Os pássaros da morte

1 Os pássaros da morte


Notas iniciais
A cada dia que vivo é uma agonia. Ó belos pássaros! Levem-me e deixem-me morrer em paz! EM PAZ!

Por que eles nunca me levavam? Já havia visto muitos, centenas, milhares vinham voando todo ano naquele pequeno cubículo que era o quarto 32. Uma única, pequena e rachada lâmpada amarela piscava de forma irregular, iluminando de forma sombria os móveis vermelhos.

Ouço um baque. Depois outro, então centenas e, enfim, a porta de madeira se abre, de onde eles entram. Os inconfundíveis sons das asas batendo enchem o quarto de número 32.

Centenas de pequenos pássaros vermelhos voam de um lado para o outro, se chocando entre si, dançando e cantando. Cantando aquela terrível canção estridente e fúnebre.

O corpo vem no final. Após os vermelhos e estridentes pássaros entram os grandes e negros corvos. Com suas garras enormes, perfurantes, e manchadas do rubro sangue, eles levam o corpo em decomposição. O cenário muda a partir daí. O cheiro podre e forte enche o ar e mascara o ainda existente barulho dos pássaros vermelhos.

São cinco ao total. Cinco enormes corvos negros que carregam o corpo daquele homem. Este parecia jovem ainda, havia morrido cedo. Sua estatura não passava de 1 metro e 60 centímetros e seu cabelo ainda não apresentava um tom de grisalho. Eles foram cruéis na escolha daquele dia, mas não se pode argumentar contra a ávida fome daqueles que voam pelo quarto 32.

Lentamente os corvos depositaram o corpo daquele homem sobre a cama enferrujada. Começara novamente... A canção da morte. As notas altas oscilavam entre o agudo e o grave. Todos eles cantavam, tanto os vermelhos quanto os pretos. Estavam reunidos, como sempre, em um semi-círculo ao redor da cama, com os bicos tilintando, outros grasnavam, mas alguns somente abaixavam a cabeça e se balançavam de um lado para o outro, eriçando suas penas.

Eu assistia a tudo, como sempre fiz, impotente. Não sabia desde quando havia começado a viver aquela situação. Lembro-me do acidente, então vi o sangue, farpas, vidros, ferragens e, enfim, lembro-me de ter acordado naquele lugar. Sozinho e mudo. Tudo que podia fazer era me sentar no chão e observar todo dia aquele mórbido ritual. Chorara no início, tentava gritar, esperneava... Mas depois me cansei e aceitei. Nunca iria sair dali, então só sentava e via.

O canto parara e todos agora estavam sentados, quietos e esfomeados. Atacaram enfim, devorando a carne daquele pobre homem morto! O sangue escorria de todos os bicos negros e vermelhos daquela sala! As asas batiam incontrolavelmente em volta do falecido homem! E, enfim, silencio. O banquete parara e a carne acabara.

Observava, sem sentimentos (os havia perdido há muito tempo naquele escuro lugar), os restos mortais serem levados dali. A porta se fechou novamente, após o último pássaro sair. Estava sozinho novamente. Por que nunca me levam? Só queria morrer realmente e me encaminhar ao céu, ou ao inferno! Não importava mais aonde iria, só queria-me ver livre daquele lugar! Aliás, será que o Céu e o Inferno realmente existiam? Será que aquele escuro e pequeno quarto eram ambos juntos? E que não havia nada além dali?

Deitei-me, e, quando me dei conta, estava chorando de novo. Há quanto tempo não fazia isso? Há quanto tempo não sentia o sabor salgado das lágrimas?

Esse conto acaba aqui, comigo, deitado, chorando e pedindo a alguém me ajudar e me tirar daqui, deste escuro e pequeno quarto número 32.

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