Os pecados são desejos mortos

2 Capítulo Dois: Sangue e o Aprendiz


Notas iniciais
Voltei mais rápido do que o esperado, eu sei, RÁ! É que as ideias foram seguindo e pá, ainda mais quando eu fiquei novamente sem internet. Mas foi bom até, consegui escrever esse capítulo e apesar de eu estar o odiando completamente, eu não o refarei. Não estou odiando por colocar personagens originais, não. Eu acho isso é bem mais que necessário né gente, afinal olha de quem é a historia. U_U Mas eu acho que acabei contando muita historinha. E NÃO, EU NÃO ESTOU DESVIANDO TAMBÉM! Ao meu ver, certas coisas que aconteceram com o Zed o fizeram crescer, entende que eu estou traçando a personalidade dele? (No final do capítulo vai ficar mais explicito) Mas também lembrando que isso são apenas memórias e talvez elas estejam meio bagunçadas por causa do final, que pena. Agora aproveitem que o próximo talvez saia em breve, já que ainda tô sem internet.

Os pecados são desejos mortos

Quando seus pés começaram a trilhar o seu próprio caminho, Zed não imaginaria o decorrer dos atos. Não imaginaria que teria um legado, não saiu com um ideal doutrinador. Inicialmente para ele, era apenas um recomeço...

Não que recomeços fossem fáceis. Mas naquela época, a excitação pelo desconhecido e o ódio pela Ordem o ajudavam. De uma forma beirando a inocência, ele estava sendo otimista. Ao ver isso agora, Zed ri. Ele sabe que precisava dessa crença no futuro, no desconhecido.

Ele cortou seus próprios cordões, e o orgulho sobre isso inflamaria seu ego.

Era aquilo que o impedia de cair na loucura, mesmo ele não sabendo. A adoração pela liberdade abria a sua mente, fazendo-o começar a entender os confins de sua cabeça e personalidade. Começava a descobrir seus próprios medos, e quando conseguisse os entender, nada o pararia.

Não vagava muito por Ionia. O seu inconsciente queria o manter perto da Ordem, queria saber seus passos, lembrar suas fraquezas, reviver seu ódio. Exatamente como uma sombra, ele andava pelas redondezas com facilidade, mostrando seu próprio rosto e ele sendo de um completo desconhecido.

Foi naquela época que começou a reparar na paisagem e nas estações. Observava em seus poucos esconderijos – até o momento – o ambiente, as montanhas, as árvores, já que não havia nada a se fazer. Ele roubava pela comida e invadia casas que pareciam vazias, estava em constantes mudanças porque Zed não queria se encaixar.

Começava a odiar qualquer tipo de estabilidade.

A liberdade cheirava a capim fresco, molhado pelas chuvas torrenciais do fim de tarde do verão. E com o passar dos dias, Zed percebeu que sua redenção já estava quase completa.

A ociosidade lhe deu novos olhares, e foi em um desses curiosos pensamentos que pode conhecer Rak. Alguns anos mais velho que ele, Zed o encontrou jogado na grama de uma grande colina, com um homem elevando um machado para lhe dar o corte final.

Foi Rak quem o fez descobrir seu cruel instinto.

As certezas inundaram Zed naquele momento. Não era por dó, compaixão, piedade ou misericórdia. Ele era apenas um homem conhecendo a si mesmo, e conhecendo também até onde seus poderes poderiam ir.

Lembra-se perfeitamente do momento onde tentáculos em forma de penumbra negra andaram pelo corpo do homem, subindo e entrando nos buracos de suas orelhas, nariz e boca. Como se o homem as inalasse com vontade, as sombras entravam freneticamente como fumaça, preenchendo as lacunas de seu organismo.

O viu levar as mãos na altura da garganta, viu também a forma como suas pernas perderam o equilíbrio, e seus joelhos tentaram se repousar ao chão. Pode ver depois o sangue que escorreu de seu ouvido e de seu nariz, mas naquele momento, apenas o baque do corpo ao chão o satisfez.

Aquele era o primeiro sangue em suas mãos, e elas tremiam como se tivessem sido realmente usadas. Quando olhou para seus próprios dedos, ele viu ali o desequilíbrio. Ele pode sentir o coração acelerado, a respiração desenfreada, agindo da mesma forma da qual tinha sido treinado a controlar.

Ele sorria, fechava seus punhos e voltaria a seguir eu rumo, como se nada tivesse acontecido.

Mas aquilo não era verdade. Zed tinha acabado de matar alguém, ele não sabia o peso e o sangue que estavam em suas mãos naquele momento. Os primeiros segundos foram fascinantes, um efêmero frenesi que ao usar sua força se apoderou completamente de seu corpo, de sua cabeça. Mas logo depois, ele viu o corpo. Não que a culpa voltasse, não que se arrependesse, não era nada disso.

Zed não era um sádico. Era impetuoso, estourado, rancoroso e até mesmo sentimental. E como todo ioniano, ele tinha seu orgulho e sua honra entalado dentro de si, o preservando sem saber. Apreciava lutas, amava o combate – amava tanto que superaria aquele homem. Mas não tinha fascínio pelo sofrimento, pelo menos era isso até aquele momento.

Não conseguia perceber a fragilidade da vida perante ao seu poder, e por isso aquela fase inicial após a primeira matança se tornara meio conturbada. Zed imagina que teria sido mais, se no momento em que se virasse Rak não tivesse o chamado.

Não conseguia sentir misericórdia.

A cara daquele homem estava quase desfigurada de tantos socos que levara, as pupilas castanhas se escondiam por trás do olho roxo, e quando Rak andou mancando até Zed, o ninja pressionou seus dedos contra a palma de sua mão, colocando mais força nos punhos.

– Vo-você o matou, c-certo?! – A voz que ecoou até seus ouvidos era uma mistura de medo e adoração.

Depois de tantos anos, aquela voz soava como uma bela melodia...

– Deveria checar por si mesmo. – Zed apenas virou a cabeça, olhando-o pelo canto dos olhos vermelhos.

Continuava andando, mas depois de segundos, o homem tentava o seguir, arrastando uma perna com seus braços para o alcançá-lo.

– Eu lhe devo a minha vida. – Ele pode ouvir o som do corpo se jogando ao chão, e sua curiosidade fez Zed cessar seus passos e se virar, apenas para o ver suplicar.

– Deve? – Sentiu sua boca entortando em um sorriso, e foi nessa hora que pode ver o rosto semi desfigurado e os olhos roxos.

– Eu vi quando você o matava! As sombras que saíram de você o invadiram e depois ele caiu duro.

– Você viu as sombras?

– Eu sinto que perdi minha sanidade, mas juro pelos deuses que vi a escuridão se mexendo! – Naquele momento, algo se revirou dentro de Zed e ele voltou a andar, continuando o seu caminho. – E-eu não sei o que está acontecendo, mas tenho certeza que você o matou, só você pode ter o matado! E se isso aconteceu, eu lhe devo a minha vida, porque você—

– Cale essa maldita boca. – Então, ele se pôs de pé e voltou a seguir Zed, com sua perna arrastada.

– Eu sei o que eu vi, eu vi as sombras! Uma apareceu bem na frente de meus olhos, como posso não ter as visto?! Me diga, o que é você, você as controla, é o dono delas?

Zed tentava o ignorar, mas ele continuava falando e o seguindo.

– Você não deseja algo?! ... Dinheiro? Algumas mulheres? Me diga, eu posso lhe recompensar! Você deve querer alguma coisa, não estaria andando essas horas nesse bosque se não procurasse alguma coisa.

Rak pensava com a boca, e aquilo o irritava tanto. Quanto mais ele falava, mais Zed queria matá-lo também. Mas não era idiota ou algo parecido, tinha um corpo jogado no meio de um bosque pequeno que cercava um vilarejo, não seria trouxa em deixar outro corpo como rastro de um assassinato. No entanto, se o homem continuasse o seguindo, ele poderia matá-lo de outra forma... Mas longe daquele corpo.

Porém, ele ouviu algo vindo de Rak do qual ele não conseguiu mais se lembrar. Sua mente nublou, como não acontecia há meses. A raiva foi feroz, igual de uma besta, e instintivamente o corpo de Rak estava estirado em um tronco, com os tentáculos o impedindo de se mover como cordas.

– Eu sabia que era você, só tinha que te pressionar um pouco mais. – Ouvir aquilo fez com que seu sangue fervesse um pouco mais, sentindo-se estúpido ao ser controlado por um homem manco. Apertou ainda mais o tentáculo em seu pescoço, o enrolando e fazendo a face quase desfigurada ficar um pouco mais vermelha. – V-você parece ser muito forte, sabia? Eu sei que não sou nada contra você, mas você ainda não me matou. Por quê?

– Fiz aquela morte parecer um derrame. – Zed retirou uma pequena adaga de sua calça. A conseguira ao roubar o bolsão de um joalheiro, e até aquele momento, não tinha a usado para nada. Não estava afiada, o que seria um pouco infeliz para o homem a sua frente.

– E-eu admiro a sua inteligência e também não ter me matado antes, mas você pode desfrouxar um pouco para eu pelo menos suplicar pela minha vida? – Zed quis rolar os olhos.

– Começava a achar que você também não era completamente um idiota. Parece que estou errado.

– Eu sou... um homem um pouco honesto, entende? Eu não posso... morrer ainda...

Zed apenas o olhou, suas pupilas vermelhas obscurecidas pela noite sem muita iluminação. Andando ao redor do corpo estendido, ele observava as expressões que o homem fazia, tentando enxergar dentro de sua alma. Zed percebeu que ele lhe responderia o que quer que perguntasse. E também percebeu que o medo se dissipara completamente nas pupilas castanhas, ficando apenas o brilho admirador.

Se Rak soubesse o quão ele fazia bem pro ego...

– Você quer poder. – As três palavras soaram confiantes, conclusivas.

– Eu achei que... era eu quem estava contornando essa conversa...

A risada irônica de Zed ressoara no ambiente, ricocheteando pelos vãos das árvores, soando pela noite.

– Não se sinta derrotado, foi só agora que eu quis te decifrar. – Rak abriu a boca para falar, mas Zed pressionou ainda mais, fazendo-o quase engasgar. – Não tente me pressionar, eu irei te soltar quando eu quiser.

– C-claro... A propósito... o meu n-nome é R-Rak.

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A verdade era que Rak se tornou seu primeiro seguidor. Zed a princípio não confiava nenhum pouco naquele homem, tinha afiado a sua adaga e roubado uma katana caso precisasse. Poderia matá-lo se não estivesse satisfeito, usando as mesmas palavras que ele te falara. Rak, naquela época, poderia parecer o idiota que fosse, mas ele tinha uma sinceridade e uma transparência que Zed nunca havia visto.

Claro, poderia ser tudo uma mentira. Ele poderia estar apenas usando Zed, dizendo-lhe mentiras que soavam ao seu ouvido de forma irritante para o enganar, enquanto adquiria poder para depois fugir com suas técnicas secretas. Sem a confiança, o ninja conseguia pensar em todas as possibilidades sobre o que aquele homem queria – e se preparava para elas. Mas Rak nunca fugiu ou mentiu, e muito ao contrário disso, Zed se lembra do dia onde treinaram de baixo das cascatas.

Pela primeira vez desde que se conheceram, Rak escolheu o lugar para onde iriam. Foram três horas subindo uma montanha que ele mesmo escolhera. O treinamento que Zed quis dar para ele se consistia em um treinamento mental, primeiramente. Também o levava-o para locais onde lutavam até que Rak se cansasse, esvaziando sua mente durante as batalhas.

Naquela época, Zed não era um mestre. Ele não queria controlar a mente de Rak, não queria que ele fosse igual a si ou que seguisse seus princípios, apesar de o influenciar muito. Zed sabe que a única coisa que queria com Rak era autoconhecimento. Ele conseguiria ensinar? Seria igual o seu mestre, ignorando as lacunas e fazendo vista grossa aos desejos?

Aqueles dias onde começava a aceitar Rak o fazia começar a enxergar algo que ele não tinha percebido antes: ele precisava da caixa.

Como passaria um pouco dos seus poderes para Rak era questão de tempo, se ele aceitasse as sombras verdadeiramente, elas iriam até ele. Mas como garantir a força? Como lhe dizer o que era o Ordem e como o fazer sentir a mesma ira?

Rak já tinha sua própria raiva, ele já tinha um desejo de vingança. Foi isso que descobrira na montanha das cascatas, aquele homem realmente tinha uma segunda intenção. Zed poderia o matar, poderia encerrar o treinamento e se sentir ultrajado, mas o que ele fez foi ouvir a história.

O homem que Zed matara era um dos capangas do homem que comprara a irmã de Rak. Logo após a morte de sua mãe, as dívidas que bateram na porta não estavam disponíveis para ser compradas com dinheiro, apenas com o corpo. Rak no começo foi forçado a trabalhar no arrozal, de forma quase escrava enquanto Wino, a sua irmã, trabalhava nos serviços domésticos da casa de seu pagante.

Mas então, mesmo com aquele trabalho árduo e mortal, Rak não conseguiu pagar o que a família devia. Zed consegue se lembrar claramente da feição que seu rosto adquiriu aquele dia, a ira plena o consumindo. Quando ele disse que o homem para quem devia arrumou um comprador para Wino, Rak parecia ter se transformado diante seus olhos.

Foi assim que conheceu a forma como ele poderia o controlá-lo, mesmo não necessariamente o precisando. Rak parecia se fortalecer ao lembrar de Wino, e a partir daquele dia, vivia sussurrando ao vento palavras para que ela pudesse o ouvir da onde estivesse.

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Quando Zed propriamente se lembra de Wino, ele se sente incomodado. A tragédia perseguiu aquela criança, e o destino que a englobou parecia ser ter sido sorte, parecia ter sido melhor. Zed não conseguiu lidar com o luto de Rak quando decidiu resgatá-la. Naquela época, Rak já tinha o poder das sombras, o dominava bem, mas fez delas uma segunda opção. Aquele homem havia se tornado muito bom em combate corpo-a-corpo.

Zed não diria que eles se tornaram amigos, ele nunca usaria essa palavra. Mas enquanto os meses andavam, Zed deixara de ser a pessoa quieta que Rak conhecia. Foi pouco a pouco, lentamente, igualzinho passos de tartarugas. Zed contara coisas da Ordem Kinkou, contara do monastério, contara da caixa, contara de Shen, contara que precisava da caixa.

Em sua cabeça, a ideia de se aliar a outras pessoas já ganhava forma, ganhava confiança. Rak não tinha sido moldado da perversa forma que a mente de Zed queria, mas ele se tornara um bom aprendiz.

Foi quando Zed decidiu que iria o ajudar a resgatar a irmã, ele não estava sendo bondoso, ele queria um seguidor a mais... Queria moldar alguém, precisava saber se conseguiria. Então percebeu que Rak estava bem centrado, era um bom momento. Mas quando conseguiram a localização de onde Wino estava, o ânimo de Rak deu lugar a ira.

Estava sim em um bordel, mas não era algo que Zed pudesse apagar. E quando foram ao seu resgate, Zed também não soube lidar com o ódio de Rak. Sua cria se transformava em um monstro diante de seus próprios olhos, Zed via mas fazia vista grossa – percebeu em si mesmo o seu antigo mestre, mas não ousou mudá-lo, ainda.

Que Rak destruiu o bordel, isso era obvio, todos na região ficaram sabendo do homem que com apenas uma katana – a mesma roubada – dizimara cinquenta homens.

Deram até um apelido ao incidente: O genocídio da casa da Neve. Genocídio. Era isso que Rak conseguiu fazer ao descobrir que sua irmã já estava morta. O aspirante a ninja das sombras não quis saber, mas sua irmã morrera depois de uma festa dada a samurais que voltavam de uma batalha. Eles esqueceram sua honra na guerra e se divertiram um pouco mais com as poucas jovens da casa da Neve, Wino morreu ao quebrar o pescoço.

Quem lhe contou aquilo foi Hayn, a única prostituta que conseguiu ficar viva. Rak poupou sua vida ao dizer que era amiga de Wino, e que imediatamente ao ver Rak soube que era o seu irmão. O seu aprendiz continuava com ódio e sua sede parecia não ter fim. Zed esperou pacientemente que ele exterminasse aquela prostituta, mas ao passar a katana pelo pescoço dela, a única coisa que Rak fez foi cortar seus longos cabelos negros.

A mulher não pareceu ter medo dele, muito do contrário, ela pareceu ter dó. E até hoje, Zed acredita que foi essa mesma dó que a fez o seguir.

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Se Zed contava com Rak o abandonando, o ninja não estaria surpreso. Mas também não foi surpresa alguma saber que aquele homem quis continuar ao seu lado. Ele não odiava Kinkou como Zed odiava, mas devia muita coisa aquele homem. Explicitamente, não havia o sentimentalismo bobo ali. Rak sabia que Zed não era o tipo de homem que deixava-se levar pelos outros.

Talvez Rak fosse a pessoa mais próxima de Zed até que aquela mulher aparecesse. Ele sim, esteve com Zed desde sua ascensão até a sua queda, mas quem amparou Zed foi Syndra. Se Rak era aquela pessoa da qual Zed dividira todos os momentos até agora, Syndra era a pessoa que os ouvia.

Não que Zed tivesse mudado ou se aberto mais depois de conhece-la, mas até o momento em que ele conheceu Rak até o momento em que conheceu Syndra, Zed se transformava no que é agora. E quando a soberana sombria pode chegar, Zed já estava pronto.

Ele já sabia exatamente quem ele era, e ela nunca conseguiria o mudar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.