vez que alguém queria carrega-lo. Eu abdiquei de todas minhas funções como Rainha porque você precisava desesperadamente de mim, você era incapaz de dormir longe de mim. Nós fazíamos tudo juntos e se você era dependente de mim, eu era mais ainda de você. Eu acreditava que nunca teria filhos novamente, eu dedicava todo o amor que tinha dentro de mim a você, Jon.

Ela viu uma lágrima escorrer do rosto de seu filho que tinha a mandíbula rígida e mordia o lábio inferior com força. Sua mão limpou a lágrima teimosa e ela o beijou no rosto.

— E eu ainda sinto isso, Jon. Não importa quantos filhos eu tenha, você sempre vai ser meu primeiro. Você sempre vai ser meu herói, o bebê que me salvou de mim mesma. Você me salvou da loucura Jon.

— Joffrey é seu primeiro...

— Não, Jon... eu amei Joffrey, é claro que amei, mas parte de mim teve- teve que se esquecer dele para conseguir seguir em frente. Doía muito e eu não podia ser sua mãe e estar de luto ao mesmo tempo. Você precisava de mim.

Jon fungou e então a olhou, dando um sorriso sem exibir os dentes. Os olhos estavam vermelhos, mas ele não permitia que as lágrimas escorressem.

— Eu sinto muito, mãe. Acho que nada que eu disser ou fizer poderá redimir os meus pecados com a senhora. Eu não devia ter fugido, não devia ter gritado com a senhora ou te empurrado. Eu não tenho uma lembrança sua perdendo a cabeça comigo durante a infância, eu não consigo me lembrar do pai gritando conosco. Aquele não era eu, não era a pessoa que vocês dois criaram.

— Está no passado, Jon. – pegou no rosto dele. – A única coisa que eu quero é que você me prometa que nunca mais vai fazer isso, querido. É a única coisa que eu preciso.

— Claro. – ele acenou com a cabeça avidamente. – Nunca mais. Eu prometo que eu nunca mais serei uma decepção pra senhora, estarei aqui sempre para proteger você e as meninas. E o pequeno Tommen.

Apertou o nariz de Jon, forçando-o a abrir um sorriso.

— É trabalho meu proteger você.— ela disse amavelmente.

Jon esticou a mão para apertar o dela.

Não mais...

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