Notas iniciais
Talvez a trilha sonora ajude o feitiço:
https://www.youtube.com/watch?v=9SiIDDoN4lM

Boa leitura.

Nunca poderei entender o mistério daqueles olhos, que me despertaram medos e obsessões irracionais. Quando estava triste, seus olhos eram da cor das nuvens de um dia nublado. Quando feliz e até mesmo excitada, seus olhos ganhavam a cor e o brilho hipnotizante da Lua, e quando possessa, suas pupilas dilatavam ao ponto de se tornarem quase que completamente negras, com apenas um fio claro em sinal do resto de sanidade que sobrevivia naquele ser.

Seu nome não poderia ser outro além de Luna. Talvez o mistério tenha brotado em seu nascimento, que se deu em dia de eclipse. Poeticamente dizendo, ela teria roubado o brilho da lua e gravado nos olhos, que rompiam em lágrimas depois do golpe do médico. Mas no brilho do olhar também existia o cinza da fênix, o primeiro a contemplar a mãe que desfalecia no leito hospitalar.

Não depositem sua fé inteiramente nesta memória, pois não é minha. Eu a moldei conforme o relato de Luna, alguns anos mais tarde, e com a ajuda da minha imaginação, sempre fértil ao seu lado. Não cheguei a acompanhar seus primeiros dias, pois em nosso primeiro encontro ela já somava quatro anos de existência. Os asiáticos fazem bem ao temer este número.

Eu estava entre os meus quatorze anos de idade na época, e durante uma tarde monótona de domingo, cai em sono. O encontro não foi antecedido por um sonho, e sim por um dos piores pesadelos que já tive. Ainda em pleno mundo da inconsciência, senti uma força me puxar para fora do pesadelo. Quando dei por mim, uma pequena mão segurava os meus cabelos. Antes mesmo que eu a contemplasse, um grito assustado havia saído de meus lábios. A pequena criatura ainda tinha alguns cachos do meu cabelo nas garras. O cabelo, negro como a noite, escondia a maior parte do ser feérico que me encarava com aqueles olhos, aqueles malditos olhos que me perseguiriam em diversos sonhos.

Não me entendam mal! Em momento nenhum me senti atraído de forma impura por ela, não naquele momento. Mas o seu feitiço de hipnose começara logo ali, deixando-me completamente sem reação e sem fala. O coração ainda acelerado pelo despertar violento (seria uma criança normal dotada de tanta força assim?).

– Não grite. Eu te salvei, não foi? As criaturas malvadas também aparecem nos seus sonhos?

– De onde você surgiu?– Tentei em vão não demonstrar assombro.

– Estou me escondendo. Ele vai me prender. Prometo que fico em silêncio aqui. Qual o seu nome?

– Adam!

Minha mãe respondeu a pergunta da pequena feiticeira que se escondia no meu quarto. A ocorrência dos fatos seguintes passou sob meus olhos feito névoa. Minha mãe encontra a pequena, que a segue com naturalidade, saltitando levemente com seu vestido azul. A quem quero enganar, a pequena flutuava durante alguns segundos enquanto descia a escada. Mais tarde, seu pai acabou a encontrando, e a levou durante berros e protestos que furavam meus ouvidos feito agulha. Parecia uma fada sendo arrastada para uma gaiola.

Não tornei a vê-la criança depois do ocorrido. Minha mãe, ainda preocupada com a facilidade da casa ser invadida, contou-me toda a história. Ou pelo menos uma pequena parte dela. O pai a levara à casa dos nossos vizinhos, e a pequena havia escapado pelo jardim, entrado na primeira casa que vira. Assim foi parar em meu quarto. Mais tarde, o pai veio agradecer por termos cuidado dela. Disse que Luna (assim descobri o seu nome) era incapaz de aceitar ordens e ele estava tentando mudar isso. Acrescentou à descrição dizendo que a filha não era uma criança normal de quatro anos, mas que mesmo assim, era encantadora depois que a conhecia. Infelizmente não tivemos essa chance.

Estranhamente depois do nosso encontro, cultivei um prazer em estudar astronomia. Devorava livros, passava noites a espiar em um telescópio, e sagas em galáxia se tornaram meu maior vício. Talvez a pequena criatura feérica tenha sido enviada para que eu encontrasse o meu sonho. Percorri os caminhos da física e da matemática durante a faculdade de astronomia. Mas os caminhos e as decepções me fizeram desacreditar em deuses, destinos, sonhos e amores. Tornei-me um cético, distanciando da chamada ciência louca. Mas a cura do meu ceticismo estava no mistério que eu julgaria para sempre sobrenatural.

***

Aconteceu porém que, aos meu vinte e oito anos e já acostumado à solidão, um pavor terrível de ficar sozinho me acometia todas as madrugadas. O motivo não poderia ser mais infantil: pesadelos. Eram demônios subconscientes que me derrubavam da cama e roubavam toda a concentração do dia seguinte. Cogitei todas as técnicas, mas nada era forte o bastante e eu temia ceder à loucura.

Mas eu não contava com a bela surpresa que estava por vir. Em uma das apresentações do planetário, enquanto eu usava a cafeína como combustível para a concentração que eu já não tinha, eu avistei aqueles olhos novamente. Mais de uma década havia se passado; ela com dezoito, eu dez anos mais velho. Mas nunca havia encontrado olhos iguais aos de Luna. Enquanto a música feérica e os planetas deslumbravam a plateia ao redor, ela concentrava seu olhar em mim, como uma bruxa enfeitiçando seu servo. Em uma vã tentativa de entender o mistério daqueles olhos, eu perguntava a mim mesmo se aquela hipnose acontecia somente a mim. Talvez fosse o meu cérebro criando uma ilusão para si mesmo. Mas Luna era conhecedora de técnicas de hipnose e de tantas coisas capazes de mandar para longe minha lucidez. As luzes do ambiente e o som eram agravantes para a sua imagem etérea.

Ela apareceu mais vezes. E de repente, todos os dias da apresentação. Eu esperava encontrá-la na minha classe, e às vezes tinha a ilusão de estar sendo seguido por aqueles olhos até mesmo nas esquinas. Entretanto, um dia venci o estranho medo que aquela criatura, se é que fosse humana, me acometia, e sentei ao seu lado. Meu coração acelerava com a adrenalina de estar a poucos centímetros de sua pele, que exalava um cheiro tão inebriante quanto o vinho. Esperava ansioso que a luz iluminasse seu rosto por eternos segundos, e me perguntava em minha timidez se ela se lembrava de mim. E se não, por qual motivo vinha todos os dias ao planetário,alem de zombar de todos os astros que não tinham o mesmo poder que o seu?

Pois como se pudesse ler a minha mente, ela me presenteou com a sua cadenciada voz.

– Ainda tem pesadelos, Adam?

Sua voz saía de um meio sorriso que parecia zombar do meu atordoamento.

– Você consegue se lembrar?

Eu odiava responder perguntas com perguntas, mas naquele momento eu julgava ser incapaz de entender como ela ainda se lembrava daquela noite no meu quarto.

– Lembro que eu pedi a sua ajuda e você ficou com medo.

Eu estava com medo naquele instante também, como sempre acontecia quando eu estava do seu lado.

– Eu não quero mais sentir medo.

No meio da escuridão pude sentir um sorriso confiante em seu rosto, como se ela tivesse conseguido obter o que queria.

– Acho que posso te ajudar.

O resto de nossa breve conversa não consigo me recordar. Quando vasculho minha mente e tento me lembrar, tenho a sensação de que falávamos uma língua desconhecida. Lembro vagamente de ouvi-la dizer que sua missão no mundo era primeiro compreender sua mente, e depois compreender e ser capaz de persuadir qualquer mente humana. Talvez ela realmente fosse de outro mundo, e estava apenas tentando controlar o nosso. Pelo menos o meu ela conseguiu dominar completamente.

A escuridão se tornou completa e o silêncio dominou a sala. Antes que eu pudesse me levantar e ver o que havia acontecido de errado, senti as garras afiadas de Luna me puxarem para os seus olhos que por Deus! Ainda brilhavam sem nenhuma luz por perto. Senti sua boca devorar a minha com urgência, enquanto suas garras deslizavam e feriam o meu pescoço. Tão súbita veio, e tão súbita me abandonou. Tateei a poltrona ao lado atrás do seu corpo, mas o espírito livre de Luna havia sumido. As luzes se acenderam, a programação voltou ao normal, e eu tinha uma marca de unha em forma de Lua no meu pescoço.

***

Ela não apareceu naquela sala novamente, e o pânico ia me consumindo aos poucos. Durante o dia a imaginação me levava até ela, e eu temia ter a perdido para sempre. Durante a noite os pesadelos continuavam, e dessa vez ela se infiltrava neles, como um anjo se tornando o demônio que se alimentaria de minha alma. Eu acordava ofegante, com medo e desejo por ela. Não sabia se buscava ajuda, algum remédio ou ela na minha cama. Às vezes eu podia ouvir a sua voz, e mais uma vez não conseguia dormir. Eu estava perdendo completamente a lucidez, estava me tornando a cobaia perfeita de sua missão terrena.

Tentei esquecê-la. Volte-me completamente aos livros e ao trabalho. O arrependimento de ter escolhido uma profissão que me fazia pensar em Luna começava a brotar. Pois me ocorreu o contrário: o trabalho me levou a ela. Sentado à janela do meu apartamento, com os cabelos desgrenhados pelo desespero e os olhos colados no telescópio, eu me perdia entre as estrelas. A voz em minha mente dizia que eu procurava pelas estrelas erradas (pois vejam em qual estágio eu havia chegado). Desci o campo de visão até a janela de frente a minha, e a surpresa fez o meu coração parar.

Era ela. Sua roupa de cetim branco reluzia entre os pisca-piscas na sua janela. Ela dançava despreocupada segurando uma placa que dizia “5 andar”. Eu não raciocinava mais. Desci do modo que eu estava e corri até o prédio seguinte. Não sabia ao certo como encontrar seu apartamento, mas um estranho gato negro em uma porta parecia me convidar. Eu o segui, e não me surpreendi com seu sumiço. Não me surpreenderia se ela fosse o próprio gato.

Quando a avistei de costas para a parede, com o cabelo negro azulado em ondas que banhavam sua blusa de cetim até o traseiro descoberto, senti que havia conquistado o paraíso. Sentia como se estivesse navegado e contemplando o oceano numa noite de lua cheia. Luna virou-se para mim, queimando todo o meu ser com os familiares olhos. Aproximei-me dela, até sentir o seu hálito jogado no meu rosto. Estava em um ambiente místico, repleto de velas com aromas de outro mundo, tecidos de cor púrpura, livros espalhados pelo chão e uma melodia mágica. Luna sorria para mim com os seios apontados para o meu coração, apertados na blusa e ansiosos para sair. Foi a primeira vez que me desviei de seus olhos.

– Fiz isso para você. Você disse que não queria ter mais medo. – Ela ergueu um apanhador de sonhos azul para mim.

Eu conhecia a lenda. Se meu ceticismo não tivesse sido curado naquele momento, eu diria que jamais acreditaria em uma supertição indígena, nem em cristais e em quiromancia. Mas a mulher que eu tocava naquele momento era a prova mágica. Apenas tirei aquilo de suas mãos, e a puxei para perto de mim. Os olhos de Luna agora queimavam de prazer, conforme eu percorria o caminho entre sua boca e seu pescoço. Todo o seu sabor era único, e eu ansiava por prová-la completamente. Já desfeitas as suas roupas, enquanto minhas mãos percorriam seus seios até seu íntimo, ela se desfazia das minhas roupas, e se aproveitava do meu latejante prazer antes preso nas extintas calças.

Sempre guardando um elemento de surpresa, ela se jogou em mim, e de repente estávamos no chão entre tecidos místicos, o aroma das velas e a música inebriante. Contemplei a imagem nua da ninfa abaixo de mim, provando todos os sabores do seu corpo. Não encontro agora nada que poderia comparar ao sabor que escorria do seu íntimo, mas era algo tão prazeroso quanto ouvir os gemidos que ela uivava baixinho para o céu. Suas mãos puxavam meu cabelo com força, assim como a primeira vez, embora me empurrasse e não me libertasse. E por mais que eu estivesse enfeitiçado pelos seus olhos, nada poderia ser comparado com a sensação de penetrar no seu corpo e me juntar a sua dança contorcida de prazer. Nada poderia me dar mais prazer além de ser envolvido pelas suas pernas. Nada é mais mágico que compartilhar de seu êxtase, a porta de entrada para o seu mundo utópico.

Eu estava envolvido pelo seu suor e suas mechas onduladas feito um náufrago. Luna repousava sob mim, com os olhos fechados feito anjo. E enquanto eu desfrutava da paz após o êxtase, com a mão em seus cabelos e os olhos no céu, eu suspirava feliz em ter encontrado a cura para o medo e o meu ceticismo.

Infelizmente eu havia me rendido à manifestação total da loucura no meu consciente. Hoje,enquanto observo o apanhador de sonhos, a única prova de que Luna realmente existira, eu posso reviver as lembranças da paixão alucinante que eu tive o prazer de sentir antes de não sentir mais nada. Feito espírito livre como ela era, Luna se dissipou na fumaça etérea das minhas recordações e se tornou apenas mistério. Talvez o medo fosse o presságio de que ela cruelmente me abandonaria neste mundo real, deixando-me apenas a loucura e a voz distante dos seus gemidos.

E embora eternamente magoado, eu a procuraria todas as noites entre os astros, na esperança de que ela me levasse mais uma vez para o seu mudo utópico. Dessa vez para sempre.

Notas finais
Esta oneshot não foi feita para fazer sentido, e sim fazer sentir. Espero que tenha gostado ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!