Os três destinos
1 Sonhos
Notas iniciais
Uma luz branca tomava conta de todo minha mente, será que eu havia morrido? Aquilo seria o céu? Não, tenho plena certeza de que não é, no céu não ouvimos coisas, e eu sinto que ainda não estou morta. Ouço barulho de carros, ouço até mesmo o bocejo de quem quer que esteja à minha volta, ouço exatamente tudo, só não consigo me mexer, nem mesmo com a maior força de vontade desse mundo. É como se algo estivesse paralisando todo o meu corpo, me impossibilitando de me mover ou reagir a cada toque. Tudo parecia muito confuso, quase que esqueço quem sou eu, nada me vem mais a mente, apenas um forte clarão que é como se tivesse sido gravado e colocado para repetir milhares de vezes. Não faço a mínima idéia de quanto tempo estou assim, não consigo ter noção de tempo, só parece um dia interminável. As coisas só pioram quando tudo entra em total silêncio, quando somente o som de algum trânsito engarrafado preenche o espaço. Quero poder abrir os olhos logo, sentir o cheiro de qualquer aroma, desde o mais fedido até o mais cheiroso, porque no momento não consigo fazer isso, o único sentido que ficou foi a audição, todos os outros parecem ter sumido.
Sinto falta da minha mãe, do meu pai e do meu primo, eles sempre diziam para mim ter cuidado, acho que foi a falta dele que me trouxe para cá. Quase sempre tenho lembranças deles vagando pelo fundo branco, e o legal é que posso reviver quando eu quiser, como se eu estivesse lá mesmo. O ruim de tudo isso é que ainda é impossível de mim me lembrar da minha vida, dos meus amigos... se é que tenho algum, de coisas que pessoas normais normalmente gostam, filmes, lojas, séries... nada me vem a mente, perdi minha identidade, perdi a minha essência, se um dia possui algo de que posso me orgulhar, já não importa mais. Um barulho de porta se abrindo, é, nesse exato momento. Essa é a melhor parte do dia infinito, quando alguém chega e começa a conversar comigo. Tem algo errado, todos chegam falando e conversando como se eu pudesse responder, mas agora... parece que não há ninguém mais no quarto. A vontade de me mover se torna mais intensa que o habitual, alguém me observa, porém não posso ver, de nenhuma forma. Agora começo a escutar um zumbido vindo de longe e se intensificando cada vez mais. Por incrível que pareça consigo abrir os olhos, mas ainda não posso me mover. Tudo está escuro, apenas a luz do lado de fora de onde me encontro, que tenho certeza que é um quarto. Não tenho nem força para gritar ou pedir ajuda. A porta novamente se abre e desse vez posso ver alguém ali, ele ou ela está de capuz, se me desespero? Sim, com certeza. A pessoa se aproxima, uma forte sensação de medo me sufoca, em um piscar, ele ou ela já está do meu lado, pela pouca luz que bate em seu rosto consigo identificar o sexo, é um homem de barba que levantou a mão e a colocou em cima da minha, aos poucos o medo foi se esvaindo e aos poucos a escuridão vai embora também dando lugar ao barulho matinal. Abro os olhos de verdade, engulo em seco e me encontro no meu quarto, foi tudo um sonho de quando estive em coma por cinco meses, a sensação é terrível.
— Amy, vai se atrasar para a aula, mesmo que isso seja uma idéia na qual eu não aprovo. — minha mãe disse entrando no meu quarto e indo até a janela sem se dar conta do quão apavorada ainda eu estava.
— Eu sei... — respondi me sentando, fitei meu travesseiro e vi uma enorme mancha de suor. — Mãe, eu tive um sonho daqueles, de novo. — ela virou-se pra mim e se aproximou, olhou diretamente para o meu travesseiro como fazia sempre que me ouvia dizer sobre eles.
— Me escute... — sentou-se ao meu lado e segurou a minha mão — isso vai passar, não sei quando, mas sei que vai. Faz somente vinte e dois dias hoje que você saiu do hospital, foram cinco meses desacordada... ainda não conseguiu recuperar sua memória, então é normal que tenha sequelas.
Assenti ainda apavorada.
— Preciso me arrumar. — levantei-me sem comentar nada sobre o que ela tinha dito.
— Tem certeza de que quer voltar para a universidade? Não sei se está prepa...
— Preciso voltar a ter minha vida. Talvez assim eu volte a me lembrar de tudo que perdi.
Ela concordou relutante e se levantou também.
— Tudo bem. O que for melhor para você, será melhor para mim. — me deu um beijo na testa e um sorriso discreto. — Estamos te esperando para o café.
Estranho é conseguir me lembrar somente da minha família e esquecer o resto. Meu primo Dave disse que vai me ajudar com tudo, me fará reaprender as várias coisas que eu fazia antes do acidente e que agora não me vem à mente. Peguei minha toalha e me encaminhei para o banheiro, a pendurei atrás da porta e comecei a me despir, enrolei o cabelo para cima e liguei a ducha na água quente. Encostei-me na parede que estava um pouco fria e o que me fez recuar, mas logo me acostumei e permaneci ali. Bastou alguns minutos para o Box se embaçar e o banheiro todo ficar submerso pelo vapor proporcionado pela água quente. Comecei a me ensaboar e tentar recordar alguma coisa mesmo que fosse em vão, o meu dia era resumido à isso, a tentar de todas as formas e todas as maneiras possíveis. Coloquei meu rosto debaixo da água e o retirei logo em seguida, desliguei o chuveiro, mas antes de mim abrir o Box, por algum motivo encarei o vidro embaçado e pude ver uma sombra distorcida do outro lado, estava mais para uma silhueta. O ar me faltou, não conseguia me mover, o pânico se apossou de mim e a única coisa que consegui fazer foi...
— Mãe!! Mãe!! — gritei pela minha mãe desesperadamente enquanto já chorava. — Sai daqui, sai! — dizia para quem fosse que estava ali, abaixei-me e fiquei ali até a porta ser aberta pelo meu primo, meu pai também estava ali, minha mãe foi mais rápida e entrou logo em seguida pegando a toalha e vindo me entregar.
— Shhh, eu estou aqui, não aconteceu nada. — falava ela tentando me acalmar, enquanto me abraçava dentro do Box. — Por favor, saiam os dois. — pediu, pude ver o olhar assustado de Dave em minha direção.
— Faz ele ir embora, por favor. — pedi chorando.
— Ele já foi... agora só somos nós duas. — respondeu ela com toda tranqüilidade.
Será que o coma me fez ficar louca? Agora vou ver coisas até o dia da minha morte?
♦•♦
Minha mãe insistiu em me fazer ficar em casa, mas sou teimosa demais para ser vista como vitíma, então entramos em um acordo, ela iria me levar ao psicólogo toda semana para tentar me ajudar com esses problemas.
— Cuidado, está me ouvindo? Qualquer coisa liga, qualquer coisa mesmo! — ela estava com metade da cabeça dentro do carro.
— Vou fazer isso, mãe. — dei um sorriso — Não se preocupe, estarei bem, eu prometo. Qualquer coisa grito por Dave, ele estará lá. — olhei meu primo e o vi assentir.
— Ok. — ela se afastou. — Então fique com Deus, eu amo vocês.
— A gente também te ama.
Dave ligou o carro e eu coloquei o cinto de segurança, acenei para ela e saímos dali.
— Ela se preocupa muito com você. — meu primo puxou assunto depois de alguns minutos em silêncio.
— Todos andam muito preocupados comigo, não quero ser o centro das atenções... não quero ser um estorvo. — falei olhando para o lado de fora.
— Quem disse que você é?
— Ninguém, mas é como se eu dependesse de alguém a todo momento, como se eu tivesse culpa de alguma coisa e todos estão tentando contornar isso. — engoli seco e dei um sorriso sem humor.
— Bobagem, não precisa se preocupar com isso.
— Eu tento. Alias, tentar é o que mais faço desde que voltei para casa... tentar lembrar, tentar seguir em frente, tentar parar de ter sonhos como os que tenho toda noite. — suspirei — Uma hora posso me cansar de tentar, mesmo que no fundo seja impossível.
— Tudo irá se resolver, você vai ficar bem.
— A questão é, quando? — o fitei de soslaio.
Ele não soube responder aquela pergunta, mas não esperava que ele soubesse, nunca sabem. Não trocamos nenhuma outra palavra até chegarmos na universidade. Dave era um cara legal mesmo que não fosse muito de se abrir, talvez seja pelo fato dele ter perdido os pais com apenas 2 anos, se expressar nunca foi o forte dele, mesmo hoje, depois de 12 anos, ele se recusa a tocar no assunto. Isso tudo foi minha mãe que me disse, eu havia esquecido disso segundo ela.
— Bem... chegamos. — avisou ele parando o carro.
Havia muita gente, todos rindo de algo ou conversando, entrando e saindo, chegando e indo embora.
— Como não consigo me lembrar daqui?
— Queria poder te responder essa pergunta, Amy. — Dave me olhou significativamente.
— Vai me ajudar a lembrar?
— É claro que vou.
Não quis dizer para ele, mas não senti firmeza em suas palavras, porém sorri e sai do carro. O esperei vir até mim.
— Eu tenho amigos?
— Tem duas, Lea e Sandy. Ambas estudam aqui, mas não o mesmo que você. — explicou.
— Por que não falou sobre elas durante esses vinte e dois dias? E por que elas não foram me visitar?
Ele hesitou um pouco.
— As duas não estavam na cidade, mas ligou para saber como você se encontrava, a gente só esqueceu de te dizer.
— Ah sim. — fingi acreditar. — Podemos ir?
— Claro, estava esperando você dar o ultimato. — sorriu e ofereceu o braço — Me concede essa honra?
— Idiota. — enlacei meu braço no dele e fomos em direção a entrada.
Essa leve sensação de que algo ainda não foi contado e que eu estou de escanteio ainda não sumiu, parece que tudo aconteceu de um jeito diferente e estou acreditando numa historia falsa.
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