Os sagrados cantos do amor

1 Os sagrados cantos do amor


Caído ao chão, com todas as memórias dispostas nos azulejos, não havia sangue, não havia água. Apenas o seu cérebro juramentando abraçar aquele momento, aquele antigo momento... Como único, inexpugnável, pois a sua mente estava disposta a esquecê-la. A visão entrava em colapso, a sua espinha só lembrava um fio seco e desnutrido, pegou sua mão, apertou tão forte como se segurasse uma pena, não queria deixar a única lembrança que restara tornar-se cinzas em sua boca. Disse convicto, e desgrenhado: “Deixe-me ficar com esta lembrança... por favor, só essa.”

Iriam apagá-la, como se ela nunca tivesse existido, sabia que sofreria a perda toda santa manhã e toda áspera noite, de ateu se tornou santificado, e nem aquelas meras moscas que antes rodeavam seus sonhos seriam capazes de atormentá-lo. Afinal, ele constatou que nada que fosse dito naquele momento faria o tempo voltar, por mais que o maior desejo que surdia no lapso era dobrá-lo, enganá-lo, por uma última vez.

Lembrara daquela tarde, ensolarada, recuperara o passado, com uma certa dor inarrável... Queria a luz, e os seus olhos se fechavam contrariando seu pedido. É assim que tratam os mortos? Aliás, ele mesmo dizia que não havia como morrer, pois já estava morto e se alguém dissesse que o pior final resultava em desencarne, ele negava, com todas as suas mínimas forças, ditava: “Há coisas piores que a morte”. Acredite, há mesmo, imagine que tudo que sonhara um dia se resuma numa recordação, pois todas as outras já haviam sido apagadas por um maquiavélico tempo trajando roupas esculturais, num abismo sem fim.

Cerrou os dentes, e vendo derramar o seu orgulho, a sua ordem... Deixou os prantos expurgarem suas lágrimas, seu esforço resumia em forçar sua visão, para que mesmo nos segundos finais de sua miserável vida ele pudesse lembrar daquela expressão: do tamanho de seus olhos, da curva sinuosa de sua boca, da cor das suas pupilas, do formato pincelado de sua face... Aquilo não era morte, era tortura, se houvesse alguém capaz de olhar através de um amontoado de carne, veria com certeza, as entranhas e vísceras puxando sua alma para um canto esquecido de seu corpo, e a mesma apertando o coração para não deixá-lo parar... Juras e promessas tornaram-se leves espasmos de seus dedos já sem vitalidade latente.

Agora, só rebobino suas últimas palavras: “Deixe-me ficar com esta lembrança... por favor, só essa”. Sabe qual é o grande fundo moral que este pequenino homem nos trouxe? Não importa se houver sangue, caos, terremotos e ciclones numa fotografia revelada, se ao menos existir algo que te remeta um mínimo pedaço do passado, guarde-a, para o seu último jantar, que seja vinho, ou água, que tenha amor.

FIM

22/04/15

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