Os vários nomes de Nicolas
1 Garoto ferido
Notas iniciais
Esta história vem me rodeando há alguns anos. Finalmente decidi pô-la no papel (no pc). Está terminada, por tanto, a postagem de capítulas será bem regular.
Vai ter gírias, muitas gírias da região.
Então é isso, mais nada por enquanto.
O carro acelera na BR 343, seguindo o sentido de Altos para a cidade de Teresina. O sol de meio-dia entra pela janela e atinge diretamente o braço da passageira, que o esconde sob a mochila. Lá fora ainda é verde. É junho, época das últimas chuvas no norte do Piauí. Dentro de alguns meses a paisagem irá ganhar tons marrons e a grama verde irá sumir, assim como muitas folhas das árvores típicas da caatinga que irão cair e forrar o chão, uma adaptação contra o período mais seco do ano. Por enquanto, ainda é possível ver algumas áreas alagadas e pássaros chapinhando na água acumulada de semanas sobre o solo pouco profundo.
Ágata queria está em casa, no município de Campo Maior, almoçando com a avó, em seu sitiozinho, e não naquela viagem. No entanto, a mãe, Cecília, fez questão de ir buscá-la pessoalmente e apresentá-la a ele, o principal assunto da família há quase duas semanas.
Ele é Nicolas. O filho de Enzo, o avô de Ágata com outra mulher muito mais jovem. Se o velho ainda estivesse vivo, a menina não hesitaria em dizer-lhe boas verdades. Ela ainda não o perdoou.
A capital Teresina vai surgindo logo à frente com suas casas e então prédios. A cidade verde possui um fundo cinza do cimento e concreto mesclado das várias cores dos prédios, comércios e residências. Duas rotatórias e alguns semáforos depois, mãe e filha chegam ao destino: um hospital público próximo à arborizada Avenida Frei Serafim, no coração da cidade.
— É aqui? — Ágata pergunta pela primeira vez.
A mãe assente e confere o freio de mão, antes de tirar o cinto. Ela ajeita os óculos e o cocó no alto da cabeça.
— Espero que seja rápido — Ágata resmunga. — Estou com fome.
—Tem uma barrinha de cereal na minha bolsa. Você quer?
Ágata estende a mão para a bolsa e ela mesma tira a barra, enquanto a mãe fala com a recepcionista que indica o corredor. Acompanham uma enfermeira pequena de nome Amanda até um dos quartos.
— A boa notícia é que ele tem se recuperado bem da concussão. Vai precisar ficar um tempo com uma tipoia no braço esquerdo que deslocou, mas nada mais — diz ela. —Na verdade, estou impressionada com a força desse rapazinho.
— Ele tá acordado? — pergunta Ágata.
A enfermeira mexe em alguns papéis na prancheta que traz nos braços. Ela tinha um olho roxo por baixo dos óculos de armação preta.
— Não depois que aplicamos o sedativo.
— Sedativo? — Ágata se virou pra mãe. — Sedativo pra quê?
Cecília põe um dedo na frente dos lábios pintados.
— É complicado. Depois te conto.
Amanda abre a porta e deixa Cecília entrar. Ágata fica ao lado, de braços cruzados e cara de zangada. Ou pelo menos tentando transparecer isso. O que é difícil quando esse sentimento dá lugar a uma profunda pena.
Há poucos minutos desejou que o acidente de carro tivesse levado a vida de Nicolas junto, assim não teriam que aturar uma lembrança de uma traição do avô à avó.
Isso foi quando Nicolas ainda era só um nome, um fantasma do passado. Agora, ele se materializou em forma de um alguém machucado e frágil. O coração dela apertou ao vê-lo deitado e cheio de ataduras e tubos enfiados no braço e nas narinas. Havia um monitor do seu lado bipando a cada batimento cardíaco.
E mais uma vez a raiva cresceu no coração da menina, dessa vez contra Enzo. Como ele pode deixar a existência de Nicolas desconhecida do restante da família? Será que algum dia, o garoto realmente o chamou de “pai”?
— A mãe dele já foi enterrada? — perguntou Ágata a Cecília.
— Uma semana após o acidente.
O enterro foi um pouco depois de ligarem para Airá, a avó de Ágata, e jogarem a bomba da existência de Nicolas em seu colo. A neta lembra que a idosa não parava de tremer ao telefone.
O acidente de carro aconteceu por volta das duas da manhã nas proximidades de Teresina. Um caminhão desgovernado bateu na lateral do automóvel que Débora dirigia. Ele capotou três vezes antes de parar no fim da ribanceira. Nicolas usava cinto. Débora não. Nicolas sobreviveu com alguns ferimentos. Débora morreu na hora.
A polícia e assistência social procuraram por parentes e amigos. Eles viviam sozinhos e a mãe sustentava filho e ela através de uma pequena pensão paga pelo governo. Não saiam e nem tinham qualquer outro parente. Com um pouco mais de investigação, a chegaram até o pai do rapaz. O nome Enzo da Silva Montes está em todos os documentos de Nicolas Pereira Montes.
Cecília sai para falar com o médico. Nesse momento, a menina senta ao lado do garoto de dezesseis anos e analisa seu rosto, procurando por semelhanças dele com o avô, Enzo. Cabelos pretos e bagunçados cobriam um pouco das sobrancelhas. O nariz era reto e a pele tinha um tom moreno claro. Cor de rapadura, lembrou o estômago vazio de Ágata.
— É. — Ela sorri. — Não tem como negar. Vocês são a cara e o focinho do outro. — Ágata ajeita os cabelos do tal de Nicolas. Sente como se estivesse invadindo a privacidade de alguém. — Quando é que você vai acordar? Precisamos decidir o que fazer contigo. Pensei em te mandar para alguma associação que cuide de animais.
As pálpebras do rapaz tremem um pouco. Ágata descobre os ombros de Nicolas. Ele é muito magro, quase como se vivesse sempre com fome.
— Ei, não me leve a mal. Estou brincando, é claro. Só espero que tenha senso de humor. A família do teu pai é meio perturbada. É bom saber logo. Meu nome é Ágata, e tecnicamente sou sua sobrinha, apesar de termos a mesma idade.
A menina enrola nos dedos uma mecha do cabelo indeciso entre o crespo e o cacheado.
— E a cor dos seus olhos? Serão verdes como os do vovô? Eu os achava bonitos. Vou te contar uma coisa, não tinha nada que eu não fizesse escondida que aquele velho não descobrisse. Aí já viu, né? Menino gosta de aprontar, mas com ele não tinha brecha. O teu pai era do tipo de pessoa que ou você odiava ou você amava. E eu o amei como um pai, um terceiro pai, na verdade. Depois te explico os lances dos meus pais. É meio complicado. Bem, eu tinha uns seis anos quando o vô morreu... — Baixou a voz ao falar: — Ele deve ter sido um péssimo pai para você.
A mão de Nicolas se mexe sobre o tecido. Ágata pensa em chamar a mãe. Desiste, quando a reação para. Frustrada, ela morde o lábio inferior.
— Houve dias em que pensei que a nossa família não continuaria sem ele. Eu via a vovó triste pelos cantos da casa. A mamãe não saia da frente do computador, trabalhava feito uma louca, lá em Teresina. A minha tia Marcela, que também é tua irmã, emagreceu uns trezentos quilos e a casa da vovó se tornou meio escura, grande demais. Depois de um tempo, as coisas se ajeitaram como se nunca tivessem saído do lugar. Nos acostumamos ao vazio que ele deixou.
Ágata pensou em falar na morte da mãe de Nicolas. Viu que não deveria ser ela a contar isso. Cecília ainda conversa com o médico. Ágata pode ouvir a voz preocupada da mulher. E quando se vira, percebe que os olhos verdes do garoto analisavam com o espanto de quem ver um monstro os tubos e faixas do próprio braço.
— O que são essas coisas em mim?
Toda atrapalhada, Ágata tropeça nas próprias pernas e corre até a porta.
— Mãe!
Amanda chega ao quarto primeiro, seguida de Cecília que veio acompanhada de uma médica. Ágata é praticamente expulsa do lugar. Ela dá o seu jeitinho e fica observando o atendimento do lado de fora.
Era incrível a força que a enfermeira e a mãe de Ágata tinham que fazer para impedir Nicolas de se levantar. Do rapaz só se ouvia um choro esquisito acompanhado de gemidos.
— Ele tá delirando de novo? — Ágata ouviu a mãe dizer em um tom de voz que só usa nas raras ocasiões em que fica nervosa.
— Vou sedar ele de novo — disse Amanda. — Segura o braço, Cecília.
Ágata estranha toda aquela preocupação em deixar Nicolas quieto. Ela pensa em entrar e dizer que o menino só parecia está assustado, não precisa daquilo, mas sua mãe sai de dentro do quarto como um furacão, agarrando o braço da filha.
O olhar dela é assustado. Amanda sai logo em seguida com o rosto suado e com uma cara não muito melhor que a de Cecília.
— Não quero que veja isso — a mãe diz a filha.
— Então não tinha me trazido.
— Ágata!
— Tá, desculpa. Não tá mais aqui quem falou. A senhora sabe qual o problema dele?
— Uma coisa de cada vez. — Cecília sentou em um banquinho branco e de madeira no corredor. Tirou o celular da bolsa e ligou para o marido vim buscar filha que ainda não almoçou.
— Isso não e necessário.
— Vou ficar aqui no hospital. Tu não tava com fome, não?
— Me passa um dinheiro que eu lancho qualquer coisa. Agora me explica, por que todo aquele fuzuê só porquê o menino acordou?
— Você viu o olho da enfermeira?
— Foi ele?!
Cecília se limitou a sacudir a cabeça.
— Mãe, esse menino é doido!
— Não sei. Dessa vez ele estava mais calmo.
— Tem certeza que a gente devia vim ver ele?
Cecília ergueu um olhar raivoso a filha.
— Aquele menino não tem mais ninguém para cuidar dele a não ser a gente!
— Ninguém vive sozinho no mundo. Ele tem que ter alguém!
— Não, Ágata. Já procuraram e só resta nós.
Ágata abaixa a cabeça. Seu tênis esquerdo está com o cadarço desatado. Ela não se abaixa para amarrá-los. Apenas escuta o que a mãe tem a falar.
— Ele vai precisar de fisioterapia, remédios, tratamento e muito provavelmente de um psicólogo. E nem sei como dá a notícia de que perdeu a mãe. Marcela nem pode me ajudar dado o tamanho daquela barriga de oito meses. Teu pai vive trabalhando e tua avó já não pode mais está correndo de um lado para o outro. Acha que isso aqui é brincadeira? Estou ficando perdida.
— Vai ficar tudo bem.
A mulher pega a mão da filha e encosta no rosto.
— No fim das contas ganhei um irmão. Sempre quis ter um.
Pena que veio tão quebrado, pensa Ágata. E era dever da família ajudar a concertá-lo, era isso que Cecília iria dizer.
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