Os sabores de um garoto

1 Capítulo único - Os sabores de um garoto


Notas iniciais
Olá, *.*

a todos os que desejarem uma indicação musical, a música "Neonlicht" do Enno Bunger deu força a algumas linhas da história.
Espero do fundo do meu coração que gostem.

Beijo, beijo, =*
Yuki



Os sabores de um garoto



A primeira vez que beijei um garoto foi, também, a primeira vez que percebi que havia algo de diferente em mim. E eu sei que você pensará que eu deveria ter percebido antes. Não muito antes, talvez, mas não no exato momento no qual os lábios dele tocaram os meus. Antes, nem que por poucos segundos. Para afastar de você a impressão, portanto, de que sou uma pessoa totalmente alheia a questões de minha própria existência, preciso te contar que o princípio básico de minha vida, aquele que rege cada um de meus passos, é o da espontaneidade.

Claro que em minha juventude, quando os lábios daquele garoto tocaram os meus, eu ainda não nomeara de tal forma minha inclinação a abraçar com carinho e inocência digna de nota o inesperado. Sem nome por mim eleito, portanto, eu aceitava os nomes que me eram entregues e assumia-me, ainda que relutantemente, “cabeça-de-vento” e “irresponsável”.

Sendo a irresponsabilidade, a cabeça julgada vazia ou a espontaneidade as responsáveis ou não pelos passos que me levaram até aqueles lábios, a verdade incontestável é que no verão dos meus quinze anos eu beijei pela primeira vez um garoto, e, com ambos os pés afundados na areia fria e o cheiro de protetor solar mesclado a maresia tomando cada mínimo centímetro de meu corpo, percebi que havia algo de diferente em mim.

Exatamente como deveria ser para alguém como eu, foi instantâneo: ele inclinou-se na minha direção, uma das mãos apoiada no cós de minha bermuda de banho, resvalou de leve o nariz no meu ao encaixar a boca na minha e, como se soprada por entre meus lábios entreabertos, a certeza de que absolutamente tudo em mim era o avesso do que deveria ser me atingiu de súbito.

Eu já havia lido sobre eles e já os havia visto nas telas coloridas do cinema, mas eu realmente não acreditava em beijos que sopravam certezas. Meus beijos nunca foram daquela maneira. E não se engane com minha inocência de garoto experimentando pela primeira vez o sabor da transgressão, mesmo que aquela fosse a primeira vez na qual meus lábios provavam os de um garoto, eu não era exatamente alguém inexperiente em encaixá-los entre outros. A minha experiência não grande mas também não nula, entretanto, assim como não fora o suficiente para me fazer acreditar em linhas bonitas ou boas cenas coloridas, também não fora o suficiente para manter meus olhos tranquilamente fechados e minha respiração controlada enquanto eu percebia que um beijo, diferente do esperado, podia carregar em si o poder de tocar-me de tantas infinitas formas diferentes. E não o digo de forma metafórica, minha espontaneidade aceita, afinal, o que me é entregue sem o filtro das máscaras bonitas. O tão multifacetado tocar que recebi no meu verão dos quinze anos é inexoravelmente literal.

Eu sentia os dedos dos meus pés remexendo-se contra a areia fria, eu sentia o vento brincar com meus cabelos, sentia o sol forte aquecendo minhas costas nuas, sentia dedos brincarem com o inutilizado apoio para cinto do meu traje de banho, sentia minha língua formigar, sentia meus dedos entrelaçarem-se a cabelos curtos e molhados e sentia meu coração pulsar alto ao ponto de fazer-se ouvir. Sentia cada mínima célula minha tocada, de alguma forma, por aquele beijo. E sentia, de forma quase dolorida, a certeza de que o que eu sentia não era nada parecido com o que eu deveria sentir.

Uma certeza incontestável de que absolutamente nada ali era como deveria ser.

Eu não seria, entretanto, aquele que questionaria a certeza que se esgueirava tão dedicada por entre os meus lábios. Eu não seria aquele a dizer a ela que deveria ter gosto de culpa. E sequer acredito que poderia fazê-lo, não quando ela mostrava a mim qual era seu exato gosto. Ela era, e me provava isso a cada vez que eu a provava, inegavelmente salgada. Salgada, molhada e mordia-me de quando em quando. E tudo o que pude pensar ao toma-la para mim tanto quanto era tomado por ela foi que as histórias contadas a mim estavam terrivelmente enganadas. Ou elas, ou eu. Porque ninguém, absolutamente ninguém, conseguiria naquela altura me convencer de que o gosto em minha boca era amargo sem me convencer, também, de que eu estava louco.

E não eram poucas as histórias. Eram, miseravelmente, mais do que o suficiente para preencherem todos os meus fôlegos.

“Garotos são fortes e brutos”

“Garotos devem ser firmes e não vacilarem ou amaciarem nunca”

“Garotos têm de corações de ferro”

foram as palavras que ouvi antes mesmo de poder de todo compreendê-las. Eu as ouvi ao chorar por meu brinquedo quebrado. Ouvi ao lamentar a falta de minha mãe no primeiro dia de aula. Ouvi ao gemer pelo tombo da bicicleta e pelo braço enfaixado. E as ouvi naquele dia de verão, mais cedo, ao reclamar que não queria ser deixado sozinho no meio de tantos desconhecidos.

“Tem que ser forte! Não pode chorar como uma mulherzinha!”

“Pare de reclamar! Parece sua mãe com esta boca grande! Haja feito homem!”

“Eu sou duro assim com você porque é disso que você precisa: exemplo. Não é mais um moleque para fingir não perceber como as coisas são...”

Mas, então, com a certeza salgada massageando-me os lábios com dedicação palpável, quinze anos de histórias perderam o caráter de incontestáveis diante do conhecimento empírico do quanto garotos podem ser macios e suaves.

De alguma forma, o pensamento de que meu pai nunca havia beijado um garoto e que, portanto, era ignorante quanto a suavidade inquestionável do beijo de um brilhou discretamente em minha mente. Movido por tal pensamento, afastei-me repentinamente e abri os olhos que com muito esforço conseguira instantes antes fechar, permitindo-os pousar no par castanho-escuro que me fitava numa mistura inegavelmente bonita de curiosidade e diversão.

E chamei de “conquista de conhecimento de causa” e “comprovação empírica” quando fechei novamente os olhos e a distância entre os lábios que recém-abertos provavelmente me perguntariam a razão de meu afastamento. Eu o beijei de novo. E desta vez fui eu a inclinar o corpo sobre o dele e fui eu a apoiar a mão no cós de sua bermuda. Aquele era, portanto, o meu beijo a aquele garoto, a prova da suavidade que também podia ser minha, a prova de que meus lábios de garoto também podiam ser suaves. E, involuntariamente, juntei ao salgado da certeza também uma pitada de pena por aquele que passaria a vida toda acreditando que homens são duros como pedras.

Um sorriso preencheria meus lábios se eles não se ocupassem tão arduamente em gravar em mim a certeza quando percebi que cada mínima parte daquele garoto cujos lábios também ocupados não sorriam era exatamente o contrário do que eu aprendera. E eu procurei nele. Procurei assiduamente alguma parte nele que fosse como deveria ser. Fria, dura, bruta. Mas, sob meus dedos e minha língua, aquele garoto era macio, quente, pulsante.

Na última chance dada às lições que aprendi durante anos, tracei caminho com a ponta dos dedos até seu peito e pousei a mão no lado esquerdo. Não havia romantismo no meu toque, mas eu pensei que poderia ter soado assim quando senti seu suspiro surpreso e um sorriso quebrar nosso beijo enquanto ele entrelaçava os dedos aos meus. Eu retribui ao sorriso com um riso de aprovação. Somente anos depois eu percebi que a aprovação não foi exatamente pelo toque carinhoso, inegavelmente agradável, mas pela vitória sobre a teoria de meu pai. Meu riso foi tal qual riso entregue a alguém que concluiu positivamente um teste que ninguém acreditava que seria superado. Eu soube, mesmo que só tenha percebido com meus anos passados, que a interpretação de meu toque como um gesto romântico foi exatamente a prova que eu precisava para acreditar que, diferente do que eu ouvia ser defendido até então, homens também podiam suspirar, sorrir, entrelaçar dedos e pulsar disparados.

Com meus pés enterrados na areia fria no verão dos meus quinze anos, entretanto, tudo o que pude pensar, mesmo que portando tal tão significativo sorriso, foi: “Eu só quero ver o quão de verdade minha certeza é... o quão viva ela está.”, o que seria exatamente a confissão que eu entregaria caso ele pedisse por uma. Ele não pediu. Ele deixou minha mão sobre seu coração e voltou a me beijar tal qual fazia antes. Talvez por sentir o mesmo ou por sentir o diferente em mim, a única prova que recebi que ele havia percebido minha mão tocá-lo da forma mais íntima que poderia foi seu suspiro, seu sorriso, seu polegar que então acarinhava o meu e o correr suave de dedos quentes por minhas costas. Eu quis fazê-lo, mas nunca ousaria perguntar a ele a razão da carícia tão desprovida de desejo e tão carregada de carinho. Eu não precisava saber seus motivos, entretanto, para ousar sentir-me reconfortado por ela. Eu recebi seu carinho como um rebelde e eu sorriria, desta vez um sorriso de transgressão, se meus lábios não se dedicassem energeticamente em cravá-la mais a fundo em mim.

Com minha confissão e minha certeza guardadas somente para mim, portanto, permiti-me, com os pés afundados na areia, o sol quente nas costas, os dedos entrelaçados e os lábios salgados, transformar-me em carinhos com um desconhecido que deveria ser frio como pedra. Tão frio quanto eu mesmo deveria ser.

E talvez como um pecador que já prevê sua pena, eu não me importei em somar ainda mais sal aos meus deslizes. Só depois, anos depois, pensei que aquelas lágrimas eram a minha contribuição à salgada certeza que assumia a bonita forma de um beijo. Eram, belamente, a prova inexorável de que eu era capaz de produzir certeza por mim mesmo. Que eu trazia a certeza também em mim.

Naquele momento, entretanto, tudo o que consegui fazer foi, contraditoriamente, rezar para que meu pecado não fosse notado. “Garotos não choram”, era o que dizia em minha mente meu juiz. E sua sentença estava tão cravada em mim que tive vergonha de compartilhar aquela minha transgressão até mesmo com meu cúmplice.

Até hoje não sei se ele notou, nunca perguntei e ele nunca me disse. Mas me lembro perfeitamente da maneira como ele apoiou-se em minhas salgadas lágrimas para deslizar incontáveis vezes os lábios nos meus. Tantas e tantas e tantas que eu me vi sorrindo e pedindo para que ele parasse. Quando ele finalmente soltou as laterais de meu rosto que eu sequer notara terem sido presas e me olhou sorrindo, tive certeza que o brilho molhado em meus olhos poderia ser justificado por minha risada sonora e meu pecado poderia facilmente passar por felicidade descomedida. O que, em profunda verdade, mesmo naquele meu eu de quinze anos estava mais perto do que eu sentia queimar em mim do que a sensação de pecado.

Ao longo dos anos que me separam daquele garoto de quinze anos com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios recém-beijados pela primeira vez por outro garoto permaneceu como a mais forte memória, marcada a ferro em cada parte do meu corpo tocada pela certeza, dos meus pés cobertos de areia a meus lábios cobertos de sal, a contradição entre o perceber-me diferente, e, ao mesmo tempo, perceber-me tão encaixado como se o mundo se moldasse ao meu redor. Como se aquele fosse exatamente o lugar ao qual eu pertencesse.

E a sensação se cravou com tal força dentro de mim que voltei algumas vezes ao mesmo lugar e afundei tantas outras vezes os pés na areia quente e os dedos em cabelos molhados pelo mar antes de perceber que o lugar no qual eu me encaixava perfeitamente e podia ser acarinhado e provar de minha certeza era nenhum lugar em especial, nenhuma areia em especial, nenhum cabelo em especial. E eu provei incontáveis vezes certezas salgadas antes de me dar conta de que o sabor da certeza poderia ser qualquer um.

Cinemas, bares, ruas vazias, festas. Pés descalços, pés suspensos, pés no chão, pés apertados por sapatos. Hortelã, café, vinho, chocolate.

Quando finalmente percebi que o sabor da certeza era o meu próprio eu me preenchi de mim mesmo, sorvi minha espontaneidade e encarei meu juiz diante de uma mesa repleta de tantos dos sabores que já havia provado em minhas certezas para confessar o pior crime que poderia cometer: confessei que meu coração, aquele que deveria ser pedra, batia por outros corações que também deveriam ser pedras.

Na noite daquele dia eu experimentei depois de anos o sal em minha certeza, justo aquele que eu era orgulhoso de poder produzir por mim mesmo, e, junto a ele, provei pela primeira vez um estranho gosto de ferro. Ainda que doesse, entretanto, e aquele não fosse o melhor dos sabores, afirmei dezenas de vezes o quanto eu tinha razão até que não o fizesse mais apenas com meus lábios.

Na noite dos meus vinte e dois anos eu afundei pela primeira vez meus dedos dos pés em lençóis brancos e quentes e os contraí em quase convulsão. E eu sorri, com os lábios inchados e o gosto vermelho na boca, com a certeza de que se meu pai soubesse que homens podem ser tão quentes ao ponto de derreterem-se nunca mais ousaria dizer que a maneira como eu era não era a de um.

O gosto metálico já não perturbava mais minhas certezas quando finalmente voltei ao tribunal com minha resposta: com ou sem os punhos, não havia absolutamente nada em mim a ser consertado. Só enquanto afirmava, como bom filho da espontaneidade que sou, percebi que minha própria voz assumia o tom de sentença. E só enquanto ouvia-o dizer que não era mais meu pai, percebi também que ele já não era mais meu juiz.

Meu princípio espontâneo nunca me deixou cair prostrado diante de metáforas, mas mais tarde naquele dia eu me permiti pensar que meus beijos e minhas certezas tinham então gosto de liberdade. Foi minha exceção e eu me pensei que não voltaria a usá-la, que não trairia minha espontaneidade novamente atribuindo às minhas certezas nomes complexos. Foi de surpresa, portanto, tão surpresa quanto recebi toda a minha vida, que ouvi minha própria voz recitando anos depois que minha certeza tinha gosto de amor. E com surpresa tão grande quanto o nome dado ao que eu sentia, vi-me soprando minha preciosa certeza, aquela recebida com tanto carinho e apreensão através de meus lábios entreabertos no verão quente dos meus quinze anos e que até então era só minha, por entre os lábios entreabertos de outro homem. E eu mantive meus olhos bem abertos enquanto eu o via recebê-la de maneira tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente do meu eu de quinze anos. Eu ouvi quando o coração dele bateu como louco e vi quando seus olhos transbordaram do que talvez fosse sua própria certeza. Mas, diferente do sorriso do garoto com os pés enterrados na areia e os lábios recém-beijados pela primeira vez por outro garoto, o sorriso do dono de minha certeza com gosto de amor não me soou como se pudesse ser outro que não felicidade.

E enquanto os dedos dele corriam pelo meu rosto ao mesmo tempo em que as lágrimas corriam pelo dele eu ganhei outra certeza: a de que, então, eu não me importaria sequer minimamente caso me dissessem que era eu o errado.

Notas finais
Olá, ^^

eu confesso nunca saber o que escrever nas notas finais e minha mudez mostra-se ainda mais forte quando a postagem é uma original. Mas acredito que, desta vez, quero fazer um comentário sobre como escrevi esta one: eu estava em meio a uma viagem e minha bagagem era uma mochila. Sempre acostumada a escrever sentadinha em frente ao meu notebook, foi uma surpresa enorme quando a história me atacou enquanto eu dormia feito uma desgovernada em um parque e me permitiu escrever com a caneta arranhando o papel. Por fim, a narrativa foi toda criada em um caderninho e em cinco cidades diferentes.
E eu, do fundo do meu coração, adorei escrever cada linha dela.
Mesmo que a história por trás da história dê a entender que ela nasceu de repente, entretanto, a verdade é que eu realmente devo uma parte enorme da motivação em escrevê-la a Melissa (SomeKilljoy) por me dizer que queria ver outra narrativa minha em primeira pessoa. Melissa, eu realmente espero que esta minha segunda original mereça ser lida por você e que de alguma forma mereça os elogios prévios feitos antes mesmo que ela ameaçasse nascer. Você não faz ideia de como o seu apoio é importante para mim e sequer consegue imaginar o quão honrada me sinto em ser lida por uma escritora como você. Obrigada!

Enfim, espero que todo mundo que leu tenha gostado!

beijo, beijo, =*
Yuki
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!